O “concursismo” e as contradições da classe média

Postei o vídeo acima não por concordar totalmente com o que Lobão disse – aliás, mais discordo do que concordo. Afinal, a crítica que ele faz ao funcionalismo público “esquece” de citar que na iniciativa privada os salários são menores e que sempre se corre risco de demissão para “cortar gastos”. Sem contar que nem todos têm “vocação empreendedora” (nem dinheiro) para abrir um negócio como ele defende, e que certos profissionais praticamente não têm mercado a não ser no serviço público. Além disso, tenho amigos que são funcionários públicos e que não se enquadram naquele estereótipo do “bater ponto, pendurar o paletó na cadeira e passar o dia tomando cafezinho” que é geralmente associado à função: já os vi até mesmo estressados após um dia de trabalho.

Agora, o que eu quero falar, e no que concordo com Lobão: sobre o fato de cada vez mais jovens sonharem em ser funcionários públicos (assim, genericamente), e de como isso é ruim. Afinal, não se trata de escolher uma profissão por ela ser prazerosa, agradável: é única e exclusivamente pelo dinheiro. Ou seja, para melhor se integrar ao sistema.

Quem trabalha no serviço público tem de ser, acima de tudo, uma pessoa responsável, honesta, ética. Afinal, é o dinheiro de todos nós que paga seu salário. Mesmo que tenha a tranquilidade de saber que não será demitido por “corte de gastos” (como acontece muito na iniciativa privada), o funcionário público precisa ter em mente que trabalha não só para receber no final do mês, como também para o povo.

Porém, o sentimento que predomina é o individualismo, o “se dar bem na vida”. Obviamente todos desejam ter uma vida melhor, mas muitos pensam nisso de forma individual, e nunca coletiva. E isso, o individualismo, é um fenômeno típico da classe média.

Não por acaso, é dela que sai a maioria dos aprovados em concursos públicos. Afinal, para passar é preciso estudar (e muito!) conteúdos dificílimos como legislação, além de, é óbvio, ir bem na prova – e falo de ir bem mesmo, de preferência gabaritando. Ou seja, é preciso tempo para os estudos, e dinheiro para pagar o material ou um cursinho. O que falta para os mais pobres, que muitas vezes precisam trabalhar em dois empregos para conseguirem se manter, sobrando tempo apenas para descansar, e pouco dinheiro.

Aí se revela uma das maiores contradições da classe média: com base no que lê na Veja, o típico médio-classista reclama dos impostos, diz que o Estado brasileiro é “cabide de emprego”, defende as privatizações, mas tem como sonho… Ser empregado pelo Estado!

E outra das grandes, é em relação a Lula (que inclusive é lembrado por Lobão, ao falar do “concursismo”). Talvez o governo Lula tenha sido um dos que mais realizou concursos públicos na história do Brasil. Mas o médio-classista não pode nem ouvir falar do ex-presidente sem começar a babar de raiva. Já agora, o corte de gastos ordenado por Dilma significará menos concursos, e obviamente menos nomeações para o serviço público. Mas, como até a Veja já elogiou a presidenta, o médio-classista deve estar adorando este início de governo

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A coerência da direita

Coisa muito interessante é a coerência que vemos na direita. No mundo inteiro.

Ela se diz favorável à “liberdade”, tanto na política como na economia.

Vivenciamos por 21 anos, de 1964 a 1985, uma ditadura implantada por um movimento golpista que se auto-intitulava “revolucionário democrático”, da mesma forma que o Bush diz fazer guerra pela paz. Para certas pessoas, a democracia só é interessante quando elas ganham a eleição: quando a oposição vence, é sinal de que “o povo não sabe votar”, então é preciso tirar o direito dele para “aprender”.

E na economia, é o que vemos ultimamente: os defensores do livre-mercado correndo para pedir socorro ao Estado que eles dizem que deve ser mínimo. Sem contar alguns empresários que não investem um centavo sem receberem “incentivos fiscais”, ou seja, favores do mesmo Estado que eles tanto criticam.

Logo, não é tão estranho ver o Coronel Mendes, ídolo-mor da direita guasca e defensor da pena de morte, citar a China como exemplo de país onde “a lei é forte”: lá, o partido que está no poder é chamado de comunista…