Ainda querem que Porto Alegre vire Dubai?

Mês passado, quando eu viajava ao litoral gaúcho, vi uma placa anunciando um condomínio fechado (que aos poucos vão tomar conta das praias) cujo nome era “Dubai”. A página do empreendimento não podia ser mais significativa: “Eu quero Dubai”.

Em outubro de 2008, a Cristina Rodrigues publicou em seu blog Interpretando um post com o título “A mentalidade Dubai”, que vale muito a pena ser lido (faça isso clicando aqui). O texto faz uma comparação entre Dubai, com obras faraônicas como um prédio com a altura absurda de mais de 800 metros (para ter uma idéia, isso é mais alto que o Morro do Corcovado, no Rio de Janeiro), e Porto Alegre, onde muitas pessoas são fascinadas pelo modelo de Dubai.

O fascínio obviamente se deve à idéia de que aquilo é “progresso”. Em menos de 50 anos, Dubai deixou de ser apenas um pequeno emirado para se tornar uma metrópole, a maior dos Emirados Árabes Unidos. Pouco importa que o idioma árabe venha sendo deixado de lado e substituído pelo inglês – devido aos negócios – e que cada vez menos as pessoas se conheçam mesmo que vivam próximas (qualquer semelhança com Porto Alegre é mera coincidência?).

Pois é… Mas veio a crise, e Dubai não ficou imune à ela. O colapso econômico gera desemprego e protestos, como se vê no vídeo abaixo.

“Em porteira que passa um boi, passa uma boiada.”

Esse ditado gaúcho já foi citado diversas vezes, por várias pessoas, em relação ao Pontal do Estaleiro. Por falta de criatividade, o cito mais uma vez.

Foi aprovado um projeto ilegal (contraria lei federal sobre áreas de preservação permanentes) na Câmara Municipal, ontem. Será permitida a construção de edifícios comerciais e residenciais na área do antigo Estaleiro Só (Ponta do Melo). Espigões com o mesmo volume do Hospital de Clínicas.

O projeto original, enviado pelo prefeito José Fogaça, previa a realização de um referendo para o povo decidir. Mas aí começaram a dizer que era caro demais, ainda mais para tratar “apenas do Pontal do Estaleiro”. Então, o transformaram em consulta popular (na qual o voto não será obrigatório, e nem haverá campanha de rádio e televisão com tempos iguais para os dois lados), a ser realizada em um prazo de 120 dias. Mas atentem para um detalhe da emenda apresentada pelo líder do governo Valter Nagelstein (PMDB): se a consulta não for realizada no prazo, a lei entra em vigor automaticamente… Não é uma beleza?

E não se iludam, achando que ontem apenas se aprovou o projeto referente à Ponta do Melo. Pois já virou moda os nossos vereadores legislarem por partes – foi o que se viu no caso dos projetos da dupla Gre-Nal, aprovados em 29 de dezembro (entre o Natal e o Ano Novo, quando boa parte da população estava fora da cidade). Abriu-se o precedente para projetos semelhantes em toda a orla do Guaíba. O verão, que já é nojento em Porto Alegre, vai ficar ainda pior: os ventos provenientes do Guaíba, que aliviam um pouco o calorão, serão barrados por uma porrada de prédios. Não por acaso, me dizem que o Rio de Janeiro é uma beleza em Copacabana (à beira do mar), mas torna-se infernal à medida que se entra para dentro da cidade, já que os prédios na orla barram os ventos do mar.

Sem contar que o concreto em excesso ajuda a aquecer ainda mais o ambiente – bem diferente das árvores, que além de proporcionarem sombra também ajudam a diminuir um pouco a temperatura.

Sinceramente, quero acreditar que haverá a consulta, e que se a maioria votar contra o projeto, a vontade popular será respeitada. Mas, já penso seriamente em ir embora dessa cidade que em nome do “progresso” perde cada vez mais o que lhe resta de qualidade de vida. A primeira oportunidade que tiver para morar no interior (de preferência em uma cidade menos quente), agarrarei com todas as forças.

Audiência pública sobre o Pontal do Estaleiro

Acontece na noite desta quinta-feira, no plenário da Câmara Municipal de Porto Alegre, audiência pública sobre o novo projeto – enviado pelo prefeito José Fogaça – para a área do Pontal do Estaleiro.

A audiência é prevista para começar às 19 horas.

A única diferença entre o atual projeto e o anterior, aprovado pela Câmara mas vetado pelo prefeito, é a questão do referendo, que é considerado “caro demais”, mas que eu acharia ótimo se ocorresse: a população seria estimulada a pensar na cidade e seu futuro.

Câmara vota projetos da dupla Gre-Nal

copa_nossa(charge do Kayser)

Hoje à tarde, serão votados na Câmara Municipal de Porto Alegre os projetos da “arena PIFA” do Grêmio e da modernização do estádio colorado, o Beira-Rio.

Muito mais do que isso, pretende-se mudar índices construtivos na cidade, que ajudarão a acabar com o pouco de qualidade de vida que resta nela: seriam permitidos prédios de 72m de altura na área atualmente ocupada pelo Olímpico e junto à “arena PIFA”, e 52m no Menino Deus – incluído o Estádio dos Eucaliptos, que o Inter pretende vender, e também a área do Beira-Rio.

O colunista do jornal LANCE! Marcelo Damato, citou em seu blog Além do Jogo uma postagem do Hélio Paz, e intitulou seu post de “Madrid em dose dupla”, lembrando que o Real Madrid, ao construir sua “Ciudad Deportiva”, teve de respeitar as leis da cidade, enquanto aqui em Porto Alegre se quer mudá-las com a desculpa de viabilizar a Copa de 2014.

E extremamente pertinente é o comentário, no blog do Marcelo Damato, do leitor Eduardo, do Rio de Janeiro. Ele lembra que há 10 anos atrás o Flamengo queria fazer um shopping em seu terreno, e a Câmara Municipal do Rio não permitiu: a área fora doada ao clube pelo poder público para a prática desportiva, não para atividades comerciais. Caso igual ao do Beira-Rio, mas aqui na “capital mais politizada do Brasil” querem que seja diferente.