O outro 11 de setembro

Há 11 anos o dia 11 de setembro virou, para muita gente, um símbolo de barbárie. Não foi sem justificativa: cerca de 3 mil pessoas perderam suas vidas nos atentados terroristas que aconteceram naquela terça-feira de 2001 nos Estados Unidos. Uma das consequências daquele trágico dia foi a “guerra ao terror” travada pelos EUA no Afeganistão e no Iraque, que já matou quase um milhão de pessoas.

Porém, é sempre importante lembrar o outro 11 de setembro, que já era um símbolo de barbárie desde 1973. Há 39 anos, também uma terça-feira, um golpe militar que contou com o apoio dos Estados Unidos derrubou o presidente do Chile, Salvador Allende. O general Augusto Pinochet, que fora nomeado comandante do Exército pelo próprio Allende, traiu seu comandante-em-chefe e liderou a criminosa ação militar que resultou no bombardeio do Palácio de la Moneda, sede da presidência chilena. Allende ensaiou uma resistência, mas ao perceber que não teria como derrotar os golpistas, fez um último pronunciamento pelo rádio. Depois, cometeu suicídio ou foi assassinado – ainda não há uma certeza sobre sua morte.

Pinochet assumiu o poder à força, para governar ditatorialmente até 1990 e comandar uma repressão que foi das mais sangrentas que viu a América Latina. Milhares de pessoas foram assassinadas.

Assim como lembramos e lamentamos as vidas perdidas naquela terça-feira de 2001, é preciso também fazer o mesmo em relação às vítimas do 11 de setembro de 1973.

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A democracia não é uma tradição russa

Na sexta-feira, a justiça russa condenou as três integrantes da banda punk Pussy Riot a dois anos de prisão por “vandalismo motivado por ódio religioso”. Maria Alyokhina, Nadezhda Tolokonnikova e Yekaterina Samutsevich foram ao tribunal por terem protestado contra o então primeiro-ministro (e agora presidente) Vladimir Putin no altar da catedral Cristo Salvador, maior igreja ortodoxa de Moscou e de toda a Rússia, em fevereiro. Mais do que um protesto contra Putin, foi também contra o patriarca da igreja, que usava sua posição para pedir votos ao atual presidente na última eleição (marcada por denúncias de fraude, recorrentes nos processos eleitorais russos).

Foi um julgamento que esteve bem longe de ser justo. Enquanto todas as testemunhas de acusação foram interrogadas, o mesmo foi feito com apenas três das treze de defesa. O advogado Nicolay Polozov, que defendeu as integrantes da Pussy Riot, foi taxativo: “Mesmo nos tempos soviéticos, nos tempos de Stalin, os julgamentos eram mais honestos do que esse”. Uma das integrantes do grupo, Yekaterina Samutsevich, disse mais: “Estou considerando isso como o início de uma campanha autoritária e repressiva do governo que procura dificultar a atividade política e criar um sentimento de medo entre os ativistas políticos”.

Surpresa diante disso? Sinceramente, só é possível caso não se conheça nada da história russa. Pois trata-se de um país onde “democracia” é apenas uma palavra no dicionário. E não me refiro simplesmente à época da autocracia czarista, nem aos 74 anos de regime soviético (onde podemos destacar em matéria de crueldade a longa ditadura de Josef Stalin). Pois mesmo na era pós-soviética, que diziam ser a da “democratização” da Rússia, não faltaram lembranças da forma como sempre funcionou a política russa: baseada no autoritarismo. Inclusive foi desta forma que se implantou o neoliberalismo por lá, sob o comando do presidente Boris Yeltsin.

Após o fim da União Soviética em dezembro de 1991, o nível de vida dos russos, que já vinha despencado nos últimos anos da URSS, caiu ainda mais drasticamente, aumentando a insatisfação popular. E além disso, Yeltsin tinha no parlamento um forte adversário à consolidação de seu poder: eleito ainda sob o regime soviético e dominado pelos comunistas, o legislativo russo impedia o prosseguimento do programa de reformas neoliberais (com direito à venda das antigas estatais soviéticas “a preço de banana”). A saída de Yeltsin foi violar a Constituição vigente com a dissolução do parlamento em 21 de setembro de 1993, de modo a acabar com a oposição.

A revolta que se seguiu ao golpe produziu os piores conflitos de rua em Moscou desde a Revolução de 1917 e resultou em mais de cem mortos. O exército tomou o partido do presidente e em 4 de outubro bombardeou o prédio do parlamento, defronte ao qual o próprio Boris Yeltsin liderara a resistência ao fracassado golpe da “linha dura” comunista contra Mikhail Gorbachev em agosto de 1991.

Detalhe importante: o mesmo Ocidente que hoje em dia denuncia (embora não sem razão) o crescente autoritarismo na Rússia de Putin, não fez o mesmo em 1993. Muito antes pelo contrário: o golpe de Yeltsin foi apoiado pelos principais líderes ocidentais, que chegaram a dizer que o presidente russo agia pela democracia. Aí reparo no fato de que Yeltsin, ao contrário de Putin, era um aliado do Ocidente, e percebo não ser mera coincidência a semelhança de discursos “democratas” entre os golpistas (incluídos os apoiadores estrangeiros) de 1993 na Rússia e de 1964 no Brasil.

Sobre poder falar mal do presidente (e de outras coisas mais)

Às vezes tenho a impressão de que quanto mais correntes são detonadas, mais “novidades” surgem. A última que recebi é um texto muito tosco, defendendo a ditadura militar. Me senti na obrigação de escrever uma resposta.

Primeiro vamos ao texto da mensagem, que copiei como veio: mal-formatado e (principalmente) mal-escrito…

É MUITO BEM HUMORADO E MUITO VERDADEIRO. . .
Na época da ‘chamada’ ditadura…
Podíamos namorar dentro do carro até a meia- noite sem perigo de sermos mortos por bandidos e traficantes.
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ter o INPS como único plano de saúde sem morrer a míngua nos corredores dos hospitais.
Mas não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos comprar armas e munições à vontade, pois o governo sabia quem era cidadão de bem,quem era bandido e quem era terrorista,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos paquerar a funcionária, a menina das contas a pagar ou a recepcionista sem correr o risco de sermos processados por “assédio sexual”,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Não usávamos eufemismos hipócritas para fazer referências a raças (ei! negão!), credos (esse crente aí!) ou preferências sexuais (fala! sua bicha!) e não éramos processados por “discriminação” por isso,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos tomar nossa redentora cerveja no fim do expediente do trabalho para relaxar e dirigir o carro para casa, sem o risco de sermos jogados à vala da delinqüência, sendo preso por estar “alcoolizado”,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos cortar a goiabeira do quintal, empesteada de taturanas,sem que isso constituísse crime ambiental,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ir a qualquer bar ou boate, em qualquer bairro da cidade, de carro, de ônibus, de bicicleta ou a pé, sem nenhum medo de sermos assaltados, sequestrados ou assassinados,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Hoje a única coisa que podemos fazer…

…é falar mal do presidente!

que merda !

Bom, agora vem a parte mais divertida: destruir os “argumentos” de quem escreveu esse lixo e-mail. Continuar lendo

O persistente fantasma golpista no Paraguai

A deposição do presidente Fernando Lugo por um golpe “disfarçado” faz soar o sinal de alerta para quem conhece a história do Paraguai, e da própria América Latina. Pois infelizmente a democracia não é exatamente uma tradição por estas bandas do mundo.

O Paraguai, particularmente, tem um longo histórico de autoritarismo e golpes de Estado. A própria ditadura de 35 anos do general Alfredo Stroessner encerrou-se mediante um golpe militar: em 3 de fevereiro de 1989, o ditador foi deposto por um movimento chefiado por seu co-sogro, o general Andrés Rodríguez, que três meses depois foi eleito presidente. Apenas em 1993 o poder passou às mãos dos civis (pela primeira vez em quase 40 anos), quando Juan Carlos Wasmosy assumiu a presidência.

Só que a era dos golpes não estava encerrada no Paraguai – graças às divisões internas do Partido Colorado, que salvo o período de 1904 a 1946, dominava a política do país desde que fora fundado em 1887. Na primária que determinou o candidato colorado para a eleição presidencial de 1993, Wasmosy derrotou Luis Maria Argaña (ex-ministro do ditador Alfredo Stroessner) em um processo marcado por denúncias de fraude. Eleito presidente, Wasmosy fez um governo impopular, e sendo acusado de corrupção, passou a sofrer ameaça de impeachment por parte do Congresso. Além disso, perdeu o apoio de seu principal cabo eleitoral dentro do partido, o general Lino Oviedo (reparem como esse nome será presença constante daqui para frente), ferrenho adversário de Argaña e que gozava de certa popularidade entre os paraguaios devido à sua participação na deposição de Stroessner (apesar de ser acusado de ligações com o narcotráfico).

O populista general Oviedo, comandante do Exército, era cotado para ser candidato à presidência em 1998. Só que para ganhar terreno precisava vencer Argaña na eleição interna do Partido Colorado, marcada para 28 de abril de 1996. A possibilidade de Argaña vencer preocupava Wasmosy, que assim veria sua permanência no governo mais ameaçada; para agradar à ala rival, seis dias antes da votação o presidente decidiu destituir Oviedo do comando do Exército. Em resposta, o general anunciou que não obedeceria mais a Wasmosy, sinalizando um golpe de Estado, mas recuou após ser convidado para assumir o Ministério da Defesa. As manifestações solidárias ao presidente (não por ele em si, mas sim em defesa da legalidade) “inverteram o sinal”, e ele acabou decidindo “desconvidar” Oviedo – que, passado para a reserva do Exército, fez comício anunciando sua pré-candidatura à presidência. Posteriormente, Wasmosy foi acusado pelo ex-general de ter tentado cooptá-lo para dar um “autogolpe” semelhante ao de Alberto Fujimori no Peru, em 1992.

Luis Maria Argaña tornou-se líder do Partido Colorado, mas ainda assim Lino Oviedo acabou conquistando a candidatura à presidência, com Raúl Cubas vice. Porém, condenado e preso devido ao fracassado golpe de 1996 por um tribunal de exceção criado por Wasmosy, Oviedo foi impedido de concorrer, e Cubas foi indicado para substituí-lo (a vaga de vice passou para Argaña). O candidato do “oviedismo” venceu a eleição e assumiu a presidência em 15 de agosto de 1998. Três dias depois, Cubas cumpriu promessa feita durante a campanha e determinou a libertação de Oviedo.

Em 23 de março de 1999, o vice-presidente Argaña foi assassinado em uma esquina de Assunção, deflagrando o chamado “Março Paraguaio”, quando oito jovens foram mortos pela repressão aos protestos contra Cubas e Oviedo. Suspeitava-se que o assassinato fora tramado por Oviedo de modo a assumir a vice-presidência; consequentemente ele se tornaria o presidente, pois seria previsível que Cubas renunciaria em favor de seu padrinho político.

Porém, a suposta manobra não deu certo. Cubas renunciou em 28 de março e no dia seguinte exilou-se no Brasil. Em seu lugar, assumiu o presidente do Senado, Luis González Macchi, para completar o mandato presidencial. Oviedo obteve asilo político na Argentina, mas no final de 1999 os argentinos elegeram Fernando de la Rúa para suceder Carlos Menem, e o novo presidente ameaçava tirar o status de asilado político do ex-general; assim Oviedo fugiu secretamente para o Brasil e por vários meses disse estar escondido em território paraguaio, até que em junho de 2000 (semanas após uma nova tentativa de golpe militar no Paraguai) foi preso pela Polícia Federal em Foz do Iguaçu, a pedido da Justiça paraguaia.

Apesar do pedido de extradição feito pelo Paraguai, Oviedo obteve permissão para permanecer no Brasil, desde que se abstivesse de manifestar-se politicamente, determinação descumprida várias vezes pelo ex-general.

Em 2004, Oviedo decidiu retornar ao Paraguai, entregando-se à polícia. Libertado três anos depois, candidatou-se à presidência em 2008, acabando em terceiro lugar.

Fernando Lugo, eleito por uma coligação de esquerda e que obteve apoio do Partido Liberal Radical Autêntico (ao qual pertence o vice Federico Franco), foi deposto na última sexta-feira, praticamente sem apoio parlamentar. Para amanhã é prevista uma marcha do PLRA, que como qualquer movimento golpista que se preze no Paraguai de 20 anos para cá, contará com o apoio de Lino Oviedo e seus partidários.

Paraguai: golpe disfarçado de legalidade

No dia 29 de setembro de 1992 a Câmara dos Deputados votou favoravelmente à abertura de um processo de impeachment contra o presidente Fernando Collor, acusado de corrupção. Consequentemente, Collor foi afastado do cargo para ser julgado pelo Senado.

Apesar de ter apenas 11 anos na época, lembro bem de um detalhe: o afastamento de Collor seria por no máximo 180 dias. Ou seja, ele poderia voltar à presidência caso fosse absolvido. Mas acabou não retornando: na iminência de sua condenação e consequente cassação de seu mandato pelo Senado, Collor apresentou sua renúncia (o que não adiantou nada, pois foi condenado e tornado inelegível por oito anos). Foi no dia 29 de dezembro de 1992, após três meses de afastamento: um bom tempo para que ele pudesse se defender das acusações.

Bem diferente do que se viu no Paraguai nesta semana. O processo de impeachment contra o presidente Fernando Lugo foi aberto na quinta-feira, por iniciativa da Câmara dos Deputados. E já na sexta, após ter apenas duas horas para apresentar sua defesa, Lugo foi julgado e condenado pelo Senado, perdendo o cargo um ano antes do término do mandato.

É fato que politicamente a situação de Fernando Lugo era complicadíssima. Eleito em 2008 com apoio de movimentos sociais e partidos de esquerda, Lugo não tinha maioria nas duas casas do Legislativo paraguaio, o que impediu seu governo de realizar maiores avanços, como a prometida reforma agrária (a distribuição de terras no Paraguai é absurdamente injusta, prioriza o agronegócio e gera uma grande quantidade de agricultores sem-terra; e boa parte das terras na região de fronteira com o Brasil pertence a brasileiros, os chamados “brasiguaios”). Não por acaso, a desculpa para a deposição do presidente tem a ver com a questão agrária: um confronto entre policiais e camponeses que deixou vários mortos no último dia 15 e foi “posto na conta” de Lugo, que ficou praticamente sem apoio parlamentar – dentre os deputados, para se ter uma ideia, houve apenas um voto favorável ao presidente.

Porém, nada disso justifica um “processo-relâmpago” como o ocorrido. No Brasil, o impeachment contra Collor se deu não simplesmente porque ele perdera o apoio parlamentar, mas também porque era rejeitado pelo povo. Foi célebre aquele 16 de agosto de 1992: Collor pediu à população que vestisse verde e amarelo em seu apoio; o que se viu naquele domingo foi uma multidão saindo às ruas usando roupas pretas, em protesto contra o presidente.

Já no Paraguai, milhares de pessoas foram às ruas em apoio a Fernando Lugo, tomando a praça defronte ao Congresso em Assunção. Diferentemente do que aconteceu no Brasil em 1992, o impeachment do presidente paraguaio não tinha respaldo popular. Logo, mesmo que o processo tenha ocorrido conforme a Constituição, foi um golpe de Estado disfarçado de legalidade, pois se deu provavelmente em nome de outros interesses que não os do povo.

Dez anos do golpe fracassado na Venezuela

Em abril de 2002, a Venezuela vivia uma grave crise política. A oposição ao presidente Hugo Chávez o acusava de ser um “ditador”. E decidiu agir, implantando ela própria sua ditadura, colocando o empresário Pedro Carmona na presidência, sem que ele tivesse recebido um voto sequer, já que não disputara uma eleição.

Sem conseguir vencer Chávez nas urnas, a direita venezuelana comprovava que só defendia a democracia quando ganhava as eleições. Quando a esquerda ganhou, começou aquele discurso de que “o povo não sabe votar”, e de quanto isso “ameaça a democracia”, por permitir a instalação de uma “ditadura comunista”.

Qualquer semelhança com o que diziam os golpistas de 1964 no Brasil não é mera coincidência. Pois os golpistas de 2002 na Venezuela decidiram fazer igual a seus pares brasileiros: apelar à força das armas contra o voto do povo.

Só não tinham percebido que os tempos eram outros. No Brasil de 1964, as pessoas se informavam basicamente via jornal, rádio e televisão – e todos estes meios, com poucas exceções, apoiaram a quartelada. Na Venezuela de 2002 tinha tudo isso. Tinha também uma televisão pública – o Canal 8 – que não deixava a visão da mídia corporativa ser a única e, não por acaso, foi a primeira emissora a ter seu sinal cortado pelos golpistas na noite de 11 de abril, para que o povo não soubesse que Chávez fora deposto por um golpe midiático-militar e assim acreditasse que ele havia renunciado. Só que o povo não acreditou – como, aliás, já não vinha acreditando mais na “grande mídia” da Venezuela, que tanto falava que o país piorava em tudo; enquanto isso, para os mais pobres a vida só melhorava.

O povo fez mais do que não acreditar. Usou a tecnologia a seu favor: dotado de celulares que enviavam mensagens de texto, podia se comunicar, se informar, sem depender da mídia tradicional. Assim como podia se mobilizar.

E se mobilizou. Tomou as ruas de Caracas no dia 13 de abril. Foi para a frente do Palácio de Miraflores dizer que só reconhecia a autoridade do presidente que havia sido legitimamente eleito, ou seja, Hugo Chávez. E os golpistas fugiram com o rabo entre as pernas.

Na noite de 13 para 14 de abril, Chávez estava de volta ao palácio, nos braços do mesmo povo que o levara à presidência pelo voto – esta instituição que a direita tanto finge defender, mas revela temer quando não a favorece.

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Dez anos depois, Chávez continua a ser o presidente da Venezuela, e pode, em outubro próximo, conquistar um novo mandato de seis anos. Ditador? Se só o tempo de governo é pré-requisito para uma ditadura, a direita tinha de falar um pouquinho mais sobre um certo Hosni Mubarak, que governou o Egito por 30 anos e só quando estava caindo foi chamado de ditador pelos que criticam Chávez. Mubarak só enfrentou um opositor nas urnas quando já estava no poder há 24 anos, e venceu graças a fraudes. Já todas as eleições que Chávez venceu foram comprovadamente limpas, com a oposição tendo todo o direito de fazer campanha e de se manifestar (quer maior “liberdade de expressão” para a oposição do que ter a “grande mídia” a seu favor?). Tanto que Chávez também perdeu um referendo, em dezembro de 2007, quando não conseguiu aprovar uma série de reformas constitucionais nas urnas – nas ruas, opositores chegaram a usar a bandeira dos Estados Unidos na comemoração.

Porém, nem tudo são flores na Venezuela. Em 2009, quando foi aprovado o fim do limite de reeleições para cargos executivos, alertei:

Porém, como ninguém está livre de nada, e se acontecer algum problema que impeça Hugo Chávez de continuar, quem o substituirá? Não há a preocupação de se lançar novas lideranças dentro do próprio partido de Chávez, que possam sucedê-lo sem dificuldades.

Pois agora Chávez luta contra um câncer. E se devido à doença ele não puder continuar a ser presidente? Seu projeto político é muito vinculado a ele próprio, e assim seu partido se verá em maus lençóis caso ele não possa continuar. E com Chávez podendo se candidatar à reeleição quantas vezes quiser, provavelmente se pensará ainda menos em alguém que possa dar continuidade a seu projeto político.

Pausa nas férias

Charge do Bier

O Cão ainda não está de volta à “programação normal”, pois este que vos escreve embarca na manhã deste sábado para Rio Grande, devendo retornar na metade da próxima semana – quando, aí sim, voltará a postar com maior frequência.

A pausa se deve a uma questão de cidadania: jamais poderia deixar de lembrar o que aconteceu 48 anos atrás. A “turma do pijama” comemora a “revolução” (nunca vi a direita fazer revolução…) em 31 de março. Só que, além de ter sido um GOLPE, a consolidação da quartelada se deu em 1º de abril. Data que, aliás, combina com o mentiroso argumento de que 1964 “salvou o Brasil de uma ditadura comunista”.

Aliás, já que os opressores andavam com vontade de ter seus dias de orgulho, que tal declarar 1º de abril como “dia do orgulho reacionário”? Na prática, ele já é comemorado, embora nunca na data certa – como se viu na quinta-feira, aliás, ao melhor estilo ditatorial.

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Assim como aconteceu nos dias em que estive em Florianópolis, haverá demora na liberação de comentários.

Terça-feira, 11 de setembro

Em 11 de setembro, uma terça-feira, uma barbárie causou a morte de milhares de pessoas. Teve importantes reflexos na economia, na política e até mesmo no futebol – o ano seguinte seria de Copa do Mundo.

Sim, falamos do 11 de setembro de 2001. Mas também do 11 de setembro de 1973.

Na terça-feira, 11 de setembro de 1973, um golpe militar depôs o presidente do Chile, Salvador Allende. O comandante do Exército, Augusto Pinochet, que havia sido nomeado pelo próprio Allende, chefiou a criminosa ação na qual o Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, foi bombareado por caças da Força Aérea. Allende ensaiou uma resistência, mas ao perceber que não teria como superar as forças golpistas, fez um último pronunciamento no rádio. Depois, cometeu suicídio ou foi assassinado – ainda não há uma certeza sobre a morte do presidente chileno.

O general Augusto Pinochet assumiu o poder, e implantou uma das mais sangrentas ditaduras que já teve a América Latina. De 1973 a 1990, milhares de pessoas foram vitimadas pela repressão. Qualquer um que fosse “suspeito” de simpatizar com o governo de Allende podia ser preso e brutalmente torturado – isso quando não fosse executado ou “desaparecido”.

A economia chilena foi bastante impactada pelo golpe. Antes, o país estava quase paralisado, graças a decisão dos Estados Unidos de “sufocar” o Chile pela via econômica, para não deixar que um país se tornasse comunista “devido à irresponsabilidade de seu povo” como disse Henry Kissinger (ou seja, para ele o povo chileno não valia nada). Com o fim da democracia, os dólares voltaram a entrar no Chile, que transformou-se em “laboratório de testes” para o neoliberalismo dos “Chicago Boys”, cujo maior expoente era Milton Friedman. Exato: não foi com Ronald Reagan nem com Margaret Thatcher que ele começou, mas sim com Augusto Pinochet… Detona-se, assim, o mito segundo o qual liberalismo econômico e democracia são sinônimos.

Até o futebol sofreu o impacto do 11 de setembro de 1973. Mais precisamente, a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental. Havia uma preocupação muito grande com a segurança (como veremos no Mundial de 2002, menos de um ano após os atentados nos EUA), devido ao terrorismo: nos Jogos Olímpicos de Verão de 1972, realizados também na Alemanha Ocidental (na cidade de Munique), o grupo Setembro Negro invadiu a Vila Olímpica e assassinou onze atletas israelenses. Mas o impacto do 11 de setembro se deu dentro de campo mesmo: nas repescagens das eliminatórias para a Copa, uma das vagas seria disputada entre uma seleção sul-americana e uma europeia; o Chile seria esta equipe da América do Sul, e a União Soviética a da Europa.

A primeira partida foi disputada em 26 de setembro de 1973 (portanto, já depois do golpe) em Moscou, e terminou empatada em 0 a 0. O jogo decisivo estava marcado para 21 de novembro no Estádio Nacional de Santiago, que após o 11 de setembro se tornara um campo de concentração no qual inúmeras pessoas foram torturadas e fuziladas. Os dirigentes soviéticos pediram que a partida fosse realizada em outro local que não o Estádio Nacional, mas a FIFA se fez de surda e com isso, a seleção da URSS não viajou a Santiago para jogar. Desta forma o Chile garantiu a vaga à Copa sem disputar o jogo que a URSS poderia muito bem vencer apesar de jogar fora de casa, mas para “cumprir tabela” os chilenos entraram em campo e marcaram um gol no arco vazio.

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Em 11 de setembro de 2001, uma terça-feira, quase 3 mil pessoas morreram vítimas dos atentados terroristas nos Estados Unidos. Mas em consequência disso, quase um milhão de vidas foram tiradas nas guerras travadas pelos EUA no Afeganistão e no Iraque. Aquele trágico dia tornou-se “justificativa” para matar ainda mais gente.

A economia sofreu as consequências do 11 de setembro de 2001. Os Estados Unidos vivem hoje a sua pior crise econômica desde 1929, e uma das causas disso são os gastos excessivos com as guerras “justificadas” pela tragédia.

E o futebol, claro, também foi afetado. Na Copa de 2002, realizada na Coreia do Sul e no Japão, a preocupação com a segurança foi muito maior do que nos Mundiais anteriores. E a seleção dos Estados Unidos teve de contar com esquema especial de proteção, devido ao temor de ataques terroristas.

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Como bem disse o chileno Pablo no vídeo que abre este post, em uma carta dirigida aos familiares de vítimas do 11 de setembro de 2001: os chilenos, assim como todo o mundo, lembram as vidas perdidas de 2001; e é preciso que os estadunidenses, e o mundo também, lembrem de 1973.

O Uruguai, nos dando um “baile”

O general Gregório Álvarez, ditador do Uruguai de 1981 a 1985, foi condenado a 25 anos de prisão por sua participação em 37 mortes durante a ditadura civil-militar* no país (1973-1985). E ele não foi o único: o ex-capitão da Marinha Juan Carlos Larcebeau foi sentenciado a 20 anos por outras 29 mortes.

Embora o Uruguai tenha uma “lei de caducidade” (versão local da nossa lei de anistia de 1979) que ajuda a manter impunes muitos violadores dos direitos humanos, há crimes aos quais ela não se aplica. Em outubro de 2009 foi realizado um plebiscito pela anulação parcial da lei, mas as mudanças não foram aprovadas. Menos mal que, ao menos, haja punições aos carrascos do período ditatorial.

Enquanto isso, no Brasil, todos os ditadores de 1964 a 1985 morreram sem arcarem com a responsabilidade por suas violações aos direitos humanos. Muitos torturadores também já são falecidos, e os vivos continuam livres, leves e soltos.

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* No Uruguai, o golpe de Estado foi dado em 27 de junho de 1973 pelo presidente civil (e, até então, constitucional) Juan María Bordaberry, com apoio dos militares, mas o regime foi predominantemente de ditadores civis. O único ditador militar do período foi Gregório Álvarez, que só assumiu o poder oito anos após o golpe, e renunciou poucos dias antes da posse do presidente eleito diretamente em novembro de 1984, Julio María Sanguinetti.

Campanha da Legalidade – 50 anos

O povo na Praça da Matriz, agosto de 1961

Folha da Tarde, 25/08/1961

Entre o final de agosto e o começo de setembro de 1961, o Brasil esteve na iminência de uma guerra civil. O presidente Jânio Quadros, no poder há menos de sete meses, renunciou ao cargo no dia 25 de agosto denunciando a pressão de “forças terríveis”. Conforme previa a Constituição de 1946, o vice-presidente João Goulart deveria assumir a presidência. Só que este encontrava-se em viagem oficial à República Popular da China, e os ministros militares iniciaram um movimento golpista que tinha por objetivo impedir o retorno de Jango ao Brasil e, consequentemente, sua posse como Presidente da República.

Naquela época o mundo vivia o auge da Guerra Fria. Em abril, uma tentativa de invasão a Cuba – a famosa Invasão da Baía dos Porcos – por exilados cubanos treinados pelos Estados Unidos e ligados à anterior ditadura de Fulgêncio Batista – derrubada pela Revolução Cubana no início de 1959 – resultou em fracasso, e a Revolução, iniciada como um movimento nacionalista, assumiu seu caráter socialista. No dia 13 de agosto, teve início a construção do Muro de Berlim, que por 28 anos impediria o trânsito do lado oriental (capital da República Democrática Alemã, alinhada com a União Soviética) para o lado ocidental (pertencente à República Federal da Alemanha, alinhada com os EUA). Tais fatos aumentaram a tensão entre as duas superpotências mundiais, e obviamente tiveram reflexos no debate político de todo o mundo – antes da renúncia de Jânio Quadros, a crise internacional provocada pela construção do Muro de Berlim era destaque nos jornais.

Correio do Povo, 26/08/1961

E justamente em uma época de tanta tensão internacional, Jânio Quadros, que em outubro de 1960 fora eleito com o apoio da conservadora UDN, dava mostras de que sua política externa não seria voltada apenas ao Ocidente: no início de agosto, recebeu o cosmonauta soviético Yuri Gagarin (primeiro homem a ir ao espaço), e no dia 19, condecorou com a Ordem do Cruzeiro do Sul (a mais alta honraria brasileira) o revolucionário argentino e Ministro da Economia de Cuba, Ernesto “Che” Guevara. Tais atos desagradavam não somente aos conservadores, como também aos Estados Unidos.

A condecoração de Che deu início a uma crise política. O governador da Guanabara, Carlos Lacerda, passou a atacar violentamente o governo federal, inclusive acusando Jânio de tramar um golpe de Estado com o objetivo de tornar-se ditador. Lacerda era dono do jornal Tribuna da Imprensa, que tivera importante papel na crise política de agosto de 1954, que culminara com o suicídio de Getúlio Vargas.

Na manhã do dia 25 de agosto, Jânio Quadros enviou ao Congresso sua carta de renúncia, surpreendendo o país. Diz-se que o verdadeiro objetivo de Jânio era que sua renúncia não fosse aceita tanto pelo parlamento como pelo povo, de forma a que ele pudesse retornar ao governo com poderes ampliados. Porém, nada disso aconteceu.

João Goulart (PTB), o vice-presidente, era considerado pelos setores conservadores como “esquerdista demais”. Contribuía para o temor destes o fato de Jango estar na República Popular da China, onde a revolução socialista se dera no campo – e no Brasil de 1961, a maior parte da população era rural.

Correio do Povo, 29/08/1961

O veto dos ministros militares à posse de Jango desencadeou a chamada Campanha da Legalidade. O governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola (PTB), conclamou os brasileiros a resistirem ao golpe e desta forma garantirem o cumprimento da Constituição e a manutenção do regime democrático. Para que suas mensagens chegassem o mais longe (e o mais rápido) possível, em 27 de agosto Brizola requisitou a Rádio Guaíba, que na época tinha os mais potentes transmissores de rádio no Estado, formando uma rede de radiodifusão que ficou conhecida como “Cadeia da Legalidade”. O principal estúdio foi instalado no porão do Palácio Piratini, de onde Brizola falava. Os transmissores foram ajustados acima da potência máxima permitida por lei, e o sinal chegou a ser captado por radioamadores na Nova Zelândia, do outro lado do mundo.

Os ministros militares estavam decididos a esmagar a resistência e assim consolidar o golpe. Se preciso, o Palácio Piratini seria bombardeado, para calar Brizola e a Cadeia da Legalidade. Por conta da real ameaça, no dia 28 o governador ordenou o fechamento das escolas, e pediu também que a multidão em frente ao palácio se retirasse – pedido que não foi atendido.

Folha da Tarde, 28/08/1961

O III Exército (sediado em Porto Alegre) aderiu à causa da Legalidade, assim como o governador de Goiás (Estado que praticamente circunda Brasília), Mauro Borges. E o golpe não se consumou. Mas ainda assim, não foi uma vitória completa: a solução para o impasse foi uma emenda constitucional que instaurou o parlamentarismo como sistema de governo no Brasil (até janeiro de 1963, quando em um plebiscito o povo decidiu pela volta ao presidencialismo), de forma a enfraquecer Jango. E além disso, o golpe apenas foi adiado para 1964 – com os mesmos argumentos de 1961, ou seja, de “combater o comunismo”.

Mas ainda assim, a Campanha da Legalidade tem grande valor histórico. Pois demonstrou a importância de se saber usar a mídia: Brizola percebeu que não bastava declarar resistência, também era preciso comunicá-la o mais rápido possível para o máximo de pessoas, e por isso tratou de logo formar a “Cadeia da Legalidade” com tal propósito. Naquela época, o rádio era o meio mais eficaz de se atingir muita gente: a televisão era incipiente, os jornais não tinham um público leitor tão grande (aliás, como ainda não têm), e não existia internet.

A Legalidade também serviu de lição aos golpistas, que perceberam a necessidade de terem “apoio da opinião pública” para seu propósito. Tanto que, se em 1961 a população foi às ruas repudiar a quebra da ordem constitucional, três anos depois aconteceu o contrário. O que também deve servir de alerta a todos nós: com base nessa tal de “opinião pública”, se procurou “legitimar” o golpe de 1964.

Leonel Brizola no estúdio instalado no porão do Piratini

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Imagens: Acervo do Museu da Comunicação Social Hipólito da Costa