Dilma está certa

Pântano do Sul, no sul da Ilha de Santa Catarina: tudo o que qualquer porto-alegrense gostaria nesses dias quentes

Pântano do Sul, no sul da Ilha de Santa Catarina: não é melhor que Forno Alegre?

A presidenta Dilma Rousseff, mineira de nascimento e que depois se estabeleceu no Rio Grande do Sul, causou certa polêmica ao dizer que a maior tristeza dos gaúchos é que Porto Alegre não é Florianópolis (cidade onde deu essa declaração).

Vamos deixar o bairrismo de lado: Dilma está corretíssima. Só ver o que acontece em cada feriadão, especialmente durante o verão: intermináveis congestionamentos na BR-101, principal rodovia usada pelos motoristas porto-alegrenses que vão à capital catarinense. Se tanta gente se dispõe a passar horas em uma estrada para ficar uns poucos dias em Florianópolis, é sinal de que “vale tudo” para fugir de Porto Alegre – ou melhor, “Forno Alegre” nesses dias de calor insuportável.

Sem contar que não faltam pessoas que gostariam de um dia se mudar de Porto Alegre para Florianópolis: a capital catarinense tem invernos menos frios (bom para quem não curte baixas temperaturas), verões menos quentes (sonho de calorentos como eu), uma natureza incomparável (nem falo só das belíssimas praias), e também um estilo de vida que aparenta ser bem mais calmo.

Obviamente, ir a um lugar como turista é diferente de morar nele. Sei que Florianópolis também tem problemas como o trânsito (amigos que foram para lá no verão relatam muita dificuldade para se deslocar pela ilha), a especulação imobiliária (que avança sobre a natureza e também encarece os imóveis, em fenômeno semelhante ao verificado em Porto Alegre), e o transporte público (não recordo de ter andado em ônibus com ar condicionado e a passagem para quem paga em dinheiro é mais cara). E mesmo como turista, notei a pouca arborização nas ruas: ponto a favor de Porto Alegre (enquanto não derrubarem todas as árvores por “falta de uso”, claro).

Ou seja, é muito fácil só falar mal de Porto Alegre (que também tem suas coisas boas) e bem de outras cidades (que também têm seus problemas). Mas, inegavelmente, Dilma está certa quando diz que a maior tristeza do Rio Grande do Sul é Porto Alegre não ser Florianópolis: a BR-101 é testemunha.

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O Bar do Arante

Bar do Arante, na praia de Pântano do Sul, Florianópolis

Faleceu na quarta-feira Arante José Monteiro, mais conhecido como “Seu Arante”. Para quem não conhece, é o fundador do Bar do Arante, na praia de Pântano do Sul, em Florianópolis.

Conheci o Arante em março, durante minhas férias. E as paredes explicam porque o lugar se tornou famoso na Ilha de Santa Catarina: são literalmente forradas por bilhetinhos, deixados pelas pessoas que visitam o bar como recordação. Quando voltam (duvido que alguém não queira voltar), certamente fazem questão de procurar seu bilhete anterior, antes de deixar um novo.

Porém, não foi só o interior do bar que me agradou. Como ele fica junto à praia, almocei com vista para o mar. Lembrei de amigos que na mesma hora deviam estar enfrentando filas em algum restaurante no meio dos prédios em Porto Alegre, pensei em tirar uma foto e imediatamente postar no Facebook pelo celular, mas achei melhor deixar para quando estivesse novamente em casa: como era segunda-feira, seria muita crueldade.

26 de março de 2012, uma bela segunda-feira

Pântano do Sul é um dos belos recantos do Sul da Ilha, onde o “progresso” (aquele que poluiu e nos tirou o Guaíba) ainda não chegou com tudo, como se vê mais no Norte. Um lugar tranquilo, com mar calmo e azul: morar lá seria, sem dúvida alguma, o fim do meu problema com o calor. Quem sabe um dia eu possa fazer isso…

A Novembrada e a questão dos símbolos

Placa alusiva aos 30 anos da Novembrada no Senadinho, tradicional ponto de encontro no Centro de Florianópolis

João Baptista Figueiredo foi o último general a ocupar a presidência do Brasil. Ao assumir o poder, em 15 de março de 1979, jurou que faria do país uma democracia, e mais adiante disse que iria “prender e arrebentar” quem fosse contra a abertura. Bela maneira de democratizar um país…

Mas o “prendo e arrebento” nem foi a frase mais famosa de Figueiredo. Teve uma que foi simbólica do que pensavam os conservadores brasileiros, aqueles que deram todo o apoio ao golpe em 1964:

Prefiro cheiro de cavalo do que cheiro de povo.

No dia 30 de novembro de 1979, porém, o general que preferia o cheiro de cavalo ao do povo teve não apenas de sentir o cheiro, como ouvir a voz do povo. Foi em Florianópolis, onde Figueiredo chegara para participar de solenidades oficiais, dentre elas, a inauguração de uma placa em homenagem ao Marechal Floriano Peixoto, que deu o nome à cidade.

Só a visita de Figueiredo já seria suficiente para motivar manifestações, já que havia muito descontentamento por todo o país devido à alta do custo de vida, o que empobrecia ainda mais o povo. Mas a homenagem a Floriano era a “cereja no bolo”: o “Marechal de Ferro” governara o Brasil de 1891 a 1894 de forma ditatorial (igual aos generais do regime de 1964) e ilegal, visto que a Constituição promulgada poucos meses antes dele assumir a presidência previa que caso o titular – na época, o Marechal Deodoro da Fonseca – deixasse o cargo antes de completar a metade do mandato (que se estenderia até 15 de novembro de 1894), o vice governaria apenas interinamente, devendo convocar eleição para definir um novo presidente que completaria o mandato.

Floriano Peixoto não só ignorou a Constituição, como governou de forma despótica, reprimindo severamente as revoltas que estouraram na época – da Armada, no Rio de Janeiro; e Federalista, no Rio Grande do Sul. Os participantes de ambas se uniram e ocuparam Desterro, capital de Santa Catarina. Após a retomada da cidade pelas tropas governistas, com direito a prisões e fuzilamentos de muitos catarinenses, o governador Hercílio Luz – o mesmo que empresta seu nome à famosa ponte – decidiu mudar a denominação da capital para Florianópolis, ou seja, “cidade de Floriano”. O que não era exatamente a vontade do povo, visto que o governo do Marechal Floriano era bastante impopular na Ilha de Santa Catarina. A mudança de nome foi vista mais como uma humilhação do que como uma homenagem justa, embora a denominação anterior também não agradasse muito à população por ser ligada à ideia de “exílio”, tanto que antes da mudança já havia propostas de outros nomes para a cidade.

A combinação explosiva resultou em uma manifestação popular que contou com aproximadamente 4 mil pessoas, promovida por estudantes da UFSC e duramente reprimida pela polícia. Após ser recepcionado pelo governador Jorge Bornhausen no Palácio Cruz e Sousa, Figueiredo dirigiu-se ao Senadinho, tradicional ponto de encontro no Centro de Florianópolis, sendo hostilizado no trajeto e batendo boca com manifestantes. Mas além do ditador de então, a placa em homenagem ao ditador de 1894 – ou seja, Floriano Peixoto – também foi alvo da ira popular, sendo arrancada do pedestal e pisoteada pelos manifestantes. Sete estudantes foram presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional, motivando novas manifestações nas semanas seguintes, agora em favor da libertação dos estudantes.

A série de protestos em Florianópolis que ficou conhecida como “Novembrada” demonstra a importância que têm os símbolos em nossas vidas – afinal, embora a placa em homenagem a Floriano Peixoto não fosse a única motivação das manifestações, pode-se dizer que foi das mais importantes, por simbolizar o que era considerado uma humilhação ao povo da cidade. Prova que “valor simbólico” não é sinônimo de “sem valor”.

E onde eu queria chegar com tudo isso? A duas questões bastante debatidas em Porto Alegre nos últimos quatro meses: a mudança de nome da entrada da cidade (a proposta do PSOL rejeitada pela Câmara previa que a Avenida Castelo Branco passaria a se chamar Avenida da Legalidade) e a retirada dos crucifixos das dependências do Poder Judiciário do Estado do Rio Grande do Sul.

No primeiro caso, trata-se de não mais homenagear ditadores em nomes de ruas, praças, bairros… E mesmo cidades, caso de Florianópolis. Na Rússia, nem o palco de uma das mais famosas batalhas da Segunda Guerra Mundial resistiu: após a morte de Josef Stalin e a denúncia dos crimes cometidos durante sua ditadura de 29 anos (1924-1953), a homenagem ao déspota tornou-se inaceitável e o governo soviético decidiu mudar o nome de Stalingrado, que passou a se chamar Volgogrado. A capital catarinense, ao contrário da avenida porto-alegrense, tem o problema de não ter uma boa proposta (vamos combinar que as belezas naturais da Ilha de Santa Catarina não combinam com uma cidade chamada “Desterro”, já que tanta gente quer ir morar lá por livre e espontânea vontade, ideia totalmente oposta a de um exílio), mas a ideia da mudança de nome tem de ser mais debatida pela população local.

Já o segundo é mais polêmico, por envolver religião e seus dogmas. Há quem ache que retirar crucifixos das paredes do TJ é uma ameaça à liberdade religiosa: porém, trata-se de uma verdadeira consagração desta, pois quem é seguidor de outra crença (ou quem não tem nenhuma) não será obrigado a submeter-se simbolicamente ao Cristianismo – o crucifixo na parede significa que sua religião não é tão prestigiada quanto aquela cujo símbolo é ostentado. Se o Estado é laico, isso quer dizer que parede de tribunal não é lugar para qualquer símbolo religioso.

Muita gente acha que a preocupação com questões simbólicas é “falta do que fazer”. Porém, a polêmica dos crucifixos é a maior prova de que não: se fosse “coisa sem importância”, não veríamos cristãos defendendo tão fervorosamente a permanência de seus símbolos nos recintos de um dos poderes do Estado.

Cão em férias

Hoje já ponho o pé na estrada, rumo a Florianópolis, e lá a última coisa que pensarei será em atualizar o Cão… Volto semana que vem, mas apenas brevemente, pois depois vou a Rio Grande.

Portanto, não postarei nada aqui até o começo de abril.

Até a volta, leitores!

E ele voltou a defender a ditadura…

O comentarista Luiz Carlos Prates, o mesmo que no ano passado fez rasgados elogios à ditadura militar, voltou ao ataque na última terça-feira. Não achei o vídeo no YouTube, por enquanto só é possível assisti-lo na própria RBS. E como não quero dar mais audiência a eles… Quem quiser assistir é só acessar a página e fazer a busca nos vídeos da RBS TV Santa Catarina.

Prates defende absurdos do tipo “na época do regime militar o Brasil cresceu muito, e havia disciplina e decência”: alguém acredita que a censura deixava passar qualquer “indecência”?

Aliás, qual a opinião de Prates acerca de algo ocorrido em Florianópolis, onde ele reside, e que a empresa dele omite? Não é também uma “indecência”?

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Uma boa resposta à manifestação anterior de Prates em defesa da ditadura (a do ano passado) é o vídeo abaixo:

Ofensa a todos nós

Na segunda-feira, dia 30 de novembro, completaram-se 30 anos da Novembrada, como ficou conhecida uma grande manifestação popular em Florianópolis acontecida quando a cidade recebia a visita do general João Figueiredo, último militar a ocupar a presidência do Brasil. Foi um dos mais importantes protestos contra a ditadura no nosso país.

Porém, o comentarista Luiz Carlos Prates, da RBS, disse no “Jornal do Almoço” de Santa Catarina que a Novembrada foi “coisa de fracassados”. Para ele, o Brasil “só piorou” com a saída dos militares do governo, Figueiredo deu “uma lição de democracia” (E ele morreu pobre, com aposentadoria de general? Leitores, façam seus pedidos para o dia 25, eu sou o Papai Noel!), e não houve repressão e censura, visto que ele não as sofreu (indicativo de que lado ele estava). Pode???

Queria saber de Prates o que acha da crise econômica vivida pelo Brasil que se iniciou ainda na década de 1970 e se estendeu pela seguinte, a ponto dela ficar conhecida como “a década perdida”. Os militares gastaram uma fortuna “construindo estradas”, mesmo que inúteis, como a Transamazônica. E a dívida externa, Ó…

O comentário de Prates é uma ofensa a todos os cidadãos brasileiros, e principalmente aos que lutaram pelo retorno da democracia ao nosso país, muitos tendo que se exilar, ou mesmo perdendo suas vidas. É uma ofensa aos cidadãos que em 30 de novembro de 1979 não se intimidaram e saíram às ruas de Florianópolis para mostrar que as coisas não podiam mais ficar do jeito que estavam.

Abaixo, o vídeo com o comentário infame. Se o leitor tiver estômago, assista.

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Em tempo: esse cara é tão reacionário, mas tão reacionário, que é contra as pessoas andarem de bermuda nas ruas. Se tal opinião já seria absurda em Porto Alegre (que é terrivelmente quente no verão), imaginem na praiana Florianópolis…