De terno e gravata

Essa aconteceu em 22 de dezembro de 2005.

Eu iria a uma formatura de Direito na PUCRS – dois amigos meus, Guilherme e Leonardo, se graduavam. A cerimônia começaria às 16h. E fazia um calorão, bem típico do verão porto-alegrense que começava.

Combinei com o Marcel (o mesmo amigo do hilário episódio do Heinhô Batista!) de irmos juntos. Conforme o combinado, passei na casa da avó dele, que fica bem perto de onde moro. Cheguei lá e ele ainda não havia terminado de se arrumar.

Quando vi ele descendo a escada, não acreditei. Terno e gravata! Com aquele calor! Avisei a ele sobre a alta temperatura, mas ele queria ir daquele jeito. Então… Azar o dele.

Saímos e nos dirigimos à Avenida Osvaldo Aranha. E o Marcel falou: “vamos pegar um táxi”.

“Táxi?”, respondi. “Vamos de ônibus, ora!”.

“Mas tá muito quente!”, ele respondeu.

“Sim, tá quente, mas não estou vestindo uma roupa totalmente incompatível com esse calor (eu vestia calça jeans e camisa social – de manga curta, é claro). Tu tá de terno e gravata porque quer. E eu quero ir de ônibus ao invés de gastar dinheiro em táxi às três da tarde”.

E pegamos um ônibus. E sem ar condicionado – reconheço que exagerei na dose com o coitado do Marcel! Se bem que estávamos preocupados em não nos atrasarmos, então pegamos o primeiro ônibus que passou com destino à PUCRS – poderíamos esperar mais e pegar um com ar condicionado, mas aí haveria o risco do atraso.

Só que, convenhamos, a culpa foi dele. Terno e gravata, um traje europeu, não é roupa para ser usada no Brasil, um país tropical (e o Rio Grande do Sul tem clima subtropical, ou seja, não deixa de ser também tropical, como provam os dias de calor que se registram no inverno). Nós não somos europeus, mesmo tendo inverno com temperaturas negativas e (às vezes) neve: até parece que isso é exclusividade da Europa! Inclusive os invernos mais frios, excetuando a Antártida, são os da Sibéria, que fica na Ásia.

Inclusive, foi um mês depois desse episódio que tomou posse como presidente da Bolívia um homem que não veste terno e gravata, chamado Juan Evo Morales Ayma. O primeiro indígena a governar um país cuja maior parte da população é como ele, prefere não usar as roupas dos colonizadores.

Quanto à formatura: a cerimônia, é claro, foi uma chatice. Depois que acabou, tive de optar por uma das duas recepções: acabei indo à do Guilherme. Poupei o Marcel de passar mais calor, e pegamos um lotação, com ar-condicionado…

Em um 11 de setembro

A situação política na Bolívia anda por demais complicada, devido aos violentos protestos promovidos pela oposição contra o governo de Evo Morales.

Muita gente acredita que Evo “tem o exército ao seu lado”, e que por isso é difícil que aconteça um golpe na Bolívia. Acho temerária esta crença. Pois num outro mês de setembro, em 1973, o presidente do Chile, Salvador Allende, acreditava ter o exército ao seu lado. E na terça-feira, dia 11, percebeu que muitos militares, que diziam serem leais ao governo e à constituição, na verdade apenas conspiravam, e falavam aquilo da boca pra fora.

Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Postales e da Rádio Corporación. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos.

A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.

(Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973)