25 anos da “superquarta”

É “tiro e queda”: toda vez que há vários jogos decisivos acontecendo no mesmo dia, ele vira “super”. Lembro de diversas “superquartas” e mesmo de “superdomingos”. (Existe também a “superterça” nos Estados Unidos, mas aí não tem nada a ver com futebol e sim com política, devido à realização de eleições primárias em vários estados, sendo assim um dia muito importante para a definição de quem se candidatará à presidência do país.)

Mas de todas as “superquartas” que já vi, nenhuma me marcou como 17 de novembro de 1993. Era um dia no qual se definiam várias seleções classificadas para a Copa do Mundo que ocorreria nos Estados Unidos em 1994, e também começava a decisão da Supercopa Libertadores daquele ano, entre Flamengo e São Paulo – que seria campeão.

Em 1993 eu estava na 5ª série do 1º grau e estudava à tarde, por isso perdi os primeiros jogos decisivos daquele 17 de novembro. Muito embora não fosse possível acompanhar muita coisa: ainda não tínhamos NET em casa, provavelmente o máximo que poderia assistir seria a um amistoso entre Alemanha e Brasil, vencido pelos alemães por 2 a 1. Tal confronto, que jamais ocorrera em uma Copa do Mundo até então, era cotado para ser a final do Mundial dos Estados Unidos: o Brasil faria a sua parte indo à decisão, mas seria contra a Itália, já que a Alemanha cairia diante da Bulgária nas quartas-de-final. (O primeiro encontro entre brasileiros e alemães em uma Copa aconteceria apenas na final de 2002, já o segundo… Deixa pra lá.)

A derrota alemã diante da Bulgária seria surpreendente, mas não tão inacreditável como poderia parecer nos dias de hoje. Pois aquela geração búlgara, comandada pelo genial Hristo Stoichkov, era a melhor da história do país (um time bem superior à Coreia do Sul de 2018). A Bulgária chegou aos Estados Unidos eliminando ninguém menos que a França, em algo bem parecido com um “Maracanazo”: os franceses jogavam por um empate em casa e saíram na frente, mas logo os búlgaros buscaram o empate; no último minuto do tempo regulamentar, quando a vaga já parecia perdida, Kostadinov marcou o gol histórico.

A classificação histórica também indicava que a Bulgária quebraria sua escrita negativa em Copas: jamais vencera uma partida até então. A estreia não seria nada animadora, com derrota de 3 a 0 para a Nigéria, mas na partida seguinte os búlgaros cobrariam a fatura “com juros e correção monetária”: 4 a 0 sobre a Grécia, estreante em Mundiais. A vaga grega veio com uma bela campanha nas eliminatórias europeias que foi encerrada justamente naquele 17 de novembro, com uma vitória por 1 a 0 sobre a Rússia. Dizer que o gol de Nikos Machlas “incendiou” o Estádio Olímpico de Atenas não me parece exagero.

No começo da noite, no Jornal Nacional (naquela época eu o assistia) fiquei sabendo dos jogos da tarde. Logo depois começou a novela e fui para o quarto esperar o jogaço que pude assistir naquela quarta-feira: Flamengo x São Paulo, abrindo a final da Supercopa Libertadores. No mesmo horário em que a Argentina, que no começo de setembro levara 5 a 0 da Colômbia em casa, enfrentava a Austrália disputando a última vaga na Copa do Mundo.

Em Buenos Aires, a Argentina fez o que dela se esperava e se classificou para a Copa, mas com uma magra vitória de 1 a 0.

Já no Maracanã, não faltou emoção. Leonardo abriu o placar para o São Paulo aos 15 do primeiro tempo, mas Marquinhos empatou aos 35 e virou no início do segundo tempo. Mas no final do jogo, quando a vitória flamenguista – e a consequente vantagem para a partida da volta, no Morumbi – já parecia garantida, Juninho (que ainda não tinha o complemento “Paulista”) empatou, e a partida acabou em 2 a 2.

Aquela “superquarta” foi tão “super” que sequer terminou ali. Pois o segundo jogo da final, na quarta-feira seguinte (24 de novembro) foi tão sensacional quanto o primeiro. O mais incrível é que a sequência de gols foi a mesma de uma semana atrás, apenas “invertendo os times”: o Flamengo abriu o placar aos 9 minutos do primeiro tempo com Renato Portaluppi, o São Paulo empatou com Leonardo aos 16 do segundo tempo e virou com Juninho aos 34, mas logo depois Marquinhos determinou um novo 2 a 2, levando a decisão do título para os pênaltis. O flamenguista Marcelinho (que ainda não tinha o complemento “Carioca” pois, afinal, jogava em um clube do Rio) desperdiçou a segunda cobrança rubro-negra; já o São Paulo acertou todas, venceu por 5 a 3 e levantou sua penúltima taça de um ano muito vitorioso que culminaria com a conquista do bicampeonato mundial menos de um mês depois, em Tóquio, contra o poderoso Milan. (A propósito, aquele time comandado por Telê Santana dava tanto gosto de ver jogar que eu só conseguia torcer contra quando enfrentava o Grêmio.)

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100 anos de um gênio

Júlio Cortázar (1914-1984)

Júlio Cortázar (1914-1984)

Nesta terça-feira, completam-se 100 anos do nascimento de Julio Cortazar, escritor argentino que, curiosamente, durante boa parte de sua vida morou fora da Argentina. Começando pelo próprio 26 de agosto de 1914: Cortázar nasceu na embaixada argentina em Bruxelas, Bélgica, nas primeiras semanas da Primeira Guerra Mundial. Mas a cidade onde mais viveu foi Paris: mudou-se para a capital francesa em 1951 e lá permaneceu até sua morte, em 12 de fevereiro de 1984.

Julio Cortázar foi um dos escritores mais originais de seu tempo, e dos mais geniais que já tive o prazer de ler. Muitas de suas obras cruzam a fronteira entre o real e o fantástico, como se vê nas “Histórias de Cronópios e de Famas” (sobre a lápide do túmulo de Cortázar no Cemitério de Montparnasse, em Paris, se ergue a imagem de um “cronópio”).

O conto abaixo é um dos que compõem “Histórias de Cronópios e de Famas”.

Ocupações Maravilhosas

Que ocupação maravilhosa é cortar a pata de uma aranha, metê-la num envelope, escrever Senhor Ministro das Relações Exteriores, acrescentar o endereço, descer a escada aos pulos, botar a carta no correio da esquina.

Que ocupação maravilhosa é ir andando pelo Boulevard Arago contando as árvores, e a cada cinco castanheiros parar um momento num pé só e esperar que alguém olhe, e então soltar um grito seco e breve, e girar como um pião, os braços bem abertos, igual à ave cakuy que se vê nas árvores do norte da Argentina.

Que ocupação maravilhosa é entrar num café e pedir açúcar, açúcar outra vez, três ou quatro vezes açúcar, e ir formando um monte no meio da mesa, enquanto cresce a fúria nos balcões e debaixo dos aventais brancos, e exatamente no meio do monte de açúcar cuspir suavemente e espiar a descida da pequena geleira de saliva, escutar o barulho de pedras quebradas que o acompanha e que nasce nas gargantas contraídas de cinco fregueses e do patrão, homem honesto em certas horas.

Que ocupação maravilhosa é tomar o ônibus, descer em frente ao Ministério, abrir caminho a golpes de envelope com selos, deixar para trás o último secretário e entrar, firme e sério, na grande sala de despacho toda de espelhos, no momento exato em que um contínuo vestido de azul entrega uma carta ao Ministro, e vê-lo abrir o envelope com cortador de papel de origem histórica, enfiar dois dedos delicados e retirar a pata da aranha e ficar olhando, e então imitar o zumbido de uma mosca e ver como o Ministro empalidece, quer tirar a pata mas não consegue, está agarrado pela pata, e dar-lhe as costas e sair assobiando, anunciar nos corredores a renúncia do Ministro e saber que, no dia seguinte, entrarão as tropas inimigas e tudo irá para o inferno e será uma quinta-feira de um mês ímpar de um ano bissexto.

Henry, o salvador do mundo

Mês passado, postei aqui sobre como os números poderiam levar a um novo “Maracanazo” na Copa do Mundo de 2014. Não refarei toda a conta, o link anterior explica como funciona. Só digo que segundo a fórmula original (e também com as que inventei na hora) o campeão mundial de 2014 seria o mesmo de 1950, ou seja, o Uruguai. O que bem sabemos, não aconteceu, visto que a Celeste foi embora nas oitavas-de-final.

Para a fórmula continuar válida, também seria necessário que o Brasil tivesse sido campeão em 2006 e a Alemanha em 2010; mas como bem lembramos, deu respectivamente Itália e Espanha nessas duas Copas. Porém, vamos supor que tivesse saído tudo conforme os números previam, e tivesse dado Brasil em 2006, Alemanha em 2010 e Uruguai em 2014.

Na próxima Copa, para sabermos o campeão teríamos de subtrair 2018 de 3964, e o resultado seria 1946. Porém, ao olharmos a tabela com os resultados de todos os Mundiais, não encontramos campeão em 1946. E o mesmo acontece com 1942, que indicaria o vencedor de 2022.

A Copa do Mundo de 1942 não aconteceu devido à Segunda Guerra Mundial, que tornava impossível a realização de qualquer torneio internacional de futebol a nível mundial. O conflito só acabou em 1945, o que também inviabilizou a disputa do Mundial no ano seguinte: a Copa só retornaria em 1950, no Brasil, que era um dos candidatos a sede para 1942 (o outro era a Alemanha, que foi proibida de participar em 1950).

Percebam, assim, a importância que teve aquele gol de Thierry Henry marcado contra o Brasil nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2006: foi o que enterrou definitivamente aquela “fórmula”. Caso ela continuasse válida, seria um sinal indiscutível da aproximação da Terceira Guerra Mundial. Ainda mais no atual contexto internacional: a região oriental da Ucrânia vive uma guerra civil, com rebeldes lutando pela anexação das províncias do leste à Rússia.

Com a queda de um avião da Malaysia Airlines justamente na área conflagrada, com suspeitas de que teria sido abatido por um míssil terra-ar, há acusações de lado a lado: o Ocidente acusa os separatistas de terem lançado o míssil que derrubou a aeronave e, de quebra, a Rússia por ter fornecido-lhes armas; já uma fonte do Kremlin diz que o ataque teria sido ordenado pelo governo ucraniano e que o verdadeiro alvo seria o avião presidencial russo (semelhante à aeronave derrubada), ou seja, que o objetivo seria matar Vladimir Putin, que retornava da reunião de cúpula do BRICS acontecida no Brasil (as rotas dos dois aviões eram coincidentes no leste da Europa). Claro que em ambas as versões há coisas estranhas: na primeira, é preciso entender o que levaria os rebeldes a abaterem uma aeronave que não é de uso militar; já na segunda, é de se questionar por que a Ucrânia teria optado por uma maneira tão pouco discreta para tentar assassinar Putin, ainda mais sabendo que um atentado desse nível pode ter consequências seríssimas – há 100 anos, a “faísca inicial” da Primeira Guerra Mundial foi o assassinato do herdeiro do trono da Áustria-Hungria, que nem era a principal potência europeia em 1914 (enquanto a Rússia atual é uma superpotência dotada de milhares de ogivas nucleares). Mas, ainda assim, trata-se de um acontecimento que ainda terá muitos desdobraentos.

Tivesse dado Brasil, Alemanha e Uruguai nas últimas três Copas, a essa altura eu já estaria pensando seriamente em construir um abrigo subterrâneo para me proteger de possíveis ataques nucleares que viriam na iminente Terceira Guerra Mundial. Mas, graças àquele gol que eliminou o Brasil em 2006 e enterrou a “fórmula mágica”, confio em uma solução diplomática que impeça o fim do mundo.

Obrigado, Henry.

Alguns fantasmas não vão embora

Pouco antes da Copa do Mundo de 1998, foi muito comentada uma tal de “pirâmide da Copa”, divulgada provavelmente por um jornal inglês (não recordo com exatidão). Segundo ela, a Inglaterra ganharia o Mundial da França por mera “questão geométrica”.

O topo da tal “pirâmide” correspondia à Copa de 1982, vencida pela Itália. No degrau abaixo (à esquerda e à direita), as conquistas da Argentina em 1978 e 1986. Descendo mais um pouco, dois títulos da Alemanha (1974 e 1990). Na sequência, a correspondência entre 1970 e 1994, Copas vencidas pelo Brasil. Logo, o campeão de 1998 seria o mesmo de 1966. Portanto, daria Inglaterra.

Porém, o English Team caiu cedo, nas oitavas-de-final, perdendo nos pênaltis para a Argentina. E aquela Copa, como bem lembramos, foi vencida pela França. A “pirâmide” estava sepultada, como mais uma superstição que perdia o sentido, certo?

Errado! Pois houve coincidências entre as Copas de 1966 e 1998, sim. A primeira delas: suas campeãs (Inglaterra e França) conquistavam o título pela primeira vez, e jogando em casa. Mas teve mais: em ambos os Mundiais seleções estreantes acabaram em 3º lugar e também tiveram o artilheiro – Portugal e Eusébio (1966), Croácia e Suker (1998).

Desta forma, a “pirâmide” continuava em vigor, e apontava que não era preciso toda aquela preocupação com a má campanha brasileira nas eliminatórias do Mundial de 2002: o campeão seria o mesmo de 1962, portanto, o Brasil. E em 2006 a Seleção seria campeã mais uma vez, jogando na Europa da mesma forma que em 1958… Exatamente como o previsto.

Até 2002 tudo funcionou direitinho, mas em 2006 a “pirâmide” foi novamente sepultada: o Brasil foi eliminado nas quartas-de-final, e a Itália foi campeã. Poderia ser um “ponto fora da reta”, e em 2010 as coisas voltariam ao normal com a Alemanha ganhando a taça, da mesma forma que em 1954. E, de fato, os alemães jogaram muito na África do Sul, mas quem levou a Copa foi a Espanha.

Desta forma, soa absurdo lembrar novamente a “pirâmide”, segundo a qual o campeão de 2014 seria o mesmo de 1950 – ou seja, o Uruguai. Porém, há fantasmas que não vão embora.

Todos temos acontecimentos traumáticos em nossas vidas. Feridas que parecem jamais cicatrizar. Por mais coisas boas que aconteçam, aquele dia em que tudo saiu errado dá a impressão de que sempre está a espreita, pronto para voltar.

Algo assim se passa sempre que brasileiros e uruguaios se enfrentam no futebol: é como se fosse ligada uma máquina do tempo que sempre leva todos (jogadores, torcedores, jornalistas etc.) de volta a 16 de julho de 1950. O Brasil, mesmo com cinco Copas do Mundo conquistadas após aquele dia, ainda sente a dor da derrota em casa. Já para o Uruguai, mesmo nos piores momentos vividos por seu futebol nas décadas de 1990 e 2000, as lembranças daquela vitória davam a sensação de que sí, se puede: se batera uma seleção mais forte e que contava com o apoio de 200 mil pessoas no estádio, nada era impossível.

Nada era, e nada é. Até 2006, provavelmente o maior alento ao sonho uruguaio de voltar a ganhar uma Copa do Mundo era a tal “pirâmide”. Que, como foi dito, “morreu” quando Zidane e Henry acabaram com o Brasil nas quartas-de-final. Vale lembrar que o Uruguai sequer disputou aquele Mundial, tendo sido eliminado pela Austrália na repescagem.

A Celeste voltou à Copa em 2010, novamente via repescagem, quando derrotou a Costa Rica. Ninguém esperava muito, mas os orientales voltaram a acreditar que era possível: o Uruguai passou com dificuldades pela Coreia do Sul nas oitavas-de-final, é verdade, mas superou Gana em uma partida dramática nas quartas e deu trabalho à fortíssima Holanda nas semifinais. Como se não bastasse, Forlán ainda foi eleito o melhor jogador do Mundial.

Em 2011, mais sinais do “renascimento”. Na Libertadores, o Peñarol foi vice-campeão diante do Santos, 23 anos após a última vez que um clube uruguaio chegara à final. Um mês depois, a Celeste conquistou a Copa América na Argentina, e credenciava-se, assim, a obter a classificação para o Mundial de 2014 com facilidade.

Porém, não foi o que aconteceu. Após arrancar bem nas eliminatórias, o Uruguai “patinou”, e chegou a correr riscos de ficar fora da Copa do Mundo. No fim, conseguiu acabar em 5º lugar e disputar a repescagem contra a fraca Jordânia: após vencer por 5 a 0 em Amã, “tirou o pé” em Montevidéu e ficou no 0 a 0. Uma campanha medíocre dessas é sinal de que a Celeste fará figuração na Copa, certo?

Porém, nas eliminatórias para 2010 o Uruguai também não foi lá muito bem (com direito a levar 4 a 0 do Brasil em pleno Estádio Centenário). Ninguém esperava muito, e acabou chegando à semifinal.

E além disso, há o “fantasma” de 1950, que automaticamente transforma a Celeste em candidata ao título. Mesmo que a lógica aponte outras seleções como favoritas (casos de Brasil, Argentina, Alemanha, Espanha, Itália etc.), a mística tem sua força. De modo que, enquanto o Uruguai estiver na disputa, a possibilidade da taça retornar a Montevidéu não pode ser descartada, de forma alguma.

Por conta disso, a Puma (fornecedora de material esportivo da Celeste) produziu esta genial peça publicitária, em homenagem à classificação uruguaia. A Copa é no Brasil e a final é no Maracanã… Portanto, um fantasma assombra o Mundial: el Fantasma del 50.

Copa Sul-Americana de Polo Aquático

Pela terceira vez desde que o último verão acabou, um jogo do Grêmio no Olímpico não teve a minha presença. Quase recuperado de uma leve gripe (acordei nesta terça sem dor de garganta pela primeira vez em dez dias), achei melhor não ir ao estádio com toda essa chuva, apesar da importância da partida contra o Coritiba. E, no fundo, tinha a esperança de que o bom senso prevalecesse e a estreia gremista na Copa Sul-Americana fosse adiada, visto que nem uma drenagem excelente como a do Olímpico (que não por acaso tem um dos melhores gramados do Brasil) consegue dar conta de tanta água.

Não foi. Mesmo com o campo transformado em uma piscina, o jogo aconteceu. Em comum com minhas outras duas ausências pós-verão de 2012 (2 a 0 contra o Fortaleza, em maio pela Copa do Brasil; e 1 a 0 contra o Fluminense, semana passada pelo Campeonato Brasileiro), o resultado positivo: vitória gremista por 1 a 0, o que não pode ser considerado pouco, se levarmos em conta as condições adversas, e também que das vitórias por um gol de diferença, o 1 a 0 é o melhor resultado quando o saldo qualificado é um dos critérios de desempate. Dessa forma, se marcar no Couto Pereira, dia 23, o Grêmio poderá perder por um gol de diferença para seguir na Sul-Americana.

Agora, definitivamente é um absurdo realizar uma partida de futebol num gramado encharcado. Trata-se de um prejuízo ao espetáculo, visto que a bola praticamente não corre, só restando a alternativa de jogar pelo alto – não por acaso, foi assim que saiu o único gol, marcado por André Lima, de cabeça; aumenta também a possibilidade de lesões, pois os já arriscados carrinhos tornam-se ainda mais perigosos, visto que os jogadores deslizam mais com a grama molhada. Sem contar o público reduzido devido à chuva forte: vamos combinar que um jogo com casa cheia sempre é mais bacana do que com pouca gente.

É por causa da televisão, alguém irá lembrar. Verdade. Porém, como explicar que em outros eventos esportivos com transmissão televisiva a chuva possa ocasionar interrupções e mesmo adiamentos? No tênis, basta começar a chover que as partidas são paralisadas – para muitas vezes só recomeçarem no dia seguinte.

Até mesmo no futebol temos um exemplo neste sentido. E foi na última Eurocopa! Na partida entre Ucrânia e França, um temporal com vento e muitos raios levou o árbitro a interromper o jogo, que ficou paralisado por cerca de uma hora. Azar da TV (do mundo todo), que teve de fazer um ajuste de última hora em sua programação: quem transmite ao vivo tem de estar preparado para isso.

A diferenciação social no desastre do Titanic

O Titanic partindo para sua primeira (e única) viagem, em 10 de abril de 1912

Na última madrugada, o mais marcante naufrágio da história da humanidade completou um século. Construido entre 1909 e 1912, o Titanic era considerado um navio “inafundável”, e simbolizava muito bem a concepção de “progresso da humanidade” muito em voga nas sociedades ocidentais da época.

O transatlântico, o maior do de todos os tempos na época, partiu de Southampton (Inglaterra) no dia 10 de abril de 1912, fazendo escalas em Cherbourg (França) e Queenstown (atual Cobh, Irlanda) antes de seguir rumo a Nova York, com 2.223 pessoas a bordo (tripulantes incluídos). Porém, o navio “inafundável” foi a pique logo em sua primeira viagem, matando 1.514 pessoas. O naufrágio foi um duro golpe para as sociedades da época: era uma prova de que por mais que a humanidade “progrida”, a natureza sempre está um passo à frente, podendo se fazer representar por um terremoto, uma tempestade ou um iceberg como o que selou o destino do Titanic.

Em 1912 a luta de classes já fazia parte do debate político na Europa (e se tornaria ainda mais presente cinco anos depois, devido à Revolução Russa), com trabalhadores se organizando em sindicatos e partidos de orientação socialista. As elites, claro, não estavam dispostas a abrir mão de seus privilégios. E isso se refletiu muito bem dentro do Titanic: não havia botes salva-vidas suficientes para resgatar todos os passageiros do navio. Eram 20 botes, número que estava dentro da previsão legal na época, por um motivo muito simples: em caso de naufrágio, era só priorizar os passageiros mais abastados…

E foi assim que aconteceu, como mostra o ótimo infográfico feito pelo canal History. Como é de praxe em naufrágios, a prioridade no resgate é dada a mulheres e crianças: na primeira classe, apenas 7% morreu, enquanto na terceira tal índice saltou a 53% (na segunda classe, a “média”, 19% pereceu). Dentre os tripulantes, 13% das mulheres veio a morrer. No total, incluindo os homens (maioria dos mortos), as mortes correspondem a 37% dos passageiros da primeira classe, 58% dos da segunda, 75% dos da terceira e 77% dos tripulantes.

A elite foi favorecida por sua disposição no Titanic: os aposentos da primeira classe eram os que ficavam nos deques superiores, mais próximos aos botes salva-vidas. Já os da terceira classe se localizavam nos deques inferiores, mais distantes. Assim, só a regra do “priorizar quem chega primeiro” já beneficiava os passageiros mais abastados.

Após o desastre, as leis que regiam a construção de transatlânticos foram alteradas, e passou a ser obrigatório que eles contassem com botes salva-vidas em número suficiente para resgatarem todos os passageiros.

A ressurreição de Nicolae Ceausescu

O Natal de 1989 foi inesquecível para mim: passei o dia inteiro brincando com meu presente preferido daquele ano, um “Pense Bem”. Aquele 25 de dezembro foi também memorável na Romênia, mas por outro motivo: foi o dia em que o ditador Nicolae Ceausescu (que estava no poder desde 1965) e sua esposa Elena acabaram executados por um pelotão de fuzilamento, três dias depois da derrubada da ditadura por uma insurreição popular.

Porém, oito anos e meio depois, Ceausescu voltou à vida por um mês. E acreditem, foi na tela da Rede Globo!

Simples: a vinheta que abria as transmissões “globais” da Copa do Mundo de 1998 terminava com o logotipo da emissora, que continha dentro algumas bandeiras de países. Reparem que falei simplesmente em “países”, e não em “países da Copa”. Pois havia a presença de bandeiras como as de Austrália, Canadá e Irlanda, cujas seleções não disputaram o Mundial da França.

Mas procurando por mais erros, reparei que a bandeira da Romênia continha o brasão “socialista”, que fora retirado do pavilhão romeno após dezembro de 1989. Por motivos óbvios: com o fim da ditadura de Ceausescu, a Romênia deixara de ser “socialista”. (Inclusive, durante os protestos contra o regime se via muitas bandeiras romenas, todas com um buraco no lugar do brasão, recortado pelos manifestantes – as bandeiras “vazias” se tornaram um símbolo da insurreição popular.)

É importante lembrar que não foi só a bandeira romena que saiu errada: a África do Sul adotou a sua atual em 1994, mas a que aparece na vinheta é a anterior, dos tempos do apartheid.

Provavelmente o leitor deve estar pensando que em 1998 a Globo cometera a façanha de ainda não ter atualizado seu “arquivo de bandeiras”. Pois é, então como explicar que, na vinheta de 1994, a bandeira da Romênia estava correta? Mas não pensem que a “plim plim” tinha deixado de fazer de fazer sua propaganda comunista: sobrou para a Bulgária, cuja bandeira desde 1990 não tinha mais brasão… (É muito rápido, e por isso difícil de perceber o brasão no pavilhão búlgaro, mas ele está lá.)

É sempre bom lembrar

“Noite e Neblina” (vídeo acima) é um documentário produzido pelo francês Alain Resnais, em 1955, por ocasião do 10º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Tem o grande mérito de denunciar não só os figurões do nazismo, como também as grandes corporações alemãs de terem mantido campos de concentração para a exploração de mão-de-obra escrava durante o Holocausto.

Não faltam imagens chocantes ao longo dos 30 minutos de filme – e acho que é realmente necessário chocar as pessoas, para que tenham ideia do horror que significou tudo aquilo, e desta forma se corra menos risco de que se repita. Afinal, como é lembrado ao final, não podemos pensar que tais fatos se resumem a um país, em uma época.

Não seria o caso de “Noite e Neblina” ser maciçamente exibido no país natal de seu diretor? Afinal, nos últimos tempos a xenofobia tem crescido muito na França; e nos episódios mais recentes, o país tem deportado ciganos oriundos de Bulgária e Romênia – países que integram a União Europeia desde 2007, e por conta disso seus cidadãos têm direito ao livre trânsito entre os países-membro da UE – e também proibiu as mulheres muçulmanas de usarem véu.

Há uma tendência crescente, e por isso mesmo cada vez mais perigosa, de se culpar os imigrantes por todos os problemas. Isso é muito forte hoje em dia na França, mas também se verifica em vários outros países, na Europa e fora dela, como nos Estados Unidos e mesmo no Brasil – onde a xenofobia se dá até entre brasileiros.

Desse jeito, não vai longe…

Eu até fui otimista. Achei que o Uruguai ganharia da França.

E sabem de uma coisa? Poderia ter ganho. Mas o meio de campo da Celeste Olímpica simplesmente não existe. Não consegue acertar uma boa sequência de passes, a bola dificilmente chega redonda para Forlán, um dos raros bons jogadores do time. E com a expulsão de Lodeiro (que fez apenas isso no jogo), o 0 a 0 ficou bom para o Uruguai.

Mas nem podemos dizer que o placar foi injusto, já que a França também não fez muito por merecer… Raymond Domenech deixou Henry no banco, e quando vi que ele iria entrar, imaginei que Anelka ganharia um companheiro no ataque, não que seria substituído.

A Copa mal começou, e já temos um jogo que é forte candidato a pior da competição.

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Em África do Sul x México, considero também justo o resultado – ao menos foi um jogo melhor. Os mexicanos dominaram o primeiro tempo, mas não tiveram competência para marcarem gols (que poderiam ser dois ou três). Já os Bafana Bafana foram melhor na segunda etapa – mas não tanto como o adversário na primeira.

Acho bem difícil a África do Sul passar de fase, mas é esperar para ver.

Começa a Copa 2010!

É hoje! Começa a Copa do Mundo de 2010, a primeira a se realizar no continente africano. Por um mês, os olhos do mundo estarão voltados para a África do Sul.

Peço desculpas ao leitor que não gosta de futebol, mas será impossível não tratar (bastante) do assunto aqui no Cão. Pois eu gosto do esporte, assim como muitos outros leitores.

E logo hoje, no primeiro dia, já tem um jogão envolvendo uma das seleções que despertam minha simpatia: o Uruguai, de Loco Abreu (quem diria…), enfrenta a França, de Henry e sua “mãozinha”. Com toda a minha torcida para a Celeste, é claro…

Mas torço ainda mais para que tenhamos uma bela Copa do Mundo. Pois a de 2006, convenhamos, foi fraquinha… Foram poucos os jogaços. E que ainda assim, não chegam nem aos pés de Romênia x Colômbia (1994), Romênia x Argentina (1994), Brasil x Holanda (1994), Bulgária x Alemanha (1994), Romênia x Suécia (1994), Nigéria x Espanha (1998), França x Paraguai (1998), Brasil x Dinamarca (1998), Holanda x Argentina (1998) e Brasil x Holanda (1998).

Pois é, como os leitores repararam, todas as partidas que citei são das Copas de 1994 e 1998. Tanto que a série “As Copas que eu vi”, foi mais uma desculpa para poder escrever sobre os Mundiais dos Estados Unidos e da França. Comecei por 1990 por uma questão de “ordem cronológica” (afinal, foi a primeira que eu vi), e falei sobre 2002 e 2006 porque também foram “Copas que eu vi” (apesar de muitos jogos em 2002 terem sido no meio da madrugada).

Que em 2010 tenhamos, enfim, jogos dignos de entrarem na minha “seleção”!