Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça

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No telão, João Goulart (presidente deposto pelo golpe de 1964) e Amarildo de Souza (desaparecido e morto pela PM-RJ, em 2013)

Ontem à noite, o Salão de Atos da UFRGS ficou abarrotado, no ato “50 anos do golpe de 1964, 50 anos de impunidade”, em homenagem a todos os que lutaram contra a ditadura civil-militar no Brasil. Por mais que se saiba que ainda há muito a fazer em termos de memória no nosso país, ver um recinto com capacidade superior a mil pessoas ter sua lotação máxima superada num evento que busca “descomemorar” o golpe ajuda a dar mais esperanças de que ainda será feita Justiça no Brasil.

HOJE a ditadura maldita faz 50 anos. Nada de dia 31 de março ou coisa do tipo – que os que traíram o povo e a nação a quem dizem servir carreguem a vergonha completa, inclusive da data ridiculamente adequada que escolheram para nos roubar a democracia.

Nesta data, dou a eles o que merecem: desprezo.

Nunca mais voltarão, infames. Que carreguem para o túmulo o peso da vergonha que cometeram e pela qual jamais se retrataram. Adeus.

(Igor Natusch, via Facebook)

Plenário vira as costas para Jair Bolsonaro, e sessão em memória dos 50 anos do golpe é suspensa (sendo que o regimento interno da Câmara não proíbe ninguém de virar as costas ao orador).

Plenário vira as costas para Jair Bolsonaro, e sessão em memória dos 50 anos do golpe é suspensa (sendo que o regimento interno da Câmara dos Deputados não proíbe ninguém de virar as costas ao orador). Foto: Antonio Augusto/Câmara dos Deputados

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As férias de Cortázar em Porto Alegre

Nunca morei em outra cidade que não Porto Alegre. Ao longo de toda uma vida aqui, me acostumei com as variações térmicas – embora sempre preferindo que as temperaturas não subam. Mas nunca passei tanto calor como neste verão.

6 de fevereiro de 2014, 17h42min

6 de fevereiro de 2014, 17h42min

22 de julho de 2013, 18h38min

22 de julho de 2013, 18h38min

Lembram dos rumores sobre a presença de Júlio Cortázar em Curitiba? Pois as últimas informações dão conta que ele decidiu passar uma férias em Porto Alegre… Pois além do calor absurdo, vemos pessoas que há anos não vão ao colégio andando de ônibus escolar. Consequência da greve dos rodoviários iniciada há quase duas semanas, e que não termina pois as empresas não dão o aumento pedido alegando prejuízo decorrente do não aumento da tarifa – mas mesmo assim, elas não querem largar esse negócio, por que será?

Não bastasse isso, menos de dois meses antes do golpe de 1964 completar 50 anos, a cidade que uma década atrás se orgulhava de ser uma referência de democracia pode ganhar um bairro que homenageia um ditador. Essa, Cortázar não imaginaria e, se imaginasse, não escreveria, dada sua oposição ao autoritarismo.

Globo e ditadura: “mudou não mudando”

Ontem aconteceu algo histórico na história da imprensa brasileira. O jornal O Globo, principal veículo impresso das Organizações Globo, publicou em sua página na internet um “reconhecimento” de que o apoio editorial ao golpe de 1964 foi um erro – e o melhor, citando também outros jornais que fizeram o mesmo e hoje posam de “democratas”.

“Antes tarde do que nunca”, dizemos todos. De fato, é bom que a velha mídia, que se diz tão “imparcial”, não esconda a verdade de seus leitores. Pois imparcialidade não existe: qualquer narrativa sempre será feita a partir do ponto de vista de quem a escreve. Duas pessoas observando o mesmo fato poderão escrever relatos bem diferentes.

Porém, como diz o título, foi uma mudança aparente. Pois a Globo “reconhece o erro”, mas muito depois de quando deveria tê-lo feito (queria ver falar no “erro” 40 anos atrás). Como o texto publicado pelo jornal lembra, em 1984 um editorial assinado por Roberto Marinho exaltava os “avanços econômicos” em 20 anos de ditadura, e ainda dizia que as Organizações Globo tinham permanecidos fiéis aos objetivos “revolucionários” (sim, ainda consideravam o 1º de abril de 1964 como uma “revolução”), mesmo com eventuais divergências (até a Globo sofreu censura, é verdade, mas muitas vezes isso se deu lá dentro mesmo), e que o golpe ocorrera por “exigência do povo” (queria saber quantos votos foram dados em favor disso). Ou seja, ao longo de todo o período autoritário a Globo nunca deixou de apoiá-lo.

Sem contar que a Globo apenas “reconheceu o erro”, mas sequer pediu desculpas ao povo brasileiro por ter apoiado a longa noite da ditadura. Aliás, fez pior: justificou o “erro”, responsabilizado João Goulart pelo golpe por ele ter “radicalizado” a situação e ter tornado “necessária” a quartelada.

Ou seja, nada mudou em termos ideológicos. No fundo, é apenas uma tentativa de “limpar a imagem”, abalada pelos protestos de junho: um dos alvos dos manifestantes era justamente a Globo, cujos repórteres iam cobrir os atos com microfones sem a identificação da emissora, de modo a evitar hostilidades.

Por que a Comissão da Verdade é necessária

A “turma do pijama” não desistiu. Após a reprimenda de sua comandante-em-chefe, a presidenta Dilma Rousseff, militares da reserva voltaram a publicar um manifesto, desta vez não em nome dos clubes, mantendo as críticas ao governo. Até aí tudo bem, não fosse por um detalhe: cometeram um grave ato de insubordinação ao afirmarem não reconhecerem a autoridade do ministro da Defesa, Celso Amorim.

Isto é apenas mais um motivo que demonstra o quão necessária é a Comissão da Verdade no Brasil: para acabar com esta sensação de impunidade que se tem desde 1979, quando da promulgação da Lei da Anistia. Pois se oficialmente os militares deixaram o poder em 1985, o fizeram depois de terem “se protegido” com uma lei que impede punições por violações aos direitos humanos cometidas durante a ditadura militar. Tanto que é com base nesta mesma lei que hoje os reservistas berram contra qualquer intenção de se apurar responsabilidades para os crimes da ditadura.

Mesmo que a Comissão não tenha poderes para punir ninguém (afinal, para isso existe o Poder Judiciário), é fundamental que ao menos se possa “dar nome aos bois”, ou seja, afirmar publicamente que A ou B foram torturadores, violadores dos direitos humanos. E é contra isso que a “turma do pijama” se levanta: mesmo que não possam ser punidos judicialmente, a possibilidade de uma punição moral já os incomoda.

E para os tucanos que compraram o discurso da “turma do pijama” e ficam excitados com a insubordinação dos militares da reserva contra Dilma, uma dica: assistam ao vídeo abaixo, um curta-metragem sobre Rubens Paiva, desaparecido desde 1971. Tá lá o depoimento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: vão chamá-lo de “revanchista”? (Gostei muito também do que disse Plínio de Arruda Sampaio, que questiona o “espírito de corpo” dos militares, visto que não são as Forças Armadas o “alvo” da Comissão da Verdade, e sim, alguns militares que cometeram crimes contra o país que eles juraram defender.)

É hora de fazer valer a Constituição

Anteontem, o Sul 21 publicou um editorial que me deixou meio “sem palavras”. Pois a ideia do texto é exatamente a mesma que a minha: o comportamento dos clubes militares não é compatível com os valores que, em tese, são vigentes no Brasil desde a promulgação da atual Constituição Federal, em 1988.

O objetivo da nota dos clubes militares que gerou a polêmica parece ser claro: intimidar o governo no momento em que é iminente a nomeação dos membros da Comissão da Verdade, que investigará denúncias de violação dos direitos humanos entre 1946 e 1988, com foco no período da ditadura militar (1964-1985). (E olha que a Comissão ficou bem “meia-boca”, sem contar que em nove anos de governo petista ainda não houve grandes avanços em relação ao passado ditatorial do país: os arquivos da repressão continuam fechados, e não há disposição governamental em revisar a Lei da Anistia de 1979.)

Constitucionalmente, o(a) Presidente da República é comandante-em-chefe das Forças Armadas. Ou seja, Dilma Rousseff não deve satisfação nenhuma a militares de quaisquer patentes, tanto da ativa quanto da reserva. Pelo contrário, eles é que são subordinados a ela.

Como lembra o editorial do Sul 21, os militares têm todo o direito a opinar sobre os rumos do país, como qualquer cidadão brasileiro. Porém, devem fazê-lo individualmente, e não em nome de coletivos militares. A posição das Forças Armadas jamais pode ser outra que não a submissão à legalidade, à Constituição, como convém em um regime verdadeiramente democrático. E não cabe aos militares a interpretação das leis como bem entenderem: foi isso que fizeram os golpistas de 1964 – grupo que, vale lembrar, era também composto por civis.

Portanto, é de se esperar que Dilma não se deixe intimidar e faça valer a Constituição. Do contrário, o Brasil continuará refém de alguns militares que se acham no direito de ditar os rumos do país.

Não me surpreende nem um pouco

Ontem, foi denunciado que a página da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo tratava o golpe de 1964 como “revolução democrática”. Fui ver, estavam lá as palavras que nada têm a ver com o que aconteceu no Brasil em 1964. Para não acharem que estou inventando, vale a pena lembrar que isso virou notícia na Folha de São Paulo, que de “comunista” não tem nada.

A informação, que constava na cronologia da SSP, foi retirada da página. Mas com a desculpa do governo paulista de que “o texto relacionado ao ano de 1964 não reflete o pensamento da Secretaria de Segurança Pública”. Vou fazer de conta que acredito, depois de tudo o que temos visto recentemente por lá…

São Paulo é hoje o principal reduto do PSDB. O partido está no governo estadual desde 1995. Jovens de 16 anos que votarão pela primeira vez na próxima eleição, jamais viveram sob governo de outro partido no Estado.

Alguém pode achar que por conta disso, comparo os governos do PSDB em São Paulo à ditadura militar, mas está redondamente enganado. Tempo de governo não é pré-requisito para uma ditadura – embora todo regime autoritário que se preze busque se perpetuar. A intensidade da repressão me parece um “ditadômetro” melhor. A Argentina é um bom exemplo: lá o último regime militar durou apenas sete anos e meio (1976-1983); menos, portanto, do que o governo de Carlos Menem, presidente que ganhou duas eleições e ficou dez anos no poder (1989-1999). A diferença é que os governos militares (sim, foram vários ditadores em sete anos e meio) causaram a morte e/ou o desaparecimento de 30 mil pessoas.

Ou seja, é mais às atitudes dos governos, do que à sua duração, que devemos ser críticos. E no caso de São Paulo, é notório que o governo estadual trata a questão social como “caso de polícia”. Mais do que isso: é “caso de batalhão de choque”.

Nada muito diferente, portanto, da ditadura militar, que foi iniciada com a “revolução” até ontem exaltada na página da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Por isso não fiquei nem um pouco surpreso.

Carlos Lacerda, o comunista

Certos direitosos se contradizem muito facilmente. Como um tal de Antonio, que deixou um comentário com argumentação facilmente desmontável no texto de quarta-feira, procurando “justificar” o golpe de 1964.

Concordo com sua opinião. mas não esqueça que quem foi perseguido pela ditadura não queria democracia, mas sim uma ditadura comunista como as de Cuba, URSS, etc. Concordo também que os torturadores devem ser punidos. Os torturadores dos dois lados, pois no momento os guerrilheiros estão recebendo polpudas somas devido a terem sido “perseguidos”. Os criminosos de direita e de esquerda devem receber o mesmo tratamento, pois, do contrário, será apenas revanchismo e não democracia onde todos devem ser iguais perante a lei.

Aquele velho papo furado de que o golpe “impediu uma ditadura comunista” (que bela maneira de proteger a democracia, implantando uma ditadura…), de que “é preciso punir os dois lados” (como se ambos fossem equivalentes em força, e nenhum deles tivesse sofrido punição – ou querem coisa pior que tortura, execução e desaparecimentos?), revanchismo etc.

Mas o argumento mais tosco é o de que “quem foi perseguido pela ditadura queria uma ditadura comunista”. Pois bem: se é assim, isso quer dizer que Carlos Lacerda era comunista!

É, ele mesmo, um dos mais ferrenhos anticomunistas que o Brasil tinha nas décadas de 50 e 60. Carlos Lacerda chegou a ser comunista na juventude, mas depois “endireitou”, e foi um modelo perfeito para o famoso ditado “o pior reacionário é o esquerdista recalcado”. Dono do jornal “Tribuna da Imprensa” e líder da conservadora UDN, Lacerda apoiou abertamente o golpe de 1964, ocasião em que era governador do Estado da Guanabara (correspondente ao atual município do Rio de Janeiro).

Deposto João Goulart, era previsto que os militares ficariam no poder até 31 de janeiro de 1966, data em que se encerraria o mandato de Jango e seria empossado o presidente eleito em 3 de outubro de 1965. Dentre os cotados para vencer aquela eleição estavam Carlos Lacerda e o ex-presidente Juscelino Kubitschek.

Só que, como todos sabem, o regime militar não foi apenas “transitório”, e acabou apenas em 1985. E os planos de Lacerda para chegar à presidência foram por água abaixo.

Percebendo que fora “escanteado” pelos militares, Lacerda voltou-se contra a ditadura e uniu-se a seus antigos adversário Juscelino e Jango, formando a “Frente Ampla”. Obviamente o regime não deixou barato: em nome da “segurança nacional”, um dos maiores apoiadores do golpe que instaurara aquela ditadura teve seus direitos políticos cassados, e passou a sofrer perseguição política.

Carlos Lacerda faleceu em 1977, em circunstâncias bastante estranhas (estava internado em uma clínica devido a uma gripe comum, ou seja, nada de grave), levantando a hipótese de que teria sido assassinado pela ditadura.

Na semana do 47º aniversário do golpe de 1964, é preciso LEMBRAR!

Nesta semana, completam-se 47 anos do golpe militar de 1964. Os saudosos da ditadura irão celebrar a “revolução democrática” (se comportem, que no dia 25 de dezembro eu desço a chaminé com um saco cheio de presentes!), com discursinhos que não saíram dos anos 60 (e depois dizem que a esquerda acha que o Muro de Berlim continua de pé).

Já quem realmente defende a democracia, tem obrigação de lembrar que 47 anos atrás não houve revolução alguma, e tampouco democrática (como disse a presidenta Dilma três anos atrás, na democracia se deve falar a verdade): foi um golpe que instaurou uma ditadura de 21 anos em nosso país. Por isso, a importância de três eventos nesta semana, um presencial (em Porto Alegre) e dois na rede.

O presencial, é o seminário “Memória, Verdade e Justiça: as marcas das ditaduras do Cone Sul”, que ocorre quarta, quinta e sexta. A programação completa e os locais de cada atividade, o leitor encontra aqui.

Já na internet, teremos a retomada da campanha #desarquivandoBR, em defesa da abertura dos arquivos da ditadura (o fato dos reacionários seguirem celebrando 1964 é apenas um argumento a mais para que os documentos sejam liberados); assim como os dois dias em memória das vítimas da ditadura, com a proposta de retirarmos nossas imagens de perfil nas redes sociais – Orkut, Facebook, Twitter etc. – e substituí-las por um “nunca mais” nos dias 31 de março (quinta) e 1º de abril (sexta), ou seja, tanto quando a direita celebra a sua mentirosa “revolução democrática”, como no dia da consolidação do golpe – que, fazendo jus à data, instaurou o regime da mentira no Brasil.

Pobre Matemática…

Ano passado, em postagem sobre o 46º aniversário do golpe de 1964 (e por falar nisso, não esqueçam do 47º!), comentei que certos setores da direita brasileira eram tão golpistas, que sequer a Matemática, uma ciência exata, era poupada, como prova uma das “frases de ordem” dos reacionários de então em São Paulo: “trinta e dois mais trinta e quatro, é sessenta e quatro” – quando na verdade 64 é o dobro de 32, logo, 32 + 32 = 64 (ou, 32 x 2 = 64). A referência ao número “32” obviamente se devia ao levante paulista contra Getúlio Vargas, acontecido em 1932.

Porém, atacar a Matemática não é exclusividade da direita brasileira. Nos Estados Unidos, a deputada republicana Martha Roby, do Alabama, é autora de um bizarro projeto de lei: o texto determina o arredondamento do π (pi, que vale aproximadamente 3,14) para 3.

Alguém pode muito bem lembrar que o exato valor do π é desconhecido (tanto que falei que ele vale aproximadamente 3,14), logo, qualquer referência a seu valor será sempre um arredondamento. Assim como, nas aulas de Física no colégio, geralmente se faz o cálculo da força peso (relembrando a fórmula: P = mg), considerando “g” (aceleração da gravidade) como sendo igual a 10m/s², quando seu valor exato não é este – afinal, o mais importante na aula de Física no colégio é que se entenda o princípio, e não que se acerte com exatidão os cálculos matemáticos.

Ou seja, arredondar números para facilitar a vida dos estudantes – afinal, quanto mais algarismos depois da vírgula, pior fica – é bem diferente de determinar, por legislação, que o π valha 3. (E reparem que nem no colégio os professores de Matemática fazem tal arredondamento, costumam orientar os alunos para que usem 3,14: mesmo que seja complicado mexer com números de dezenas de algarismos depois da vírgula, é preciso ter alguma noção de cálculos que envolvam tal tipo de números.)

E, vamos combinar, será que a “nobre” deputada não tinha nada mais importante com que se preocupar?