A taça do Tim Maia

No início de 1998, minha maior preocupação era superar uma paixão não-correspondida. As aulas só começariam no final de fevereiro, então o colégio não era prioridade.

Superar mesmo não foi fácil. Mas uma das formas de esquecer era jogar no computador. Ainda não tínhamos internet (e quem tinha, era a boa e velha conexão discada), então para jogarmos em grupo, era preciso reuni-lo presencialmente.

Foi neste contexto que iniciamos um histórico campeonato de FIFA 96. Numa tarde de algum dia daquele verão de 1998, meu irmão Vinicius e eu chamamos os amigos Leonardo Sato e Renato Krause para jogarmos umas partidinhas do FIFA. Então decidimos disputar uma liga de seleções, nos dividindo em duplas. O Renato e o Vini pegaram o Brasil, o Sato e eu nos dividimos no controle da Argentina.

Era um campeonato muito legal, embora fosse óbvio que uma versão real daquilo seria inviável. Imaginem, um certame reunindo 22 seleções de todo o mundo, disputado em pontos corridos, turno e returno. Como não há uma Libertadores do Sistema Solar, ser vice-campeão ou 6º colocado é a mesma coisa. Ou seja, a liga do FIFA 96 jamais será disputada no mundo real.

Mas para nós o importante mesmo era a diversão. E começamos o inesquecível campeonato. O Brasil muito bem, obrigado, enquanto a Argentina… Só patinava. Brigaria para não cair, se houvesse rebaixamento.

Foi então que, como “dirigentes” da AFA, o Sato e eu decidimos “trocar o treinador”. Mandamos Marcelo Bielsa embora e chamamos Mario Kempes para assumir o comando da equipe. E os resultados começaram a aparecer. A Albiceleste deixou as últimas posições e começou a brigar pela hipotética classificação à “Libertadores do Sol”.

Infelizmente, a Argentina não conseguiu ser campeã. O Brasil já estava muito à frente. Com algumas rodadas de antecedência, conquistou o título; os hermanos tiveram de se contentar com o vice.

Disputamos as últimas rodadas na tarde de 15 de março de 1998. Horas antes, havia falecido Tim Maia, depois de vários dias internado no hospital.

Na hora da entrega da taça, o Renato fez questão de homenagear: “Essa conquista é pro Tim Maia!”.

Do “correio eletrônico” à blogosfera

Reportagem exibida pela Record em 1990 sobre a grande novidade na área da informática: o correio eletrônico!

O meu pai descobriu o vídeo acima, e logo começamos a falar do quanto a informática evoluiu nos últimos tempos, e também a lembrar de quando compramos o primeiro computador, em 16 de março de 1995. Era um 486, com 8MB de memória RAM, disco rígido de 400MB (um latifúndio!), que usava o Windows 3.11 como sistema operacional, enfim, uma baita aquisição! Melhor que isso, só se comprássemos o último lançamento, o moderníssimo Pentium! Só que aí era caro demais…

A ideia do meu pai era comprar o computador para trabalhar, já que mais cedo ou mais tarde ele precisaria se “informatizar” para se manter no mercado. Internet, ele ainda nem cogitava. Já meu irmão e eu, claro, víamos a máquina como um videogame em potencial. E logo compramos os primeiros jogos: os sensacionais FIFA International Soccer e World Circuit. Como não tínhamos joystick, fazíamos revezamento: no FIFA, cada um jogava um tempo; já no de Fórmula-1, não era raro estar esperando a vez quando aparecia a mensagem de que eu estava fora da corrida porque tinha batido, ou o carro tinha dado problema…

Eram partidas sempre silenciosas: o computador não tinha placa de som! Tanto que muitas vezes eu me ferrava no Doom porque era atacado pelas costas e demorava a perceber. Mas acabamos descobrindo como ligar um som do próprio computador para os jogos – aqueles ruídos bem “eletrônicos”, mas que eram melhor que nada.

Mas além dos jogos, os programas também podiam ser interessantes. Como os editores de texto. Olhando para aquela época, chega a parecer estranho que cinco anos depois eu iria estar cursando Física: eu já gostava de escrever. Tanto que também conseguia ver o computador como “uma máquina de escrever mais moderna”, além da função básica (videogame). Aliás, não por acaso o divertidíssimo livro “Detesto PCs” fazia uma escrachada comparação entre o computador e a máquina de escrever, explicando os motivos pelos quais o leitor não deveria trocar sua velha máquina por um computador (desta forma, com muito bom humor, ajudava o iniciante a perder o medo).

No início de 1996, acabamos com o silêncio do computador, adquirindo uma placa de som. Finalmente podíamos jogar FIFA com o barulho da torcida, ouvir os rugidos dos monstros no Doom, os barulhos dos carros de Fórmula-1… E aí vieram também jogos melhores como o FIFA 96, com os nomes verdadeiros dos jogadores (apesar de ter vibrado com muitos gols de Janco Tianno pelo Brasil no FIFA “antigo”) e até narração das partidas (em inglês, claro). Era possível montar o próprio time, embora sem poder jogar os campeonatos que o jogo oferecia; lembro que o meu tinha craques como Preud’homme, Hagi, Stoichkov, e o destaque maior, o francês Loko – cada vez que o narrador se referia ao jogador, sempre pronunciando seu nome incorretamente (dizia “loucou” ao invés de “locô”), era garantia de risada.

Os anos passaram, e computadores mais potentes vieram. Assim como jogos com gráficos mais perfeitos, como o FIFA 98 – com direito à disputa das Eliminatórias da Copa do Mundo de 1998, permitindo algumas façanhas históricas como a classificação de Cuba para o Mundial, sob meu comando.

Começamos a acessar a internet – conexão discada, com velocidade de 14,4 kbps, uma beleza! (E na minha casa foi assim até o início de 2005.) Eram tempos em que era preciso esperar a meia-noite para entrar na rede, horário a partir do qual as companhias telefônicas passavam a cobrar pulso único por ligação. Conectávamos e encontrávamos os amigos no ICQ – isso quando conseguíamos nos conectar.

Aliás, coisa bem interessante o que aconteceu nos últimos tempos. Lembro que no ICQ (aliás, alguém ainda usa???) eu falava principalmente com gente que eu conhecia pessoalmente. O mesmo se dava no MSN, assim como no Orkut. Alguns anos se passaram, e comecei a conhecer “na vida real” pessoas com as quais estabeleci os primeiros contatos no espaço virtual – e que, não fosse a internet, dificilmente eu as conheceria. Num exemplo bem simples, provavelmente eu passaria pelo Guga e pelo Hélio na social do Olímpico e os veria apenas como mais vozes a apoiarem o Grêmio, se eu não tivesse um blog e não conhecesse os deles.

E o incrível é pensar que tudo isso aconteceu em tão pouco tempo. Afinal, há menos de 10 anos, eu ainda precisava esperar a meia-noite para me conectar na internet e pôr o papo em dia com os amigos via ICQ… Enquanto a hora não chegava, jogava um FIFA e tentava levar as seleções mais fracas para a Copa do Mundo.