Os dois no mesmo ano é sacanagem

Primeiro foi Eric Hobsbawm. E agora, Oscar Niemeyer

Termina logo, 2012.

Oscar Niemeyer (15/12/1907 – 05/12/2012). Foto tirada na época da construção de Brasília.

Anúncios

Moacyr Scliar (1937-2011)

Faleceu na madrugada deste domingo o escritor Moacyr Scliar. Ele estava internado no Hospital de Clínicas desde 11 de janeiro – inicialmente para uma cirurgia no intestino, mas acabou sofrendo um AVC dias depois, que resultou em seu falecimento.

Torcedor do Cruzeiro, médico especialista em saúde pública, membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003 e autor de mais de setenta livros, Moacyr Scliar era um dos nomes mais importantes da atualidade para a literatura brasileira. É uma perda inestimável.

“Acredito, sim, em inspiração, não como uma coisa que vem de fora, que ‘baixa’ no escritor, mas simplesmente como o resultado de uma peculiar introspecção que permite ao escritor acessar histórias que já se encontram em embrião no seu próprio inconsciente e que costumam aparecer sob outras formas — o sonho, por exemplo. Mas só inspiração não é suficiente”. (Moacyr Scliar)

José Saramago

Faleceu hoje pela manhã o escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura em 1998 – o primeiro de um autor em língua portuguesa.

Fato muito triste, ainda mais se levarmos em conta que Saramago era não só um grande escritor, como também um grande cidadão, bastante crítico da sociedade atual. Que nunca deixou de denunciar as principais mazelas de nosso planeta.

Há quem simplesmente passa pelo mundo, existe por um certo número de anos e depois morre, sem deixar nenhum legado, nada de importante a ser lembrado.

Já pessoas como José Saramago, podem até morrer fisicamente. Deixam de conviver conosco. Mas o que fizeram, a mensagem que deixaram… Isso sempre será lembrado. E continuará a ter muita importância nas vidas de muitos.

Por isso, podemos dizer que Saramago jamais morrerá no coração dos amantes da boa literatura e dos que desejam um mundo mais justo.

Desencanto

Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo. Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade. Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia. O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo.

Pensar, pensar

Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.

Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008