O “mea culpa” que mais espero

Muito se cobra a esquerda (em especial o PT) para que faça uma autocrítica. Concordo tanto que inclusive gosto de lembrar que boa parte das pessoas que conheço de tal lado do espectro político já a fez. Eu mesmo venho fazendo há muito tempo.

Os governos de centro-esquerda do PT cometeram muitos erros, ainda que isso não apague seus acertos, que foram em muito maior número. Milhões de pessoas saíram da pobreza extrema (agora infelizmente estão voltando a ela por culpa de decisões tomadas nos últimos cinco anos) por conta de políticas de inclusão social promovidas pelas administrações petistas, foram abertas muitas universidades país afora, e na política externa o Brasil foi respeitado como poucas vezes em sua história (em compensação, agora…). Da mesma forma que as opiniões lamentáveis sobre política e a clara decadência do futebol do Grêmio nos últimos dois anos não me fazem querer “cancelar” Renato Portaluppi, que como jogador ganhou a Libertadores e o Mundial (com direito a marcar os dois golaços da vitória) em 1983; como treinador, tirou o clube de uma fila de 15 anos sem títulos de peso em 2016 ao vencer a Copa do Brasil, e em 2017 ganhou mais uma Libertadores, a terceira da história gremista. (Achei boa a saída, tanto para o próprio Renato como para o Grêmio.)

O “senso comum” associou o PT à “corrupção”, e considero um erro enorme que o partido não tenha agido com firmeza contra ela. Outro, tão grande e que teve o primeiro como uma de suas consequências, foi a política de alianças pela “governabilidade”, visto que era preciso ter uma forte base aliada no Congresso e a esquerda não tinha maioria. Foi ela que nos “legou” Michel Temer, ainda que isso não justifique a traição dele, que conspirou para virar presidente aliado a quem perdeu nas urnas em 2014.

Quem precisa ainda mais fazer autocrítica é a direita liberal – algo do que já falei aqui. Em especial, no tocante a algo que aconteceu há exatos cinco anos: a infame votação do impeachment na Câmara dos Deputados em 17 de abril de 2016, que mais adiante colocaria Temer na presidência. Foi um show de horrores digno de um livro de Stephen King. E que só aconteceu porque os derrotados de 2014 resolveram ganhar no “tapetão”, cansados de perder eleições.

Considerando a crise econômica na qual o Brasil estava entrando e o desgaste natural do PT após tanto tempo no governo, o mais provável é que, se não resolvessem tirar Dilma Rousseff na marra da presidência, em 2018 a oposição liderada pelo PSDB venceria com facilidade. Talvez com Aécio Neves (que quase ganhou em 2014), talvez com Geraldo Alckmin (com mais base eleitoral por ser de São Paulo). Jair Bolsonaro? Acredito que nem se candidataria: sem apoios de peso para sua candidatura, dificilmente abriria mão da mamata de ser deputado (desde 1991) sem fazer nada de útil pelo país.

Com a opção golpista, a direita liberal que a eleição de 2014 manteve na oposição passou a ser governo em 2016, sem votos. Virou também “vidraça”, levando as “pedradas” que o PT levaria sozinho até 2018 caso continuasse no comando do país. O resultado disso, somado à Operação Lava-Jato (que fez boa população da população achar que “político nenhum presta”), foi a eleição de Bolsonaro à presidência, que conseguiu engambelar uma penca de gente dizendo ser “contra tudo o que está aí” e com apoio (mesmo que em alguns casos só no segundo turno) de quem conspirou pela queda de Dilma pois, afinal, “PT nunca mais”. O PSDB, que se tivesse respeitado as regras provavelmente teria sido o vencedor de 2018, viu Alckmin não receber 5% dos votos após dois mandatos consecutivos como governador de São Paulo, ambos conquistados com vitórias em primeiro turno.

Quando se confirmou o que qualquer pessoa bem informada sabia – ou seja, que Bolsonaro não tinha a menor condição de governar o país – boa parte de quem o apoiou “contra o PT” começou a “tirar o corpo fora”, culpando a esquerda – e não seus votos equivocados – pela eleição do pior presidente da história do Brasil. E dê-lhe pedidos de “autocrítica” para quem tanto avisou em 2018 que, ora bolas, não era boa ideia colocar no Palácio do Planalto alguém que defende torturadores, agressões a homossexuais e salários menores a mulheres “pois engravidam”.

Desculpem, mas essa fatura não é nossa. Afinal, não fomos nós que digitamos “17” na urna eletrônica. (Aliás, dois algarismos que em sequência formam o placar daquele famoso Brasil x Alemanha: um bom sinal de que seria motivo de vergonha para o país, mas que nesse caso é bem maior pois na Copa do Mundo era só futebol.)

Este país que não é sério

Esses dias um amigo compartilhou no Facebook uma informação que me deixou indignado. Descobri que nós, cidadãos de bem, nos matamos trabalhando para sustentar um monte de vagabundo. Somos os palhaços desse circo chamado Brasil.

Por isso decidi que não quero mais saber de trabalhar. Afinal, posso viver numa boa por conta do governo comunista do PT, que dá Bolsa Família para tudo que é vagabundo, pelo resto da vida.

Terei muito tempo para fazer sexo loucamente, e assim minha mulher terá incontáveis filhos. Como sustentar essa prole toda? Basta entrar para o mundo do crime. Se o assalto der certo, ótimo, mas se der errado também: vou preso e aí receberei o Bolsa Bandido, que paga R$ 971,78 mensais por filho. Ou seja, minha família passará a ter uma baita renda mensal. Tudo isso sem trabalhar!

Enquanto estiver preso, não terei tempo de dizer à criançada para que fique longe das drogas. É capaz de começarem a fumar crack. Bom, aí terão direito ao Bolsa Crack: R$ 1.350,00 por mês. Multiplique isso por um número grande e pense na fortuna que minha família fará… Viva o PT!

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Se você está indignado, clique aqui. Aliás, devia é ter clicado nos links anteriores, onde entenderia que as coisas não são bem assim como dizem no Facebook.

O Bolsa Família é apenas assistência e não sustenta uma família: se alguém largou o emprego para receber o benefício, pode ter certeza de que essa pessoa trabalhava por um salário de fome. O auxílio-reclusão existe há mais de 50 anos e é previsto na Constituição de 1988, logo, não é “coisa do Lula”; ele é pago à família do preso, mas não é proporcional ao número de filhos e sim à contribuição do detento para o INSS (ou seja, o “vagabundo” precisa ter emprego com carteira assinada), e tem o objetivo de evitar que a família passe necessidades por não mais contar com a renda do sujeito foi para a cadeia (afinal, ela não tem culpa do crime que o cara cometeu). Já o Cartão Recomeço é do governo do Estado de São Paulo (desde 1995 nas mãos do PSDB) e só pode ser usado para o dependente de crack buscar tratamento em comunidades terapêuticas privadas (o que é alvo de críticas), sem possibilidade de se receber qualquer valor em dinheiro.

Agora, se você continua indignado e pretende deixar um comentário cheio de palavrões para me xingar… Pena é o que sinto.

Como seria o Brasil governado pelo PSDB

É um exercício de imaginação da Mari Moscou, mas baseado na experiência dela, cujo Estado (São Paulo) é governado há 16 anos* pelo PSDB.

No Brasil Governado por Serra e Alckmin…

… O governo continuaria comprando livros didáticos mas contrataria uma empresa privada que vende métodos de ensino para orientar as aulas. Por conta disso, tentaria se reeleger dizendo que gastou mais com educação.

… Os índices brasileiros da educação despencariam de vez e só seriam contratados professores e regime de trabalho temporário. Quando os professores exigissem melhores condições de trabalho, seriam massacrados pelo exército, exatamente como nos tempos da ditadura militar.

… O governo, com a desculpa de melhorar o nível da educação e dar instrumentos aos professores, faria um covênio sem concorrência com a Editora Abril para que as revistas de educação desta, como a “Nova Escola” fossem compradas em massa e enviadas a todos os estabelecimentos escolares. Outras revistas que o governo considerasse importante para a formação de recursos humanos no funcionalismo público também seriam compradas, como a Veja, tirando finalmente a Editora Abril da miséria. O mesmo aconteceria com jornais de grupos aliados como o Globo, o Estadão ou a Folha, que também evitariam sua falência.

… As universidades federais todas teriam suas contas transferidas a um banco privado com convênio com o governo (tipo o Santander) e todos os processos de pagamento teriam de ser feitos através deste banco, inclusive a compra de refeições nos restaurantes universitário (bandejões) que só poderia ser realizada depois de apresentado um comprovante de depósito EM CAIXA (envelope ou internet não valem) do valor a ser comprado em tickets ou inserido num cartão universitário chipado produzido por uma empresa privada em convênio com o governo.

E o trecho acima é apenas o começo dos absurdos – tem mais, muito mais…

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* 16 anos? Lembram que certos direitoscos falavam que Porto Alegre tinha virado “uma ditadura” porque o PT tinha passado 16 anos na prefeitura? E agora nada dizem sobre São Paulo… Em Porto Alegre sequer houve candidatura à reeleição de um prefeito petista – o único que tentou foi Raul Pont, derrotado nas prévias de 2000 por Tarso Genro.

Por que não votarei em Dilma no 1º turno

Em 2006, no 1º turno da eleição presidencial, votei em Cristóvam Buarque. Estava decepcionado com muita coisa no governo Lula: mensalão, liberação dos transgênicos, alianças espúrias… Tudo bem que por não ter a maioria no Congresso, o PT tivesse de ampliar seu leque de alianças para poder governar. Mas buscar apoio dos Sarney, com tudo o que eles fazem no Maranhão, convenhamos, é fisiologismo demais.

Decidi votar em Cristóvam por sua proposta de dar ampla prioridade à educação, que é o problema mais sério do Brasil – e dele decorrem outros. Instruir à população é resolver, numa tacada só, várias mazelas que afligem o país, como a violência e até mesmo os problemas de saúde pública (quem tem mais conhecimento fica menos doente por saber como se prevenir – o que ajuda a diminuir as filas para consultas médicas).

Mas, como todos se lembram, Cristóvam não foi para o 2º turno – o que era previsto. Sobraram Lula e Alckmin, e não tive a menor dúvida em votar no primeiro. Pois, se estava decepcionado com Lula, também não queria o PSDB de volta ao Palácio do Planalto, para quebrar o Brasil de novo como no governo FHC.

Quatro anos depois, novamente não pretendo dar meu voto ao PT no 1º turno. Além das alianças espúrias, que continuam a acontecer (Renan Calheiros, Sarneys, Collor…), há outros fatores que me levaram a tomar essa decisão.

O primeiro deles, é o modelo de desenvolvimento defendido pelo atual governo: apenas crescimento econômico, sem maciços investimentos em educação nem preocupação com o meio ambiente. Recentemente, Lula deu uma declaração de matar: “só não me peçam para vender menos carros”. Pois é, o país quase parando com tantos automóveis entupindo as ruas, e o presidente quer mais? Deveríamos é incentivar a produção de bicicletas, e não de carros.

E agora, temos o caso de Belo Monte – que está mais para “baita monstro”. A construção da usina hidrelétrica foi decidida sem ouvir quem será diretamente atingido por ela, ou seja, todas as pessoas que terão seus lares inundados e precisarão se mudar para outros lugares – o que nunca é algo simples como muitos pensam. E se há tanta demanda por energia elétrica, por que não investir em fontes alternativas e menos agressivas ao ambiente, como a solar (porra, a maioria esmagadora do território brasileiro fica na zona tropical!) e mesmo a eólica – pelo menos aqui no Rio Grande do Sul, o que não falta é vento, principalmente no litoral.

Outro motivo que me leva a não votar em Dilma Rousseff no 1º turno é a lamentável opinião dela (e do próprio governo Lula) sobre a tentativa de revisão da lei de anistia de 1979. Dilma acha que a anistia, do jeito que foi concedida, evita o “revanchismo”. Acreditem se quiser: ela foi barbaramente torturada durante a ditadura militar, e agora vem dizer que “justiça” é igual a “revanchismo”? Por favor…

“Revanchismo” seria torturar um torturador – ou seja, fazer ele sentir na pele o que é ser torturado – e o autor deste crime contra a humanidade não ser punido.

Sinceramente, acho que o fundamental nisso tudo nem é mais simplesmente colocar os torturadores atrás das grades – uma coisa é tirar a anistia deles, outra coisa é conseguir com que sejam condenados. O que eu quero é ter o direito de, caso faça uma pesquisa histórica e descubra que “fulano de tal” foi torturador, publicar o trabalho citando o nome do cara – e as fontes utilizadas – sem que ele possa me processar. Mas eu nem tenho como fazer algo assim e dizer “foda-se” para o risco de processo, pois o acesso aos arquivos da ditadura é simplesmente negado – Lula não manda abrir porque não quer.

Charge de 2004 do Kayser

Assim sendo, como votar na Dilma no 1º turno? Simplesmente não dá!

Ainda não estou bem decidido sobre quem receberá meu voto para presidente, mas já antecipo que não será José Serra, de jeito nenhum. Marina Silva, além de também concordar com a decisão do STF de manter a anistia aos torturadores (igual a Dilma e Serra), tem se manifestado contra o aborto e as pesquisas com células-tronco (como alguém que se define como “esquerda” pode defender ideias assim?) e seu partido, o PV, não tem coerência nenhuma. Até agora, só Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, se manifestou contrariamente à manutenção da anistia aos torturadores. Aguardo a publicação do programa de governo (e espero que o PSOL faça uma autocrítica quanto ao acontecido em 2008, quando aceitaram doações de grandes corporações para suas campanhas), mas cresce a pontuação de Plínio no meu “votômetro”.

Ele não tem chances? Azar. Cristóvam também não tinha em 2006.

Votar em Dilma, só no 2º turno, para evitar a volta do PSDB ao governo.

Além disso, a política brasileira não se resume a apenas estes dois partidos. E também é falaciosa a postura adotada por muitos militantes de ambos, de identificar o seu como “o bem absoluto” e o adversário como “o mal absoluto”. Embora haja diferenças entre os dois projetos, eles são muito mais parecidos do que os fanáticos pensam – o de Dilma é menos pior.

Aliás, para os que vêem o Brasil como só tendo duas opções, pouco me importando o lado, mando meu aviso: não me encham o saco.

Eles não desistem

Quer acompanhar como o Governo Federal está gastando o nosso dinheiro? Simples. Basta ver os dados que a Controladoria-Geral da União (CGU), órgão vinculado à própria Presidência da República, põe a disposição de qualquer um na internet. É o Portal da Transparência.

Aquelas malas da televisão querem te fazer acreditar que eles descobriram os gastos da ex-ministra Matilde Ribeiro com o cartão corporativo. Que eles fizeram um “brilhante trabalho investigativo” e tornaram público mais um escândalo do “governo mais corrupto da História do Brasil”.

Que mérito da mídia! Tornou público o que já é! E ainda faz parecer que foi graças a ela que a “ladra” Matilde Ribeiro deixou de ser ministra! Quando foi a própria CGU que convocou Matilde para dar explicações…

O que está muito claro, é que a mídia não desiste de tentar detonar o governo Lula. Que pode não ser dos meus sonhos – tanto que no 1º turno de 2006 votei no Cristóvam Buarque, e no 2º aí sim em Lula – mas é menos pior do que o anterior, que não sofria um décimo dos ataques que vem sofrendo o atual.

O maior partido de direita do Brasil não é o PSDB, nem o DEM. É a própria mídia. Quer provas disto? É só ver como pipocam escândalos nos últimos anos.

O primeiro foi o mensalão. A corrupção realmente aconteceu, mas o que se passou a ver diariamente foram os principais (de)formadores de opinião atacando incessantemente o governo, dizendo que era “mais corrupto que o governo Collor” . Algo que não víamos até 2002. E ainda por cima transformaram em “herói” Roberto Jefferson, que estava enterrado até o pescoço na lama, por ter feito a denúncia.

Pouco antes da eleição de 2006, apareceu o caso do dossiê com supostas denúncias contra candidatos do PSDB. Petistas teriam sido flagrados com um monte de dinheiro para comprar o tal dossiê. Deram um destaque maluco à foto do dinheiro que supostamente seria usado para a compra – uma “parede” montada para “sair bem na foto” – mas ninguém respondeu a uma pergunta que todos faziam: qual era o conteúdo do dossiê? Até hoje, ninguém disse.

A divulgação da foto do dinheiro só não teve um impacto maior porque no mesmo dia da “bombástica notícia”, aconteceu o acidente do vôo 1907 da Gol. Exatamente um mês depois, no 2º turno eleitoral, apesar de todos os ataques, o presidente Lula deu uma surra em Geraldo Alckmin (PSDB), e foi reeleito com mais de 60% dos votos válidos.

Coincidentemente (?), poucos dias depois começavam os atrasos nos aeroportos. Mais uma chance de bater no governo: era o “apagão aéreo”. Os noticiários davam destaque a idiotas que choravam na frente das câmeras porque o avião estava atrasado. O auge dos ataques aconteceu em julho do ano passado, com a tragédia do vôo 3054 da TAM. Alguns engomadinhos “cansaram” e criaram um movimento “cívico e apartidário”, que contou com apoio explícito de vários setores da mídia, pelos “direitos dos brasileiros”. Afinal, fora o presidente Lula que empurrara o Airbus para fora da pista de Congonhas.

O “Cansei” foi um fiasco. Mas obviamente eles não desistiram. Afinal, estão fora do governo há cinco anos. Isso é demais para quem estava acostumado a estar sempre lá.

Depois de passar uns tempos “na moita”, a mídia voltou à ativa no início de 2008. Primeiro com a “iminente epidemia” de febre amarela. Muita gente se assustou de tanto que falavam na TV que a febre amarela ia voltar, e se vacinou duas, três vezes seguidas. Obviamente houveram mortes por causa disso. Os efeitos da vacina acabaram sendo mais maléficos do que a própria doença. Óbvio que o culpado disso é o governo, é o que a mídia “livre e democrática” quer fazer com que muitos acreditem.

E agora, os cartões corporativos. A mídia fará de tudo para que haja CPI, para que a imagem do governo seja arranhada e finalmente a popularidade de Lula caia, já que todas as tentativas anteriores fracassaram. Querem ver Lula “sangrar” até 2010, pois se a eleição fosse hoje, até um poste seria eleito se tivesse o apoio do presidente. Sem contar que como escândalo vende jornal, é melhor eles “acontecerem um atrás do outro” até 2010 do que acabarem antes.