“Mudar não mudando”

Essa expressão foi proferida em 1997 pelo presidente do Internacional na época, Pedro Paulo Záchia. O Inter era treinado por Celso Roth, vinha mal no Campeonato Gaúcho, e como se não bastasse, o Grêmio era o então campeão brasileiro e fortíssimo candidato ao título da Libertadores daquele ano. A pressão por mudanças na comissão técnica colorada era enorme, mas Záchia decidiu manter Roth e anunciou que o Inter iria “mudar não mudando”. Deu certo: o time ganhou o Gauchão e fez sua melhor campanha da década em Campeonatos Brasileiros, acabando em terceiro lugar; como se não bastasse, o centroavante Christian desandou a marcar gols, fazendo 23 só no Brasileirão.

Pois foi algo semelhante que fez a Igreja Católica, ao eleger papa o argentino Jorge Mario Bergoglio. É o primeiro latino-americano que chega a tal posto, e ainda por cima escolheu o nome de Francisco, santo católico associado aos pobres.

“Não mudar, mudando”, é assim que podemos resumir o que aconteceu. Afinal, o novo papa é conservador (se manifestou fortemente contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o aborto), e pesam contra ele acusções de colaboração com a última ditadura argentina, uma das mais sanguinárias que o continente já viu – familiares de desaparecidos, por sua vez, dizem que Bergoglio não colaborou mas fez “poderia ter feito mais” pelos perseguidos políticos na Argentina; e o Vaticano, obviamente, nega tudo.

Só que tem mais. Hoje em dia a América do Sul é uma das regiões do mundo onde o conservadorismo é muito contestado (como provam os vários governos de centro-esquerda e esquerda no subcontinente), ou a Igreja Católica perde terreno (caso do Brasil). Assim, eleger um papa sul-americano pode indicar uma tentativa de reverter o quadro na região. E não simplesmente no aspecto religioso.

Paranoia? Então lembremos de como foi “aberta” a chamada Cortina de Ferro que dividia a Europa na Guerra Fria. Inúmeros fatores causaram o colapso dos regimes socialistas do Leste Europeu: corrupção, burocratização excessiva, autoritarismo etc. Mas tais países eram estáveis politicamente na década de 1970 não devido ao monopólio do poder pelo Partido Comunista, e sim porque a população se adaptara ao status quo, sendo poucas as contestações ao regime – antes da década de 1980, a última fora a Primavera de Praga na Tchecoslováquia, em 1968.

Então a Igreja entrou no jogo em outubro de 1978: quebrando uma tradição que já durava mais de 400 anos, o papa eleito pelo conclave não foi um italiano, e sim um polonês, Karol Józef Wojtyła, que adotou o nome de João Paulo II.

Boa parte dos países do Leste Europeu não têm no catolicismo sua religião majoritária. Mas a Polônia há muito tempo tem uma das mais elevadas proporções de católicos da Europa.

Pois bem: e onde o status quo começou a ser questionado com mais força na Europa Oriental? Foi exatamente na Polônia, onde em 1980 foi fundado o primeiro sindicado desvinculado do PC em um país do Leste Europeu (o Solidariedade), que organizou greves em protesto contra o governo. Após decretar lei marcial no final de 1981 e colocar o Solidariedade na ilegalidade, o regime acabou sendo forçado a negociar, e em 1989 convocou eleições semi-livres (nas quais o Solidariedade conquistou praticamente todas as cadeiras do Senado); no final de 1990, o líder do sindicato, Lech Wałęsa, foi eleito presidente. Tanto Wałęsa quanto Wojciech Jaruzelski (último governante da Polônia socialista) e Mikhail Gorbachev (último presidente soviético) afirmam que o papa foi fundamental no desmoronamento da Cortina de Ferro, por ter “inspirado” os poloneses a se levantarem.

Agora, a escolha da Igreja foi por um papa argentino. Que era visto pelos Estados Unidos como um “poderoso” opositor ao governo Kirchner. Coincidência?

Talvez seja mera coincidência que, poucos dias após Bergoglio ter sido eleito, o ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla tenha convocado um golpe contra a presidenta Cristina Fernández de Kirchner. Condenado à prisão perpétua, Videla parece “fora da casinha”. Mas é bom ficar atento com gente “séria” que poderá se meter a defender tais absurdos.

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Todo apoio às lutas dos povos líbio e sírio

Em fevereiro, questionei se a ditadura de Muammar al-Gaddafi na Líbia estava realmente chegando ao fim. Afinal, dada a velocidade com que caíram os regimes ditatoriais em dois países vizinhos (Tunísia e Egito) no início do ano, parecia que não demoraria muito para Gaddafi ter destino semelhante aos que tiveram o tunisiano Ben Ali e o egípcio Hosni Mubarak.

Porém, a longa ditadura iniciada em 1969 não caiu tão rapidamente. Foi preciso uma guerra civil. Num comparativo da chamada Primavera Árabe com as quedas dos regimes “socialistas” no Leste Europeu em 1989, Muammar Gaddafi agiu de forma semelhante ao romeno Nicolae Ceausescu: ambos acreditaram que eram amados pelo povo, e decidiram resistir. Na Romênia a guerra civil foi breve (durou pouco mais de uma semana) e resultou na execução do ditador e de sua esposa. Já a Líbia vive um conflito que ainda parece longe de acabar: Gaddafi já pode ser considerado ex-ditador, mas seus apoiadores não parecem dispostos a deporem as armas. Ainda mais que o líder, a princípio, está vivo, mas em local desconhecido.

Aliás, a citação ao “socialismo” do Leste Europeu não foi só para comparar Gaddafi a Ceausescu. Pois algo me incomoda: muita gente que se considera de esquerda apoia Gaddafi por seu suposto “anti-imperialismo”. Até reconhecem que os regimes da Europa Oriental eram burocráticos, autoritários e muito distantes do ideal socialista, mas não percebem que Gaddafi era também um ditador. E, principalmente, que há certo tempo ele nem era mais um “inimigo dos Estados Unidos”. Aliás, virou tão amigo, que os serviços secretos estadunidense e britânico colaboraram com seu regime por pelo menos cinco anos (2002-2007), inclusive entregando opositores da ditadura!

Aí alguém vai perguntar por que a OTAN bombardeia a Líbia, em suposto apoio os rebeldes que lutam contra a ditadura. A resposta é bem simples: oportunismo. Afinal, se o amiguinho Gaddafi está podre e vai cair, melhor derrubá-lo de uma vez e instalar um novo governo que se mantenha alinhado ao Ocidente, ao invés de correr o risco da revolta popular resultar numa Líbia verdadeiramente democrática e anti-imperialista.

Por isso, é importante que o povo líbio não se contente com a queda de Gaddafi: é preciso garantir que a vitória seja, realmente, dos líbios, e não do Ocidente.

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Outro ditador intragável é Bashar al-Assad, da Síria. Como defender quem massacra o povo com tanques de guerra para se manter no poder??? Mas, há gente de esquerda que o considera “anti-imperialista”… É dose.

Filme para o domingo

Enquanto muita gente chega a brigar por conta das eleições (e o pior é que os desentendimentos se dão até entre pessoas de esquerda, por divergências de ordem partidária), o aniversário de um fato histórico corre o risco de passar despercebido. Há 20 anos, no dia 3 de outubro de 1990, a Alemanha voltou a ser um só país.

O processo que levou à reunificação alemã foi extremamente rápido: as mudanças se deram em menos de um ano, motivadas pelos protestos populares na Alemanha Oriental, como também pela própria política da União Soviética, de não mais intervir nos países do Leste Europeu, estimulando-os a adotarem reformas semelhantes às que Mikhail Gorbachev aplicava na URSS (glasnost e perestroika). Em 18 de outubro de 1989, o linha-dura Erich Honecker renunciou à liderança do governante Partido Comunista, e em 9 de novembro, foi liberado o trânsito entre as duas Alemanhas, tornando a fronteira interalemã mera formalidade. Quatro meses após a abertura do muro foram realizadas as primeiras eleições multipartidárias – ou seja, em que não era apenas o Partido Comunista que participava – na República Democrática Alemã (nome oficial da Alemanha Oriental) e, em 3 de outubro de 1990, legalmente aconteceu a reunificação (que no futebol, conforme já falei, demorou um pouco mais), com a RDA passando a integrar a República Federal da Alemanha (nome oficial da antiga Alemanha Ocidental e do atual país unificado).

O filme “Adeus, Lênin!” (2003), de Wolfgang Becker, é sensacional justamente por mostrar a velocidade com que se deram as mudanças na Alemanha – e, podemos dizer também, em todo o Leste Europeu – entre 1989 e 1990.

Christiane (Katrin Sass) é uma dedicada militante socialista desde que seu marido fugiu para a Alemanha Ocidental em 1978. Em 7 de outubro de 1989, ao ver seu filho Alexander (Daniel Brühl) ser preso pela polícia durante violenta repressão a uma passeata pró-democracia, tem um ataque cardíaco e entra em coma por oito meses.

Enquanto isso, acontecem as mudanças na Alemanha. Erich Honecker renuncia, a fronteira entre os dois Estados alemães é aberta, e os produtos orientais começam a sumir das prateleiras das lojas para serem substituídos por importados (tanto do oeste como de outros países ocidentais). Os costumes dos alemães orientais passam a ser considerados “velhos”, que precisam ser urgentemente abandonados.

Até em sua casa as mudanças são drásticas: a filha Ariane (Maria Simon) troca os antigos móveis por outros mais “modernos” (leia-se “ocidentais”), e larga os estudos para trabalhar como vendedora em um drive-thru do Burger King, onde conhece o novo namorado, o ocidental Rainer (Alexander Beyer), que leva para morar junto no apartamento. Já Alex, durante suas visitas à mãe no hospital, apaixona-se (e é correspondido) pela bela enfermeira soviética Lara (Chulpan Khamatova), que conheceu naquela passeata de outubro de 1989, quando ela o ajudou durante um engasgo com uma maçã.

Quando Christiane acorda, em junho de 1990, o médico alerta que ela não pode sofrer fortes emoções, devido ao risco de sofrer outro enfarto, e logo Alex percebe que ela não resistirá ao saber das mudanças que aconteceram no país. Decide não só levá-la para casa (temendo que ela saiba de tudo caso fique no hospital), como também fazer com que ela pense que absolutamente nada mudou.

Porém, mesmo dentro de casa é difícil Christiane não ter nenhuma percepção de que as coisas não são mais as mesmas. Quando ela quer pepinos de Spreewood (iguaria muito apreciada na Alemanha Oriental), Alex só encontra importados da Holanda – que na prática são a mesma coisa (afinal, são pepinos, apenas com outra marca) – e assim os armazena em frascos com rótulos antigos, para que a mãe tenha a ilusão de estar comendo pepinos “socialistas”. Quando ela quer assistir televisão, obviamente as transmissões já não são mais as mesmas, e a solução é “transmitir” (via utilização de um videocassete escondido) programas antigos. Aliás, interessante papel tem a televisão: por conta da ilusão que muitos têm de que ela “mostra a verdade” (afinal, são as imagens do que acontece, logo, “só pode ser verdade”), Alex se utiliza de noticiários fictícios, produzidos em parceria com seu amigo ocidental Denis (Florian Lukas) – que sonha em ser diretor de cinema – para que acontecimentos totalmente imprevistos, como um banner da Coca-Cola em um prédio vizinho ou carros ocidentais estacionados em Berlim “Oriental” (não esqueçamos que não há mais muro), tenham uma explicação que mantenha em sua mãe a crença na continuidade do sistema socialista (e até de seu fortalecimento, com o consequente “colapso do capitalismo” na Alemanha Ocidental), mesmo com tudo indicando o contrário. Porém, com o passar do filme acabamos descobrindo também que não é só Christiane que vive uma ilusão.

Ao mesmo tempo que nos faz rir das inusitadas situações, “Adeus, Lênin!” também nos leva a boas reflexões. Como sobre a velocidade das mudanças. Pois independentemente das convicções políticas de cada um, elas se deram muito rápido. Naquela época, apenas os mais velhos tinham lembranças em primeira mão* de como era uma Alemanha unificada; no leste, a maioria esmagadora da população não tinha ideia de como era o dia-a-dia de uma sociedade capitalista, já que por mais de 40 anos haviam vivido sob o “socialismo” de modelo soviético. Obviamente isso foi um impacto muito grande sobre os habitantes da parte oriental da Alemanha, que não por acaso tiveram bastante dificuldades para se adaptarem aos novos tempos: além de não terem mais a garantia de sobrevivência que o regime “socialista” dava, a solidariedade entre as pessoas (que se dava até como forma de resistência ao autoritarismo) foi minada pela excessiva competitividade estimulada pelo capitalismo.

Outra coisa interessante em “Adeus, Lênin!”, tem a ver com a ideia de “nação”, ligada à de “nascimento”. Não por acaso, trata-se a “pátria” como se fosse uma “mãe” ou um “pai”. Afinal, tratam-se de nossas principais referências de origem, de pertencimento. Tanto que a palavra “pátria” lembra, de certa forma, “pai”. Em inglês, se diz motherland (numa tradução literal, “terra-mãe”) e em alemão, vaterland (“terra-pai” literalmente). No caso do filme, isso fica muito claro quando Alex afirma que a Alemanha Oriental é um país que, na memória dele, sempre estará conectado com a mãe. Afinal, além dela ter sido uma apaixonada socialista, também foi ela que o pôs no mundo e o criou – assim como a RDA foi o país onde ele nasceu e cresceu. Um país que no final de 1989 “entrou em coma”, assim como sua mãe – que, ao acordar, fez com que, ao menos para Alex, a Alemanha dividida continuasse a existir, parecendo com o que era antes, mas que não era mais a mesma coisa: no caso, tratava-se de uma divisão entre a ilusão e a realidade.

E ao mesmo tempo que quer mudanças, Alex percebe que também não quer perder as suas origens – no caso, a mãe e o país, como fica claro quando ele diz que aquela Alemanha Oriental fictícia que criara para que sua mãe não se chocasse com as mudanças era a RDA que gostaria de ter tido na realidade. O que é explicado pelas palavras do filósofo esloveno Slavoj Zizek:

Quando as pessoas protestavam em regimes comunistas do Leste Europeu, a grande maioria delas não estava pedindo por capitalismo. Eles queriam a liberdade de viver suas vidas fora do controle estatal, de ir e vir e falar o que desejassem; eles queriam uma vida de simplicidade e sinceridade, liberta da indocrinação ideológica primitiva e da cínica hipocrisia dominante.

Como muitos analistas observaram, os ideais que levaram os manifestantes às ruas eram, de alguma forma, uma extensão daqueles da própria ideologia socialista – as pessoas aspiravam por algo que pode ser melhor aproximado através do termo “socialismo com um rosto humano”. Talvez essa atitude mereça uma segunda chance.

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* Segundo Eric Hobsbawm em Era dos Extremos, passamos a armazenar “lembranças em primeira mão” de como é a vida “real” por volta dos 15 anos de idade: no capítulo em que fala justamente das mudanças no Leste Europeu e do fim da União Soviética, Hobsbawm diz que em 1990 todo húngaro acima dos 60 anos (ou seja, nascidos até 1930) de idade tinha lembranças de como era a Hungria antes do “socialismo” (teria no mínimo 15 anos em 1945); já na URSS, nenhum cidadão com menos de 88 anos (ou seja, nascido depois de 1902) tinha alguma ideia da Rússia pré-Revolução de 1917. Para o caso alemão, podemos aplicar os mesmos números da Hungria, visto que o país foi dividido, na prática, em 1945, com o final da Segunda Guerra Mundial – embora as repúblicas do oeste e do leste só tenham sido fundadas em 1949.

Não devemos deixar os sonhos de lado

Semana passada, assisti ao excelente documentário Utopia e Barbárie, de Sílvio Tendler. O filme tem como tema o mundo e, principalmente, o Brasil pós-Segunda Guerra Mundial. Fala sobre os sonhos que tinham muitas pessoas, as utopias que guiavam suas vidas, e também sobre as frustrações, que não foram poucas.

Nem vou me estender demais falando simplesmente sobre o documentário (a Cris e a Camila já fizeram isso muito bem), apenas recomendo a todos que o assistam.

Sinceramente, o que seria de nossas vidas se não pudéssemos sonhar? Temos os sonhos pessoais, que variam de pessoa a pessoa, mas dá para dizer que para a maioria, correspondem a um trabalho bacana, o “amor da vida”, filhos etc.

Em geral, acreditamos que basta realizarmos os nossos sonhos pessoais e assim “encontraremos a felicidade”. Será? É possível ser uma “ilha de felicidade” no meio de muitas pessoas infelizes, sem que a maioria acabe por puxar os poucos felizes para baixo? Não seria melhor que fossem todos mais felizes?

Mas a maioria embarca nessa canoa furada. Parece que é proibido desejar um mundo mais justo e, consequentemente, mais feliz. Isso é “perda de tempo”, ainda mais em uma época em que as pessoas vivem correndo. É preciso ter pressa em tudo: para passar no vestibular (no curso que mais agrade, desde que o “agrado” seja igual a “dinheiro”), arranjar um emprego (afinal, “o trabalho dignifica o homem”), comprar um carro (mesmo que não se precise de um), namorar (quando mal se conhece a pessoa), noivar (sem ter muito tempo de namoro), casar (imaginem só que horror, os amigos casando e eu não, sou um fracassado!) e ter filhos (quando mal se tem tempo de brincar com eles).

Já a única urgência que eu enxergo é a de se voltar a ter utopias. Deveríamos ter pressa para resolver os problemas do mundo, e não para adquirirmos bens de consumo.

Algum conformista poderá dizer que o comunismo, utopia que guiou os sonhos de muitos, resultou em muitas mortes. Não é verdade. O comunismo jamais chegou a ser implantado, o que existiam eram países onde o poder estava nas mãos do Partido Comunista, mas onde o Estado era autoritário e burocrático, pois a ideia de “mundo melhor” de uma vanguarda (e por que não dizer “elite política”?) foi imposta a todos, com pouca discussão, sem a participação do povo. Mesmo assim, por ser “o socialismo que existia”, era ingenuamente exaltado pelos que sonhavam com um mundo mais justo, sem um olhar mais crítico. E assim, muitos comunistas acabavam apoiando – mesmo que involuntariamente – situações que eram contrárias ao que realmente acreditavam, e que jamais defenderiam se conscientes disso. Como mostra o filme: a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, exaltada por intelectuais de esquerda no Ocidente que jamais tinham ido à China, foi uma verdadeira tragédia para milhões de chineses. Onde se pensava estar em construção uma nova sociedade, mais feliz e justa, na verdade encontrava-se muito medo e injustiça. E a fraternidade entre os povos, tão sonhada, era impedida pelo Muro de Berlim.

Em 1989, parecia que as utopias estavam sepultadas, com o “fim da História” e a “vitória irreversível” do capitalismo. As pseudo-revoluções que varreram o Leste da Europa naquele ano obviamente respingaram no Brasil, que elegia diretamente o presidente depois de 29 anos: Fernando Collor de Mello, utilizando-se do “anti-comunismo” e do apoio da Globo, derrotou Luís Inácio Lula da Silva, o candidato da “bandeira vermelha”. O medo vencia a esperança. Anos depois, Lula ganhou, mas não era mais aquele de 1989; e o PT, que parecia representar os sonhos de um Brasil mais justo, caiu na “vala comum” dos partidos tradicionais.

Mesmo assim, ficou claro que a História não acabou: enquanto houver humanidade, haverá História. E haverá lutas. Só que hoje em dia elas são fragmentadas. Parece faltar uma utopia em comum para milhões de pessoas em todo o planeta.

Planeta… Não seria uma boa ideia todos lutarmos para que continuemos podendo habitá-lo? Já passou da hora de o tratarmos melhor, né?

Porém, uma pessoa sozinha não consegue melhorar o mundo. O importante é que cada um faça a sua parte. Tanto pela preservação do meio ambiente, como pela diminuição das injustiças – luta que jamais deve ser abandonada. Agindo localmente, mas pensando globalmente: se todos fizerem um pouco em seu bairro, na sua cidade, a soma resultará numa grande mudança para melhor em toda parte.

Mas, acima de tudo, é preciso acreditar que é possível, sem desanimar. Não adianta nada passar por insucessos e só por conta disso passar a achar que “não tem jeito, o negócio é se adaptar para se dar bem”. Lembremos a frase dita por Apolônio de Carvalho em Utopia e Barbárie: “Se perdemos hoje, não quer dizer que não podemos vencer amanhã”.

Romênia: afinal, a Securitate resistiu?

Semana passada, escrevi sobre os acontecimentos de 1989 na Europa Oriental, citando também a revolta popular que derrubou a ditadura de Nicolae Ceausescu na Romênia.

Segundo a versão mais difundida, a resistência proporcionada pelas forças da Securitate (polícia secreta) foi responsável por milhares de mortes. Além disso, Elena e Nicolae Ceausescu foram fuzilados sob a acusação de genocídio, baseada no descobrimento de corpos maltratados enterrados em fossas comuns na cidade de Timisoara – onde se iniciaram as manifestações de dezembro de 1989.

Porém, segundo um interessante texto de Ignacio Ramonet sobre a “guerra da informação” que acompanha os conflitos armados, trata-se justamente de uma versão difundida por muitos jornalistas que estavam na Romênia na época, e que não seria a mais verdadeira. Segundo Ramonet, a Securitate não foi tão fiel a Ceausescu, e os corpos encontrados em Timisoara eram de pessoas pobres mortas acidentalmente, e não de vítimas da repressão.

Possivelmente o único fato incontestável sobre a queda de Ceausescu seja que foi a “exceção que confirma a regra” acerca do colapso dos regimes socialistas burocráticos da Europa Oriental: enquanto os vizinhos realizaram uma transição pacífica e por iniciativa própria (mesmo que devido a protestos nas ruas), a Romênia teve seu governo derrubado por uma revolta popular.

Ao mesmo tempo, a derrubada de Ceausescu confirmou outra regra, e esta parece não ter exceção: que em conflitos armados, a primeira vítima é a verdade.

Não houve nenhuma revolução em 1989

Há mais de um mês, o mundo lembrou os 20 anos da queda do Muro de Berlim. Um fato realmente histórico. Símbolo das grandes mudanças ocorridas na Europa Oriental em 1989.

Eu tinha prometido que postaria algo relativo a tal acontecimento, porém, a monstrografia não deixou. O que não foi tão ruim: mesmo quando terminei o trabalho, achei melhor deixar o texto para hoje, 25 de dezembro. Não pela besteira de “espírito de Natal”, e sim porque há exatos 20 anos foi executado Nicolae Ceausescu, que governara a Romênia com mão de ferro por 24 anos.

Enquanto os demais países da Europa Oriental anunciavam reformas e eleições pluripartidárias, a Romênia mantinha-se “fiel ao comunismo” (não seria melhor dizer “ao stalinista Ceausescu”?). Porém, as notícias que não eram divulgadas abertamente corriam de boca em boca: além da sequência de “anúncios de reformas” nos países vizinhos (ao final de 1989, além da Romênia, só a Albânia não as tinha anunciado), no dia 17 de dezembro, manifestantes foram massacrados pela Securitate (a temida polícia secreta) em Timisoara, cidade no oeste do país. A manifestação transformou-se em revolta popular contra a ditadura, potencializada pelo sofrimento da população causado pelo racionamento de tudo (até da calefação durante o inverno) há vários anos no país. No dia 21, Ceausescu discursou pela última vez, na sacada da sede do Partido Comunista Romeno em Bucareste; as milhares de pessoas levaram muitas faixas de apoio e retratos do ditador e de sua esposa, Elena. Mas o povo romeno não o aplaudia mais.

No dia seguinte, o casal Ceausescu fugiu em um helicóptero da capital, onde já se travavam combates nas ruas, mas foi capturado por militares que aderiram à revolta. Após um julgamento sumário, em 25 de dezembro de 1989, Nicolae e Elena foram executados, e as imagens foram transmitidas pela televisão. Acabava-se o “comunismo” na Romênia, mas não o poder dos antigos burocratas, que apenas criaram um novo partido para manterem-se no comando do Estado, e colocaram o PCR na ilegalidade para dar ao desfecho dos acontecimentos, que ficariam conhecidos no país como “Revolução de 1989”, a aparência de “grande mudança”. O que começou com cara de revolução (lembrando uma história que se conta da Revolução Francesa, segundo a qual o rei Luís XVI ao notar uma grande mobilização popular teria comentado “parece uma revolução”, sem perceber que ela de fato acontecia), terminou com todo o jeito de golpe de Estado.

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A Romênia foi o único país da Europa Oriental no qual o socialismo caiu com violência. Em todos os outros, houve uma transição pacífica, o que levou ao surgimento da expressão “revolução de veludo” para designar as mudanças acontecidas em 1989. Inclusive Hobsbawm considera que nenhum dos regimes socialistas do Leste Europeu foi derrubado – vejo a Romênia como a exceção que confirma esta “regra”.

Não houve nenhum comunista apaixonado disposto a morrer em defesa dos regimes do Leste: mesmo os que pegaram em armas para tentar impedir a queda de Ceausescu na Romênia, provavelmente o fizeram mais por medo de serem perseguidos por um novo governo. Nem mesmo na Rússia, onde tudo havia começado em 1917, se fez algum esforço além da atrapalhada tentativa de golpe em agosto de 1991 – que acabou selando os destinos da União Soviética. O que demonstra a situação vivida em tais países: aquele modelo de socialismo falira.

Embora os países do Leste Europeu tivessem se desenvolvido bastante durante o período socialista, não conseguiram acompanhar o ritmo da Europa Ocidental, ainda mais com a estagnação econômica iniciada na década de 1970. Diante da deterioração da qualidade de vida, que se agravou na década seguinte, era difícil defender o regime: apenas comunistas idealistas poderiam fazê-lo, imaginando um futuro melhor.

Em geral, as pessoas procuravam se adaptar ao sistema porque era o existente, mesmo sem acreditarem no comunismo. O que me leva a um questionamento: foram estes que saíram às ruas para protestar? Não seria mais lógico que tais pessoas, mais conformadas, justamente ficassem em casa, e depois procurassem “se adaptar” ao que viesse?

Pois esse tipo de pessoa, que procura simplesmente “se adaptar ao sistema”, sem criticá-lo, não costuma protestar. Ainda mais correndo tamanho risco de apanhar da polícia. Quem toma coragem de se manifestar, em geral, é gente que acredita em alguma coisa além de simples bens de consumo. Ou seja: será que as pessoas que protestavam em 1989 não desejavam um outro tipo de socialismo? Provavelmente, conforme as palavras do filósofo esloveno Slavoj Zizek:

Quando as pessoas protestavam em regimes comunistas do Leste Europeu, a grande maioria delas não estava pedindo por capitalismo. Eles queriam a liberdade de viver suas vidas fora do controle estatal, de ir e vir e falar o que desejassem; eles queriam uma vida de simplicidade e sinceridade, liberta da indocrinação ideológica primitiva e da cínica hipocrisia dominante.

Como muitos analistas observaram, os ideais que levaram os manifestantes às ruas eram, de alguma forma, uma extensão daqueles da própria ideologia socialista – as pessoas aspiravam por algo que pode ser melhor aproximado através do termo “socialismo com um rosto humano”. Talvez essa atitude mereça uma segunda chance.

Desta forma, nada mais incorreto do que chamar os acontecimentos de 1989 de “revolução”, termo muito tentador naquele ano em que se celebrava o bicentenário da Revolução Francesa. Mesmo na Romênia, onde houve violência: Ion Illiescu, que assumiu o poder com o fuzilamento de Ceausescu, era um antigo burocrata do PCR. Igual a seus pares em vários outros países do “bloco socialista” – inclusive a Rússia, onde Boris Yeltsin era também um membro do PC. Uma notável exceção foi a Polônia, em que o líder do opositor sindicato Solidarność, Lech Walesa, ganhou a primeira eleição presidencial no pós-socialismo.

E não são tão poucos os que sentem saudade dos tempos de socialismo. Nos quais não havia muita liberdade, mas em compensação, a vida era mais fácil do que sob o capitalismo: além da garantia de sobrevivência dada pelo regime, havia mais solidariedade entre as pessoas, minada pela excessiva competitividade estimulada pelos novos tempos. Não por acaso, se verifica um sentimento de nostalgia até mesmo onde não se esperava vê-los, como a “ostalgia” (de ost, leste em alemão) na Alemanha (cuja divisão fora o maior símbolo da Guerra Fria, e onde a reunificação parecia ser vontade geral da população) e a “yugonostalgia” na antiga Iugoslávia (que se dissolveu a partir de 1991 com uma violenta guerra).

Cão parado

Nos últimos dias não consegui mais postar aqui no Cão Uivador, pois estou finalizando um artigo sobre as relações entre nacionalismo e imperialismo de 1875 a 1914 para a cadeira de História Contemporânea II. O prazo de entrega é 9 de junho, mas pretendemos entregá-lo já nesta segunda-feira, dia 2.

Inclusive, como o trabalho é em dupla – estou terminando minha parte -, não sei se o publicarei na íntegra nos Uivos Históricos. Mas pelo menos uma parte dele, que explica o forte anti-semitismo dos chamados movimentos de unificação étnica (pan-eslavismo e pan-germanismo) na Europa Oriental durante o período abordado pelo artigo, será posta à disposição.

Assim que o trabalho estiver terminado, o Cão Uivador volta a seu ritmo normal.