O progresso homogeneizante

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A capa acima é do Jornal Já Bom Fim, edição deste mês. Além de chamar a atenção para o fato de cinemas darem lugar a um banco, o jornal também informa que, em média, o preço do metro quadrado de imóveis para alugar no Bom Fim já supera o do Moinhos de Vento.

Em processo semelhante ao que aconteceu no Moinhos de Vento, no Bom Fim a arquitetura tradicional do bairro (sobrados e prédios pequenos) vem dando lugar a espigões muito parecidos entre si. Mas a transformação vai além da mera questão arquitetônica: o Bom Fim, que por muito tempo foi um dos principais (se não o principal) reduto alternativo de Porto Alegre, hoje vê a diversidade ser cada vez mais restrita a poucos espaços, como Redenção e Lancheria do Parque.

Dizem que não tem jeito, “isso é o progresso” etc e tal. Mas eu só vejo homogeneização: se “progredir” é isso, então eu sou “retrógrado” desde criancinha.

E se isso acontece em bairros como Moinhos de Vento e Bom Fim, imagine o que se passa nas regiões periféricas que atraem o olho grande do poder econômico…

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O que está acontecendo perto da Arena

O incêndio da Vila Liberdade, ao contrário do que se chegou a especular, não foi premeditado: começou com a briga de um casal. Mas o relato desta moradora do local dá uma amostra do que deve vir a acontecer na região que fica perto da Arena do Grêmio nos próximos anos. Assista até o fim.

Da Wikipédia:

Chama-se gentrificação, uma tradução literal do inglês “gentrification” que não consta nos dicionários de português, a um conjunto de processos de transformação do espaço urbano que, com ou sem intervenção governamental, busca o aburguesamento de áreas das grandes metrópoles que são tradicionalmente ocupadas pelos pobres, com a consequente expulsão dessas populações mais carentes, resultando na valorização imobiliária desses espaços.

O triste destino que nos aguarda

Mês passado, falei que deixaria de ser sócio do Grêmio no final de 2012 por conta dos valores absurdos cobrados pelas mensalidades na Arena. Achei muito caro os R$ 92 para sentar atrás do gol, e longe do campo (a não ser que quisesse ficar na Geral).

No fim, não resisti. O coração falou mais alto, e o desejo de poder continuar vendo o Grêmio ao vivo venceu. Fiz a migração, para as cadeiras altas laterais, ala norte (ao custo de R$ 92 mensais). Caso falte grana, deixo de pagar.

Mas isso não muda minha visão sobre o que está acontecendo com o futebol brasileiro – e, indo um pouco além, que se passa com nossas cidades. A especulação imobiliária corre solta no país, acabando com lugares importantes para muitas pessoas. Estádios com muita história, como o Olímpico e o Florestal (antiga casa do Lajeadense) vão deixando de existir para dar lugar a supermercados e edifícios de apartamentos. Escolas viram estacionamentos. E mesmo as casas onde muitos nasceram e cresceram não existem mais, pois eram consideradas “velhas”.

Quando falo a alguém mais novo que em um certo lugar onde hoje se encontra um prédio “moderno” ou um estacionamento havia um estádio ou uma escola que funcionava numa casa antiga, para mim não é problemático lembrar. Porém, quem não viveu aquela época tem mais dificuldade de imaginar o lugar antes da “modernidade” toda vez que passa por ali.

Tem vezes que passo por algumas ruas das quais guardo lembranças da infância, e percebo que tudo mudou, se “modernizou”. Não resta mais nada, a não ser na minha memória que, com o passar do tempo, irá falhar ainda mais que na atualidade.

Ou seja, a cidade “progride”, fica mais “moderna”, “cosmpolita”. Mas com menos “alma própria”, e menos memória. E isso, ninguém jamais conseguirá me convencer de que é algo bom.

Resumo do Brasil

Cartum de Carlos Latuff

Foi só por volta de 4 da tarde que acessei a internet hoje, após mais de 24 horas longe do computador. Foi quando fiquei sabendo que, atropelando decisão da Justiça Federal que adiava em 15 dias a reintegração de posse na área do Pinheirinho em São José dos Campos (SP), a PM invadiu o terreno, pertencente à massa falida de uma empresa de Naji Nahas (condenado por crime financeiro), cumprindo ordem da Justiça de São Paulo – que pelo visto, se acha superior à Federal.

Até agora, as informações são desencontradas – há relatos que falam em mortes decorrentes da ação policial, mas elas não são confirmadas. Mas uma certeza eu tenho: este episódio do Pinheirinho é nada mais do que um resumo de nosso país. Onde sob o pretexto de se “manter a ordem”, perpetua-se a injustiça. E ainda com o apoio do poder que, para fazer jus à denominação, deveria agir de forma contrária. Nada mais terrível do que uma decisão da Justiça ser qualquer coisa, menos justa. Faz muita gente acreditar ainda menos no já desacreditado Poder Judiciário.

E para cumprir tais ordens, manda-se a polícia militar. Seja em São Paulo ou em qualquer outra parte do Brasil (com raras exceções), quando se chama a PM para “reestabelecer a ordem” devido a alguma manifestação ou ocupação dita “ilegal” pela Justiça, pode ter certeza: lá vem truculência. Foi o que vimos nas últimas semanas na USP e também em Teresina, onde a PM não poupou brutalidade na repressão aos estudantes que protestavam contra o aumento das passagens de ônibus.

No caso do Pinheirinho, o que mais me indigna é ver pessoas que não têm outro lugar para morar sendo expulsas de casa em nome do “direito à propriedade”. Pois nem a prefeitura de São José dos Campos e o governo de São Paulo (ambos do PSDB) providenciaram outro local para as famílias viverem.

Verdade que isso não é uma exclusividade brasileira, mas impressiona a fidelidade quase religiosa de muitas pessoas à tal “propriedade privada”. Vindo de participantes do Fórum da “Liberdade” eu não me surpreenderia, mas ver tanta gente aplaudindo a PM (quem não tem estômago, é bom não ler os comentários nas notícias sobre os acontecimentos do Pinheirinho) por ter cumprido uma ordem judicial injusta baseada unicamente no “direito à propriedade” de um especulador condenado por crime financeiro, sobrepondo-o assim ao direito à moradia que é assegurado pela Constituição Federal, é algo assustador. Demonstra o poder que os defensores desta antidemocrática corrente de pensamento têm. (Não esqueçam que os donos da mídia são eles.)

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Em resposta à violência policial contra os moradores do Pinheirinho, estão sendo organizados atos de protesto em várias cidades – hoje à tarde já aconteceu um em São Paulo. Via Facebook fiquei sabendo que em Porto Alegre a manifestação acontecerá na Esquina Democrática, amanhã ao meio-dia. Não terei como ir; quem puder, compareça!

O “progresso” mata a memória

Em fevereiro, escrevi aqui sobre o caso do Esquilo Travesso. A casa onde a escolinha funcionava era alugada: o proprietário vendeu, a escola fechou. Ao ler a notícia, não levei um segundo para entender qual seria o destino da casa.

Havia ficado de passar na frente dela pela última vez. Adiei diversas vezes a “despedida”, ora porque estava muito quente (e eu suo demais, o que é extremamente desconfortável, daí todo o ódio que sinto pelo verão), ora por não ter tempo, ora por me esquecer mesmo. No último domingo, após almoçar com a minha mãe e o meu irmão, lembrei que havia tempo e não estávamos longe, então decidimos passar pela Rua Dona Laura.

Logo que entramos na rua, a mãe já foi diminuindo a velocidade do carro, para estacionar. Mas vi que no lugar da casa havia apenas um tapume daqueles “imitação de muro”.

Nem estacionamos o carro, e fomos embora. Não havia mais motivos.

Para o meu irmão, que frequentou o Esquilo apenas em 1988 e não lembra de nada (pois era muito pequeno), certamente não foi tão significativo ver aquele tapume. Mas eu fui aluno por três anos (1986-1988), e senti uma certa tristeza, embora já soubesse desde fevereiro que aquilo aconteceria. Pois ver um tapume no lugar da escola deu a impressão de que aquela época está “fisicamente” acabada, com a destruição de seu símbolo (a casa), permanecendo apenas na minha memória – que, com o passar do tempo, se tornará ainda mais falha do que já é. Antes, mesmo que ficasse muitos anos sem passar na frente da escola, pelo menos eu sabia que ela estava lá.

E o pior de tudo, é ver concretoscos chamando isso de “progresso”.

Ainda querem que Porto Alegre vire Dubai?

Mês passado, quando eu viajava ao litoral gaúcho, vi uma placa anunciando um condomínio fechado (que aos poucos vão tomar conta das praias) cujo nome era “Dubai”. A página do empreendimento não podia ser mais significativa: “Eu quero Dubai”.

Em outubro de 2008, a Cristina Rodrigues publicou em seu blog Interpretando um post com o título “A mentalidade Dubai”, que vale muito a pena ser lido (faça isso clicando aqui). O texto faz uma comparação entre Dubai, com obras faraônicas como um prédio com a altura absurda de mais de 800 metros (para ter uma idéia, isso é mais alto que o Morro do Corcovado, no Rio de Janeiro), e Porto Alegre, onde muitas pessoas são fascinadas pelo modelo de Dubai.

O fascínio obviamente se deve à idéia de que aquilo é “progresso”. Em menos de 50 anos, Dubai deixou de ser apenas um pequeno emirado para se tornar uma metrópole, a maior dos Emirados Árabes Unidos. Pouco importa que o idioma árabe venha sendo deixado de lado e substituído pelo inglês – devido aos negócios – e que cada vez menos as pessoas se conheçam mesmo que vivam próximas (qualquer semelhança com Porto Alegre é mera coincidência?).

Pois é… Mas veio a crise, e Dubai não ficou imune à ela. O colapso econômico gera desemprego e protestos, como se vê no vídeo abaixo.