O retorno

Você já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio do que um estádio vazio. Não há nada menos mudo do que as arquibancadas sem ninguém. (Eduardo Galeano. Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 20.)

Várias vezes entrei no Estádio Olímpico Monumental vazio. E fiz o mesmo neste domingo em que fui votar em Fábio Koff para presidente.

A última conquista de Koff como presidente foi o Campeonato Brasileiro de 1996, conquistado contra a Portuguesa no Olímpico lotado. Então, em 21 de outubro de 2012, voltei ao mesmo lugar onde fiquei naquela inesquecível tarde do dia 15 de dezembro de 1996.

Sentei, lembrei da torcida enlouquecida comemorando, de Koff dando sua última volta olímpica como presidente… E então, o Olímpico me pareceu menos vazio e mais belo do que nunca.

A goleira em que Paulo Nunes abriu o placar, no início do jogo.

Aílton faz 2 a 0: Grêmio campeão!

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Estamos nos acréscimos

Acabou “o jogo”, ou seja, a votação (pelo menos aqui em Porto Alegre). Agora é esperar o resultado final.

Felizmente, parece que ele não será como o daquele inesquecível confronto entre Grêmio e Palmeiras pela Libertadores de 1995, que eu lembrei há pouco mais de duas semanas. Na comparação, podemos dizer que a campanha de Dilma “marcou o gol”, e ainda contou com a ajuda de Serra, que marcou um “golaço contra”: aquela bola – melhor, bolinha de papel – foi “no ângulo”!

Como maquiar um problema sério

Hoje à noite, o estádio de outro clube na cidade do Grêmio sediará a decisão da Taça Libertadores da América. Não vou falar do jogo em si, nem sequer perderei meu tempo assistindo à partida (vou ler Bourdieu que eu ganho mais).

O que me chamou a atenção foi a medida adotada pela prefeitura para diminuir o caos no trânsito de Porto Alegre: antecipar o fim do expediente do funcionalismo público para as quatro da tarde – ideia que foi seguida por órgãos estaduais e federais na cidade. Assim, se reduz o número de carros nas ruas nas horas mais próximas ao jogo.

Ótima ideia, né? Assim, os jornalistas de outros países que estão em Porto Alegre para cobrir o jogo não ficam com uma impressão tão ruim da cidade… Não perceberão que ela está quase parando, devido a tantos carros nas ruas.

E a prefeitura tem participação nisso, sim, mesmo que também haja um problema de mentalidade (individualismo): muitas pessoas compram carros porque “dá status”, mas também para fugir do transporte coletivo, que já foi melhor por aqui. Mesmo que tenham de ficar horas paradas no trânsito ao volante de seus carros, preferem-no do que passar o mesmo tempo dentro de um ônibus lotado e sem ar condicionado. Bicicleta, então, para eles é “atraso”, mesmo que estejam se tornando cada vez mais populares em países da Europa (que para eles é “civilizada”).

Se o transporte coletivo fosse melhor (e nem falo só de ônibus: Porto Alegre já tinha de ter um metrô mais extenso, assim como linhas de barco aproveitando o Guaíba) e houvesse ciclovias de verdade, seria mais fácil convencer as pessoas a deixarem seus carros em casa ou a nem os comprarem. Tudo bem que se mais gente deixasse de usar o automóvel sem esperar tais melhoras, isso significaria mais cidadãos (e eleitores – que é o que importa para boa parte dos políticos) a reclamarem do caos nas ruas. Mas isso não exime a prefeitura de sua responsabilidade, de forma alguma.

O “CAMPEÃO DE TUDO” NÃO É DE NADA!

Não é pelo fato do jogo mais importante ser Grêmio x Cruzeiro, que eu ia deixar de prestar atenção em Inter x Corinthians.

Quem não sabe o que é ter como irmão o colorado mais chato da face da Terra, não tem ideia de como me dá satisfação vê-lo chegar em casa com o rabo entre as pernas. Acabou de passar perto de mim enquanto escrevo, falei que o Beira-Rio tem de ser interditado por causa da pedrada levada por um reserva do Corinthians (resolveram dar razão ao Chico Lang, que defendia tirarem mando de campo da dupla Gre-Nal: o Inter fez a sua parte), e ele, não respondia com aquela tradicional soberba. Ah, isso é bom demais…

Não é melhor do que o Grêmio ser campeão. Mas que é muito bom, é.

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E sabem o melhor? Fizeram aquele DVD para condicionar a arbitragem, e não deu certo! Corinthians justíssimo campeão, sem a menor participação do juiz!

Quando a vitória não é exatamente nossa

19 de junho de 1996, Estádio Palestra Itália, São Paulo. Palmeiras e Cruzeiro entram em campo para decidir a Copa do Brasil. Nunca eu fui tão cruzeirense como nesse jogo. E nunca o Cruzeiro foi tão Grêmio como nesse jogo.

O motivo? O Palmeiras eliminou o Grêmio na semifinal, graças a um erro de arbitragem no final do segundo jogo, no Olímpico. Um gol legal de Jardel foi anulado, sob alegação de impedimento. O então presidente do Grêmio, Fábio Koff, ameaçou deixar a presidência do Clube dos 13 em protesto. Houve invasão de campo por parte dos torcedores gremistas revoltados, que tentaram agredir a arbitragem e os jogadores do Palmeiras.

Devido ao acontecimento, fiquei com raiva do alvi-verde, e torci muito pela derrota do time paulista. Assim, naquela final eu fui “Cruzeiro desde criancinha”.

A primeira partida da final, disputada no Mineirão, acabara empatada em 1 a 1. Logo, o empate em 0 a 0 daria o título ao Palmeiras. A confiança dos palmeirenses no título era enorme, a ponto de meu colega de turma na 8ª série Giuseppe, paulista e palmeirense, passar boa parte da aula na manhã daquele dia dizendo “Palmeiras campeão da Copa do Brasil”. Eu dizia para ele esperar o jogo acabar, que não comemorasse antes…

Mas assim que a bola rolou, tive a impressão de que teria de aturar ainda mais o Giuseppe na manhã seguinte: aos 5 minutos o Palmeiras fez 1 a 0 com Luizão. O Cruzeiro precisaria virar o jogo para ficar com o título, o empate em 1 a 1 levaria a decisão aos pênaltis. E era improvável que o Palmeiras perdesse: para se ter idéia, o time tinha craques como Rivaldo e Djalminha.

Mas o Cruzeiro não se entregou. E me deu esperanças ao empatar o jogo, aos 25 minutos do primeiro tempo. O autor do gol era mais um motivo para vibração: Roberto Gaúcho. Era um gol de “gaúcho” para vingar os gaúchos roubados nas semifinais.

Após sofrer o gol, o Palmeiras voltou a pressionar. Mas esbarrou em Dida, que fez verdadeiros milagres para impedir o segundo gol palmeirense. Velloso, goleiro do Palmeiras, também fez sua parte ao impedir um gol de cobertura de Palhinha, já no segundo tempo.

Porém, Velloso acabaria se tornando o vilão da noite. Aos 36 minutos do segundo tempo, o goleiro palmeirense tentou cortar um cruzamento de Roberto Gaúcho, falhou e deixou a bola nos pés de Marcelo, que virou o jogo: 2 a 1. A partir daquele momento, o empate passava a ser azul, pois o Cruzeiro tinha mais gols fora de casa do que o Palmeiras.

Quando vi a bola balançar a rede, comemorei como se fosse gol do Grêmio. O Palmeiras, apelidado de “máquina mortífera” por ter marcado mais de 100 gols no Campeonato Paulista de 1996, era derrotado depois de eliminar na roubalheira o meu Grêmio! Minha mãe já tinha ido se deitar, acordei ela com a feliz notícia do segundo gol do Cruzeiro, que tirava a Copa do Brasil das mãos de quem havia ousado comemorar antes da hora.

Quando o jogo acabou, sentimos o sabor de termos conseguido nossa vingança, mesmo que não exatamente por nossas mãos. E nos sentimos ainda mais triunfantes quando um jogador do Cruzeiro, que infelizmente não me recordo qual foi, disse em entrevista: “vingamos o Grêmio”.

Na manhã seguinte, cheguei cedo ao colégio. Os colegas gremistas estavam felizes da vida com a derrota do Palmeiras. E ansiosos pela chegada do Giuseppe… Até imaginamos que ele não iria à aula. Mas ele chegou com uma cara terrível, naquela fria e chuvosa manhã de início de inverno em Porto Alegre. Com um tempo daqueles, pegar um resfriado seria barbada. Daí minha pergunta médica ao colega palmeirense: “já tomou teu Energil-C hoje?” – o nome do comprimido efeverscente de vitamina C estampava a camisa do Cruzeiro campeão.

O maior jogo da minha vida

Grêmio x Portuguesa, final do Campeonato Brasileiro de 1996, foi o jogo mais emocionante de todos os que já fui. Simplesmente inesquecível. Fui ao Olímpico junto com várias pessoas, entre elas minha mãe e meu amigo Diego.

Como hoje, quem decidia o horário dos jogos era a televisão. E naqueles tempos, a moda era passar os jogos mais importantes do domingo para as 19 horas. Foi exatamente o que aconteceu naquele 15 de dezembro de 1996.

Cheguei ao Olímpico por volta das 15 horas, e as filas já eram quilométricas. Esperei por cerca de uma hora debaixo de um sol inclemente. Quando entrei, o estádio já estava quase lotado. Isso que faltavam três horas para começar a partida!

Como havia sido derrotado por 2 a 0 em São Paulo, na partida de ida, o Tricolor precisava fazer 2 a 0 na Portuguesa para ser campeão. Os gremistas sabiam que não seria fácil, a Portuguesa se fecharia toda na defesa para segurar o resultado.

O Grêmio começou o jogo em ritmo arrasador, praticamente iniciou vencendo por 1 a 0: aos 3 minutos, Paulo Nunes marcou o primeiro gol daquele final de tarde. Naquele momento, tive a impressão de que seria barbada. Afinal, se em tão pouco tempo já ganhávamos, o segundo gol seria questão de minutos.

Mas não foi o que aconteceu. A Portuguesa, conforme era previsto, fechou-se na defesa. O Grêmio atacou bastante, mas o segundo gol insistia em não sair. E a Lusa às vezes levava perigo, rápida nos contra-ataques. Ao final do primeiro tempo, o placar mantinha-se em 1 a 0, que na prática era 1 a 2.

No segundo tempo, a situação não se modificou rapidamente. O tempo passava, o Grêmio não conseguia o segundo gol, e a Portuguesa às vezes era perigosa. Ficávamos cada vez mais nervosos, mais preocupados no Estádio Olímpico. Víamos diminuir as chances de conquistarmos o título.

Por volta dos 35 minutos do segundo tempo, substituição. Saía Dinho, que era capitão naquele dia devido à suspensão de Adílson (que levara o terceiro cartão amarelo no jogo de São Paulo), entrava Aílton. Na hora um pensamento me veio na cabeça: “o Aílton vai fazer o gol do título”.

Não estou escrevendo isto para dizer que “tenho dons premonitórios, blá blá blá”: realmente pensei nisso, mas não falei na hora (que bosta, podia ter feito aposta com alguém!). Era compreensível. Aílton vinha muito mal desde que fora contratado pelo Grêmio, no início de 1996. Sempre era vaiado. Se eu dissesse que o Aílton faria o gol do título, o pessoal ao meu redor riria da minha cara.

Aos 39, a bola estava com Carlos Miguel, que deu um balão em direção à área adversária. Àquela altura, a tática fora para o espaço, o Grêmio atacava de qualquer jeito.

O zagueiro César cabeceou a bola, mas para o meio da área, e não para fora como deveria ter feito (e felizmente não fez). De onde estava, vi a bola ser chutada e a rede balançar, mas tive a impressão de a bola batera na rede pelo lado de fora. Passou-se um milésimo de segundo e o Olímpico se levantou no grito de gol. Em outro milésimo de segundo pensei: “se 50 mil pessoas gritam gol, só pode ser gol”. E gritei junto.

Como não estava com rádio, levou cerca de meio minuto para eu saber de quem era o gol. Até que a informação chegou: gol de Aílton!

O ritmo do tempo mudou após o gol. O cronômetro deixou de correr e passou a andar devagar. Agora o Grêmio se segurava e a Portuguesa atacava. Era preciso resistir à pressão da Lusa nos últimos minutos.

Quando, depois de intermináveis minutos de acréscimo, Márcio Rezende de Freitas apitou o final de jogo, a festa tomou conta do Olímpico Monumental. Grêmio, depois de 15 anos, novamente CAMPEÃO BRASILEIRO!

Terminava uma era. Aquela era a última partida de Luiz Felipe Scolari no Grêmio. E o vitorioso presidente Fábio Koff também se despedia e passaria a dedicar-se ao Clube dos 13: deixaria o Grêmio para lutar por viradas de mesa que beneficiassem os sócios. Também saía o capitão Adílson, que retornaria ao Grêmio em 2003 como treinador, mas para salvar o Tricolor do rebaixamento.