11 anos depois

Charge do Kayser

Nada como um dia depois do outro…

Por 11 anos, ouvimos os nossos (de)formadores de opinião repetirem, quase como um mantra, que “o Olívio mandou a Ford embora do Rio Grande do Sul” – uma estratégia goebbeliana, de que “uma mentira contada cem vezes torna-se verdade”.

Tento imaginar tudo o que eles passarão a dizer diante da notícia de que a Ford terá de indenizar o Estado do Rio Grande do Sul em 130 milhões de reais por rompimento do contrato – ou seja, porque foi a empresa que não cumpriu com suas obrigações, e não o Estado. A Ford recorreu, é verdade, mas o principal discurso dos direitosos contra Olívio Dutra está detonado.

Vale lembrar que “mandar a Ford embora” na verdade era “renegociar o contrato”. Pois este, assinado durante o (des)governo de Antonio Britto, previa amplos incentivos fiscais à montadora, além de investimentos por parte do Estado para a instalação da fábrica em Guaíba. Olívio, que na campanha eleitoral de 1998 prometera renegociar contratos assinados pelo (des)governo Britto que fossem lesivos às finanças do Estado, tomou posse e logo caminhou nesta direção.

E olha que a proposta do governo não era de cortar absolutamente todos os benefícios à Ford (os incentivos fiscais já concedidos, da ordem de 3 bilhões de reais, não seriam contestados, assim como a empresa não teria de devolver o dinheiro já repassado a ela). Apenas deixava claro que não ia comprometer ainda mais as finanças do Estado, como aconteceria se Britto tivesse sido reeleito.

A proposta do Governo do Estado, publicada na capa do Correio do Povo, edição de 29/04/1999 (dia seguinte ao anúncio da Ford de que não se instalaria no RS)

Por favor: isso aí é “pedir para uma empresa ir embora”? Só se ela for extremamente gananciosa. Ou, se por acaso havia uma “boquinha” melhor, como de fato acontecia: a Bahia, apoiada pelo governo federal (à época, o presidente era Fernando Henrique Cardoso) oferecia amplos benefícios fiscais para que a Ford se instalasse em Camaçari. E com o apoio de boa parte da bancada gaúcha no Congresso Nacional – o lado direito, é claro…

Se Olívio estava tão empenhado em “mandar a Ford embora” devido a “razões ideológicas”, por que a GM também não deu adeus ao Rio Grande do Sul? Simples: seu contrato foi renegociado e assim sua fábrica está funcionando em Gravataí há 10 anos.

Porém, o “estrago” já estava feito. Principalmente por parte da RBS. Dia após dia, seus principais (de)formadores de opinião repetiam que “o Olívio havia mandado a Ford embora”, que isso “era uma tragédia”, que o Rio Grande do Sul “tinha perdido muitos empregos” etc. Mesmo que o governo preferisse dar apoio aos pequenos empresários do Estado em detrimento dos grandes (que não precisam desse apoio), assim como à agricultura familiar (que produz muito mais do que o “agronegócio”, tão exaltado pela “grande mídia”). Insuflou-se um antipetismo tão forte no Rio Grande do Sul, que por duas vezes consecutivas candidatos sem projeto algum “caíram de paraquedas” no governo do Estado: Germano Rigotto em 2002; e o exemplo mais absurdo, Yeda Crusius em 2006.

Sem dúvida, ambos venceram graças ao antipetismo. Em 2002, o preferido da velha direita era Britto, mas sua alta rejeição (que provavelmente resultaria em derrota para Tarso Genro no 2º turno) fez os votos direitosos migrarem para Rigotto, que só concorria para que o PMDB tivesse um candidato próprio (Britto deixara o partido em 2001 junto com vários de seus apoiadores, dentre eles José Fogaça, que ingressaram com ele no PPS). Já em 2006 a coisa foi mais bizarra: Rigotto era candidato à reeleição, mas o PMDB temia um segundo turno contra Olívio (o que inevitavelmente resultaria na comparação entre os governos de ambos); assim, muitos votos que seriam de Rigotto foram para a tucana Yeda (que assim como Rigotto em 2002 era “franco-atiradora” – o PSDB no Rio Grande do Sul não é nem a quarta força) para “tirar o Olívio do segundo turno” – e aí quem ficou de fora foi Rigotto e os direitosos tiveram de eleger Yeda, bem pior.

O resultado, é o que todos vêem: corrupção, atraso, polícia repressora (no governo Olívio era raro dar pancadaria com a Brigada)…

Em seu post sobre o assunto no Somos andando, a Cris pergunta se alguém indenizará o Estado pelas eleições de Rigotto e Yeda que se deram graças ao anti-petismo baseado no “argumento” de que “o Olívio mandou a Ford embora”. Quem deveria fazer isso (pois sabemos que não acontecerá) é uma resposta pra lá de barbada…

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Como a Zero Hora não daria um “tiro no pé” que seria não noticiar a decisão contra a Ford, o jornal publicou, é claro. Mas no começo da matéria eles já trataram de desqualificar a fonte (o Sul 21), dizendo que Vera Spolidoro, sua editora-chefe, é ligada ao PT – ou seja, “parcial”. Óbvio, pois na ótica deles a imprensa não pode dizer de que lado está, tem de ser imparcial, como a RBS.

A camisa que eu gostaria de ter

Uma camisa do Grêmio que eu gostaria muito de ter mas não comprei (se arrependimento matasse…), é o modelo que o time vestia na final da Copa do Brasil de 2001 – última grande conquista do Tricolor. E não é só por isso.

Aquele modelo, fabricado pela Kappa, não tinha nenhum anúncio publicitário. Nenhum! Exceto, claro, o logotipo da Kappa, mas não ocupava boa parte da camisa.

No início de 2001, o contrato do Grêmio (e também do Inter) com a General Motors expirou e não foi renovado, e em consequência disso os dois clubes ficaram sem patrocinador por um tempo. Foi com a camisa sem propaganda que o Grêmio conquistou o estadual e, duas semanas depois, a Copa do Brasil, jogando um belíssimo futebol. No segundo semestre, a dupla Gre-Nal assinou contrato de patrocínio com o Banrisul, e acabou-se a camisa sem publicidade.

Eduardo Galeano, em um genial texto sobre os anúncios publicitários nas camisas, definiu o jogador de futebol na atualidade como “um anúncio que joga” – o que explica as proibições das comemorações mostrando camisas personalizadas (independentemente de serem mensagens religiosas ou pacifistas): não se pode deixar de mostrar a marca do patrocinador na hora de comemorar o gol.

Me dei o direito de complementar a definição de Eduardo Galeano: o torcedor, em sua maioria, é um “anúncio que torce”. Afinal, ao comprarmos a camisa de nosso time, não mostramos apenas o orgulho que sentimos por torcer para ele: somos também obrigados a anunciar algum produto, alguma marca.

Talvez isso explique o motivo pelo qual camisas “retrô” – modelos que imitam as utilizadas no passado – fazem sucesso: a única marca que aparece é a do fornecedor esportivo, mas sem ocupar um grande espaço na camisa.

Porém, agora uma torcida terá o direito de “fazer propaganda” apenas de sua paixão: a do Racing. E mais: o clube argentino não está sem patrocinador, é que este, o Banco Hipotecario, decidiu não estampar sua marca na camisa do time, e sim, explorar outros espaços para publicidade, como mostra a postagem no Impedimento.

Quem sabe um dia esta ótima ideia chegue ao Brasil, e eu possa anunciar apenas a minha paixão pelo Grêmio, nada mais. Mas, claro, tomara que a fornecedora de material esportivo não “invente” bizarrices para estragar o manto sagrado