Da inexistência de monstros (ou: a mania humana de dividir o mundo entre “bons” e “maus”)

Causou certa controvérsia o texto publicado na última terça-feira. Principalmente por conta do título: afinal, como dizer que o estuprador não é um monstro?

Antes de publicar, por pouco, o título não foi outro. Ou melhor, não foi “mais longo”. Pensara em complementá-lo: “O estuprador não é um monstro: é um homem”. Talvez assim tivesse ficado melhor, pois teria deixado bem claro o que pretendia dizer naquelas (poucas) linhas escritas – que no fundo, nada mais eram do que um comentário “alongado” relativo ao excelente vídeo do canadense Jeremy Loveday.

Porém, muito provavelmente este outro título também causaria irritação. Mais especificamente, de muitos homens que “vestiriam a carapuça”, achando que a referência era a todos do sexo masculino. Mesmo que não seja preciso ter mais de dois neurônios para perceber que queria dizer o contrário: nem todo homem é estuprador, mas todo estuprador é homem – daí a afirmação de que, enquanto gênero, todos somos responsáveis por isso, e não podemos nos omitir. O fato do machismo oprimir as mulheres não significa que os homens não possam também combatê-lo, mas o primeiro passo para isso consiste em reconhecer que o gênero ao qual pertencemos é o opressor e que, portanto, são pessoas semelhantes a nós (ou seja, homens) que o praticam.

A partir disso, podemos fazer uma analogia para outros casos (como a luta contra o racismo, a homofobia etc.), e estendê-la até mesmo à humanidade como um todo. Temos o costume de classificar qualquer um que tenha comportamento desviante da norma como “criatura anômala”. Estupradores e demais criminosos, por exemplo, são “monstros”. O mesmo se aplica a Adolf Hitler e aos nazistas: barbaridades como o Holocausto não podem ser coisa de humanos, né?

A referência a Hitler não é para seguir a chamada “Lei de Godwin”. Quando aconteceram os atentados terroristas na Noruega, em 22 de julho de 2011, se procurou mostrar o autor confesso dos ataques, o ultradireitista Anders Behring Breivik, como um “monstro” (rá!) e também como “seguidor de Adolf Hitler”. Com isso, passava-se a ideia de que Breivik era uma “criatura anômala”, provavelmente “com problemas mentais”. Logo, seria “menos humano” que nós, “pessoas normais e de bem”. O motivo? Meu amigo Guga Türck “matou a charada”:

Claro, porque é necessário se identificar de alguma forma uma anomalia no comportamento do cara, porque senão todas as razões que ele vem elencando para o seu massacre irão colocar uma gama muito grande de pessoas no saco que este idiota acabou de criar.
Suas ideias são como um compilado de bobagens que tenho ouvido por aí ao longo dos tempos, em jantares de família, saguões de faculdade, mesas de bar… todas essas coisas que permeiam a vida de um jovem da classe média porto-alegrense.
O que ele fez lá na Noruega tem um montão de gente por aqui que adoraria fazer com os integrantes do MST, ou com os moradores de rua, com negros, com vileiros, com os vagabundos do bolsa família, os maconheiros das marchas ou com os bicicleteiros que ousam desafiar os carros.

Resumindo: o “monstro” nada mais é do que um produto da sociedade. Somos seres sociais e, por isso, muito influenciados pelo meio em que vivemos. Não reagimos todos da mesma forma – aí entram as características próprias de cada pessoa. Um psicopata, por exemplo, tende a ser mais violento (isso mesmo, tende, pois nem todos são, por incrível que pareça).

Mas nem todo criminoso é psicopata, e nenhum deles (nem mesmo o psicopata) é monstro. Da mesma forma que Hitler e outros terríveis genocidas. São todos humanos. Iguais a nós.

Acontece que temos a mania de dividir o mundo entre “bons” e “maus”, sendo que, obviamente, nós somos os “do bem”, e os outros, “do mal”. Ou, como lembro de ter sido comentado por um professor em meu primeiro semestre na faculdade de História: “bárbaros são sempre os outros”. Com isso, muitas vezes estamos em meio à barbárie, mas fingimos que nada temos a ver com isso pois somos “civilizados”. Mas temos. E muito.

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O estuprador não é um monstro

“Como assim não? É UM MONSTRO SIM E MERECE APANHAR ATÉ MORRER!!!!111”, escreve, ensandecido, o comentarista de portal.

Mas, de fato, não é. Assim como nenhum criminoso, por mais cruel que seja, também não é monstro. Da mesma forma que Adolf Hitler não foi. Temos algo em comum com os citados: somos humanos.

Dizer que estupradores e outros criminosos são “monstros” é uma fuga da responsabilidade de refletirmos sobre nossa culpa pela existência de pessoas assim. Afinal, não esqueçamos que nem todo criminoso é um psicopata – ou seja, alguém acometido de um transtorno de personalidade.

Logo, também cabe a nós, homens, denunciar e combater a violência de gênero. Não podemos achar que isso “é problema delas” ou dizer que homens violentos são “monstros”: da mesma forma que nós, eles são… Homens. Ou seja: enquanto gênero, todos somos responsáveis por isso. Todos somos parte do problema.

É exatamente isso que nos lembra o poeta canadense Jeremy Loveday no vídeo abaixo. Assistam:

O “crime” de sofrer um crime

Era uma vez um lugar onde ser vítima de um crime era crime. Lá, quando o sujeito estava na rua e era roubado, não ia à polícia nem contava nada a ninguém. Quando as autoridades sabiam do acontecido, o assaltado era detido, e levava umas porradas para “aprender a não ficar andando em lugar perigoso”.

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Surreal, né? Mas engana-se quem pensa que algo desse tipo não existe de verdade. A diferença é que não acontece com todo mundo que é vítima. Só integrantes de certos grupos sociais (que obviamente não são os dominantes, ou seja, homens brancos heterossexuais) cometem o “crime” de sofrerem certos crimes.

É o que se passa, por exemplo, com as mulheres que são assediadas na rua ou no ambiente de trabalho, sofrem abusos sexuais etc. A “culpa” é sempre delas: andam com roupa muito curta, se insinuam etc. É capaz de muitos chegarem a sentir pena dos homens que as violentam: afinal, essas “vadias” ficam “provocando”.

(Então acontece de um programa de televisão, que dizem ser de humor, mandar uma equipe que conta com uma moça vestindo uma saia curta ao lançamento de um livro, com o objetivo de entrevistar o autor. O entrevistado enfia a mão entre as pernas dela, por baixo da roupa.  E todo mundo acha normal. Afinal, “a culpa é dela”: foi de vestido muito curto, a calcinha aparecia, ela provocou… Sempre o mesmo papo furado.)

Responsabilizar a mulher pelo abuso sexual sofrido é igual a dizer que num caso de roubo a culpa é da vítima. Rigorosamente igual.

Marcha das Vadias

Foi realizada ontem no Parque da Redenção a edição porto-alegrense da Marcha das Vadias (no sábado ela aconteceu em várias outras cidades brasileiras). A ideia nasceu no início de 2011, a partir da indignação gerada pela declaração de um policial que atribuiu o alto número de estupros na região da Universidade de Toronto (Canadá) às “mulheres que se vestiam como vadias” (em inglês, “sluts”). A primeira SlutWalk aconteceu em Toronto, e logo o movimento se espalhou pelo mundo, graças à repercussão dada pelas redes sociais.

Por incrível que pareça, ainda tem gente que acredita no papo furado que o estupro é culpa da mulher. É porque elas “se vestem como vadias”, “se insinuam” etc. Engraçado é que basta usar a lógica para perceber que sem estuprador é impossível acontecer um estupro, pouco importando a roupa que a mulher veste.

Sem contar a clara diferença de tratamento dada a ambos os sexos. Se nós homens tiramos a camisa quando sentimos calor, ou “damos em cima” de uma mulher, isso é aceito com naturalidade. Agora se elas andam com pouca roupa num dia de calorão ou “dão em cima” de um cara… São “vadias”, “estão se insinuando”, logo, “não podem reclamar de um estupro”. É estúpido, mas Sérgio Porto (mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta) estava certo quando disse, lá na década de 1960, que a maior inflação no Brasil era de estupidez: cinquenta anos se passaram, e isso não mudou.

A propósito, Stanislaw foi um dos grandes humoristas brasileiros. Bem diferente destes metidos a “politicamente incorretos” que são, na verdade, politicamente reaças.

Vale tudo por audiência

Charge do Kayser

Não assisto BBB. A única vez que tentei assistir foi na primeira edição: enchi o saco logo no começo. (E pelo que sei, a única coisa realmente boa que o programa fez ao Brasil foi tornar conhecido Jean Wyllys, que hoje é deputado federal pelo PSOL-RJ e empreende no Congresso uma valorosa luta contra a homofobia.)

Porém, com todo mundo falando do programa na época de sua exibição (o que é um dos motivos pelos quais odeio o verão), praticamente não tinha como saber sobre a acusação de abuso sexual cometido por um dos participantes. A vítima, sob efeito de álcool e visivelmente desacordada no momento, já é acusada pelos machistas de plantão de “ter se insinuado”. Sim: para eles, mulher vítima de abuso sexual “fez por merecer”.

(Assim, caso vejas uma mulher de minissaia na rua, pode ter certeza: ela não está com calor – o mesmo que te faz destilar suor – e sim, quer ser agarrada… Ela vai gritar, te chamar de tarado, mas não dá bola, isso é só para “se fazer de difícil”: vai fundo e mostra quem é o dominador nessa história.)

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O participante acusado de abuso foi expulso do BBB pela produção do programa, e provavelmente terá de se explicar à polícia (que foi aos estúdios da Rede Globo para investigar a denúncia). Ótimo.

Porém, o que acontecerá com a Globo, que transmitiu as cenas ao vivo, depois dessa? Não fosse a grande repercussão do caso na internet (que levou a polícia ao Projac), podem ter certeza de que a emissora teria “posto panos quentes” no assunto, que “morreria” em poucos dias. Afinal, pelo que li, a Globo já tinha negado qualquer possibilidade de abuso sexual no programa, e Pedro Bial ainda teria dito “o amor é lindo”, em referência ao fato.

Acho que já passa muito da hora de rever as concessões (que são públicas) para emissoras que fazem qualquer coisa por audiência.