Memórias do Saque

Há dez anos, a Argentina vivia uma grande revolta popular. O presidente Fernando de la Rúa, eleito em 1999 com promessas de mudanças, apenas dera continuidade à política econômica de seu antecessor, Carlos Menem, que afundava o país em uma grave crise econômica e social.

O desemprego e a pobreza aumentavam assustadoramente, e em dezembro de 2001 eram registrados saques a supermercados em diversas cidades. Em resposta, no dia 19 o governo decretou estado de sítio para tentar controlar a situação. O efeito foi oposto: o povo decidiu sair às ruas e desafiar a medida autoritária de um governo a cada dia mais impopular. Batendo panelas (o famoso cacerolazo, ou “panelaço”), em Buenos Aires milhares de pessoas tomaram a Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, sede do governo argentino.

No dia seguinte, 20 de dezembro, nem a feroz repressão policial que deixou mais de 30 mortos foi capaz de desocupar a Praça de Maio. Desesperado, De la Rúa chegou a propor que a oposição peronista passasse a integrar um governo de “união nacional”. A proposta foi recusada, e sem apoio político nem popular, o presidente renunciou, deixando a Casa Rosada de helicóptero.

Uma boa ideia no dia em que a derrubada de De la Rúa pelo povo completa dez anos é assistir ao documentário “Memórias do Saque” (Memorias del Saqueo), de Fernando Solanas. O filme mostra como se deu o endividamento e o consequente empobrecimento da Argentina – que adotou um programa “anticrise” semelhante ao que hoje é aplicado nas economias europeias mais frágeis como a Grécia, um remédio que apenas piorou a “doença”. Pois salvar os bancos não significa que o povo passará a viver melhor – muito antes pelo contrário.

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Dividocracia

Um excelente documentário sobre a crise grega, disponibilizado com legendas em português pelo João Martins, do Movimento Apartidário da Cidade de Loulé.

O vídeo, produzido por jornalistas independentes gregos, demonstra como a Grécia chegou à situação vivida hoje: após a ilusão de que o país viraria “potência econômica”, resta agora a dívida impagável (e imoral, visto que contraída sem o conhecimento do povo) e a necessidade de lutar contra o “remédio” imposto pelos organismos internacionais (FMI, Banco Mundial, União Europeia etc.) que simplesmente transfere a conta para os cidadãos. Aliás, ocasião na qual o sistema capitalista mostra, através do gás lacrimogêneo e dos cassetetes dos policiais, o quão “democrático” é.

São as mesmas medidas que no passado foram aplicadas na Argentina, levando boa parte do povo à miséria e provocando uma revolta popular que pôs para correr o presidente Fernando de la Rúa em dezembro de 2001.

Assista:

As Copas que eu vi – Coreia do Sul/Japão 2002

Como definiu Eduardo Galeano, eram “tempos de quedas”. Em 11 de setembro de 2001, caíram as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque. Caiu também o mito de que os Estados Unidos eram invulneráveis a ataques externos. Em resposta, a partir de 7 de outubro de 2001 bombas caíram de aviões estadunidenses sobre o Afeganistão – e continuam caindo até hoje.

Caia também o presidente da Argentina, Fernando de la Rúa. Os argentinos não aguentavam mais a penúria que lhes era imposta pela crise econômica e os ditames do FMI, e foram para a rua pedir a renúncia do governo, em dezembro de 2001. O presidente argentino atendeu aos pedidos das massas no dia 20, mas não sem antes decretar estado de sítio e ordenar a repressão aos protestos.

Para mim também eram “tempos de quedas” – no caso, de convicções “profissionais”. Desde meu ingresso no curso de Física da UFRGS, em março de 2000, eu nunca questionara tanto a opção que eu tinha tomado como começou a acontecer no início de 2002. Aos poucos, fui perdendo totalmente a motivação, mas ainda sem coragem de admitir a outras pessoas que eu havia errado – o que fui fazer apenas no final de abril.

Eu ainda insisti por mais um semestre – que começou só em junho de 2002, devido ao atraso no calendário proporcionado pela longa greve dos professores da UFRGS em 2001 (que fez o segundo semestre daquele ano iniciar-se em 17 de dezembro). O primeiro semestre de 2002 começou junto com a Copa do Mundo, pela primeira vez realizada na Ásia e em dois países, Coreia do Sul e Japão. Foi uma Copa diferente também quanto aos horários dos jogos, com muitos sendo disputados pela madrugada no horário brasileiro, correspondente à tarde na Coreia e no Japão. Continuar lendo