Então é Natal…

E de repente, começa aquela “metamorfose”, que faz todo mundo virar bonzinho. Gente que nem lembra que existimos, começa a nos desejar “muita saúde, paz e felicidade” (pelo visto esqueceram que o meu aniversário é em outubro). Depois de passarem onze meses só se preocupando com o próprio umbigo (e dizendo que quem deseja um mundo melhor “não tem nada para fazer”), em dezembro os reacionários decidem ter “espírito de Natal” e posar de solidários. Tudo parece tão lindo, maravilhoso… Mas depois da festa, acabou. Só ano que vem.

Aí alguém questiona essa falsa bondade, e começam os rótulos. Mal humorado, rabugento etc.

Posso até ser rabugento. Mas vamos combinar que é melhor do que ser hipócrita e fingir ser o que não sou.

O que há de tão bom nessa época? Ver a família? A bondade, mesmo que sazonal, mas “melhor que nada”?

A reunião familiar, por mim, pode acontecer em qualquer época do ano (e na minha família, geralmente acontece várias vezes mesmo, nos reunimos para comer um churrasco, tomar uma cerveja e jogar conversa fora), sem esse clima forçado. E isso que eu tenho sorte de não ter nenhum daqueles parentes malas que só aparecem no Natal para encherem o saco: coitadas das crianças pequenas que têm suas bochechas apertadas enquanto ouvem o tradicional “como você cresceu!”; e depois que crescem ainda têm de ficar dando satisfação quanto à vida sexual (perguntam “e as namoradas?” para os guris, e “quando é que vai nos apresentar um namorado?” para as gurias*).

Quanto à bondade, acho ótimo que as pessoas sejam amorosas. Mas então, que sejam assim o ano inteiro, ao invés de só fingirem ter bom coração em dezembro.

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* O uso do plural para os guris e do singular para as gurias não é mero acaso. Afinal, “mulher que presta” é de um homem só e desde cedo, ter vários ou casar tarde não é coisa que “moça de família” faça.

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Seja feliz: fracasse!

O Carlos Gerbase escreveu um texto sensacional no blog dele, que vale a pena ser lido.

E mais, faz pensar em como o chamado “sucesso” é artificial. Afinal, considera-se bem-sucedida a pessoa que se encaixa em um modelo predeterminado, de que é preciso ter isto, isso e aquilo. Quem não tem, é inapelavelmente rotulado como “fracassado”.

Como o Gerbase diz, o bem-sucedido atrai bastante gente. Todo mundo quer ser “amigo” dele. Porém, isso acaba no momento em que o fracasso começa a dar as caras. E aí ele percebe que os verdadeiros amigos eram aqueles de antes do sucesso, que provavelmente ele abandonou por ter de andar com “gente do seu nível”.

O bem-sucedido tem muitas mulheres à sua volta naquelas festas chatas em que só entra “gente de categoria”, provavelmente com peitos siliconados do tamanho de melancias. Mas, se o sucesso passar, também desaparecerão – tanto as melancias como os convites para as festas.

Aí será tarde demais para o ex-bem-sucedido perceber que era mais feliz nos tempos em que convivia com aqueles amigos fracassados.

Pois enquanto o bem-sucedido estava pensando em como obter mais sucesso, o fracassado bebia cerveja com os amigos de verdade. Tentava fazer algo que desse certo, que acabasse com a sequência de fracassos, mas, claro, se ferrava de novo. O que não era sinônimo de desistência: como escreveu o Gerbase, “um verdadeiro fracassado não se deixa abater”.

Acostumado com o fracasso, nem o temia mais. Enquanto isso o bem-sucedido passava noites sem dormir por medo de fracassar.