Em Portugal, a Revolução dos Cravos manda lembranças

Aconteceu ontem, em Lisboa. Durante debate quinzenal no Parlamento, o primeiro-ministro português Pedro Passos Coelho foi interrompido pelo público de uma forma diferente: ao invés de vaias, o que se ouviu foi a canção “Grândola, Vila Morena”, composta por Zeca Afonso.

A ação promovida pelo grupo “Que se Lixe a Troika” foi extremamente simbólica, pois “Grândola, Vila Morena” não é uma música qualquer. Nos primeiros minutos do dia 25 de abril de 1974, a canção foi executada na Rádio Renascença, de Lisboa. Era a segunda senha escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (formado por militares descontentes com o regime ditatorial e com a Guerra Colonial) para dar início à Revolução dos Cravos.

A primeira senha, executada horas antes, fora “E depois do adeus”, que era a “ordem” para as tropas ficarem a postos – sendo uma música “politicamente neutra”, não despertou maiores suspeitas de militares favoráveis ao governo. Já “Grândola, Vila Morena” refere-se à solidariedade entre as pessoas, e foi proibida pela ditadura por “fazer alusão ao comunismo”. Assim, sua execução no rádio era o sinal de que “o caminho estava livre” para a derrubada do regime.

Era o fim de uma ditadura iniciada em 1926 e que a partir de 1933 passara a ser chamada oficialmente de Estado Novo*, mas também ficou conhecida como “salazarismo” devido a Antônio de Oliveira Salazar, ditador de Portugal por 36 anos (1932-1968). O povo, cansado de quase 50 anos de autoritarismo, celebrou nas ruas distribuindo cravos aos soldados, daí a denominação “Revolução dos Cravos”.

O fato de “Grândola, Vila Morena” ser cantada em pleno Parlamento, interrompendo o primeiro-ministro, mostra o tamanho do descontentamento popular em Portugal, que assim como a Espanha e a Grécia, vive uma grave crise econômica. A troika formada por Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia impõe rigorosos planos de austeridade como condições para “ajudar” tais países. Porém, as “ajudas” fazem com que a crise econômica torne-se também social, com o aumento do desemprego e da pobreza. Afinal, como mostra o documentário grego “Dividocracia”, a troika não quer salvar o povo, e sim, bancos e empresas falidas…

————

* A semelhança com o Brasil de 1937 a 1945 não é mera coincidência: Getúlio Vargas se inspirou em Salazar para denominar sua ditadura como “Estado Novo”.

Anúncios

Na Grécia, o povo “toma cicuta”

A cicuta era um veneno utilizado para tirar a vida dos condenados à morte na Grécia Antiga. O mais famoso caso foi o do filósofo Sócrates, tanto que o chá letal ficou conhecido como “veneno de Sócrates”. Inclusive, quando se dizia que alguém tinha “tomado cicuta”, já se subentendia que a pessoa fora condenada à morte.

Hoje, a cicuta não é mais utilizada para tirar a vida de condenados à morte. O progresso da humanidade descobriu outras maneiras mais eficazes e rápidas, como a cadeira elétrica, a injeção letal, a câmara de gás e o fuzilamento.

Porém, na Grécia atual, a impressão que dá é de que o povo foi condenado a “tomar cicuta”. Os pacotes de “ajuda” ao país apenas pioram a vida da população, fazendo com que a grave crise econômica torne-se também social. Muitas crianças estão sendo abandonadas por famílias que não têm mais condições de sustentá-las, ficando em instituições de caridade ou mesmo nas ruas das cidades gregas; aumenta também a desnutrição infantil, já tendo sido registrados desmaios de crianças em escolas devido à fome. Em hospitais, faltam leitos e remédios; inválidos e portadores de doenças raras deixaram de receber medicamentos. Nas escolas, o ano letivo começou em setembro e até agora os alunos não receberam livros didáticos. São problemas tipicamente associados aos países da América Latina, África e Ásia, que acontecem em um país integrante da “rica” (?) União Europeia. (E por falar em América Latina, cada vez mais a Grécia dos dias atuais se parece com a Argentina de 2001.)

O sofrimento do povo grego não foi capaz de sensibilizar a troika formada por Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu e Comissão Europeia. Para os órgãos, a Grécia ainda precisava cortar mais gastos para poder receber mais “ajuda”. Resultado: domingo passado o parlamento grego aprovou mais um plano de austeridade, aumentando a ira da população.

Para os defensores mais apaixonados do neoliberalismo, a crise grega se deve aos “privilégios” (?) que o governo dava ao povo, o que teria aumentado os gastos públicos e elevado a dívida da Grécia a níveis estratosféricos. Porém, como denuncia o documentário “Dividocracia”, produzido por jornalistas independentes gregos, os sucessivos governos do país nos últimos 40 anos já se utilizavam do mesmo discurso da atualidade, de “política de austeridade” para “conter a crise”, enquanto não deixavam de salvar bancos e empresas falidas. Aliás, objetivo que é o mesmo das “ajudas” da troika

Dividocracia

Um excelente documentário sobre a crise grega, disponibilizado com legendas em português pelo João Martins, do Movimento Apartidário da Cidade de Loulé.

O vídeo, produzido por jornalistas independentes gregos, demonstra como a Grécia chegou à situação vivida hoje: após a ilusão de que o país viraria “potência econômica”, resta agora a dívida impagável (e imoral, visto que contraída sem o conhecimento do povo) e a necessidade de lutar contra o “remédio” imposto pelos organismos internacionais (FMI, Banco Mundial, União Europeia etc.) que simplesmente transfere a conta para os cidadãos. Aliás, ocasião na qual o sistema capitalista mostra, através do gás lacrimogêneo e dos cassetetes dos policiais, o quão “democrático” é.

São as mesmas medidas que no passado foram aplicadas na Argentina, levando boa parte do povo à miséria e provocando uma revolta popular que pôs para correr o presidente Fernando de la Rúa em dezembro de 2001.

Assista: