O dia dos absurdos

Ontem seria o dia em que veríamos o inimaginável. Apenas seria. Pois os congressistas estadunidenses chegaram a um acordo sobre o aumento do limite da dívida pública, e com isso os Estados Unidos evitaram o que seria o primeiro “calote” de sua história.

Mas ainda assim, aconteceu o que, pelo menos, era para ser inimaginável. Não nos Estados Unidos, mas sim aqui no Brasil.

O primeiro absurdo veio de São Paulo. Na Câmara Municipal da capital paulista, foi aprovado um projeto de lei que cria o “dia do orgulho hétero” (o que me dá vergonha de ser hétero). É isso mesmo. Pelo visto, somos nós, os heterossexuais, que somos discriminados… Resta agora torcer para que Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, vete o projeto cujo autor é seu colega de partido, Carlos Apolinário (DEM).

Só que este partido, democrata no nome, não o é na prática. E não só devido a esta excrescência do “dia do orgulho hétero”. Pois foi o DEM que entrou com uma ação na Justiça para proibir a exibição nos cinemas brasileiros do filme de terror A Serbian Film – Terror Sem Limites. Pura e simples censura, 26 anos após o fim da ditadura (e vale lembrar que este mesmo partido “defensor da democracia” surgiu de uma dissidência da velha ARENA, que apoiava o regime de exceção).

“Democracia” também faz parte do nome de outro partido, o PDT (Partido Democrático Trabalhista). Só que um político deste partido (o deputado federal Giovani Cherini) decidiu processar o músico Tonho Crocco por conta de uma letra que critica o absurdo aumento salarial que os deputados estaduais do Rio Grande do Sul concederam a si mesmos no final do ano passado (época em que Cherini ocupava uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado). Para ele, pelo visto, democracia vale só até terminar a apuração eleitoral: criticar deputado que quase dobra o próprio salário (enquanto eu não posso fazer o mesmo com o meu), vira “ofensa”.

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Atualização (04/08/2011, 22:20). Agora que lembrei: Gilberto Kassab não é mais do DEM, saiu para criar o tal de PSD…

Como saber se um prefeito pensa nos interesses da população ou das corporações

Em São Paulo, é barbada.

Um projeto de lei, aprovado na Câmara de Vereadores, proibiria a realização de eventos esportivos após as 23h15min. O objetivo era facilitar a vida dos torcedores, que durante a semana precisam acordar cedo e muitas vezes mofam em paradas de ônibus à espera da condução para retornarem a seus lares.

Porém, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) vetou. Para ele, a manutenção do horário daquela bosta de novela da Globo é mais importante que a comodidade da população…

Bicada de tucano é dolorida

Segunda-feira, aconteceu em São Paulo uma manifestação em frente à prefeitura da cidade, em protesto contra os alagamentos que persistem há três meses em partes da capital paulista.

Sim, três meses. Não falo dos transbordamentos do Rio Tietê, que sobe com as enxurradas e depois volta a seu nível normal. Há bairros da periferia paulistana que estão alagados desde novembro! Ou seja, antes das chuvas virarem pauta da “grande mídia” – que começou a falar do assunto apenas quando os carros passaram a ficarem presos em (ainda mais) congestionamentos gigantescos.

E o pior de tudo, é que os alagamentos na periferia não acontecem “por acaso”: para evitar que o Rio Tietê transborde e congestione as Marginais, fecham-se comportas de barragens, o que resulta em inundações nos bairros periféricos de São Paulo. Ou seja, além de não adiantar muito (já que o rio segue transbordando quando acontecem chuvaradas), trata-se de um evidente desprezo das autoridades pela população pobre.

Os manifestantes decidiram cobrar providências de seus (des)governantes, nada mais do que isso, em um protesto pacífico. Qual foi a resposta das “otoridades”? Porrada e spray de pimenta.

Qualquer semelhança com o Rio Grande do Sul, não é mera coincidência: afinal, tratam-se de dois Estados (des)governados pelo PSDB. E a prefeitura de São Paulo é do DEM, partido aliado dos tucanos.

Moral da história: dia 3 de outubro, cuidado para não votar errado.