Um sonho de verão

Final da tarde de sábado em Porto Alegre. Olho para a rua: chuva fina com vento. No rádio, o locutor anuncia a temperatura: 10 graus. Tempo ideal para comer um fondue de queijo, penso, e ligo para os amigos para fazer a irrecusável proposta. Me visto, e vou ao supermercado comprar os ingredientes.

Além do próprio queijo para fondue, gosto de incrementar a receita com o sempre delicioso gorgonzola. Fico na dúvida entre comprar ou não provolone, e então lembro que ele é bem complicado de derreter. Melhor deixar de fora.

Confiro a lista, falta pegar o vinho branco para adicionar à mistura; já tenho em casa o dente de alho para passar na panela. Antes de passar no caixa, olho para a prateleira e vejo uma goiabada que pede para ser comprada: se queijo com goiabada é um par digno de receber o apelido “Romeu e Julieta”, mergulhar o doce no fondue me parece ser o casamento do século. Nem penso mais vezes, e a goiabada já está no meu cestinho.

Pago as compras, e vou para casa. No caminho, me sinto extremamente feliz pelo momento vivido. Ao contrário do que insistem em dizer, não é o calor, mas sim a ausência dele, que me traz a plenitude da vida.

Quando chego à porta do prédio, começo a escutar sons estranhos. Um zumbido persistente, acompanhado de um sinal intermitente. Entro no elevador, e à medida que ele sobe, a intensidade do barulho aumenta. Saio, e à porta do apartamento, o ruído é ensurdecedor, tapo os ouvidos para me proteger.

Então percebo que estou na minha cama. Toco na função “soneca” do despertador, para dormir mais alguns minutos, mas faço isso várias vezes. Depois de um tempo, finalmente levanto, e desligo o ar condicionado, silenciando seu zumbido. Ligo o rádio, o locutor anuncia a temperatura daquela manhã de segunda-feira: 26 graus. Em seguida, o homem do tempo diz que à tarde pode chegar aos 40.

No caminho para o trabalho, fico na dúvida entre tomar sorvete ou água gelada para encarar a caminhada. E me pergunto se existe inverno em Porto Alegre.

O Banheiro do Papa manda lembranças

O fato foi notícia anteontem. Das várias cidades do Rio Grande do Sul que investiram na expectativa de serem CTs de seleções na Copa do Mundo, só uma foi escolhida: Viamão, que receberá o Equador.

Quem acompanha o Cão há mais tempo, já lera em 2011: a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 têm tudo para resultar em vários “Banheiros do Papa” pelo Brasil. No caso do Rio Grande do Sul, como vimos, já “é uma realidade”, pois da mesma forma que a passagem do papa João Paulo II por Melo (Uruguai) gerou uma enorme e frustrada expectativa entre os habitantes da cidade, o Estado apostou em “atrativos” que uma análise racional mostraria serem inexpressivos: colonização alemã e italiana, clima e “platinos”.

A “natural” atração de Alemanha e Itália por conta das colônias alemã e italiana no Rio Grande do Sul, qualquer um com mais conhecimento perceberia ser uma furada. Primeiro, porque alemães e italianos não vieram apenas para o Estado: a colônia germânica é muito grande também em Santa Catarina (a maior Oktoberfest do mundo fora da Alemanha é a de Blumenau); e não faltam descendentes de italianos em São Paulo, de localização muito mais central, o que facilita os deslocamentos pelo Brasil. E outra: de forma geral, alemães e italianos não se identificam com seus descendentes por aqui – ou seja, exatamente o contrário do que acontece com teuto-brasileiros e ítalo-brasileiros em relação a Alemanha e Itália.

O clima mais frio também seria um “atrativo” para as seleções fugirem do calor excessivo. Porém, é importante lembrar que a maior parte dos jogos acontecerá em cidades quentes; as duas sedes mais frias são Curitiba e Porto Alegre: a primeira só terá partidas da primeira fase, e a segunda “se despede” nas oitavas-de-final. Ou seja, faz muito mais sentido “se hospedar” no centro do país, especialmente em São Paulo e arredores, onde na época o tempo é mais ameno – nem tão quente, nem tão frio – e também pela facilidade de ir tanto a Manaus (calor muito forte e úmido) como a Porto Alegre (inverno). Sem contar outro detalhe: as cidades litorâneas e quentes são mais atrativas a turistas europeus que pretendam vir por conta da Copa, visto que em boa parte de seus países faz frio durante a maior parte do ano.

Outra aposta furada era quanto à grande presença de argentinos e uruguaios no Rio Grande do Sul, devido à proximidade. Porém, havia um detalhe que poucos levavam em conta: as cidades onde cada seleção joga (exceto o Brasil) são definidas por sorteio, e nenhuma delas disputa mais de uma partida da primeira fase no mesmo lugar. Assim, desde que Argentina e Uruguai foram definidas como cabeças-de-chave, já se podia antecipar que só uma delas poderia jogar em Porto Alegre, para isso precisando ficar no grupo F. O sorteio nos brindou com um Argentina x Nigéria, mas também poderia ter deixado os platinos longe do Estado. E não podemos esquecer de algo: a proximidade entre Buenos Aires e Porto Alegre facilitará a vinda de argentinos para o jogo, mas também a volta… Não convém apostar muito neles quanto a benefícios monetários.

E de qualquer maneira, mesmo que os “atrativos” do Rio Grande do Sul fossem sem aspas, não se podia deixar de levar em conta a conjunção de dois fatores: organização e geografia. Até 1994, a distribuição das cidades-sede se dava por grupos, e assim as seleções de cada chave jogariam apenas em duas ou três cidades. Em 1998 isso mudou: os seis jogos de cada grupo passaram a acontecer em seis cidades diferentes, fazendo com que as seleções viajassem bastante pelo país-sede. Até 2010 não havia problemas, pois as distâncias não eram tão grandes; agora, num país enorme e de climas variados, e com jogos acontecendo em várias partes do vasto território, a coisa complicou. Imaginem uma seleção se hospedando no Rio Grande do Sul e precisando ir jogar em Manaus: isso significaria não apenas sair de um possível frio intenso para um calor sufocante, como também uma viagem bastante demorada, o que torna muito mais lógico a opção por concentrações em pontos mais centrais do Brasil.

Quanto à opção do Equador por se hospedar no Rio Grande do Sul, provavelmente tenha sido mais barata em comparação com outros Estados mais centrais. E a tabela também ajudou: os equatorianos não jogarão em Porto Alegre, mas sim em cidades acessíveis sem necessidade de viagens demoradas (Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro). Ou seja, Viamão também teve sorte.

A guerra civil facebookeana

Gremistas x colorados. Petistas x anti-petistas. Adoradores do frio x adoradores do calor. Sedentários x atletas. Contestadores x conformados. Há mais vários “conflitos”, e um nessa época em especial: anti-Natal x fãs do Natal.

Durante os protestos de junho, alguns manifestantes levaram cartazes dizendo: “saímos do Facebook”. E, pelo que se via, parecia que realmente as redes sociais tinham ido às ruas. Mas não por inteiro.

No dia em que todos os brasileiros do Facebook resolverem ir às ruas, das duas, uma: ou teremos uma guerra civil extremamente sangrenta (e poucos restarão para contar a história); ou talvez ela não aconteça pelo simples fato de que, com tantos rótulos, ninguém saberá por que e contra quem lutar.

Quando a Lua triunfar sobre o Sol

89 dias atrás, era 23 de setembro. Início da primavera mas ainda com cara de inverno, vestíamos casacos. Parece que foi ontem.

Agora, é 21 de dezembro, começa o verão. Mas, dentro de 89 dias, será 20 de março. Parece que é amanhã. Então, o outono é logo ali, e não demorará tanto para, enfim, as noites serem mais longas e a Lua triunfar sobre o Sol.

Aliás, o que seria da poesia se não existissem as noites e a Lua?

Ele voltará

A primavera é a estação das flores, e não é possível negar que tem sua beleza. O mês de setembro é marcado pelo espetáculo de ipês roxos e amarelos; em outubro é a vez dos jacarandás embelezarem a cidade com seu florescimento.

Sinceramente, a primavera podia muito bem durar seis meses, começando agora e só terminando em março. Assim, seria seguida pelo outono, que também tem sua beleza; depois viria o inverno, no qual as folhas velhas cairiam e seriam substituídas por flores em uma nova primavera. Dessa forma nos livraríamos do verão, que em Porto Alegre sabe como ser insuportável.

Mas como não tem jeito, o negócio é curtir as primeiras semanas de primavera, que ainda têm temperaturas agradáveis e também nos enchem os olhos. Em geral, o tempo é bom (leia-se “não é Forno Alegre”) até o final de outubro, algumas vezes ainda em novembro e muito raramente em dezembro. Depois, é penar* e contar os dias para o retorno do outono.

Porto Alegre, maio de 2013

Porto Alegre, maio de 2013

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* Falar em praia e férias não vale: não é qualquer um que pode se dar ao luxo de passar mais de três meses “de papo pro ar”, longe da cidade…

O verão não me representa

O pior é que recém estamos em setembro...

O pior é que recém estamos em setembro…

Tirei a foto pouco depois das 6 horas da tarde da “invernal” quinta-feira – mesmo horário de outra que bati em 22 de julho, quando o tempo era bastante diferente. Bem mais, digamos, representativo de minha pessoa

Ao menos a umidade estava bem baixa, pelo visto. Minha pele estava seca. Um calor menos pior que aquele registrado lá por janeiro e fevereiro, quando é possível tomar um banho de suor com a mesma temperatura e umidade do ar em torno dos 500%.

Mas, ainda assim, calor que faz esquecer que ainda estamos no inverno e parecer que é verão – que, como já disse, não me representa. Além do suplício que é andar na rua vestindo calça comprida (aliás, vestindo qualquer coisa) com altas temperaturas, detesto a “obrigação de ser feliz” associada a dias ensolarados e quentes – e a noites igualmente quentes, embora sem sol. Não é por desejar a infelicidade humana, mas sim, por abominar imposições sociais.

Dias frios e cinzentos são convidativos a ficar em casa, à introspecção. Óbvio que também gosto de estar na rua, e prefiro fazê-lo nos dias frios – quando o Sol não me parece aquela bola de fogo que quer me queimar até a morte. Mas não me sinto um “fracassado” quando fico em casa num sábado à noite – ao contrário de muitas pessoas. Relembrando o que escrevi em julho:

Porém, muitas pessoas parecem não gostar de estar consigo mesmas, ainda mais que vivem nos dizendo que devemos sempre “curtir a vida adoidado”, sem tempo para pensamento e autocrítica. O resultado é: querem sempre estar rodeadas de muita gente, pois de tanto ouvirem que o contrário significa o “fracasso social” elas não suportam a si mesmas.

Digamos que isso não tem a ver apenas com o clima, é óbvio. Há várias partes do Brasil onde “inverno” é apenas uma palavra no dicionário – ou representa a estação chuvosa (ou seja, mesmo sem frio, tem menos sol). Mas a publicidade que vemos ser veiculada nacionalmente sempre vincula “verão” com “festa” – então, vamos “curtir”! Ou seja, fazer o que todo mundo faz, única e exclusivamente porque… Todo mundo faz.

Claro que também há o “efeito manada” no inverno – leia-se “ir ver a neve em Gramado”. Mas, como disse, o que me atrai no inverno é justamente a maior facilidade em se quebrar o padrão de que devemos estar sempre “nos divertindo” de uma determinada forma, como se não fosse possível ser feliz de outras maneiras.

Inclusive, já disse certa vez que a “estação-padrão” de Porto Alegre deveria ser o outono, mas a preferência pelo inverno se explica pelo simples fato dele “fazer oposição” ao verão – que, por sua vez, representa o oposto do que sou. Não quero saber de “solaço” e badalação, prefiro ver a Lua bebendo tranquilamente uma taça de vinho.

O inverno me representa

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Basta fazer uns dias frios, que começa a reclamação nas redes sociais. “Ah, não aguento mais esse inverno, que chegue logo o verão”, diz muita gente que chega a parecer que não tem um teto para se abrigar, nem roupas para vestir.

Sim, pois adoro frio, mas não sou idiota de não reconhecer que para os mais pobres o inverno é uma época muito complicada. E, aliás, me chama a atenção que certas pessoas que já vi e ouvi destilando ódio contra pobres resolvem nessa época declarar solidariedade com eles no discurso; parece mais uma desculpa para reclamar do frio mesmo tendo recursos para se proteger dele, mas não deixo de ter a esperança que tais pessoas se tornem mais solidárias. Porém, provavelmente a maioria prefira um “meio termo”, pois quero ver alguém conseguir dormir em uma noite abafada sem nada para refrescar (quem passou o último Natal em Forno Alegre sabe do que falo). Aliás, opções que invariavelmente resultam em gasto de energia: no inverno nunca ligo ar condicionado já que não acho necessário, mas para os mais friorentos certamente ele é uma necessidade hoje; só que tenho certeza de que o aparelho não será ligado no inverno o mesmo número de vezes que no verão (ainda mais que, como temos mania de imitar europeu e achamos “inadequado” trabalhar de bermuda, só com ar condicionado para suportar o calor).

Porém, minha preferência pelo inverno vai além do conforto térmico. É algo que, pela minha personalidade, é até natural.

O inverno faz com que o lar seja um lugar mais convidativo. Obviamente gosto de estar na rua (e acho muito melhor sair no frio do que no calor), mas não vejo problema algum de estar em casa num sábado à noite, enquanto muitos estão em “baladas” (aliás, repare que “badalação” e “verão” literalmente rimam). Não consigo ver sentido em não gostar de estar no lugar onde moro.

Ao fazer as pessoas ficarem mais em casa, o inverno também as convida à introspecção. No lar, mesmo que não se more só, nem sempre se está em contato com pessoas diferentes daquelas com as quais se convive rotineiramente, e assim não há a necessidade de falar o tempo todo, o que em geral se faz em encontros com os amigos – a conversa não acontece apenas para trocar ideias, mas também porque são pessoas com as quais se gosta de estar e que horas depois já não estarão próximas. Estar só (seja em casa ou apenas em uma peça) significa desfrutar de si mesmo como companhia; ou seja, vejo como uma excelente oportunidade de conversar comigo mesmo, de promover um “debate” entre os diversos “eus”, que divergem muito entre si, mas promovem uma discussão respeitosa e de alto nível, visto que o objetivo deles é a união em torno das concordâncias (principalmente para discutir com os reaças) e não a destruição mútua.

Sinceramente, adoro minha própria companhia. Porém, muitas pessoas parecem não gostar de estar consigo mesmas, ainda mais que vivem nos dizendo que devemos sempre “curtir a vida adoidado”, sem tempo para pensamento e autocrítica. O resultado é: querem sempre estar rodeadas de muita gente, pois de tanto ouvirem que o contrário significa o “fracasso social” elas não suportam a si mesmas.

Óbvio que também existem opções de “badalação” durante o inverno, o frio não acaba com a vida (se até na Sibéria as pessoas andam na rua com -51°C…). Mas no verão isso é muito mais estimulado. É praticamente uma “obrigação” estar na praia (mesmo que isso signifique passar horas em congestionamentos), ir para as “baladas” e “causar muito”. Acho o litoral uma região agradável já que além de ser menos quente, o mar é incontestavelmente belo; mas não faz o menor sentido ir para lá apenas porque “todo mundo vai”.

Resumindo: o verão representa o contrário do que sou. O inverno é o oposto do verão. E por isso, o inverno me representa.

Banho no Largo Glênio Peres

Ontem à noite, o candidato do PT à prefeitura de Porto Alegre, Adão Villaverde, realizou um comício no Largo Glênio Peres. Fazia um pouco de frio, com temperatura em torno dos 15°C.

Para quem não conhece Porto Alegre: o Largo Glênio Peres é um tradicional ponto de encontro do Centro, defronte ao também tradicional Mercado Público. Também sempre foi bastante utilizado para atos públicos (tipo comícios), feiras de artesanato, do peixe (que acontece todos os anos na semana da Páscoa). Ultimamente ele anda bem diferente: nos últimos tempos a prefeitura tem permitido que o largo, um espaço para pedestres, vire estacionamento de carros em determinados dias e horários. Além disso, o espaço foi adotado pela Coca-Cola, que já tratou de promover sua marca (em um espaço público!): além das placas, também instalou um boneco em tamanho gigante do tatu-bola que será mascote da Copa de 2014 (aliás, só tem sugestão ridícula de nome para ele); porém, o bicho não veste a camisa da Seleção, e sim, da própria Coca-Cola.

A empresa também bancou a instalação de 19 chafarizes no largo. Ainda não passei lá, mas vi as fotos e, sinceramente, achei meio bizarro: não há delimitação física da área dos jatos, para que a água acumule ali. Ou seja, os chafarizes do Largo Glênio Peres molham a calçada. E, sendo vários, já imagino que num dia de ventania como a quarta-feira passada, mesmo sem chuva seria preciso andar de guarda-chuva aberto.

Pois bem: ontem teve gente que foi ao comício do PT e tomou um banho, mesmo que não tenha chovido (aliás, o céu estava estrelado). Foram os tais chafarizes… Que deveriam estar desligados, conforme acordo da prefeitura com a campanha de Villaverde.

Agora voltemos ao começo do texto, atentando ao detalhe da temperatura. No verão é normal sentirmos um pouco de frio ao sairmos de uma piscina ou do mar, devido ao corpo estar molhado. Agora imagine estar molhado à noite, e com temperatura de 15°C ou menos…

O mês em que o inverno enlouqueceu junto com os cães

Sempre ouvi dizer que agosto é o “mês do cachorro louco”. Não que eles de fato fiquem loucos nesta época: tem alguns que parecem estar sempre “malucos”, pouco importando o mês.

Imaginei que a tal “loucura” dos cães que é atribuída a agosto na verdade tivesse relação com a expressão “dias de cão” ou “canícula”, usadas para definir o auge do verão no hemisfério norte (e na França, as ondas de calor em qualquer época são chamadas de canicule). Lá, assim como aqui, os dias mais quentes costumam vir cerca de um mês após o solstício de verão: Porto Alegre costuma virar “Forno Alegre” com mais frequência entre o final de janeiro e a metade de fevereiro; já no hemisfério norte o calor mais intenso se dá entre o fim de julho e o meio de agosto.

E realmente, tem a ver com a tal “canícula”. Pois a estrela Sírius, a mais brilhante da constelação de Cão Maior (Canis Major), antigamente costumava surgir no horizonte antes do nascer do Sol justamente no período que corresponde ao auge do verão no hemisfério norte (hoje em dia, devido à precessão do eixo terrestre, a estrela “nasce” pouco antes do Sol em setembro). Daí se começou a associar os dias de muito calor aos cães que ficariam “loucos”.

Acredito que seja apenas coincidência, mas o vídeo abaixo foi postado em 27 de julho de 2006, portanto, em um dos “dias de cão” daquele ano:

Já deve ter gente rindo da minha cara, é óbvio. Afinal, detesto o verão, e os “dias de cão” são associados a calorão… Porém, prefiro outro ponto de vista: trata-se do verão no hemisfério norte, portanto, os “dias de cão” acontecem durante o inverno meridional. Logo, são realmente os “meus” dias.

Porém, neste agosto de 2012 parece que, se os cães enlouqueceram, o “rigoroso” inverno gaúcho resolveu imitá-los. Nas últimas noites, tenho ligado o ventilador para dormir, algo que não lembro de ter feito alguma vez nessa época do ano. (Inclusive ele está funcionando agora mesmo, enquanto escrevo.)

Mas não se trata apenas de ligar ventilador. Os ipês-roxos, que costumam florescer apenas em setembro e assim anunciam a chegada da primavera, já estão floridos agora. Ainda não vejo sinal de florescimento nos jacarandás (árvores que geralmente se enchem de flores em outubro), mas acredito que isso não deva tardar, devido ao tempo bizarro que temos visto em agosto.

As árvores floridas dão uma embelezada na cidade; porém, há o outro lado disso. Pois este mês quente também tem sido extremamente seco (dá para contar nos dedos de uma só mão quantos dias choveu até agora em agosto). A umidade relativa do ar tem andado em torno dos 20%, o que por um lado causa um desconforto menor pelo suor (que evapora rapidamente e sem nos dar aqueles “banhos” típicos do verão, quando a umidade é desesperadoramente alta), mas por outro resulta em outros problemas como ressecamento da pele e até das narinas (tanto que muita gente acaba sangrando pelo nariz, devido à secura do ar respirado).

Mas o pior é um fenômeno típico de São Paulo que tem nos atingido nos últimos dias: o chamado smog, que é literalmente um “nevoeiro de fumaça” (ou seja, poluição atmosférica). Toda vez que chove, o ar é “limpo” pela água que cai do céu; se por muitos dias a chuva não vem, o resultado não pode ser outro que não aquela névoa sobre a cidade. Quando o sol começa a baixar, ela fica mais perceptível. Resulta em um efeito bacana, mas logo depois lembro que a causa disso é um monte de porcarias no mesmo ar que adentra meu sistema respiratório, e já não acho mais tão bonito.

Porto Alegre, no final da tarde de sexta-feira. Parece bonito, mas não é.

Menos mal que, finalmente, a chuva está retornando junto com o frio…

Vai ao Nordeste? Leve um casaco…

Navegando pelo Facebook uma noite dessas, vi muitos dos meus contatos reclamando do frio. Obviamente não compartilhei nem curti nada disso, pois não sinto nenhuma saudade do “calor de desmaiar Batista” que fez por aqui no último verão (bom mesmo seria se tivéssemos um “equilíbrio” o ano todo, pena que isso não existe em nossa “grenalizada” Porto Alegre).

Porém, o mais interessante foi uma foto de um termômetro (aliás, nada mais típico dessa época no Facebook do que as fotos de termômetros mostrando o quanto faz frio em algum lugar), marcando 7°C, e na legenda: TRIUNFO, UMA BELEZA. Um gaúcho que vê a imagem logo pensará que se trata da cidade próxima a Porto Alegre – e até estranhando que alguém destaque uma temperatura de 7°C, visto que já registros bem mais baixos neste inverno.

Porém, o estranhamento continua, mas de forma diferente, quando se vê que a Triunfo da foto não é gaúcha, e sim, pernambucana. Trata-se da cidade mais alta de Pernambuco, a mais de mil metros acima do nível do mar, o que resulta em um clima bastante ameno, e com noites até mesmo frias durante o inverno. E, por mais incrível que possa parecer, no verão se passa mais calor em Porto Alegre do que na cidade do sertão pernambucano: basta comparar as temperaturas médias das duas cidades.

Mas se o leitor acha que Triunfo é um caso isolado, está bastante enganado. Há outras cidades no Nordeste onde é perfeitamente compreensível que uma mãe peça ao filho para levar um casaco “porque pode esfriar”. A pernambucana Garanhuns, que foi oficialmente a terra natal de Lula até o desmembramento do município de Caetés, tem um clima até mais ameno do que Triunfo e igualmente um verão com menos calor que em Porto Alegre; no inverno (que pode ter madrugadas com temperaturas abaixo de 10°C), realiza há vários anos um festival que atrai muitos turistas à cidade. E no momento em que escrevo (meia-noite), o CPTEC registra 15°C na capital gaúcha e 13°C em Vitória da Conquista, no sul da Bahia.

Assim, fica a dica a quem quer desesperadamente viajar para o Nordeste para não sentir frio durante o inverno: na dúvida, é melhor levar um casaco…