Gauchismo é complexo de vira-lata às avessas

Nelson Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-lata”, que definiria o Brasil enquanto povo: por melhor que fosse, “tremeria” em momentos decisivos (sendo a derrota na decisão da Copa do Mundo de 1950 o maior exemplo disso). Seria essa a explicação para o “atraso” do Brasil em comparação com os Estados Unidos e países da Europa Ocidental.

Passaram-se mais de 60 anos e obviamente o Brasil não é mais o mesmo país “atrasado” daquela época, embora ainda haja muito a se fazer para que ele seja realmente justo (por mais que tenha melhorado nos últimos tempos). Mas, ainda assim o complexo de vira-lata persiste, e não falta quem encha a boca para falar dos problemas do Brasil como se eles fossem exclusividade brasileira. E não, definitivamente não são. Por exemplo, reclamamos (com razão) de sermos transportados “feito sardinhas em lata” no transporte público nos horários de pico, mas se trocássemos as sardinhas em lata por cidadãos de Tóquio, não deixaríamos de estar certos.

Já no Rio Grande do Sul, acontece um fenômeno aparentemente contrário. O tal “orgulho gaúcho”, presente o ano inteiro mas que tem ainda mais força em setembro, se alimenta de diversos mitos como, por exemplo, o de que “somos o povo mais politizado do Brasil”: uma olhadinha na lista de governadores derrubaria rapidamente essa lenda (basta lembrar quem governou o Rio Grande do Sul de 2007 a 2010 e o porquê disso); e além disso, as últimas pesquisas eleitorais mostram oportunistas (cujas histórias políticas se resumem a “aparecer na televisão”) ponteando as disputas ao governo estadual e ao Senado, quando um povo realmente politizado não lhes daria sequer 1% dos votos. Também adoramos nos gabar dizendo que “defendemos com bravura as fronteiras meridionais”, como se guerra para defender o Brasil de “invasores estrangeiros” fosse “privilégio” do Rio Grande do Sul. (Ao contrário do que sugere o chamado Grito do Ipiranga, o processo de emancipação política do Brasil em relação à Portugal não foi pacífico, e muito sangue foi derramado em diversas partes do país – em especial, na Bahia – para que a unidade territorial brasileira fosse mantida.)

Mas em geral, quem mora no Rio Grande do Sul acredita em tais mitos. E mais: reclama de um suposto pouco reconhecimento pelo restante dos brasileiros. “Somos os melhores, fazemos tanto pelo Brasil, e eles insistem em não reconhecer”, bradam em discursos inflamados.

No fundo, trata-se do complexo de vira-lata com uma aparência diferente. É como uma camiseta virada do lado avesso: você pode vesti-la e dizer que é outra, mas sabe que se trata da mesma.

Afinal, o Rio Grande do Sul como parte do Brasil que é, obviamente não ficaria imune ao “vira-latismo” que supostamente caracteriza o povo brasileiro. Mas, com a absurda mania que temos de querermos mostrar que somos tão “diferentes”, manifestamos nosso complexo de vira-latas de maneira também diferente: batendo no peito e gritando que “somos os melhores”. Pois da mesma maneira que o Brasil nas últimas décadas sempre buscou ser reconhecido como um “equivalente” pelos países considerados “mais importantes”, o Rio Grande do Sul pleiteia o mesmo em relação ao centro do país. O discurso é diferente, mas o objetivo é exatamente igual.

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O que me dá vergonha de ser gaúcho

Espaços para comentários sem moderação, principalmente em matérias da “grande imprensa”, têm uma incrível tendência à baixaria e a demonstrações das piores características de quem comenta. É assim em textos sobre política, cultura, e principalmente, sobre futebol.

Pois bem: hoje, o Esporte Espetacular apresentou uma reportagem sobre o famoso jogo entre a Seleção Gaúcha e a Seleção Brasileira, realizado no Beira-Rio em 17 de junho de 1972. Tem algumas coisas bem interessantes na matéria: a Globo chamou jogadores que disputaram a partida, como Paulo Cesar Caju, Rivellino e Claudiomiro; também apresentou algumas imagens do jogo. Porém, senti muita falta de outras, como uma melhor análise do contexto da época (não só futebolístico, como também político): como não estava com vontade de escrever tudo de novo, recomendo o texto que escrevi logo após o 40º aniversário da partida.

Mas, se a matéria tem seus problemas, terrível mesmo é ler os comentários sobre ela. Um texto lembrando um jogo que se fosse proposto nos dias de hoje (desde então nunca mais a Seleção Brasileira enfrentou algum combinado estadual), pareceria ideia de O Bairrista, só podia resultar em… Bairrismo explícito nos comentários.

Aliás, antes fosse simplesmente bairrismo. Na citada matéria, um dos raros comentaristas sensatos disse que a overdose de comentários “gauchamente orgulhosos” fazia ele sentir vergonha de ser gaúcho. Resultado: os “gaúchos melhores em tudo” começaram a xingá-lo e dizer que ele deveria “ir embora” do Rio Grande do Sul.

A verdade é que o tal de “orgulho gaúcho”, alicerçado na crença absurda de que somos “os melhores em tudo”, já começa a ser mais do que bairrismo, se tornando ufanista e mesmo xenófobo. Não por acaso, para muitos que compartilham dessa visão (e que inclusive comentaram na reportagem da qual falei) o Rio Grande do Sul deveria ser um país independente, por ser “tão diferente” (leia-se “tão melhor em tudo”). Como se a principal característica do Brasil não fosse justamente a diversidade, ainda mais por suas dimensões continentais.

E a chuva de “vai embora” pro cara que criticou o bairrismo e disse ter ficado com vergonha de ser gaúcho me fez lembrar da famosa frase ufanista “Brasil: ame-o ou deixe-o”, dos tempos da ditadura militar: qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de história sabe que o “amor pelo Brasil” na expressão correspondia, na verdade, a não criticar o regime. Quem o fazia, era “traidor da pátria” – assim como os que criticam o bairrismo exagerado viram também “traidores”.

Alguém pode argumentar que o “orgulho gaúcho” é muito diferente do “Brasil: ame-o ou deixe-o”, por não ter um regime autoritário por trás. Porém, há uma certa imprensa (que inclusive apoiava a ditadura militar) o insuflando, ao transformar gaúchos em referências sobre qualquer acontecimento no mundo – mesmo que na hora ele esteja a mais de mil quilômetros de onde o fato ocorre. Pois ver um naufrágio na costa da Itália ser transformado em “drama gaúcho” é de se finar de rir (e certamente tem muita gente rindo de nós por conta disso), mas há quem leve isso muito a sério e realmente acredite que o Rio Grande do Sul é o centro do universo.

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Atualização (07/08/2012, 23:07). O leitor Causlos deixou um comentário que corrige uma informação errada – a correção virou novo post.