AGUANTE CELESTE!

Já se passaram três dias, mas eu não podia deixar de escrever sobre isso. O Uruguai, que começou tão desacreditado, já está entre as oito melhores seleções da Copa!

Algo que para o Brasil, é até pouco (afinal, anormal é a Seleção não ficar entre os oito primeiros: só aconteceu em 1934, 1966 e 1990). Já para o Uruguai, que ganhou duas Copas do Mundo, mas desde 1970 não chegava às quartas-de-final, é algo acima das expectativas.

Depois da bela campanha de 1970 (quando a Celeste acabou em 4º lugar), antes de 2010 o Uruguai só havia participado de quatro das nove Copas disputadas (1974, 1986, 1990 e 2002), e vencido uma mísera partida, 1 a 0 contra a Coreia do Sul em 1990 (quando o futebol coreano não existia), gol marcado por Daniel Fonseca no último minuto de jogo. Além disso, no âmbito clubístico o futebol uruguaio também declinou acentuadamente nos últimos tempos: para se ter uma ideia, ao chegar à semifinal da Libertadores do ano passado, o Nacional quebrou um tabu que durava desde 1989, última ocasião em que um clube do Uruguai havia alcançado tal fase.

Assim, é mais fácil compreender porque a campanha do Uruguai na África do Sul já é histórica mesmo que venha a acabar na próxima sexta diante de Gana (aliás, êta jogo para me deixar dividido, visto que também gostaria muito de ver uma seleção africana na semifinal). É o resgate da auto-estima de um futebol com tantas glórias, mas que há tanto tempo não chega perto de alguma grande conquista – a última taça da Celeste foi a Copa América de 1995, disputada no próprio Uruguai. Mesmo não conquistando a Copa, ao menos os uruguaios poderão voltar a dizer sí, se puede.

O que me deixa bastante feliz, por conta do grande carinho que nutro pelo país vizinho. É do Uruguai uma parte de minha própria origem: minha avó paterna, Luciana, é filha de uruguaios, nascida na zona rural de Santa Vitória do Palmar. Durante boa parte da infância, só falou espanhol (e ainda hoje, aos 88 anos de idade, conserva alguns traços do idioma na sua fala). Em 16 de julho de 1950, torceu pelo Brasil, assim como os irmãos, junto ao rádio. Já a mãe dela, minha bisavó, em silêncio desejou a vitória uruguaia.

E ao final, foi a minha bisavó que dançou e cantou, feliz da vida: ¡Viva el Uruguay! E todos celebraram juntos. O mesmo futebol que “separou” mãe e filhos durante 90 minutos por conta deles terem nascido “um pouco para cá” de uma linha imaginada, acabou por “uni-los” novamente, e deixando a todos felizes.

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A força do Grêmio é brasileira

Esses dias, li no Grêmio Pegador uma interessante opinião acerca do comportamento de parte da torcida do Grêmio durante a execução do Hino Nacional, antes do jogo contra o Avaí no Olímpico, no último dia 14.

Algumas coisas são mais difíceis de entender no comportamento dos gremistas mais jovens. Além das injustas famas de nazistas, elitistas, racistas e marginais que já temos, parece que agora queremos também a fama de separatistas. Qual a razão de cantar o Hino Riograndense durante a execução do Hino Nacional? Mais absurdo ainda isso fica quando durante a execução do ‘nosso Hino’, a torcida canta qualquer outra coisa. Por quê? Não consegui entender ainda. A faixa onde se lê a inscrição ‘República Riograndense’ também é algo que vem me preocupando. Qualquer gaúcho tem o direito de querer ser o que quiser, até mesmo de querer ser independente do Brasil, mas a colocação daquela faixa ali naquele lugar, dentro da casa do Grêmio, com as cores do Grêmio, deixa muito clara a imagem de que esse não é apenas um pensamento dos torcedores, mas também do clube. E eu sei que o Grêmio não pensa assim.

Isso é algo que também vem me preocupando. E vai muito além da questão política e mesmo constitucional (o Artigo 1º da Constituição Federal de 1988 veta qualquer possibilidade de secessão ao estabelecer a República Federativa do Brasil como “formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal”). Falta é mais conhecimento para o pessoal, até mesmo da própria história do Grêmio (e do time atual mesmo: quantos titulares nasceram no Rio Grande do Sul?).

Engana-se quem pensa que somos “muito diferentes do Brasil”. Basta uma rápida examinada no mapa: como poderia um país tão grande ter, em toda a parte, as mesmas características? Ou alguém acha que, por exemplo, catarinenses e amapaenses são exatamente iguais?

Aliás, mesmo dentro do Rio Grande do Sul, são todos tão “iguais” assim? A famosa divisão entre sul e norte, por acaso é ficção? Acredito que não, visto que não raro aparece alguém propondo a realização de plebiscito para transformar o sul do Rio Grande em um novo Estado.

O que o Brasil tem de melhor é justamente a sua grande diversidade. A possibilidade de interação entre pessoas diferentes, de culturas e lugares tão variados, sem nenhuma fronteira para atrapalhar. Não são muitos os países onde isso é possível. (E pergunto aos que pregam a separação, se gostariam de precisar passar por uma aduana sempre que quisessem ir a Santa Catarina ou ao Nordeste no verão. Pois parece que achariam bom…)

E mesmo com tantas diferenças, temos muitas coisas em comum – que vão além da língua portuguesa e do gosto pelo futebol (que nem é exclusividade brasileira). Dizem que o símbolo maior de nacionalidade no Brasil é a Seleção, mas eu discordo totalmente: em agosto de 1998, passei uma semana no Uruguai (era a primeira vez que viajava para o exterior) e na volta, estava sedento por feijão, prato que não comi nem vi no país vizinho – e tive então verdadeira consciência de minha brasilidade. Afinal, há alguma comida mais brasileira do que feijão? E uma boa feijoada então?

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Quanto ao que falei sobre o Grêmio e sua força: lembremos aquele timaço de 1995, campeão da Libertadores. Dos onze titulares, apenas quatro eram do Rio Grande do Sul: Danrlei, Roger, Arílson e Carlos Miguel.

Além dos paraguaios Arce e Rivarola, havia cinco brasileiros de fora do Rio Grande do Sul em campo: Adílson (paranaense), Dinho (sergipano), Luís Carlos Goiano (preciso dizer de onde ele é?), Paulo Nunes (goiano) e Jardel (cearense). Como só se pode escalar três estrangeiros, dos sete que são de “outros países”, quais os três que os “separatistas” escolheriam?