Estranho resgate

Apesar de não ter postado nos últimos dias devido aos últimos trabalhos do final de semestre na faculdade, não deixei de dar uma passada nos blogs que costumo visitar diariamente. E claro, também acompanhei a repercussão a respeito do resgate da ex-candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, que havia sido seqüestrada pelas FARC em 2002.

Estranho esse resgate. Acontece justamente no momento em que a Justiça colombiana questiona a eleição que deu ao presidente Álvaro Uribe um novo mandato, em 2006. Sem contar que ele já pensa na possibilidade de concorrer a um terceiro mandato.

Mas não me é nem um pouco esquisito não ver nossos (de)formadores de opinião afirmarem que Álvaro Uribe quer se tornar um ditador, da mesma forma que atacavam o Chávez por querer o mesmo na Venezuela.

Sempre gosto de lembrar Pierre Bourdieu, que escreveu um artigo cujo título é “A opinião pública não existe”. O uso de tal expressão dá a falsa idéia de existir um consenso a respeito de um tema. Como o próprio Bourdieu diz, “O equivalente de ‘Deus está conosco’ é, hoje em dia, ‘a opinião pública está conosco'” – ou seja, trata-se de uma nova forma de absolutismo. Utilizar a “opinião pública” como justificativa para uma ação é uma maneira extremamente eficaz de obter apoio, como mostra, mais uma vez, Bourdieu, mas em trecho do excelente “A Economia das Trocas Lingüísticas”:

A especificidade do discurso de autoridade (curso, sermão etc.) reside no fato de que não basta que ele seja compreendido (em alguns casos, ele pode inclusive não ser compreendido sem perder seu poder), é preciso que ele seja reconhecido enquanto tal para que possa exercer seu efeito próprio. Tal reconhecimento (fazendo-se ou não acompanhar pela compreensão) somente tem lugar como se fora algo evidente sob determinadas condições, as mesmas que definem o uso legítimo: tal uso deve ser pronunciado pela pessoa autorizada a fazê-lo, o detentor do cetro (skeptron), conhecido e reconhecido pela sua habilidade e também apto a produzir essa classe particular de discursos, seja sacerdote, professor, poeta etc.; deve ser pronunciado numa situação legítima, ou seja, perante receptores legítimos (não se pode ler um poema dadaísta numa reunião do conselho de ministros), devendo enfim ser enunciado nas formas (sintáticas, fonéticas etc.) legítimas.¹

Pois bem: a mídia é vista como uma autoridade pela maioria das pessoas. O que lhe dá esse caráter é o fato de sempre declarar-se – com raras exceções – acima dos partidos e das ideologias, conforme já lembrei em uma postagem em abril. Boa parte das pessoas, que não foi ensinada a pensar, na hora do noticiário quer “tudo pronto”, sem precisar refletir sobre os assuntos. Quer visão única, “definitiva”. Por isso a mídia corporativa, “apartidária”, é tão eficaz.

Pois bem: e o que isso tem a ver com Betancourt e Uribe? Tudo!

Ontem e hoje, o resgate da ex-senadora colombiana é capa da Zero Hora. E ainda por cima as matérias dos jornais afirmam que ela teria dito “se o povo quer, por que não?” a respeito da possibilidade de um terceiro mandato para Uribe.

Será que o povo realmente quer? Ou é interesse de alguns poucos, porém influentes?

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¹ BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Lingüísticas. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996, p. 91.

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Para quem tem muita esperança de mudança com Obama

Se eleito presidente, o democrata Barack Obama afirma que a Colômbia terá direito “de atacar terroristas que busquem santuários além de suas fronteiras”. Ou seja: Álvaro Uribe não sofrerá recriminações de Obama caso as tropas colombianas invadam território estrangeiro – seja peruano, equatoriano, venezuelano ou brasileiro – para atacar as FARC.

Leia mais no Blog das Américas.

E se fosse no Brasil?

Na manhã de hoje, a pesquisa interativa do programa “Polêmica” da Rádio Gaúcha perguntava “quem tem razão, Colômbia ou Equador e Venezuela?” aos ouvintes. E o resultado foi o seguinte: 88% (sim, 88%!) diziam que a Colômbia estava certa em violar a soberania do Equador para atacar os guerrilheiros das FARC. Só 12% deram razão a Equador e Venezuela.

Dou toda razão ao presidente equatoriano Rafael Correa em protestar veementemente contra a invasão a seu território. Já Hugo Chávez, eu acho que era melhor ele se manter “na dele”: uma eventual guerra cairia do céu para seu maior inimigo, George W. Bush, que provavelmente daria apoio militar a seu aliado Álvaro Uribe.

Mas o que eu me questiono é: se os militares colombianos invadissem não o Equador, e sim o Brasil, para atacar as FARC, será que estes 88% favoráveis à Colômbia da manhã de hoje apoiariam o ato?