Pela família e pela vida

“Vou trabalhar em defesa da família”, dizem vários candidatos e candidatas a cargos parlamentares nas eleições do próximo dia 5 de outubro. Não é de hoje que esse chavão é repetido, mas aumentou bastante sua frequência no horário eleitoral em 2014. Eu até andava pensando: será que existe algum candidato “contra a família”? Ao menos seria algo diferente.

Esses dias, meu amigo Paulo Alcaraz fez um comentário genial sobre esse negócio de “defesa da família”: ora, o Don Corleone também era a favor da família… Não é verdade?

"Um homem que não gasta tempo com sua família nunca será um verdadeiro homem." (Don Corleone em "O poderoso chefão")

“Um homem que não gasta tempo com sua família nunca será um verdadeiro homem.” (Don Corleone, “O Poderoso Chefão”)

E não só o Don Corleone era (muito) a favor da família. Quem assistiu ao excelente “A Queda” certamente sabe o motivo pelo qual o filme foi alvo de muitas críticas: mostrava um Adolf Hitler “humano”, que inclusive era carinhoso com sua família, ao contrário da imagem “monstruosa” geralmente associada a ele e aos nazistas em geral. Afinal de contas, é mais fácil dizer que tragédias como o nazismo foram “monstruosidades” do que admitir o fato de que foram obras de seres humanos e que, consequentemente, todos nós somos suas “sementes”, como bem mostrou o excelente filme “A Onda” (em especial, a versão alemã lançada em 2008).

Mas para não falarmos só de um personagem de ficção e de um ditador, lembremos o traficante de drogas (aquelas que você não quer que sejam legalizadas de jeito nenhum, para a alegria do traficante que assim não perde sua clientela). Ele também tem família. E, obviamente, é a favor dela.

Acho que já deu para sacar o quão vazio é esse discurso de “defesa da família”. Serve apenas para esconder as verdadeiras intenções de quem o profere – em geral, aqueles políticos cuja principal bandeira é defender que “família” só pode ser de um jeito, e de nenhum outro. Na cabeça desses “pró-família”, só heterossexuais têm direito a serem felizes no amor, mas como pega mal ser contra a felicidade alheia, disfarçam com esse papo furado de “ameaça à família brasileira”.


E tem também as candidaturas que “defendem a vida”. Outro discursinho vazio: existe alguém que seja “a favor da morte”? Até mesmo donos de funerárias são “pela vida”: afinal, só vivos podem morrer.

Assim como os “defensores da família”, os “pró-vida” disfarçam suas verdadeiras intenções: que se mantenha a criminalização do aborto (e por eles, seria crime até mesmo interromper uma gravidez fruto de estupro ou de um feto anencéfalo, únicos casos em que o aborto é legalizado). Não é por realmente considerarem que o feto seja uma “vida” (tanto que no meu registro consta como data de nascimento o dia em que deixei o útero de minha mãe, não quando ela descobriu estar grávida), mas sim por que, na cabeça deles, “mulher decente não transa com qualquer um, gravidez indesejada é coisa de vadias e elas que se explodam!”. Ou seja, o bom e velho machismo, pensamento segundo o qual uma mulher não tem o direito a ser livre.

Não por acaso, a maioria das lideranças “pró-vida” é formada por homens: para nós, que não engravidamos, o aborto sempre foi legal.

aborto

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Então é Natal…

E de repente, começa aquela “metamorfose”, que faz todo mundo virar bonzinho. Gente que nem lembra que existimos, começa a nos desejar “muita saúde, paz e felicidade” (pelo visto esqueceram que o meu aniversário é em outubro). Depois de passarem onze meses só se preocupando com o próprio umbigo (e dizendo que quem deseja um mundo melhor “não tem nada para fazer”), em dezembro os reacionários decidem ter “espírito de Natal” e posar de solidários. Tudo parece tão lindo, maravilhoso… Mas depois da festa, acabou. Só ano que vem.

Aí alguém questiona essa falsa bondade, e começam os rótulos. Mal humorado, rabugento etc.

Posso até ser rabugento. Mas vamos combinar que é melhor do que ser hipócrita e fingir ser o que não sou.

O que há de tão bom nessa época? Ver a família? A bondade, mesmo que sazonal, mas “melhor que nada”?

A reunião familiar, por mim, pode acontecer em qualquer época do ano (e na minha família, geralmente acontece várias vezes mesmo, nos reunimos para comer um churrasco, tomar uma cerveja e jogar conversa fora), sem esse clima forçado. E isso que eu tenho sorte de não ter nenhum daqueles parentes malas que só aparecem no Natal para encherem o saco: coitadas das crianças pequenas que têm suas bochechas apertadas enquanto ouvem o tradicional “como você cresceu!”; e depois que crescem ainda têm de ficar dando satisfação quanto à vida sexual (perguntam “e as namoradas?” para os guris, e “quando é que vai nos apresentar um namorado?” para as gurias*).

Quanto à bondade, acho ótimo que as pessoas sejam amorosas. Mas então, que sejam assim o ano inteiro, ao invés de só fingirem ter bom coração em dezembro.

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* O uso do plural para os guris e do singular para as gurias não é mero acaso. Afinal, “mulher que presta” é de um homem só e desde cedo, ter vários ou casar tarde não é coisa que “moça de família” faça.

Os valores conservadores e a influência da escola

Em 1970, o sociólogo francês Pierre Bourdieu publicou, em parceria com o colega Jean-Claude Passeron, “A reprodução”, obra que faz uma análise do sistema educacional na França. Embora não a tenha lido, tive acesso a sinopses e resumos dela, sabendo que o livro demonstra, de forma geral, que a função principal das escolas francesas não era a de estimular o pensamento, e sim, de legitimar o status quo.

Semana passada, tive um excelente exemplo de como a análise de Bourdieu e Passeron é correta. Percebi o óbvio: alunos de colégios conservadores tendem a ser adultos conservadores, ainda mais se vindos de famílias assim. (E se estudarem em universidades conservadoras, então…)

Notei isso semana passada, quando conversei com uma ex-colega do segundo grau com quem não falava há muitos anos, e uma das primeiras coisas que ela me perguntou foi se eu tinha casado… Foi quando reparei que, dentre o pessoal da época do segundo grau que mais encontro, o casamento – seja formal ou informal (o famoso “se juntar”) – é regra.

Então comparei com a turma de amigos do tempo do primeiro grau: nela, não só o casamento não é regra, como há mais contestação à “obrigatoriedade” de se ter uma relação afetiva estável. Como prova uma manifestação de uma de minhas ex-colegas, solteira e descompromissada, no Facebook em dezembro passado: comentando os “votos” para que arranjasse um namorado em 2012, ela questionou por que uma mulher solteira aos 30 anos incomoda tanta gente.

O que diferencia ambas as turmas? O colégio. Cursei o primeiro grau em escola pública (Colégio Estadual Marechal Floriano Peixoto); a maioria dos colegas também cursou o segundo grau em escolas públicas (muitos ficaram no próprio Floriano), ou seja, oficialmente laicas. Bem diferente do segundo grau, que cursei no Colégio Marista São Pedro; embora houvesse uma separação nítida entre a religião e o conteúdo ministrado nas aulas (em Biologia e História estudávamos Biologia e História mesmo, não criacionismo), o colégio era oficialmente católico, portanto, conservador (me digam qual religião não é conservadora?), e muitos colegas já eram alunos do São Pedro desde o jardim de infância.

A visão de mundo conservadora dá uma importância muito grande à “defesa da família”. Logo, é compreensível que um dos principais objetivos de vida para quem é conservador seja “constituir família”, antes de crescer profissionalmente, fazer algo para melhorar o mundo etc. (Não que eu considere ruim alguém querer constituir família: só acho que não é a única opção.)

Surge assim parte da resposta ao questionamento da minha amiga solteira: ao não dar tanta importância à busca por um namorado, ela subverte a lógica de que “toda pessoa solteira está em busca de um amor”, o que a impede de “constituir família”. E isso realmente incomoda muita gente – principalmente os machistas, que não suportam a ideia de uma mulher ser independente e não estar a fim de assumir compromisso com homem algum: para eles, a função da mulher ainda é “pilotar fogão”, limpar a casa e cuidar dos filhos.

Por fim, alguns devem estar querendo saber como não me tornei um conservador (e, “pior” ainda, agora sou ateu!). Certamente pesaram para isso o fato de não ter vindo de família conservadora (apesar de minha mãe ser católica, meu pai é agnóstico e de esquerda, logo, questionador), além de ter estudado predominantemente em instituições laicas: foram apenas três anos no São Pedro, contra dezesseis na soma de Floriano e UFRGS (Física inclusive). Pois como foi dito lá no começo, o conservadorismo trata-se de uma tendência, e não de um destino inevitável.

É tosco, mas tá na moda

Há pouco mais de um mês, fiz um breve comentário sobre a atual praga moda da classe média motorizada: os “adesivos família”. O sujeito compra os adesivinhos e cola na traseira do automóvel, cada um deles simbolizando um membro da família – tem até cachorro e gato. E está cada vez mais comum ver carros com esses adesivos toscos colados na traseira.

Quando comentei com o meu pai sobre essa tosqueira, ele contou que muitos anos atrás a “moda” era umas mãozinhas abertas, que eram presas na lateral dos carros através de uma espécie de mola, e que com o movimento do carro ela se mexia, “abanando” para os demais motoristas.

Mas, como não falar de idiotices também em outros aspectos, principalmente no vestuário? Lembram dos anos 80, as famosas “ombreiras”? Hoje achamos ridículo, mas naquela época era moda!!!

Na música, também vemos muito lixo virar moda. Principalmente no verão: as músicas mais tocadas nessa época dificilmente chegam à primavera seguinte fazendo o mesmo “sucesso”. Mas a boiada galera, claro, vai atrás, e ouve o que a rádio toca. Afinal, é o que “todo mundo ouve”.

Segue por aí: frequentam o restaurante “ao qual todo mundo vai”; vão sempre para o mesmo lugar (ou seja, alguma praia “da moda”) em todos os verões, “porque todo mundo vai”… Essa última me faz pensar que, se um dia eu convencer esse pessoal que a moda é “ir à merda”, eles certamente irão!

E qual é a lógica dessas modas passageiras? É aquilo do que falei semana passada: a obsolescência programada.

Da série #prontofalei

Sabe aqueles adesivos de família grudados nas traseiras dos carros, que viraram praga moda?

Pois eu acho aquilo uma SENHORA TOSQUICE.

E é uma pena que o Classe Média Way of Life esteja parado, pois um texto sobre esses adesivinhos seria demais. Afinal, isso é algo tipicamente “médio-classista”: a “família feliz” ao estilo comercial de margarina (mesmo que seja só fingimento), passeando (na verdade, sempre indo aos mesmos lugares) no “carro da família”…

Mais dois contra o Natal

Ontem, fez um calor desgraçado. Não tanto pela temperatura, e sim pela alta umidade, que causava uma horrível sensação de abafamento. À noite, parou a chuva, mas graças à umidade havia muitos insetos a encherem o saco próximo à churrasqueira, onde preparamos um aperitivo.

Ao ar livre, era ótimo ficar (desde que com as luzes apagadas, devido aos “bichos de luz”). Mas a “troca de presentes” foi feita dentro de casa, e havia muita gente. Resultado: calor horrível e mau humor da minha parte, que não fiz questão alguma de disfarçar. Nunca fui competente como farsante. Menos mal que há mais de 10 anos abolimos o amigo secreto.

Eu adoro minha família, e me divirto bastante quando, mais de uma vez durante o ano, nos reunimos para comer um bom churrasco, tomar cerveja e botar conversa fora – como fizemos ontem enquanto estávamos ao ar livre, falando sobre futebol, minha monstrografia (ou seja, mais futebol!) e lembrando alguns fatos da história familiar. Quando não há essa besteira de “troca de presentes” (como eu sabia que não ia receber nada, pois já tinha ganho os meus presentes antes, preferia ficar na área da churrasqueira, que mesmo com o calor do fogo estava mais agradável). E melhor ainda quando não é verão, o que faz o “calor humano” não ser um incômodo.

Eu me perguntava se realmente o Natal é um saco, ou se eu sou chato. Bom, talvez as duas opções estejam corretas, mas antes ser chato do que fingir ser o que não sou. E felizmente não sou o único a não gostar dessas comemorações, como mostra o texto abaixo, do Milton Ribeiro, com o título “Abaixo o Natal!!!” (não costumo copiar na íntegra, só que o texto dele é curto, sem contar que concordo integralmente com o que ele escreveu – mas não deixe de ir “ao original” para dar sua opinião):

O Natal devia ser como a Copa do Mundo, de quatro em quatro anos. O que há de bom nestes dias? Estar com a família? Sou alguém bastante sociável, gosto de minha familia e já os vejo frequentemente. Então, prefiro estar com eles sem as besteiras mesquinhas e os milagres da época. Mais do que o primado do consumo, detesto as promoções de bons sentimentos, a hipocrisia, a religião, a obrigação de felicidade. Pior, hoje serão servidas iguarias irresistíveis, vai se comer muito e não quero engordar. Por mim, dormia cedo. E amanhã todos voltarão porque haverá comida demais…

É uma festa legal quando temos crianças pequenas, mas agora, qual é o sentido? Há a necessidade de estarmos alegres após passar o dia arrumando a casa e lembrando de detalhes… Pois é, já viram, vai ser aqui em casa. Se a gente fica sério, as pessoas se preocupam. Então, o negócio é beber. Haja saco. Ainda bem que chove. Podia vir uma tempestade e faltar luz no meio da festa! Seria uma novidade!

Festa por festa prefiro a virada do ano. Ao menos é sem presentes e com menos religião. E, associada à data, há uma simbologia de renovação, de planos e mudanças quase sempre falsas, mas ao menos pensadas. Já o Natal… é pura merda. Na minha infância, era comemorado na manhã do dia 25. A gente acordava e havia presentes sob a árvore. Fim. Hoje é um happening, vão tomar no cu.

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Também merece registro a postagem do Guga Türck no Alma da Geral: o vídeo com a música “Papai Noel Filho da Puta”, dos Garotos Podres.

As tias chatas

Muita gente diz detestar o Natal por causa da reunião de família. Afinal, é a ocasião em que se encontram aqueles parentes que vêm nos dar “feliz Natal” para depois não dar notícias até o próximo Natal. Felizmente não é o meu caso: na minha família não se fazem grandes celebrações, reunem-se não muitas pessoas. Detesto o Natal porque acho tal comemoração uma grande besteira, já que não sou nem cristão, nem lojista.

Mas sei que muita gente sofre com isso. No Natal, aparecem aqueles parentes que somem o resto do ano, e, principalmente… Aquela tia chata! (Felizmente também não é o meu caso, na minha família não tem tias chatas.) Aquela tia perdida que enche o saco fazendo perguntas. Não tem o que falar, então fica perguntando, para que o questionado fale com ela. E não pára de fazer “elogios”, do tipo “Como tu cresceu!”, “Como tu tá bonito!”, e coisas do gênero.

Falei que não era o meu caso. Não pela família. Pois minha mãe tem uma amiga que pelo jeito percebeu que não tenho nenhuma tia chata e decidiu tornar-se uma! Embora não faça os “elogios” (pelo menos isso!), adora fazer perguntas. E ainda faz aquela típica de quando se questiona um adolescente, não um homem de 26 anos: “E as namoradas?” – assim, no plural.

Na última vez, nem respondi: preferi ficar calado e passar por chato, do que abrir a boca e confirmar, já que eu não seria nada elegante se respondesse corretamente, ou seja, “isso não é da tua conta”.

Mas da próxima vez, acho que vou responder. Não da forma acima, mas debochando – nada melhor do que debochar de uma “tia chata”. Só preciso pensar na resposta, já que tenho mais de uma possibilidade:

  1. Nada de namoradas. Não pratico a poligamia.

  2. Elas vão bem, e os teus namorados, vão como?

  3. Tu tem uma filha para me apresentar? (A hipotética filha dela não é prima, já que ela não é tia de verdade – é só uma “tia chata”.)

  4. Bah, estou com saudade das minhas loiras! Faz mais de uma semana que não as encontro! Acho que vou pro bar encontrá-las agora mesmo, elas devem estar geladinhas me esperando…

Acho que vou optar pela última. Afinal, para agüentar uma “tia chata”, só bebendo mesmo!