Cria cuervos…

O dia 6 de janeiro de 2021 entra para a História: assistimos a uma tentativa de golpe de Estado não na América Latina, mas no país que patrocinou tantos movimentos com as mesmas intenções ao sul do Rio Grande.

É fato inédito nos Estados Unidos, mas não surpreendente. Tudo indicava que Donald Trump, desesperado pela possibilidade de ser preso por fraude fiscal, faria de tudo para permanecer na Casa Branca. Dois meses após a eleição, não reconheceu a derrota e sequer recebeu Joe Biden para uma transição de governo como fizeram todos os presidentes anteriores. Várias vezes contestou os resultados, mesmo com todas as auditorias confirmando que não houve fraude. A única coisa que faltava era tentar um golpe, e eis que aconteceu: praticamente exigiu que Mike Pence, vice-presidente e que também tem a função de presidir o Senado, impedisse a certificação dos resultados eleitorais pelo Congresso (o que sempre foi mera formalidade) e insuflou uma turba de fanáticos a marchar em direção ao Capitólio para intimidar os congressistas. Pence não topou a aventura golpista mas o parlamento foi invadido, o que não ocorria há mais de 200 anos.

O golpe de Trump fracassou, mas seu mandato presidencial vai até o próximo dia 20 e ele tem em mãos os códigos para acionar um arsenal nuclear capaz de destruir o planeta várias vezes: duas semanas, nesse caso, é tempo suficiente para se fazer uma merda bem grande. Não à toa que já estão sendo considerados tanto um impeachment às pressas como a possibilidade de ser invocada a 25ª emenda à Constituição dos Estados Unidos, que prevê o afastamento do presidente caso o vice e a maioria do gabinete o considerem incapaz de seguir no cargo; se isso ocorrer, Pence assume o poder até a posse de Biden. (Sinceramente, torço muito não só para que isso aconteça como também para que Trump seja retirado da Casa Branca algemado.)

Independente do que acontecer nos próximos dias, o fato é que o problema não acaba em 20 de janeiro. Mesmo derrotado, Donald Trump recebeu 74 milhões de votos, o que significa uma enormidade de gente que se sente representada por um sujeito tão boçal. A polarização nos Estados Unidos, país no qual é muito fácil comprar uma arma de fogo e que já teve quatro presidentes assassinados no exercício do cargo, é tão acirrada que não poucas pessoas temem uma guerra civil.

E ainda tem o “exemplo” para os discípulos de Trump, como Jair Bolsonaro. Alguma dúvida de que ele vai tentar melar a eleição de 2022 caso seja derrotado? Com um agravante: no Brasil as instituições são bem mais frágeis que nos Estados Unidos, como provam os vários golpes que já ocorreram por aqui.

O “fundão” no poder

Recebi a imagem acima via WhatsApp. Achei simplesmente genial, em especial pela explicação do que é o PSL – partido pelo qual Jair Bolsonaro foi eleito presidente em 2018, apesar de ter se desfiliado ano passado.

Os “encrenqueiros” dos Simpsons, os “valentões”, a “turma do fundão”. É a melhor representação da turma que nos governa há quase dois anos.

(Também diz bem quem são Donald Trump e seus apoiadores nos Estados Unidos, que não aceitam a derrota eleitoral e querem tumultuar a transição de governo.)

Temos um presidente – com apoiadores que fazem jus à fama de “robôs”, já que não pensam por si próprios – que se recusa a cumprimentar Joe Biden pela eleição por ser “capacho” de Trump. Que boicota a vacina da Sinovac contra a covid-19 por temer a concorrência de João Doria na disputa pelos votos da direita na eleição presidencial de 2022 e chega a celebrar a suspensão dos testes do imunizante (ou seja, indiretamente comemorou o falecimento de um voluntário que, comprovadamente, não tem relação com os estudos). Que “caga e anda” para as mais de 160 mil mortes causadas pela pandemia no Brasil e, como se não bastasse, destila homofobia para se referir a quem, com razão, se preocupa em não contrair nem propagar a doença.

Nos Estados Unidos, a boçalidade em pessoa deixa a Casa Branca no próximo dia 20 de janeiro, por bem ou por mal. Já o nosso ainda tem pouco mais de dois anos de mandato, e inspirado por Trump provavelmente vai tumultuar o processo eleitoral em 2022 caso seja derrotado. O que restará de Brasil após essa tragédia?

Democracia?

Hoje é, aparentemente, dia de eleição presidencial nos Estados Unidos.

O “aparentemente” se refere não ao fato de que boa parte do eleitorado votou antecipadamente (por medo de aglomerações nos locais de votação em meio à pandemia), mas sim à existência do famigerado e anacrônico colégio eleitoral, onde ocorre formalmente a escolha do presidente.


Em 2016, antes de saber quais seriam os resultados, comentei que exatos 27 anos após a abertura do Muro de Berlim (fato ocorrido em 9 de novembro de 1989) os jornais do dia poderiam ter como manchete principal a vitória eleitoral nos Estados Unidos de um candidato à presidência, Donald Trump, que propunha a construção de um muro na fronteira com o México.

Acabou acontecendo: Trump foi eleito, apesar de ter recebido quase 3 milhões de votos a menos que Hillary Clinton. Coisas da “democracia” estadunidense: não é necessário respaldo popular, basta ter a maioria absoluta no colégio eleitoral. E com exceção de Maine e Nebraska, não há proporcionalidade: o vencedor leva todos os delegados do estado em questão, mesmo que ganhe por diferença mínima e sem precisar da maioria absoluta (mais de 50%) do eleitorado estadual.

É o que causa tal distorção que, embora não ocorra com frequência, também não foi fato inédito em 2016: já acontecera em 1876, 1888 e 2000. (Também há o caso de 1824, quando o mais votado pelo povo também recebeu mais “votos eleitorais” no colégio, mas como não teve maioria absoluta coube à Câmara de Representantes a escolha do presidente, e o eleito foi o segundo colocado.)

Além disso, a não exigência de uma maioria absoluta praticamente inviabiliza o surgimento de uma “terceira via” aos partidos Democrata e Republicano. Ainda que eleições geralmente tenham um caráter “plebiscitário” sobre o governo do momento (seja com o presidente concorrendo à reeleição ou tentando fazer seu sucessor), em casos como o Brasil a previsão de segundo turno caso o mais votado não ultrapasse os 50% dá ao eleitorado mais de uma opção que não seja governista; já nos Estados Unidos vota-se em democratas por rejeição a republicanos e vice-versa. Tanto que se diz que o maior mérito de Joe Biden é não ser Donald Trump.


O triunfo do socialista Salvador Allende na eleição presidencial chilena de 1970 não agradou nem um pouco aos Estados Unidos, então governados pelo republicano Richard Nixon. Henry Kissinger, então Secretário de Estado, disse que não se podia permitir que um país se tornasse comunista pela “irresponsabilidade de seu próprio povo”. Infame mas de certa forma coerente com o histórico imperialista: se nos Estados Unidos valia mais o colégio eleitoral que a vontade popular, no Chile deveria ser igual.

Em 11 de setembro de 1973, Allende foi deposto por um violento golpe militar, e preferiu cometer suicídio a se entregar e virar um troféu para os traidores do povo chileno. Nascia assim mais uma ditadura “em nome da democracia”, patrocinada pelos interesses dos Estados Unidos.

Agora, ironicamente é a “democracia” estadunidense que está em xeque. Parafraseando Kissinger (mas neste caso falando com correção), um país pode dar mais um passo rumo ao fascismo por irresponsabilidade de boa parte de seu povo – mas que não necessariamente é a maioria.

Uma (possível) irônica efeméride

Em 9 de novembro de 1989 aconteceu o evento histórico que convencionou-se chamar “Queda do Muro de Berlim”. Não foi exatamente assim (o muro foi derrubado aos poucos e alguns trechos seguem em pé até hoje como espaços de memória, na verdade o que aconteceu foi a abertura das fronteiras), mas não vem ao caso discutir isso agora.

Exatos 27 anos depois, os jornais do dia podem ter como manchete principal a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos. Uma de suas promessas de campanha é construir um muro ao longo de toda a fronteira com o México — mandando a conta para os mexicanos pagarem.

A fronteira entre Estados Unidos e México (que em alguns trechos já é murada) tem 3.141 km de comprimento. Já o Muro de Berlim se estendia por 155 km.

Coisas que aprendi nos últimos dias

Quarta-feira passada, fui informado de que tinha morrido de maneira trágica (num acidente de carro) um cantor sertanejo do qual eu nunca tinha ouvido falar, junto com sua namorada. Até não fiquei surpreso, pois não curto música sertaneja – ainda mais em sua vertente atual, o tal de “sertanejo universitário” (pergunta que não canso de fazer: quando esse cara vai se formar?). Muitos ditos “sucessos” desse tipo de som eu só descubro quem são depois que fazem sucesso (leia-se “quando aparecem na mídia e começam a ser falados”).

A minha surpresa mesmo foi ao abrir o Facebook e perceber que a imensa maioria de meus contatos também não conhecia o cantor. Inclusive cheguei a dizer que talvez já tivesse escutado alguma música do cara, visto que aqui em Ijuí é comum jovens se reunirem nas tardes de domingo em alguns pontos com som a todo volume em seus carros (muitas vezes rebaixados). Mas ainda assim não diferencio os nomes, para mim é tudo igual.

Então descobri que, por não fazer ideia de quem era Cristiano Araújo, eu “não conhecia o Brasil”. Ora, que novidade! Será que há alguém que conheça realmente um país de dimensões continentais como o nosso? Saber quem é um cantor sertanejo não transforma ninguém em “conhecedor do Brasil”, mas sim de apenas um aspecto dele.

Se passaram dois dias e o Facebook deixou de ser dominado pelo assunto “Cristiano Araújo”, passando a bola para a legalização do casamento homossexual nos Estados Unidos, este sim um acontecimento histórico. Teve toda uma polêmica sobre colorir as fotos em comemoração ao acontecimento, com reaças subitamente lembrando da fome enquanto gritam contra o Bolsa Família e dizem “vai trabalhar, vagabundo” a mendigos quando estes pedem uma moedinha. Sim, hipocrisia é o que não falta por lá. (Em tempo: não colori a minha foto primeiro porque um parente reaça ter feito o mesmo acabou me desmotivando; mas também achei melhor manter o avatar com o selinho contrário à redução da maioridade penal, uma batalha que ainda precisamos vencer. E além disso, quem me conhece sabe que sempre fui favorável a permitir que todas as pessoas tenham o direito a se casarem, independente de sua orientação sexual.)

Foi embora o final de semana e, de novo, voltou a se falar em Cristiano Araújo. Tudo porque o jornalista Zeca Camargo criticou a excessiva comoção pela morte de um cantor que “ninguém conhecia”, embora não tenha dito tudo talvez por trabalhar na Globo, dona da gravadora dos discos de Araújo (a Som Livre): alguém acha que não rolou “interesse comercial” na intensa cobertura da “plim-plim”? Resultado: Zeca Camargo foi xingado até a enésima geração por fãs do cantor.

Ou seja, pelas opiniões que li no Facebook sobre a crítica de Zeca Camargo (com a qual concordo), descobri que sou um babaca, idiota, imbecil, desgraçado… Ah, e que não conheço o Brasil. Acho que sou burro mesmo – mas informo que não tenho intenções de passar a ser “inteligente”, pois não gosto de música sertaneja e não pretendo passar a ouvir tal tipo de som apenas para agradar.

A eficácia do que não é escrito

O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário.*

A citação acima, de Pierre Bourdieu, nos ajuda a entender melhor seu conceito de “poder simbólico”. Trata-se daquela dominação que não é explícita, não existe “formalmente” e, por isso mesmo, é mais complicada de ser combatida: afinal, luta-se contra um adversário que não é facilmente distinguível.

O machismo, por exemplo. Não há nenhuma lei que estabeleça a dominação masculina em nossa sociedade. A Constituição brasileira determina a suposta igualdade entre ambos os sexos, e o voto de um homem vale exatamente o mesmo que o de uma mulher. Porém, a prática nos mostra algo diferente: mulheres cumprindo a mesma tarefa que homens e ganhando salários menores, objetificação de seus corpos (aos quais não têm pleno direito, como prova a criminalização do aborto), culpabilização por violência sofrida etc. Contra isso se levantam as feministas, só que o senso comum – que em uma sociedade machista não teria como ser diferente – reage falando da teórica igualdade; alguns vão além e dizem que “as mulheres têm mais direitos que os homens” citando exemplos do tipo “elas não precisam se alistar aos 18 anos” (sendo preciso ignorar que até o início do Século XX – ou seja, “ontem” em termos históricos – a guerra era idealizada; em um contexto de exaltação das nacionalidades, nada mais honroso do que “lutar pela pátria” mesmo correndo o risco de sacrificar a própria vida – o que era, obviamente, “coisa de homem”) ou o fato da licença-maternidade ser maior que a paternidade (o que é fruto da ideia de que cuidar das crianças é tarefa feminina).

Podemos citar diversas outras formas sutis de dominação, que não estão estabelecidas formalmente, não são expressas por leis escritas. Convenções sociais, ideias que são “senso comum”, aparentemente inofensivas e por isso difíceis de serem combatidas.

Uma delas diz respeito ao racismo no Brasil. O “senso comum” fala na tal de “democracia racial”, que não somos um país racista, que não temos leis segregacionistas etc. Porém, até 1888 (novamente, “ontem” em termos históricos) existia oficialmente escravidão, e em consequência disso a maioria da população negra vive na pobreza. Inclusive, há estudiosos que usam a expressão “apartheid social” para se referir à imensa desigualdade no Brasil, em alusão ao racismo institucionalizado na África do Sul de 1948 a 1994. Continuar lendo

A ditadura da sociabilidade

Semana passada correu na internet uma lista, feita por um estadunidense casado com uma brasileira, citando os motivos pelos quais tinha detestado morar no Brasil – e em um fórum dos Estados Unidos, internautas acrescentaram novos itens, “dobrando” o tamanho da lista.

A lista gerou polêmica, por conter muitas generalizações que, obviamente, não são corretas. Nem todas as ruas de nossas cidades são sujas, nem todos os brasileiros querem sempre “levar vantagem em tudo”, não é “quente como o inferno durante nove meses por ano” (Porto Alegre é infernal, mas felizmente não por todo esse tempo) etc. E dizer que, fora Rio de Janeiro e Salvador (mais especificamente, o Pelourinho), as cidades brasileiras são todas feias e “sem árvores”, é sinal de que a pessoa mal conhece o Brasil: Porto Alegre ainda é uma cidade bastante arborizada, apesar de nossa prefeitura se esforçar para mudar tal situação.

Porém, alguns itens são, realmente, perfeitos. Como os que falam na prioridade dada aos carros, na (péssima) qualidade dos serviços de eletricidade e internet, e no fato das elites se julgarem acima das leis. Mas o número 16 da lista, em especial, me chamou a atenção, por tratar de algo que incomoda muito: o da “sociabilidade” dos brasileiros. Transcrevo-o abaixo:

Os brasileiros são super sociais e raramente passam algum tempo sozinho, especialmente nas refeições e fins de semana. Isso não é necessariamente uma má qualidade, mas, pessoalmente, eu odeio isso porque eu gosto do meu espaço e privacidade, mas a expectativa cultural é que você vai assistir (ou pior, convidar amigos e família) para cada refeição e você é criticado por não se comportar “normalmente” se você optar por ficar sozinho.

Não posso dizer que isso seja “coisa de brasileiro”: sou da opinião que “mala” existe em todo lugar. Certamente não faltam pessoas assim nos próprios Estados Unidos.

Mas o fato do texto ter citado as refeições e finais de semana caiu como uma luva. Obviamente gosto de encontrar os amigos, tomar uma cerveja, conversar etc. Mas não sempre. Porém, a maioria das pessoas não entende que alguém possa estar com vontade de ficar só em alguns momentos. Pois acham que devemos ser sempre “sociáveis” e bem humorados; já comigo acontece o contrário, e meu humor se vai quando me sinto forçado a “ter que conviver”.

Gosto de fazer refeições tanto sozinho como acompanhado. Mas com um detalhe: se alguém quer realmente me agradar com sua companhia, tem de ser convidado para sentar à mesa comigo. Pois, se vou almoçar ou jantar só, na verdade não estou realmente só: desfruto de minha própria companhia. Simplesmente chegar com o prato e sentar à mesa, começando a falar, não é “camaradagem”: é interromper um momento de introspecção. É se meter onde não foi chamado. (Às vezes não sobram lugares no restaurante e é preciso dividir a mesa com algum desconhecido, mas nesse caso não vejo problemas pois a outra pessoa não tinha opção.)

Finais de semana é a mesma coisa. Tem ocasiões em que simplesmente quero ficar em casa lendo, escrevendo, ou mesmo “fazendo nada”.

Porém, ninguém aceita um “não estou com vontade” como resposta quando nos convida para sair. Aliás, quantas vezes não precisamos inventar desculpas para recusar um convite, apenas para evitar que a outra pessoa se sentisse ofendida? E o mesmo acontece se estamos em algum lugar sozinhos e alguém “pede licença” para fazer companhia: quantas vezes não dissemos “sim” só por educação, quando na verdade preferíamos continuar sós?

Sem contar as visitas inconvenientes, que todos já receberam várias vezes… Chegam “do nada” (sequer ligam antes para saber se estamos em casa e, caso estejamos, se queremos ou não receber visitas), e ainda se sentem “donas do pedaço”. Não é um saco estar fazendo alguma coisa e ter de interromper só porque alguém chegou sem avisar?

De forma geral, as pessoas encaram o fato de estarem sós como “fracasso social”. Não sabem desfrutar de suas próprias companhias (e existem diversas formas de fazer isso: ler, assistir filmes, escrever etc.), e por conta disso, acabam não suportando estarem consigo mesmas. Ainda mais que vivem nos dizendo que devemos “curtir a vida adoidado”, sempre rodeados de muita gente.

E em certas ocasiões, a imposição torna-se ainda mais forte. Como assim ficar um sábado à noite em casa, ao invés de ir “causar muito” nas baladas? Onde já se viu alguém passar o Carnaval (logo o Carnaval!) lendo? Que falta de “espírito de Natal” não curtir a festa em família! Pouco interessa que gostemos mais de livros do que de noitadas e carnavais, ou que a convivência com os familiares seja complicada (como realmente é para muitas pessoas): virão os rótulos de “antissocial”, “chato”, “velho”, “mau-humorado”, “revoltado”, “maluco”, “rabugento”, “ranzinza”… Além de outros (aceito sugestões nos comentários).

Como falei na última sexta, todos somos pequenos ditadores: em algum momento de nossas vidas, nos metemos a “cagar regras” aos demais, mesmo que os gostos dos outros em nada nos afete. Quando apenas uma pessoa que tenta nos outorgar seus hábitos, é mais fácil se livrar; agora, quando raros são os que discordam, aquilo que deixa tantas pessoas felizes (será que ficam felizes mesmo?) acaba por oprimir quem não gosta.

O Natal e a colonização cultural

Lembro de ter feito um breve comentário no Facebook em 31 de outubro, acerca do “mimimi” em relação ao Dia das Bruxas (ou Halloween), celebrado naquela data e que ganha adeptos no Brasil. Foi algo no sentido de apontar a contradição dos que viram “patriotas” e criticam a colonização cultural, mas quando chega dezembro celebram o Natal comendo peru e venerando um homem que veste fantasia invernal em pleno verão.

É muito fácil falar mal do Dia das Bruxas – que é, sim, algo importado dos Estados Unidos. (Mas aí leio um pouco sobre a história da comemoração, lembro também que Joana D’Arc foi queimada como “bruxa” – afinal, mulheres protagonistas nunca agradaram ao poder – e começo a simpatizar com a data.)

Agora, o que dizer das “tradições” do final do ano?

O hábito de se comer peru (carne da qual não sou fã, é seca demais) no Natal, por exemplo, não é nada brasileiro. É também importado dos Estados Unidos – onde a ave é servida também no feriado de Ação de Graças, celebrado na quarta quinta-feira de novembro. (Aliás, é derivada desta celebração a tal “Black Friday”, que nos EUA marca o início das “compras de Natal” e no Brasil é um dos maiores “engana-bobos” de que se tem notícia.)

Agora, nada mais simbólico da colonização cultural do que o uso de uma simbologia “fria” em pleno verão brasileiro. Pinheiros esbranquiçados pela “neve”, o Papai Noel andando de trenó e vestindo roupas invernais etc. Claro, pois são tradições do hemisfério norte, onde o Natal marca justamente o início do inverno. Ou seja, exatamente o contrário do que se tem no hemisfério sul, onde é o verão que começa em dezembro.

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Óbvio que é também absurdo nos fecharmos totalmente a outras culturas. Afinal, é a coisa mais normal que haja intercâmbios de costumes e tradições, sem contar que muitas celebrações se adaptam a peculiaridades locais.

Um bom exemplo é o Carnaval, festa considerada tão “brasileira” e que é celebrada de diversas formas em várias partes do mundo – aliás, é mais antiga que o Brasil! E há diferenças mesmo dentro do país: basta comparar os festejos de Salvador e Olinda com os do Rio de Janeiro; aliás, eis outro exemplo de “colonização”, pois não faltam cidades cujas festas de Carnaval são cópias – muitas vezes mal feitas – dos desfiles das escolas de samba cariocas.

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Atualização (29/11/2013, 22:59). Falando em “adaptações às peculiaridades”, lembrei do que acontece na celebração do Natal por minha família. Como já falei, não gosto muito de peru, e por conta disso, comia muito pouco na ceia quando criança. Então, em 1986, meu pai teve a ideia de que se fizesse creme de ervilha (sim, sopa em pleno verão!), visto que sempre gostei muito de tal prato. Para que não houvesse nenhum risco, o “Papai Noel” tomou um pouco de creme enquanto deixava os presentes na árvore (assim é bom ser o “velhinho”, comer antes de todo mundo…), e obviamente me empanturrei depois. O resultado é que até hoje tomamos creme de ervilha no Natal – e eu raramente como algum pedaço de peru.

Nobel da Paz: total desmoralização

O presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, reagiu assim à proposta da ONG holandesa Drugs Peace Institute de indicá-lo ao Prêmio Nobel da Paz em 2013:

Estão loucos. Que prêmio da paz, nem prêmio de nada. Se me derem um prêmio desses seria uma honra para os humildes do Uruguai conseguirem um dinheiro a mais para fazer casinhas… no Uruguai temos muitas mulheres sozinhas com quatro, cinco filhos porque os homens as abandonaram e lutamos para que possam ter um teto digno… Bom, para isso teria sentido. Mas a paz se leva interiormente. E o prêmio eu já tenho. O prêmio está nas ruas do meu país. No abraço dos meus companheiros, nas casas humildes, nos bares, nas pessoas comuns. No meu país eu caminho pela rua e vou comer em qualquer bar sem essa parafernália de gente de Estado.

Apesar de Mujica rejeitar a possibilidade, vê-lo indicado – e mesmo premiado – faz sentido. Obviamente ainda há muito pelo que avançar no Uruguai, mas o que já aconteceu serve de exemplo aos países vizinhos e em especial ao Brasil, onde o conservadorismo é muito forte. A ONG holandesa propôs “Pepe” ao Nobel da Paz por sua iniciativa de passar ao Estado o controle da maconha para lutar contra o tráfico de drogas (numa lógica oposta àquela defendida pelos Estados Unidos, ou seja, a “guerra” que apenas gera mais violência e vitima inúmeras pessoas na América Latina), mas o Uruguai de Mujica também é o primeiro país na região a legalizar o aborto até a 12ª semana de gestação, o que salva a vida de muitas mulheres – situação diferente da verificada no Brasil. Sem contar inúmeras declarações do presidente uruguaio: considerado “o mais pobre do mundo” por seu estilo de vida simples, Mujica diz que “pobre é quem precisa de muito para viver”; recentemente, recomendou aos jovens que dedicassem mais tempo ao amor do que ao consumo.

Resumindo: Mujica mereceria, e muito, o prêmio. Porém, é o Nobel da Paz que não está mais à altura de “Pepe”. Instituído por iniciativa do químico sueco Alfred Nobel (inventor da dinamite) e entregue desde 1901, já laureou pessoas realmente importantes para a paz mundial, como Martin Luther King e Nelson Mandela. Porém, há também muitos outros interesses por trás das decisões.

Em 11 de setembro de 1973, o Chile sofreu um sangrento golpe militar porque nas palavras de Henry Kissinger, os Estados Unidos não podiam “deixar um país se tornar comunista devido à irresponsabilidade de seu próprio povo”. A “irresponsabilidade” da qual falava Kissinger, então secretário de Estado dos EUA, era a eleição do socialista Salvador Allende à presidência do Chile, em 1970. No final daquele ano de 1973, adivinhem quem ganhou o Prêmio Nobel da Paz? Ele mesmo, Henry Kissinger… A escolha se deveu a acordo com o objetivo de pôr fim à Guerra do Vietnã, razão pelo qual o vietnamita Le Duc Tho também foi laureado – mas este, dignamente, recusou o prêmio.

Ano passado, o prêmio foi atribuído à União Europeia. Foi piada pronta: a UE ganhou o Nobel da Paz, mas perdeu o de Economia…

Mas nada pode ser pior do que a escolha de 2009, como se percebe cada vez mais. Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, foi premiado “pelos esforços diplomáticos internacionais e cooperação entre povos”. Um Nobel da Paz que faz a guerra: enquanto Obama “se esforçava diplomaticamente”, as guerras no Afeganistão e no Iraque prosseguiam.

E agora, Barack Obama prepara mais uma “diplomática” ação pela “paz mundial”. O alvo da vez é a Síria, em guerra civil desde 2011, devido à acusação de que as forças do ditador Bashar al-Assad teriam usado armas químicas. Há vários relatos de que realmente teriam acontecido ataques com o uso de gases venenosos, mas não se sabe de qual lado partiu. No entanto, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, diz ter provas de que o governo sírio usou armas químicas contra os adversários, situação que faz lembrar as “provas contundentes” de que o Iraque tinha armas químicas e biológicas em 2003: foi o que justificou a invasão mesmo após várias inspeções da ONU não encontrarem nada – e de fato, não havia nada; talvez apenas as notas fiscais emitidas pelos próprios Estados Unidos quando Saddam Hussein comprou tais armas para utilizá-las contra o Irã, na década de 1980.

E provavelmente Kerry saiba da posse de armas químicas pela Síria desde aquele jantar em 2009, época em que Assad era aliado

Henrique Capriles, um mau perdedor

Quando postei ontem sobre o resultado da eleição presidencial na Venezuela, disse que o fato do oposicionista Henrique Capriles não reconhecer a vitória de Nicolás Maduro poderia resultar em violência nas ruas, visto que a direita venezuelana já fez isso em abril de 2002, no golpe que tirou Hugo Chávez do governo por 48 horas.

Pois já estava acontecendo. Partidários de Capriles atenderam ao chamado do oposicionista e foram às ruas, porém, muitos não se limitaram ao protesto pacífico e partiram para a violência, que deixou pelo menos sete mortos e 61 feridos.

Ou seja, Capriles demonstra, acima de tudo, que é um mau perdedor. Segundo a TeleSur (cuja sede em Caracas foi cercada por militantes oposicionistas), o candidato da direita sequer formalizou o pedido de recontagem de votos que ele dissera que ia solicitar. Ou seja, demonstra ter certeza de que perdeu a eleição. Mas, parecendo uma criança birrenta, esperneia e não aceita a derrota.

O problema é que essa “criança birrenta” é também “mimada”: sua gritaria animou o governo dos Estados Unidos, que não reconhece o resultado da eleição (mesmo que o sistema de votação na Venezuela seja muito elogiado, inclusive pelo Centro Carter de Estudos, liderado pelo ex-presidente estadunidense Jimmy Carter). E assim, essa “birra”, que ainda ganhou um “mimo”, pode acabar nada bem.