O fim do Orkut

No início de 2009 fiquei sabendo que o Esquilo Travesso, escolinha onde fiz o Jardim de Infância, iria fechar as portas pois sua sede (uma antiga casa na Rua Dona Laura) havia sido vendida para, posteriormente, ser posta abaixo.

A notícia me despertou nostalgia por aqueles dias em que eu frequentava a escolinha, de meados de 1986 ao final de 1988. E também me fez decidir pela volta ao Orkut após quase três anos de ausência – cometi meu primeiro orkutcídio no início de 2006 – na esperança de quem sabe reencontrar os coleguinhas daquela época. (Acabei não reencontrando ninguém, lembro que abri um tópico na comunidade perguntando por alguém da turma que concluiu o Jardim em 1988 e não houve resposta…)

No fim, terça-feira foi a vez do próprio Orkut cometer seu orkutcídio. O meu segundo – e definitivo – aconteceu em algum dia em 2012 ou 2013, o que demonstra a decadência da rede que até quatro anos atrás era a mais acessada pelos brasileiros: minha última saída do Orkut não marcou como a primeira, em 2006. No início de 2014, quando a rede completou 10 anos, a Google não tinha pretensões de acabar com ela; mudou de ideia em junho, quando anunciou o fim para 30 de setembro.

Confesso que o fim do Orkut, em si, não me causou maior nostalgia. Afinal, eu já desfizera minha conta e, quando tentei voltar, deu erro. Parecia que o próprio não me queria mais lá.

Por mais cruel que possa parecer minha avaliação, o Orkut não chegou ao fim “por nada”. É preciso avaliar todos os motivos pelos quais uma imensa quantidade de pessoas decidiu trocá-lo pelo Facebook, mas alguns são facilmente identificáveis: excesso de spam (do qual, inclusive, não estamos livres no FB), falta de dinâmica (em 2010, antes do Facebook “bombar”, a rede na qual se compartilhava links e notícias era o Twitter, não o Orkut), sem contar os “benditos” gifs animados que chegavam a dar dor de cabeça.

O ruim mesmo é que no Facebook não tem comunidades e não há sinal de que Mark Zuckerberg pretenda adotar tal funcionalidade “orkutiana” em sua rede. E se nem no Orkut, onde havia uma comunidade do Esquilo Travesso, eu consegui encontrar aquela menininha simpática de quem eu tanto gostava, no Facebook certamente não vou achá-la. Pode parecer bobagem, mas eu adoraria reencontrar alguém que não vejo há quase 26 anos.

O fim da melhor feijoada da escadaria do Viaduto Otávio Rocha

Fui pela primeira vez ao Tutti Giorni num final de tarde de verão em 2008. Aquelas mesas na escadaria do Viaduto Otávio Rocha me chamaram a atenção, e pensei no quão bacana seria tomar uma cerveja ali. Ainda mais que por ser um lugar alto, bate mais vento e assim se sente menos calor.

Quando tomei aquela primeira cerveja, descobri que não era apenas um bar num lugar privilegiado. O Nani falou dos pratos que costumava servir no almoço, com destaque para o tradicional carreteiro a R$ 1,99. Mas além disso, tinha uma deliciosa feijoada. E a decoração do Tutti, então, era sensacional: inúmeros desenhos, cartuns, e mesmo caricaturas do Nani, feitas pelos cartunistas da GRAFAR que haviam adquirido o hábito de se reunir no bar todas as terças-feiras à noite. Inclusive, o Tutti só funcionava à noite nas terças-feiras – exceto no verão, quando abria em mais noites de olho nos Rodrigos da vida, sedentos por uma cervejinha gelada (com direito à deliciosa uruguaia Zillertal).

Frequentei bastante o Tutti em 2008 e 2009, época em que o meu pai morava ali perto e também costumava ir bastante ao bar. Porém, no segundo semestre de 2009 meu pai se mudou e passei a andar menos pela região; além disso, foi a época de escrever meu trabalho de conclusão na faculdade, que me fazia pensar muito menos em cerveja e muito mais no prazo cada vez mais apertado. Assim, minha frequência diminuiu bastante.

Já sabia àquela altura que o Nani corria risco de perder o bar devido a pendências com o condomínio referentes a um período em que ele esteve em coma devido a um acidente de carro. Mas imaginava que tudo iria se resolver, e o “bar dos cartunistas” continuaria ali, animando uma das escadarias do viaduto da Borges todas as noites de terça-feira. Não conseguia pensar que, um dia, iria ao Tutti Giorni pela última vez.

Pois o dia chegou. Em breve, o Nani terá de entregar o ponto. Anteontem (uma terça-feira, óbvio), o Tutti Giorni abriu pela última vez à noite, e fiz questão de passar lá e tirar com o celular mesmo algumas fotos do bar que não terei mais como frequentar – a não ser que ele reabra em outro ponto, como torço que aconteça. Mas de qualquer forma, só resta lamentar pelo fim do espaço em um lugar tão bacana, que ajudava a escadaria do viaduto a não ser um lugar tão inseguro nas noites de terça-feira – os mesmos que devem estar celebrando o “fim do barulho” certamente sentirão falta do Tutti quando o entorno ficar pouco movimentado e, consequentemente, mais perigoso.

A perda de uma referência

Um tempo atrás, o Kleiton escreveu no Cataclisma 14 a respeito do Colégio Marista Irmão Weibert, onde estudou de 1994 a 2000. Falido, o colégio encerrou suas atividades no final de 2006, sendo vendido para a Arquidiocese de Porto Alegre e transformado em Colégio Senhor Bom Jesus. Ele falou que, apesar do prédio de seu antigo colégio continuar lá, não sentia mais a mesma identificação: era como enxergar um lugar que parece familiar mas não passa nenhum vínculo, nenhuma referência com seu passado – pois sabia não ser mais “o mesmo colégio” que era quando se formou.

Algo semelhante está para acontecer comigo, mas em relação a um período ainda mais recuado no tempo. Semana passada, recebi do meu pai um e-mail com um link para uma matéria do caderno de bairro ZH Moinhos. A leitora Hedy Schmidt lembrava o dia, há 20 anos, em que foi escolher uma escolinha para a filha Mariana e havia encontrado na Rua Dona Laura o Berçário, Maternal e Jardim de Infância Esquilo Travesso. Desde então, passar pela rua e acenar para as professoras Bia Leiderman e Elisa Martins Dias, responsáveis por muitos “esquilinhos” durante 30 anos, tornou-se rotina mantida até hoje.

Os nomes das professoras me ajudaram a “abrir a porta” da parte da minha memória onde eu guardava as lembranças daquele tempo. Eu freqüentei o Esquilo de meados de 1986 ao final de 1988, saindo por um motivo de força maior: conclusão do Jardim de Infância. Nunca mais voltei à escolinha, mas mais de uma vez passei pela frente apenas para recordar aqueles tempos.

O Esquilo fora indicado pela terapeuta com a qual eu me tratava na época, apesar de caro para os padrões da minha família – meu pai disse que não foi fácil pagar todos os meses. E no último ano, meu irmão(zinho), quase bebê de colo naquela época, foi matriculado. Como ele chorava toda hora, muitas vezes as professoras me chamavam para ir brincar com ele – imagina só, eu, com 6 anos, brincando com criancinhas de 1 e 2… O que me rendeu o apelido de “paizinho”.

Uma vez a professora (infelizmente lembro poucos nomes) designara um símbolo para cada aluno se identificar: o meu era um triângulo vermelho. O problema é que eu não aceitava usar a cor do time da beira do rio… Venci a disputa com um colega e fiquei com um quadrado azul. Mas isso era para quem ainda não soubesse escrever: e foi lá que aprendi, a 1ª Série do 1º Grau serviu para melhorar a minha caligrafia.

Também lembro do “primeiro amor”: tinha uma menininha muito simpática que eu não desgrudava, chegava a encher o saco dela. Mas eis que, no dia do meu aniversário, ela me deu um ursinho de presente! Porém, o pateta aqui esqueceu o presente na escola aquele dia. Logo que cheguei em casa reparei a burrada. No outro dia não esqueci o ursinho, ainda mais depois de saber que a menina havia ficado muito triste, por achar que eu não tinha gostado do presente. Que vergonha…

Assim como aconteceu com o Irmão Weibert, o Esquilo Travesso vai fechar. Segundo escreveu a leitora do ZH Moinhos, a casa onde funciona a escolinha será vendida. Infelizmente, sinto que comigo acontecerá algo bem diferente do Kleiton: ele pelo menos ainda pode passar pelo prédio onde seu colégio funcionava, mesmo que não sinta mais a identificação que tinha antes (ao menos, como ele disse, “não virou um centro comercial, um posto de gasolina, um complexo esportivo”); no caso do Esquilo, considerando a valorização daquela região da cidade, provavelmente a casa não será mantida.

Espero que eu esteja errado.