Mitos acerca dos pontos corridos

A Rede Globo quer o retorno do “mata-mata” no Campeonato Brasileiro – ameaça que poderia se concretizar em 2011. Tudo porque a atual fórmula não tem uma “final”.

Já ouvi diversos argumentos contra e pró-pontos corridos. Porém, os contrários são baseados majoritariamente em mitos. Ao estilo “Mythbusters”, vamos detonar alguns deles então.

1. Os pontos corridos são ruins para o futebol gaúcho, sem mata-mata eles não ganham.

Será?

Talvez o exemplo mais simples para “justificar” o mito seja a campanha do Grêmio no Campeonato Brasileiro de 1996, quando foi campeão. O campeonato foi disputado com uma primeira fase na qual os 24 clubes se enfrentavam em turno único, com os 8 primeiros se classificando para o “mata-mata”. O Tricolor acabou em 6º lugar na primeira fase.

Porém, o que ninguém cita é que faltando três rodadas para o fim da primeira fase, o Grêmio estava em 2º lugar, atrás apenas do Atlético-PR. Poderia ter chegado a liderança. Porém, já classificado, optou por usar time misto – e até reserva – nas últimas três rodadas, poupando-se para as finais. E perdeu os três jogos: 2 a 0 para o Coritiba no Olímpico, 1 a 0 para o Sport na Ilha do Retiro, e 3 a 1 para o Goiás no Olímpico (o famoso jogo do “TORCEDOR GREMISTA, ELES ESTÃO FORA”, em referência à eliminação do Inter). Fosse um campeonato de pontos corridos, o Tricolor não teria poupado jogadores e poderia ter alcançado a liderança, pois tinha time para isso.

Se todos os títulos brasileiros obtidos pela dupla Gre-Nal foram obtidos em campeonatos cheios de fases, isso não quer dizer que os dois clubes não possam ser campeões nos pontos corridos: todos lembram o que aconteceu para que o Inter não fosse campeão em 2005; e em 2008 o Grêmio não teve competência para ser campeão, já o São Paulo teve de sobra.

2. Os pontos corridos são bons para os clubes paulistas, que têm mais dinheiro e são mais organizados.

Ora, isso não devia ser usado como “argumento” contra os pontos corridos! Até porque o primeiro campeão dos pontos corridos não veio de São Paulo – ou o Cruzeiro decidiu se mudar de Belo Horizonte e não me avisaram?

Os clubes paulistas têm sido campeões por terem mais dinheiro e serem mais organizados – fato. Mas a organização é fruto do dinheiro, ou o dinheiro é fruto da organização? Acredito mais na segunda opção: ninguém vai querer investir num clube bagunçado. Mesmo em São Paulo, onde há mais dinheiro.

Quem sabe não é melhor se organizar ao invés de chiar contra a fórmula? O Inter fez isso, e se teve o azar de topar com a MSI em 2005, ganhou a Libertadores e o Mundial no ano seguinte. O Grêmio percebeu essa necessidade com o buraco em que caiu no início desta década, e se ainda não vive uma situação financeira confortável, pelo menos consegue montar times que dão para o gasto. O Cruzeiro, campeão de 2003, há muitos anos é um dos clubes mais bem estruturados do país.

Mas, se parece que a fórmula dos pontos corridos é muito benéfica aos paulistas, que “não ganhariam nada” com mata-mata, não custa nada lembrar que na década de 1990 o título ficou nas mãos dos clubes de São Paulo em seis oportunidades (1990, 1991, 1993, 1994, 1998 e 1999) – metade de todas as conquistas paulistas antes dos pontos corridos. E o campeonato de 2002, o último “formulista”, foi conquistado pelo Santos, que ficou em 8º na fase de classificação.

O que indica que o dinheiro e a organização dos clubes paulistas já eram importantes antes mesmo da adoção dos pontos corridos.

3. Acabou o equilíbrio no número de conquistas, já que a maioria dos campeões é de São Paulo.

Pode parecer uma repetição do mito anterior, mas na verdade é apenas mais um – e provavelmente o mais esclarecedor.

Dos 32 campeonatos “formulistas” (1971-2002), 12 ficaram nas mãos dos clubes de São Paulo, e 11 foram para o Rio de Janeiro. O terceiro Estado em número de títulos, o Rio Grande do Sul, tem 5 conquistas.

Ou seja, o tal do “equilíbrio” no número de conquistas, na verdade é apenas na comparação de São Paulo com o Rio de Janeiro (de onde é a Globo?).

Pode parecer que os pontos corridos favoreceram o desequilíbrio no Campeonato Brasileiro pelo fato dos paulistas terem conquistado todos os títulos desde 2004. Porém – e aí é que entende-se mais a pretensão da Globo – os cariocas pararam, e faz tempo.

O futebol carioca não chega ao título desde 2000, quando o Vasco conquistou a bagunçada Copa Jean-Marie João Havelange. Depois disso, o melhor resultado do Rio de Janeiro no Campeonato Brasileiro foi o 3º lugar do Flamengo em 2007. Bem diferente dos vitoriosos anos 80, quando o título só não foi para o Rio de Janeiro nos campeonatos de 1981 (dá-lhe Grêmio!!!), 1985, 1986 e 1988. (Em 1987 considero o Sport e o Flamengo campeões.)

Ou seja, mais da metade das conquistas cariocas aconteceram de 1980 a 1989. Antes do primeiro título do Flamengo, em 1980, o único Campeonato Brasileiro do Rio tinha sido o de 1974, vencido pelo Vasco. Nos anos 90, os cariocas foram campeões em 1992, 1995 e 1997. Com formulismo e tudo, já não vinham muito bem então: inclusive, nos campeonatos de 1996 e 1998 nenhum carioca ficou entre os 8 classificados para as finais.

Inclusive, aqui volta aquela questão da “organização dos paulistas”. Qual é a imagem que se tem dos clubes do Rio, senão a de uma bagunça? Não seria essa desorganização, ao invés da fórmula, a causa do declínio carioca?

4. Um campeonato sem final não tem jogos decisivos, e assim, o público diminui.

Como diria Garrincha, “já combinaram com os russos”*? Neste caso, com os torcedores dos diversos clubes brasileiros, pois a média de público no Brasileirão subiu bastante nos últimos anos.

No formulismo, havia alguns jogos decisivos. Nos pontos corridos, todos são decisivos. Ano passado o Grêmio não perdeu o campeonato na última rodada – quando inclusive venceu seu jogo contra o Atlético-MG – e sim em joguinhos fáceis no Olímpico em que deixou de pontuar, como a derrota para o Goiás e o empate com o Figueirense. Mas eu poderia citar diversos outros jogos, em casa e fora: todos os pontos que o Grêmio perdeu fizeram falta no final. Já o São Paulo não foi campeão ao vencer o Goiás, e sim, por ter feito a melhor campanha. Simplíssimo!

Se qualquer ponto perdido poderá fazer falta ao final, é importante ir a todos os jogos, certo? Assim, o torcedor irá ao estádio sempre que possível.

5. O Brasil não é Europa, o torcedor não tem como ir a tantos jogos por ano, é muito caro.

Muitos torcedores, de fato, não têm como ir a todos os jogos – há muito tempo. E hoje em dia está cada vez mais complicado, com os valores astronômicos dos ingressos.

Porém, os preços não são culpa dos pontos corridos. No Campeonato Gaúcho de 2009, com mata-mata e tudo, o ingresso mais barato no Olímpico custava 30 reais. Como Grêmio e Inter têm muitos sócios, restam menos ingressos para serem vendidos, e como os sócios-torcedores têm direito a pagar metade do valor, ele vai às alturas.

Vale lembrar que o primeiro caso de ingresso a preços malucos no Campeonato Brasileiro foi em 2004, quando torcedores do Atlético-PR ficaram do lado de fora da Arena da Baixada enquanto o jogo rolava, em protesto contra a cobrança de 30 reais pela entrada mais barata. Aquele ano o campeonato foi de pontos corridos, se achou um absurdo o valor que o Furacão cobrava. E em 2003 já era pontos corridos e os ingressos eram bem mais baratos.

E o interessante é que mesmo com a escalada dos preços dos ingressos, a média de público não diminui…

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* Só depois de postar é que lembrei do asterisco. A frase de Garrincha foi dita antes do jogo Brasil x União Soviética, na Copa de 1958. O treinador explicava como a Seleção faria para vencer o “futebol científico” dos soviéticos, e Garrincha, curioso, quis saber se eles sabiam que era para o Brasil vencê-los… No fim, mesmo “sem ter combinado com os russos”, vitória brasileira de 2 a 0, com destaque justamente para Garrincha.