Isto é o Gauchão

Estamos no intervalo do Gre-Nal realizado no Beira-Rio, empate parcial de 1 a 1. E público decepcionante para um clássico que define um semifinalista da Taça Piratini (primeiro turno).

Salve a FGF, por seguir avacalhando o futebol gaúcho. Como já disse, este modelo de campeonato estadual é para lá de defasado. São 16 clubes, a maioria da região metropolitana, disputando um campeonato de fórmula semelhante à do Campeonato Carioca – aliás, acho que o regulamento do original é melhor, pelo menos para o Gauchão.

O estadual do Rio tem o mesmo número de participantes do Gauchão – ou seja, 16. Só que lá apenas os dois primeiros de cada grupo passam de fase, indo à semifinal de cada turno. Aqui no Rio Grande do Sul se inventou essa excrescência de quartas-de-final de turno, ainda tento entender o porquê. A televisão não pode ser, pois ela também transmite o Campeonato Carioca.

Seria para “dar chance aos pequenos”? Então essa dica deveria ser dirigida aos dirigentes cariocas, visto que o Rio tem quatro grandes clubes – que são exatamente os quatro semifinalistas da Taça Guanabara (primeiro turno).

Já no Rio Grande do Sul são apenas dois grandes (a dupla Gre-Nal), e se apenas os dois primeiros de cada grupo passassem o Grêmio teria ficado fora. Aliás, só está jogando as quartas-de-final porque o Cruzeiro perdeu, injustamente, seis pontos.

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Como NÃO montar uma tabela de campeonato

Em novembro, comentei sobre a maluca ideia da FGF na época, de levar o Gre-Nal do primeiro turno do Gauchão para Boston, nos Estados Unidos. Felizmente a maluquice foi deixada de lado, e o clássico aconteceu no Estádio Olímpico Monumental, no último dia 5 (deixemos o resultado para lá, por favor).

Mas isso não quer dizer que a tabela do Gauchão tenha ficado uma beleza. Basta olhar para a última rodada deste primeiro turno, marcada para amanhã, para perceber a estupidez.

Primeiro pelo fato dela prever dois jogos envolvendo a dupla Gre-Nal em Forno Alegre, no mesmo horário (como manda o bom-senso em rodadas decisivas). O Inter joga contra o Pelotas no Beira-Rio, enquanto o Grêmio enfrenta o São José no Passo d’Areia. Embora a distância entre os dois estádios seja bem maior do que aquela que separa Olímpico e Beira-Rio, não deixa de ser absurdo marcar dois jogos da dupla Gre-Nal para o mesmo horário na mesma fornalha cidade. Ainda mais em um sábado de Carnaval: para que a Brigada Militar possa policiar os dois estádios onde a bola rola amanhã, mais o Sambódromo, foi necessário antecipar as partidas, originalmente previstas para as 17h.

O resultado é o horário para o qual estão marcados os jogos de amanhã: 16h20min. Pelo horário de verão… Ou seja, será 15h20min pelo sol. E está prevista temperatura máxima de 39°C para amanhã em Forno Alegre.

(Não que realizar os jogos às 17h fosse melhorar muito as coisas: foi antes de um jogo neste horário que o comentarista Batista desmaiou em 2010, quando a temperatura superou os 40°C. O ideal seria que as partidas ocorressem à noite, mas aí teríamos o problema relativo ao policiamento. Sem contar os interesses da televisão…)

Agora somem a isso o ingresso caro, o feriadão de Carnaval, e temos uma maneira perfeita de espantar o público dos estádios. E depois há quem reclame que o Gauchão “não é valorizado”; mas também, como valorizar um campeonato com esta “organização”?

Das maluquices da FGF

Em 1994, pela última vez o Campeonato Gaúcho foi disputado no sistema de pontos corridos, em turno e returno. Bem que podia voltar a ser assim, né? Deve ter sido um campeonato bacana.

O pior é que não foi. Pois o Gauchão de 1994 foi o mais longo (e pior) de todos os tempos, e por isso recebeu da imprensa a justíssima alcunha de “O Interminável”. Começou no dia 5 de março, e foi acabar só em 17 de dezembro. Foi um festival de absurdos: 23 participantes, 506 jogos, com Copa do Mundo e Brasileirão em andamento…

Por conta do Gauchão ocorrer em meio a tantas competições, o Grêmio não teve alternativa que não fosse simplesmente deixar o estadual em enésimo plano. Afinal, ganhou a Copa do Brasil (cuja decisão foi em agosto), disputou a Supercopa dos Campeões da Libertadores (sendo eliminado pelo Independiente em meados de outubro) e a Copa Conmebol (sem passar do “expressinho” do São Paulo na primeira fase). Além, claro, do Campeonato Brasileiro, com o qual esteve envolvido até novembro.

O resultado disso foi um grande número de partidas atrasadas quando 1995 já batia à porta. E só houve um jeito do Grêmio poder disputar todas (caso contrário as perderia por WO): jogar três delas na mesma tarde.

E o pior é que não foi uma tarde qualquer: o dia 11 de dezembro de 1994 foi de muito calor em Porto Alegre, com temperatura máxima de 38°C. E o primeiro jogo começou às 14h – não por acaso, acabou em 0 a 0.

Vários anos depois, novamente um jogo de Gauchão no Olímpico “cozinhou” os jogadores. Na tarde de 3 de fevereiro de 2010, uma quarta-feira (e não era feriado!), a temperatura máxima em Porto Alegre foi, oficialmente, de 38,1°C; mas estação próxima ao Olímpico apontou 41,3°C na hora em que Grêmio e São Luiz de Ijuí jogavam. Porém, o que todo mundo lembra daquele jogo, claro, é do famoso desmaio.

Logo, penso que a ideia de levar o Gre-Nal da primeira fase do Gauchão 2012 para Boston, nos Estados Unidos, só pode ser uma “compensação” ao Grêmio por parte da Federação Chilena Gaúcha de Futebol (FGF). Depois de fazer o Tricolor jogar tantas vezes sem necessidade debaixo de um sol inclemente, agora o objetivo é que o Grêmio volte a disputar uma partida de Gauchão na neve, assim como em 1979.

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Sobre o “Gre-Nal de Boston”, agora falando sério: isso é “valorizar o Gauchão”? Ainda acho que o melhor seria seguir a minha proposta, de um torneio curto “em nome da tradição” (semelhante ao de 2002). Porém, desde que foi adotada a atual fórmula do Campeonato Brasileiro, que faz o nacional ocupar mais espaço no calendário em comparação à “era formulista”, nunca o Gauchão foi tão “interminável” quanto em 2011: a final foi apenas em 15 de maio. E o calendário do futebol brasileiro para 2012 será semelhante. Nos preparemos.

Aliás, “interminável” também será a hipotética viagem dos jogadores até os EUA para jogarem o Gre-Nal – mais longe do que ir até o México para uma partida de Libertadores. E só imagine o choque térmico: eles sairão de nossa “fornalha” direto para a “geladeira”, já que a temperatura média de fevereiro em Boston é de 0°C.

Gauchão com “cara europeia”

O Campeonato Gaúcho de 2010, que começa no próximo dia 16, tem até uma página oficial.

Olha um pedaço do texto de abertura da página:

A partir de 2010, o Campeonato Gaúcho passa a ter uma cara nova e permanente. Assim como nos campeonatos europeus, a Federação Gaúcha de Futebol adotou uma moderna logomarca e apresenta um novo conceito de gestão que visa reposicionar e valorizar o Campeonato Gaúcho no cenário nacional.

Até parece piada. Um campeonato que só é mantido “em nome da tradição” querer se comparar a certames competitivos! Alguém pode dizer que na Espanha praticamente só há dois clubes que brigam pelo título – Barcelona e Real Madrid – mas isso significa esquecer Valencia, Atlético de Madrid, Villarreal, Sevilla, La Coruña, dentre outros que, quando não ganham, incomodam uma barbaridade.

Não bastasse a bizarra comparação, a página oficial NÃO TEM A TABELA DO CAMPEONATO! Acreditem se quiser… Descobri o carnê no Futebol na Rede. E pude perceber que, embora se fale tanto em valorizar o Gauchão, o esforço é no sentido contrário: no 1º turno (Taça Fernando Carvalho), os jogos da dupla Gre-Nal em Porto Alegre nos finais de semana serão às 19h30min… De domingo. Exceção feita à última rodada, dia 13 de fevereiro, quando todos serão às 17h.

Não aceito a desculpa de “antes é ruim porque tá todo mundo na praia”. Às 19h30min, todo aquele pessoal que chegou da praia está descarregando suas bagagens. E depois, provavelmente descansando (o que é realmente necessário, depois de pegar engarrafamento).

Domingo à noite não é horário bom para futebol, será que não aprendem? No sábado não é problema, dá para sair do estádio e ir direto pro boteco falar mal daquele juiz ladrão e das burrices do treinador. Domingo, não.

Já é uma bosta os jogos do Campeonato Brasileiro às 18h30min de domingo, imagina de Gauchão às 19h30min? Sem contar os de quarta depois daquela porra de novela. E ainda por cima tendo de pagar caro: ano passado, o ingresso de arquibancada (ou seja, mais barato) no Olímpico custava R$ 30. Depois não entendem porque a média de público é baixa…