Sobre a liberdade de expressão e seus limites

Escrevo estas linhas baseado no que o Igor Natusch publicou no Facebook ontem. Para facilitar e também para dar menos menos lucro ao Zuckerberg, vou “piratear” o texto do Igor (mas se ainda assim você quiser ler “na fonte”, clique):

Vou ser ‪#‎polêmico‬: eu discordo do Safatle. Não acho que pedir ditadura nas ruas seja (ou deva ser) um crime. É estúpido, lamentável, tosco, obtuso, um sinal claríssimo de indigência mental e desconhecimento político básico. Mas crime, propriamente, não acho que seja. É uma ideia extremamente condenável, mas ainda assim é uma ideia, que pode ser combatida no terreno das ideias. Precisa colocar ninguém no xilindró não.

Para mim o limite possível é discurso de ódio. Não dá para aceitar, dentro dos limites da liberdade de expressão, um nazista e/ou racista pregando a morte ou extinção de grupos ou etnias. Uma pessoa que pede intervenção militar, bem, eu acho horrendamente equivocada e possivelmente com desvio de caráter. Mas não está cometendo, penso eu, um crime. Se alguma interpretação da Constituição dá margem para jogar essa pessoa na cadeia, eu me reservo o direito de discordar e esperar que esse ponto seja revisto.

O tema é complicado, claro. Há uma série de desdobramentos possíveis, em termos de argumento e de pensamento. Mas eu acho que a restrição de liberdade deve ser exceção, jamais a regra. Então que falem besteira, que sejam contestados e ridicularizados, mas sem colocar tribunal no meio. A gente precisa confiar um pouco mais na força de nossos princípios e das nossas ideias.

Quando li isso, no intervalo do trabalho e via celular, percebi que não teria como fazer um comentário à altura. Pois concordo com algumas coisas que o Igor disse e discordo de outras. Prometi este texto.

Sobre a concordância, é quanto ao direito de alguém achar que nos tempos da ditadura era melhor. Trata-se de mera opinião – que considero tremendamente equivocada (há inúmeros mitos sobre aquela época maldita, de alguns deles eu falo aqui), mas que ainda assim se situa no terreno da opinião. Sem contar que em muitos casos a concepção de determinado regime como democrático ou não depende muito da ideologia da pessoa: dificilmente uma pessoa de direita, daquelas que acredita piamente que o golpe de 1964 “salvou o Brasil de uma ditadura comunista”, não chama o falecido ex-presidente venezuelano Hugo Chávez de “ditador” mesmo que ele tenha permanecido no poder por 14 anos mediante eleições livres e de lisura atestada por observadores de vários países. Assim como há quem consiga dizer que vivemos em uma “ditadura petista”, mesmo que tendo ampla liberdade para dizer isso estando no Brasil.

Agora, a minha discordância é quanto aos pedidos de “intervenção militar constitucional”.

Claro que falar “intervenção militar constitucional” (ou, como alguns “gênios” escreveram, constitutional military intervention already) demonstra que a pessoa simplesmente não conhece o texto constitucional. Em nenhum capítulo, nenhum artigo, nenhum parágrafo sequer, a Constituição autoriza as Forças Armadas a derrubarem o governo. Ao contrário, o artigo 142 deixa bem claro que os militares encontram-se sob a autoridade suprema da Presidência da República: alguém acredita que Dilma ligaria para os chefes militares pedindo a sua própria deposição?

Mas, felizmente, ignorância não é crime. É coisa feia, mas ninguém precisa ir parar na cadeia por conta disso. Melhor ir estudar noções básicas de legislação (aliás, estas deveriam ser ensinadas nas escolas, para as pessoas conhecerem melhor seus direitos e deveres).

O problema é ir para a rua e pedir golpe militar (vamos chamar as coisas pelo que elas são).

Quando se pede um golpe militar, se está pregando abertamente a quebra da ordem constitucional. Ou seja, trata-se de apologia a um crime, à violação da lei máxima do país. Assim como não se pode sair por aí defendendo o assassinato de qualquer pessoa que seja. Logo, não defendo a criminalização de tais atos, pois isso (em minha visão leiga) já configura crime.


“Ah, mas a ditadura matou, torturou, como pode alguém achar aquilo bom?”, você pode me perguntar, com toda a razão. Simples: a imensa maioria das pessoas não tem conhecimento do que aconteceu no Brasil durante aquele triste período – e, como eu disse mais acima, ignorância não é crime. É fruto da má qualidade do nosso sistema de ensino, que estimula a gurizada a apenas “decorar a matéria para a prova”, sem incentivá-la a buscar mais conhecimento. Assim, os conteúdos ministrados nas aulas de História literalmente “entram por um ouvido e saem pelo outro”: a maioria apenas “estuda para a prova” e depois nunca mais quer saber “daquelas coisas de um tempo em que eu nem era nascido”; se prestassem mais atenção àquele conteúdo, saberiam que achar aquela época melhor do que hoje significa desprezar totalmente os direitos humanos e defender um regime que poderia muito bem por até mesmo suas vidas em risco (para tal bastaria manifestar alguma opinião que não agradasse muito aos donos do poder).

Mas também há quem ache que a ditadura “foi branda” e “deveria ter matado mais”. Bom, aí temos discurso de ódio e isso é crime, da mesma forma que defender golpe militar. Que se aplique a lei.

Anúncios

Sobre a tal “intervenção militar”

Minhas amizades têm os mais variados gostos e opiniões. Sou gremista, e me dou muito bem com colorados. Gosto muito de vinho, mas não exijo de ninguém que aprecie a bebida. Adoro inverno e várias pessoas que preferem o verão têm grande apreço de minha parte.

Nas eleições, obviamente a situação não foi diferente. Da lista de minhas amizades – online ou offline – saíram votos para Dilma Rousseff, Aécio Neves, Marina Silva, Luciana Genro, Eduardo Jorge e Mauro Iasi. Isso levando em conta quem abriu o voto, pois muita gente não se manifestou sobre a eleição e pode ser que tenha votado em algum outro candidato. As discordâncias não me levaram a brigar com ninguém, havia respeito mútuo.

Ou seja, não tenho problema algum com relação a opiniões divergentes da minha. Até porque ninguém nasce com opinião pronta, formamos a nossa a partir do que as outras pessoas dizem – seja por concordar ou discordar. Sem contar que não há em qualquer parte do mundo uma pessoa exatamente igual a outra.

Agora, se você é daquelas pessoas que defende “intervenção militar” (que só é “constitucional” na cabeça de quem não conhece a Constituição) para “acabar com a corrupção”, e ainda acha que na época da ditadura as coisas eram melhores, aí sim temos um problema.

Sendo mais específico, você tem um problema com relação a opiniões diferentes.

Durante a ditadura, bastava alguém gerar desconfiança (mesmo sem nenhum motivo para tal) para ser considerado “subversivo” e sofrer perseguição por motivos políticos; em caso de prisão, com sorte o interrogatório seria “civilizado”, sem espancamento nem tortura; se houvesse tortura, com sorte e muita resistência se sobrevivia a ela. E depois disso, dois caminhos eram possíveis: o da sobrevivência, com sorte mantendo a sanidade mental (muitas pessoas enlouqueceram por conta da tortura); ou o da morte, no qual os entes queridos teriam de contar com a boa vontade dos assassinos para que ao menos pudessem se despedir (e várias famílias nem isso conseguiram fazer, pois os canalhas muitas vezes não se contentavam em matar opositores, ainda tratavam de sumir com os corpos).

Na ditadura que você defende (“afinal, esse pessoal que faz baderna tem mais é que levar porrada para ver se aprende”), seria bem possível que amigos seus fossem considerados “subversivos” por motivos os mais banais possíveis (naquela época, se você não gostasse de alguém e quisesse ferrar com essa pessoa bastava acusá-la de ser comunista, sem necessidade de provas do “crime”). E de nada adiantaria reclamar disso com o argumento de que “fulano de tal é ‘pessoa de bem’, eu conheço”: aliás, talvez você também fosse “convidado” a “prestar informações” (afinal, quem reclama provavelmente é “subversivo”, né?).

Ou seja, se você quer “intervenção militar”, pense bem a respeito disso. Pode ser que uma das vítimas dela seja você mesmo. Sem contar as muitas pessoas que você diz querer bem.

40 anos de um tenebroso 11 de setembro

Numa manhã de terça-feira, uma barbárie chocou o mundo e causou milhares de mortes tanto naquele dia como nos vários anos subsequentes. Foi em Santiago do Chile, em 11 de setembro de 1973 – há exatos 40 anos, portanto. O violento golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet dava fim ao governo de Salvador Allende e à tentativa de construir o socialismo de maneira distinta em relação a outros países: pela via eleitoral.

Os limites da “via chilena para o socialismo” já ficaram claros na própria eleição presidencial de 1970, quando Salvador Allende foi o mais votado, mas sem o apoio de mais da metade do eleitorado: obteve 36,6% dos votos, contra 34,9% do conservador (e ex-presidente) Jorge Alessandri. A decisão ficou nas mãos do Congresso, que elegeu Allende em 24 de outubro: o novo presidente tomou posse no dia 4 de novembro com o desafio de promover a transição ao socialismo sem contar com maioria parlamentar.

O plano de governo da Unidade Popular (coligação de partidos de esquerda pela qual Allende foi eleito) combinava políticas econômicas de caráter socialista (como a estatização de áreas estratégicas da economia) com outras que visavam à redistribuição da riqueza de forma a reativar a economia do país. Algumas das medidas tiveram grande apoio parlamentar, como a nacionalização do cobre; porém, não agradavam aos Estados Unidos, visto que empresas estadunidenses que exploravam o minério no Chile tornaram-se devedoras de grandes cifras ao Estado chileno (em 1975, já sob a ditadura de Pinochet, o governo “indenizou” uma das mineradoras).

Colocar os interesses nacionais acima daqueles defendidos pelos Estados Unidos fez com que não tardasse para o Chile começar a ser “sufucado” pela via econômica: o governo estadunidense, chefiado por Richard Nixon, “investiu” milhões de dólares para desestabilizar o país, promovendo desde greves patronais (“locautes”), até financiamento de grupos terroristas de extrema-direita (como o Pátria y Libertad) que contribuíram sobremaneira para o aumento da violência política no país. Porém, nas eleições legislativas de março de 1973, a UP aumentou sua base parlamentar (embora ainda fosse minoritária), impedindo que a oposição obtivesse dois terços das cadeiras e assim pudesse dar andamento a um processo de impeachment contra Allende, faltando três anos para o término de seu mandato. Assim, podemos dizer que ambos os lados perderam: o governo não tinha maioria para aprovar seus projetos, e a oposição não tinha como derrubar Allende.

As Forças Armadas chilenas tinham certa tradição constitucionalista, porém, em 29 de junho houve uma primeira tentativa de golpe militar, o chamado Tancazo. O levante fracassou, mas ficou claro que não se podia descartar a derrubada do governo pela força, dada a impossibilidade de fazê-lo pela via institucional. O comandante do Exército, general Carlos Prats, defendia a lealdade à Constituição, mas após uma manifestação de esposas de generais defronte à sua casa, e com pouco apoio de seus comandados, renunciou e recomendou o nome do general Augusto Pinochet, considerado “apolítico”, para substituí-lo. Allende atendeu à recomendação e, em 23 de agosto de 1973, nomeou Pinochet.

Sabendo que dificilmente conseguiria concluir seu mandato (que se encerraria apenas em novembro de 1976), Allende decidiu convocar um plebiscito quanto à sua continuidade na presidência: com isso, provavelmente seria derrotado e renunciaria, mas ao mesmo tempo derrotaria os defensores de um golpe militar.

Porém, como sabemos, o plebiscito jamais foi realizado. Apenas 18 dias depois de ser nomeado, o novo comandante do Exército, Augusto Pinochet, traiu seu chefe liderando um dos mais violentos golpes militares que a América já viu. Enquanto aviões bombardeavam o Palácio de La Moneda, sede do governo, lá de dentro Allende fazia seu último pronunciamento anunciando que não renunciaria, como exigiam os militares; pouco depois, para não se render a eles, cometeu suicídio.

Naquele 11 de setembro de 1973, uma terça-feira, o país que era um dos mais estáveis da América do Sul ingressava em uma cruel e assassina ditadura, que só teria fim em 1990. Sob a mão de ferro do general Augusto Pinochet, o Chile tornou-se “laboratório de testes” para o neoliberalismo, detonando o mito de que liberalismo econômico e democracia são sinônimos: ao contrário, os defensores da “mão invisível do mercado” põem o lucro acima de tudo, inclusive da democracia.

É urgente parar os protestos

Pretendia ter ido à manifestação desta quinta em Porto Alegre, já que não estive nas duas últimas. Quinta passada tinha reunião com meu orientador; na última segunda tinha aula e cheguei a me dirigir em direção à Cidade Baixa depois em busca do ato, mas não o encontrei, pois o grosso dos manifestantes ainda estava na Ipiranga – boa parte deles, tomando porrada.

Durante o dia, circularam muitos boatos – e justamente pela falta de confirmação, os considerei como tais. Um deles dizia que os ônibus sairiam de circulação cedo, por volta das 5 da tarde. Segundo a EPTC eles cumpririam sua tabela normal de horários, mas por via das dúvidas, as pessoas foram liberadas mais cedo do trabalho, devido ao temor de que não conseguissem chegar em casa. O resultado foi a antecipação do “horário de pico” para as 4 da tarde; e foi ainda mais caótico, pois não era um congestionamento normal: as pessoas queriam estar longe do Centro o mais rápido possível, por isso, foram todos ao mesmo tempo. As paradas de ônibus estavam abarrotadas.

Quando saí do trabalho, não sabia se ia para a frente da Prefeitura ou vinha para casa – e a ideia de trocar o “vem pra rua” pelo “vem pra casa” se fortaleceu após eu mergulhar meu pé em uma poca d’água: ao menos teria de trocar a meia e o tênis. O meu irmão tinha dito que estaria no ato e decidi ligar para ele: quando ele disse que iria para casa, tomei o caminho do lar. A pé, pois se pegasse ônibus demoraria ainda mais tempo.

No caminho, foi ainda mais visível o clima de apreensão. Uma loja de conveniência em um posto de gasolina afixava tapumes para proteger seus vidros – o mesmo fazia um hotel ao lado.

Cheguei em casa com o pé encharcado e decidi entrar para o banho: era a senha para permanecer em casa. Porém, não foi só isso. Duas análises que li (aqui e aqui) me fizeram ficar bastante preocupado com o rumo que a coisa está tomando. Vamos relembrar.

Os protestos se iniciaram por uma causa que toca a todos nós: o direito ao transporte. E a cobertura da velha mídia era a de sempre: procurando mostrar os manifestantes como “baderneiros”. Ao ponto da Folha e do Estadão defenderem a repressão aos protestos em São Paulo, semana passada.

Foi o que aconteceu na noite do dia 13. Só que eles sentiram “na pele”, ou melhor, através de uma repórter da Folha. Também perceberam que a adesão aos atos só aumentava, por mais que eles criminalizassem. Então claramente mudaram de lado: passaram a defender os “manifestantes pacíficos” (sendo que muitos dos que apanharam da polícia dia 13 protestavam sem violência).

Veio o dia 17 de junho, a última segunda-feira. As imagens eram – e são – belíssimas: a rua ocupada por milhares de pessoas, lembrando que o espaço público pertence a todos nós, não só ao trânsito de automóveis. Porém, novamente vimos atos de vandalismo – em Porto Alegre a coisa foi muito feia, com muitas depredações e um ônibus incendiado.

Notei algo muito estranho também. No dia seguinte, gente que eu nunca via falar de política (ou quando falava, só saia bosta) manifestava sua opinião no Facebook, dizia querer “um Brasil melhor”, que era hora de “acabar com a corrupção” e etc. Uma semana antes só falava que vivíamos num “país de merda”, e de repente publicava foto com a bandeira do Brasil, se dizendo patriota. Protestar “virou moda”.

E então, eis que me deparo com uma petição online pedindo o impeachment de Dilma Rousseff. Minha cabeça fez algo como um “clic”: um movimento claramente de esquerda e que começou de forma espontânea (a partir das redes sociais), estava sendo tomado pela pior direita. Percebia isso principalmente quando lia comentários acerca de “não pode ter bandeiras partidárias” no ato de quinta, que conforme a organização (?), seria “gigante”. Afinal de contas, em atos que contestam o aumento das passagens e pedem passe livre, as bandeiras que aparecem são as dos partidos de esquerda, justamente por esta causa ser de esquerda.

Meus temores foram confirmados acompanhando as notícias do que acontecia pelo país. Em várias cidades (e principalmente em São Paulo), havia relatos de agressões dos “apartidários” contra quem carregava bandeiras de partidos. Em Brasília, tentaram incendiar o Palácio do Itamaraty. Os protestos foram totalmente desviados do foco original (ou seja, a luta contra o aumento e pelo passe livre), e se voltaram contra os partidos, contra a política (a ponto do Movimento Passe Livre, que chamou as primeiras manifestações em São Paulo, decidir se retirar do ato denunciando a infiltração reacionária). Resumindo, virou uma luta violenta da extrema-direita contra a democracia: em um regime democrático ninguém é obrigado a se filiar a partido algum, mas eles também não podem ser proibidos de existir.

O mais sensato, a essa altura, é cancelar todas as próximas manifestações, visto que a situação está se tornando muito perigosa. O Alexandre Haubrich disse tudo:

Menos empolgação e mais reflexão, por favor. O legado já foi construído, agora chegamos num ponto limite onde as coisas só podem piorar.

Henrique Capriles, um mau perdedor

Quando postei ontem sobre o resultado da eleição presidencial na Venezuela, disse que o fato do oposicionista Henrique Capriles não reconhecer a vitória de Nicolás Maduro poderia resultar em violência nas ruas, visto que a direita venezuelana já fez isso em abril de 2002, no golpe que tirou Hugo Chávez do governo por 48 horas.

Pois já estava acontecendo. Partidários de Capriles atenderam ao chamado do oposicionista e foram às ruas, porém, muitos não se limitaram ao protesto pacífico e partiram para a violência, que deixou pelo menos sete mortos e 61 feridos.

Ou seja, Capriles demonstra, acima de tudo, que é um mau perdedor. Segundo a TeleSur (cuja sede em Caracas foi cercada por militantes oposicionistas), o candidato da direita sequer formalizou o pedido de recontagem de votos que ele dissera que ia solicitar. Ou seja, demonstra ter certeza de que perdeu a eleição. Mas, parecendo uma criança birrenta, esperneia e não aceita a derrota.

O problema é que essa “criança birrenta” é também “mimada”: sua gritaria animou o governo dos Estados Unidos, que não reconhece o resultado da eleição (mesmo que o sistema de votação na Venezuela seja muito elogiado, inclusive pelo Centro Carter de Estudos, liderado pelo ex-presidente estadunidense Jimmy Carter). E assim, essa “birra”, que ainda ganhou um “mimo”, pode acabar nada bem.

O grande erro político de Hugo Chávez

Algo que já disse várias vezes, e que novamente repito: a aprovação pelo povo venezuelano da reeleição ilimitada em referendo realizado em fevereiro de 2009 foi uma aparente vitória do presidente Hugo Chávez, que ganhou o direito de se candidatar novamente à presidência em 2012. Assim aconteceu, e em outubro passado, os venezuelanos deram mais um mandato a Chávez.

O fato da vitória ser “aparente” ficou claro quando Hugo Chávez anunciou que tinha câncer, em junho de 2011. Não tivesse se empenhado tanto em mudar a constituição para poder se reeleger mais vezes (inclusive alcançado tal objetivo), Chávez teria forçado seu partido, o PSUV, a formar novas lideranças em condições de dar continuidade a seu projeto político – e isso já teria começado bem antes de 2011.

Resultado: o povo não votava em um projeto político, e sim, no líder que encarnava uma espécie de “salvador da pátria”. Prova disso é que Nicolás Maduro, o candidato indicado por Chávez (apenas em dezembro de 2012), venceu, mas por uma margem muito pequena, inferior a 2%. A expressiva votação do oposicionista Henrique Capriles assanhou a oposição, que solicitou auditoria dos votos (pedido prontamente aceito por Maduro) e recusa-se a aceitar a vitória do candidato governista, o que pode resultar inclusive em violência nas ruas, dado o histórico da direita venezuelana.

Ou seja, das urnas emerge uma Venezuela praticamente dividida ao meio. A eleição de Maduro mostra que um chavismo sem Hugo Chávez não é impossível (afinal, vitória apertada não deixa de ser vitória), mas é muito mais fraco na ausência de seu líder. Justamente por ser um projeto político extremamente vinculado a Chávez.

O dia da mentira

Apesar da “comemoração” acontecer no dia 31 de março, a data certa é 1º de abril. Afinal de contas, trata-se da celebração de uma mentira: a de que em 1964 o Brasil foi salvo de uma “ditadura comunista” por meio de uma “revolução”.

Isso mesmo: uma revolução de direita. Alguém já tinha visto uma maluquice dessas?

Só que tem mais. O objetivo declarado dessa “revolução” conservadora era o de “defender a democracia”. Afinal, nada mais “ditatorial” do que o presidente não ser da direita: basta pensar um pouquinho no povo, que já começa a gritaria de que o governo é “comunista”, “autoritário” etc. Democrático é derrubar pelas armas um presidente eleito por um povo que “não sabe votar”, segundo esses tais “revolucionários” da direita.

A “defesa da democracia” se daria colocando um general no governo até 31 de janeiro de 1966, quando se encerraria o mandato do “ditador” João Goulart (sim, “ditador”, pois fora eleito por um povo que “não sabe votar”): em outubro de 1965, certamente o povo já teria “aprendido a votar” e assim um candidato de direita (provavelmente Carlos Lacerda, entusiasmado apoiador da “revolução”) venceria.

Mas, em 1965 o povo ainda não tinha “aprendido” (tanto que a eleição acabaria acontecendo só em 1989). Tinha de “levar mais porrada”, e se só bater não adiantasse, torturas, mortes e desaparecimentos faziam parte do script. Algo tão “democrático”, que até Carlos Lacerda acabou mudando de lado ao perceber que aquela “revolução” iniciada em 31 de março de 1964 e consolidada no dia seguinte duraria bem mais do que prometera da boca para fora.

Aliás, aquele golpe que se utilizou de uma fantasia para acabar com a democracia (já que por meio dela a direita não conseguia retomar a presidência) venceu na data que combina com ele: 1º de abril, o “dia da mentira”, também conhecido como “dia dos bobos”. Pois Lacerda não foi o único a ser enganado. Muita gente acreditou no papo de que se tratava de uma “revolução” que impediria a implantação de uma “ditadura comunista” e assim salvaria a democracia brasileira.

————

Mas uma coisa também precisa ser dita: quem organizou aquilo não era nada “bobo”. Já disse uma vez que pessoas de esquerda tendem a ser mais inteligentes, por serem contestadoras; mas ao mesmo tempo, se os líderes conservadores de 1964 fossem “burros”, não teriam vencido.

Aliás, é preciso ser bem inteligente para engambelar as pessoas por quase 50 anos – sim, ainda há quem acredite que em 1964 fomos “salvos”…

Chávez: sai o líder, entra o mito

Hugo Chávez é um demônio. Por quê? Porque alfabetizou 2 milhões de venezuelanos que não sabiam ler nem escrever, mesmo vivendo em um país detentor da riqueza natural mais importante do mundo, o petróleo.

(Eduardo Galeano: “A demonização de Chávez”

Pretendo escrever um texto mais aprofundado sobre Hugo Chávez, postando-o talvez no final de semana. Mas uma coisa já posso afirmar sem medo de errar: o presidente venezuelano deixa a vida para se tornar, definitivamente, um mito.

O documentário “A revolução não será televisionada” dá uma amostra. Afinal, não é qualquer líder político que reduz drasticamente a pobreza e a desigualdade, praticamente erradica o analfabetismo, e não bastasse isso, resiste a um golpe de Estado.

O tiro saiu pela culatra

Em junho, o presidente paraguaio Fernando Lugo foi deposto em um golpe disfarçado de legalidade. O processo de impeachment foi aberto pela Câmara dos Deputados no dia 21, e na tarde do dia 22 o Senado condenou Lugo, que teve apenas duas horas para apresentar sua defesa (em 1992, no Brasil, Fernando Collor teve três meses para isso). A presidência foi assumida pelo vice-presidente Federico Franco, que já tinha “virado a casaca” e passado à oposição.

Pois não deixa de ser irônica a situação pela qual Franco passa agora: sem conseguir justificar o enorme aumento em seu patrimônio pessoal durante os últimos quatro anos, pode até mesmo sofrer impeachment… Caso aconteça, o processo será tão rápido quanto foi em junho?

Allende: foi suicídio, não assassinato

Cartum de Carlos Latuff em homenagem a Salvador Allende (2007)

Todas as vezes que lembrei o golpe militar no Chile, disse que não havia a confirmação de como o presidente Salvador Allende tinha morrido: se fora suicídio ou assassinato. Pois (só) hoje descobri que desde o ano passado já há a confirmação: Allende realmente se suicidou. Aliás, a própria família dele já dizia isso, só faltava a perícia comprovar.

Tinha pensado apenas em pôr uma “atualização” reparando o meu texto de ontem (e mesmo o do ano passado e anteriores), mas optei por um novo post e uma espécie de mea culpa. Até para poder escrever mais do que em uma simples “atualização”.

Afinal, se a família de Allende dizia que ele cometeu suicídio, por que insistia tanto em questionar tal informação? Obviamente não era por falta de prova científica, e sim, por conta da ideia de que o suicídio é uma “fuga”. Assim, na dúvida, preferia acreditar na versão de que ele tinha sido assassinado.

Dizer que o presidente chileno se suicidou ao invés de ter sido assassinado parecia dar a impressão de que ele “se acovardou” diante do golpe, “não lutou até a morte”. Porém, basta lembrar tudo o que aconteceu para perceber que, se tem algo que Salvador Allende não fez em 11 de setembro de 1973, foi “fugir”.

Mesmo com o Palácio de la Moneda sob bombardeio, Allende lá permaneceu. Os militares exigiram a renúncia do presidente, o que talvez permitisse que ele saísse vivo do palácio; ainda assim, Allende recusou. Preferiu não capitular.

E, àquela altura, sabendo que não havia mais possibilidades de derrotar os golpistas, fica claro que a única maneira de Salvador Allende não se entregar seria cometendo suicídio. Pois esperar que os militares invadissem o palácio para matá-lo ou levá-lo preso seria exatamente uma rendição.