Eliminatórias da Euro 2016: por que Gibraltar pode jogar, e Catalunha e País Basco não?

O fato esportivo da sexta-feira foi, sem dúvida alguma, a partida entre Alemanha e Gibraltar, em Nuremberg, válida pelas eliminatórias da Eurocopa de 2016. Quatro meses e um dia depois de conquistar seu quarto título mundial, a Seleção Alemã venceu por 4 a 0 e ouviu algumas vaias de uma torcida exigente e que espera ver o time repetir as mesmas atuações da Copa do Mundo. (Talvez os alemães estejam precisando de um joguinho com o Brasil – sabem como é, para “arrumar a casa”…)

Para os gibraltinos, perder por apenas 4 a 0 para os campeões mundiais foi uma façanha histórica. Não simplesmente por terem levado em 90 minutos (e na casa do adversário) o mesmo número de gols que a Seleção Brasileira tomou em menos de 30 na semifinal da Copa (jogando diante de sua torcida). É que a associação de futebol do pequeno território só foi aceita na UEFA (e ainda não na FIFA) em 2013, com sua seleção tendo disputado sua primeira partida oficial há menos de um ano (e, vamos combinar, começou bem: empate em 0 a 0 com a Eslováquia, que na Copa de 2010 eliminou a Itália).

Gibraltar é uma pequena península rochosa localizada ao sul da Espanha, e que a este país pertenceu até 1713, quando foi cedida ao Reino Unido pelo Tratado de Utrecht. Porém, posteriormente o Estado espanhol voltou a reivindicar o “rochedo” como parte integrante de seu território, e durante a ditadura de Francisco Franco a Espanha decidiu fechar a fronteira com Gibraltar, “isolando” a península (situação que perdurou até 1985) e tornando possível a chegada ou saída apenas por via marítima ou aérea: sim, o pequeno território possui um aeroporto que devido à falta de espaço tem a pista atravessada por uma avenida, cujo trânsito de veículos é interrompido quando algum avião pousa ou decola.

Mesmo possuindo aeroporto, Gibraltar não tem como abrigar as partidas de sua seleção de futebol pelas eliminatórias da Euro 2016 pois seu único estádio, com capacidade para 5 mil pessoas, não atende às exigências da UEFA. Devido à rejeição espanhola à filiação da Associação de Futebol de Gibraltar, o selecionado mandará seus jogos em Portugal.


A oposição espanhola a Gibraltar não impede sua seleção de disputar partidas oficiais pois o “rochedo” tem a “sorte” de pertencer ao Reino Unido, e não à Espanha. Segundo o artigo 10 dos estatutos da FIFA (à qual a UEFA é submissa), para uma seleção nacional poder disputar competições internacionais, sua associação precisa representar um país independente ou ter autorização expressa da associação do país ao qual pertence a região por ela representada; mas o mesmo artigo reconhece as quatro associações britânicas (inglesa, escocesa, galesa e norte-irlandesa) como membros independentes.

O resultado disso? Como Gibraltar é pertencente ao Reino Unido, sua associação não precisa de autorização para poder se filiar à UEFA (e muito provavelmente, logo integrará também a FIFA), já que não existe uma entidade única britânica.

Em compensação, a Espanha tem uma associação única (Real Federação Espanhola de Futebol), que não autoriza a filiação das associações da Catalunha e do País Basco, regiões cuja identidade não é meramente regional: tratam-se de nacionalidades históricas, com idiomas próprios – a língua basca, inclusive, não tem nenhum parentesco com a castelhana. O resultado disso é que as partidas disputadas pelas seleções da Catalunha e do País Basco sempre são amistosos sem caráter oficial, mesmo que os adversários sejam filiados à FIFA (caso do Brasil, que já enfrentou – e venceu – duas vezes a Seleção Catalã).


Em abril de 2001, a pequena cidade australiana de Coffs Harbour sediava uma das etapas das eliminatórias da Oceania para a Copa do Mundo de 2002. A Austrália (na época ainda filiada à Confederação Oceânica) era favorita não só por jogar em casa, mas também devido ao nível dos adversários, todos amadores: Fiji, Tonga, Samoa e Samoa Americana – esta última era uma dependência dos Estados Unidos, onde o futebol mais apreciado pela população é aquele cuja bola é oval.

A Austrália estreou no dia 9 de abril, aplicando 22 a 0 em Tonga. Achou muito? Pois dois dias depois os anfitriões foram ainda mais arrasadores: 31 a 0 sobre Samoa Americana, estabelecendo os recordes de maior goleada tanto de partidas entre seleções como de jogos organizados pela FIFA; com 13 gols marcados, o australiano Archibald Thompson tornou-se o maior artilheiro de uma só partida de futebol. Assistindo ao vídeo com os gols do jogo, é fácil perder as contas.

Três dias depois a Austrália venceu Fiji por (apenas) 2 a 0, e em 16 de abril encerrou a demolidora campanha na fase goleando Samoa por 11 a 0. Em apenas quatro partidas, os australianos marcaram 66 gols: para se ter uma ideia, o melhor ataque do Campeonato Brasileiro de 2014 até agora é do líder Cruzeiro, que balançou as redes adversárias 60 vezes em 34 jogos.


Por que tal lembrança? Para chamar a atenção quanto a esta bizarra situação: seleções de pequenos países (que não são independentes) como Samoa Americana e Gibraltar têm direito (e isso está corretíssimo) a disputar competições internacionais, enquanto outras de nações maiores e que contam inclusive com idioma próprio (casos da Catalunha e do País Basco) podem apenas jogar amistosos sem reconhecimento oficial.

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Henry, o salvador do mundo

Mês passado, postei aqui sobre como os números poderiam levar a um novo “Maracanazo” na Copa do Mundo de 2014. Não refarei toda a conta, o link anterior explica como funciona. Só digo que segundo a fórmula original (e também com as que inventei na hora) o campeão mundial de 2014 seria o mesmo de 1950, ou seja, o Uruguai. O que bem sabemos, não aconteceu, visto que a Celeste foi embora nas oitavas-de-final.

Para a fórmula continuar válida, também seria necessário que o Brasil tivesse sido campeão em 2006 e a Alemanha em 2010; mas como bem lembramos, deu respectivamente Itália e Espanha nessas duas Copas. Porém, vamos supor que tivesse saído tudo conforme os números previam, e tivesse dado Brasil em 2006, Alemanha em 2010 e Uruguai em 2014.

Na próxima Copa, para sabermos o campeão teríamos de subtrair 2018 de 3964, e o resultado seria 1946. Porém, ao olharmos a tabela com os resultados de todos os Mundiais, não encontramos campeão em 1946. E o mesmo acontece com 1942, que indicaria o vencedor de 2022.

A Copa do Mundo de 1942 não aconteceu devido à Segunda Guerra Mundial, que tornava impossível a realização de qualquer torneio internacional de futebol a nível mundial. O conflito só acabou em 1945, o que também inviabilizou a disputa do Mundial no ano seguinte: a Copa só retornaria em 1950, no Brasil, que era um dos candidatos a sede para 1942 (o outro era a Alemanha, que foi proibida de participar em 1950).

Percebam, assim, a importância que teve aquele gol de Thierry Henry marcado contra o Brasil nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2006: foi o que enterrou definitivamente aquela “fórmula”. Caso ela continuasse válida, seria um sinal indiscutível da aproximação da Terceira Guerra Mundial. Ainda mais no atual contexto internacional: a região oriental da Ucrânia vive uma guerra civil, com rebeldes lutando pela anexação das províncias do leste à Rússia.

Com a queda de um avião da Malaysia Airlines justamente na área conflagrada, com suspeitas de que teria sido abatido por um míssil terra-ar, há acusações de lado a lado: o Ocidente acusa os separatistas de terem lançado o míssil que derrubou a aeronave e, de quebra, a Rússia por ter fornecido-lhes armas; já uma fonte do Kremlin diz que o ataque teria sido ordenado pelo governo ucraniano e que o verdadeiro alvo seria o avião presidencial russo (semelhante à aeronave derrubada), ou seja, que o objetivo seria matar Vladimir Putin, que retornava da reunião de cúpula do BRICS acontecida no Brasil (as rotas dos dois aviões eram coincidentes no leste da Europa). Claro que em ambas as versões há coisas estranhas: na primeira, é preciso entender o que levaria os rebeldes a abaterem uma aeronave que não é de uso militar; já na segunda, é de se questionar por que a Ucrânia teria optado por uma maneira tão pouco discreta para tentar assassinar Putin, ainda mais sabendo que um atentado desse nível pode ter consequências seríssimas – há 100 anos, a “faísca inicial” da Primeira Guerra Mundial foi o assassinato do herdeiro do trono da Áustria-Hungria, que nem era a principal potência europeia em 1914 (enquanto a Rússia atual é uma superpotência dotada de milhares de ogivas nucleares). Mas, ainda assim, trata-se de um acontecimento que ainda terá muitos desdobraentos.

Tivesse dado Brasil, Alemanha e Uruguai nas últimas três Copas, a essa altura eu já estaria pensando seriamente em construir um abrigo subterrâneo para me proteger de possíveis ataques nucleares que viriam na iminente Terceira Guerra Mundial. Mas, graças àquele gol que eliminou o Brasil em 2006 e enterrou a “fórmula mágica”, confio em uma solução diplomática que impeça o fim do mundo.

Obrigado, Henry.

Alguns fantasmas não vão embora

Pouco antes da Copa do Mundo de 1998, foi muito comentada uma tal de “pirâmide da Copa”, divulgada provavelmente por um jornal inglês (não recordo com exatidão). Segundo ela, a Inglaterra ganharia o Mundial da França por mera “questão geométrica”.

O topo da tal “pirâmide” correspondia à Copa de 1982, vencida pela Itália. No degrau abaixo (à esquerda e à direita), as conquistas da Argentina em 1978 e 1986. Descendo mais um pouco, dois títulos da Alemanha (1974 e 1990). Na sequência, a correspondência entre 1970 e 1994, Copas vencidas pelo Brasil. Logo, o campeão de 1998 seria o mesmo de 1966. Portanto, daria Inglaterra.

Porém, o English Team caiu cedo, nas oitavas-de-final, perdendo nos pênaltis para a Argentina. E aquela Copa, como bem lembramos, foi vencida pela França. A “pirâmide” estava sepultada, como mais uma superstição que perdia o sentido, certo?

Errado! Pois houve coincidências entre as Copas de 1966 e 1998, sim. A primeira delas: suas campeãs (Inglaterra e França) conquistavam o título pela primeira vez, e jogando em casa. Mas teve mais: em ambos os Mundiais seleções estreantes acabaram em 3º lugar e também tiveram o artilheiro – Portugal e Eusébio (1966), Croácia e Suker (1998).

Desta forma, a “pirâmide” continuava em vigor, e apontava que não era preciso toda aquela preocupação com a má campanha brasileira nas eliminatórias do Mundial de 2002: o campeão seria o mesmo de 1962, portanto, o Brasil. E em 2006 a Seleção seria campeã mais uma vez, jogando na Europa da mesma forma que em 1958… Exatamente como o previsto.

Até 2002 tudo funcionou direitinho, mas em 2006 a “pirâmide” foi novamente sepultada: o Brasil foi eliminado nas quartas-de-final, e a Itália foi campeã. Poderia ser um “ponto fora da reta”, e em 2010 as coisas voltariam ao normal com a Alemanha ganhando a taça, da mesma forma que em 1954. E, de fato, os alemães jogaram muito na África do Sul, mas quem levou a Copa foi a Espanha.

Desta forma, soa absurdo lembrar novamente a “pirâmide”, segundo a qual o campeão de 2014 seria o mesmo de 1950 – ou seja, o Uruguai. Porém, há fantasmas que não vão embora.

Todos temos acontecimentos traumáticos em nossas vidas. Feridas que parecem jamais cicatrizar. Por mais coisas boas que aconteçam, aquele dia em que tudo saiu errado dá a impressão de que sempre está a espreita, pronto para voltar.

Algo assim se passa sempre que brasileiros e uruguaios se enfrentam no futebol: é como se fosse ligada uma máquina do tempo que sempre leva todos (jogadores, torcedores, jornalistas etc.) de volta a 16 de julho de 1950. O Brasil, mesmo com cinco Copas do Mundo conquistadas após aquele dia, ainda sente a dor da derrota em casa. Já para o Uruguai, mesmo nos piores momentos vividos por seu futebol nas décadas de 1990 e 2000, as lembranças daquela vitória davam a sensação de que sí, se puede: se batera uma seleção mais forte e que contava com o apoio de 200 mil pessoas no estádio, nada era impossível.

Nada era, e nada é. Até 2006, provavelmente o maior alento ao sonho uruguaio de voltar a ganhar uma Copa do Mundo era a tal “pirâmide”. Que, como foi dito, “morreu” quando Zidane e Henry acabaram com o Brasil nas quartas-de-final. Vale lembrar que o Uruguai sequer disputou aquele Mundial, tendo sido eliminado pela Austrália na repescagem.

A Celeste voltou à Copa em 2010, novamente via repescagem, quando derrotou a Costa Rica. Ninguém esperava muito, mas os orientales voltaram a acreditar que era possível: o Uruguai passou com dificuldades pela Coreia do Sul nas oitavas-de-final, é verdade, mas superou Gana em uma partida dramática nas quartas e deu trabalho à fortíssima Holanda nas semifinais. Como se não bastasse, Forlán ainda foi eleito o melhor jogador do Mundial.

Em 2011, mais sinais do “renascimento”. Na Libertadores, o Peñarol foi vice-campeão diante do Santos, 23 anos após a última vez que um clube uruguaio chegara à final. Um mês depois, a Celeste conquistou a Copa América na Argentina, e credenciava-se, assim, a obter a classificação para o Mundial de 2014 com facilidade.

Porém, não foi o que aconteceu. Após arrancar bem nas eliminatórias, o Uruguai “patinou”, e chegou a correr riscos de ficar fora da Copa do Mundo. No fim, conseguiu acabar em 5º lugar e disputar a repescagem contra a fraca Jordânia: após vencer por 5 a 0 em Amã, “tirou o pé” em Montevidéu e ficou no 0 a 0. Uma campanha medíocre dessas é sinal de que a Celeste fará figuração na Copa, certo?

Porém, nas eliminatórias para 2010 o Uruguai também não foi lá muito bem (com direito a levar 4 a 0 do Brasil em pleno Estádio Centenário). Ninguém esperava muito, e acabou chegando à semifinal.

E além disso, há o “fantasma” de 1950, que automaticamente transforma a Celeste em candidata ao título. Mesmo que a lógica aponte outras seleções como favoritas (casos de Brasil, Argentina, Alemanha, Espanha, Itália etc.), a mística tem sua força. De modo que, enquanto o Uruguai estiver na disputa, a possibilidade da taça retornar a Montevidéu não pode ser descartada, de forma alguma.

Por conta disso, a Puma (fornecedora de material esportivo da Celeste) produziu esta genial peça publicitária, em homenagem à classificação uruguaia. A Copa é no Brasil e a final é no Maracanã… Portanto, um fantasma assombra o Mundial: el Fantasma del 50.

A “homérica” direita brasileira

Nada a ver com o grande poeta épico grego, autor dos clássicos “Ilíada” e “Odisseia”. O Homero ao qual me refiro neste caso é Homer Simpson, genial sátira do “estadunidense médio”: preguiçoso e idiota, Homer passa boa parte de seu tempo livre sentado defronte à televisão, na qual acredita sempre.

Porém, será que Homer é representativo apenas dos estadunidenses? Creio que não. Pois há muitos brasileiros que também são verdadeiros “Homers Simpsons”. Em especial, aqueles mais reacionários, que repassam qualquer coisa que contenha expressões do tipo “acorda Brasil”.

É uma mais sem pé nem cabeça que a outra. Relembremos algumas:

  • Me mandaram por e-mail uma vez uma “denúncia” sobre supostas alunas de um curso dedicado a beneficiárias do Bolsa Família “que não quiseram trabalhar com carteira assinada para não perderem o benefício”. Sem nem pensarem que Bolsa Família é apenas assistência (os mesmos reaças não chamam de “bolsa-esmola”?), e que se elas deixaram seus empregos por conta disso, é sinal de que trabalhavam por um salário de fome;
  • Na campanha eleitoral, me disseram que Dilma Rousseff, “aquela terrorista”, participara do sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, em 1969, e que por conta disso ela não poderia entrar nos EUA caso fosse eleita – e um ano depois, lá estava ela em Washington… Claro, pois ela não participara do sequestro: quem não conseguiu visto de entrada foram Franklin Martins e Fernando Gabeira – que inclusive não pôde assistir à sessão de estreia do filme “O que é isso, companheiro?” (inspirado em seu livro homônimo) nos EUA;
  • Certa vez o G17 (página que satiriza o G1, portal de notícias da Globo) publicou uma “notícia” sobre a construção de uma estátua gigante de Lula em Brasília, que seria visível em toda a cidade. O pessoal leu a “notícia” e o leiaute do G17, semelhante ao do G1, fez com que acreditassem que era verdade… Quando o bom senso recomenda não só prestar bastante atenção no que se lê antes de repassar, como também desconfiar até mesmo dos portais de notícia “sérios”;
  • Outra “denúncia” recebida foi sobre a “vagabundagem” do MST, que ao invés de produzir em um assentamento às margens do Rio Solimões, estaria roubando ovos de tartarugas que fazem ninhos no local para depois revendê-los (quando lhes convêm, os reaças se preocupam com o meio ambiente). Pelo visto, nas horas livres os “ladrões” pegavam a prancha e iam surfar no Solimões;
  • Tem também aqueles absurdos sobre o “Bolsa Bandido” e o “Bolsa Crack”, que semana passada já tratei de detonar.

Agora, a polêmica que se dá é acerca da decisão do governo de trazer médicos estrangeiros para atenderem a população em regiões mais afastadas dos grandes centros, para onde os médicos brasileiros não querem ir. O objetivo é de contratar cubanos, espanhóis e portugueses, mas a gritaria é contra os cubanos, claro: mesmo que a medicina de Cuba seja muito elogiada, se diz que os médicos cubanos “não seriam qualificados”*. Mas como o absurdo não tem limites, começou a circular pelo Facebook uma imagem que afirma serem os médicos cubanos “guerrilheiros” disfarçados, que atenderão ao propósito do governo de dar um “golpe comunista” em 2014… (Luís Carlos Prestes deu um duplo twist esticado no túmulo depois dessa.)

Um argumento dos críticos é incontestável: é preciso fazer com que os médicos não queiram ficar apenas nos principais centros. Porém, isso não é problema que se resolva de uma hora para a outra, e no interior as pessoas precisam de médicos agora, não podem esperar. Então, que venham os estrangeiros.

A propósito, talvez seja bom incluir psiquiatras dentre os médicos que vêm para cá, pois do jeito que anda nossa direita os que estão por aqui não são suficientes…

E a Revolução dos Cravos continua a mandar lembranças

Em 15 de fevereiro o primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, foi interrompido por manifestantes no Parlamento que começaram a cantar “Grândola, Vila Morena”. Em 25 de abril de 1974, a canção de Zeca Afonso foi a senha para a deflagração da Revolução dos Cravos. E quase 40 anos depois, é o símbolo da insatisfação com a rigorosa política de austeridade adotada pelo governo, por imposição da troika formada por Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia.

A manifestação do dia 15 de fevereiro foi uma ação do movimento “Que se Lixe a Troika”, que promoveu uma onda de protestos ontem. Segundo o movimento, pelo menos 1,5 milhão de pessoas saíram às ruas (inclusive fora de Portugal). Só em Lisboa, foram 800 mil manifestantes.

Em Loulé, foi lido um manifesto (transcrito aqui), e na sequência, o povo cantou “Grândola, Vila Morena” junto ao Castelo.

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Assim como Portugal e Grécia, a Espanha também sofre com a crise econômica e a rigorosa austeridade imposta pela troika. E os espanhóis se manifestam de forma semelhante a seus vizinhos portugueses, como se viu na Puerta del Sol, em Madri, no dia 16 de fevereiro.

Em Portugal, a Revolução dos Cravos manda lembranças

Aconteceu ontem, em Lisboa. Durante debate quinzenal no Parlamento, o primeiro-ministro português Pedro Passos Coelho foi interrompido pelo público de uma forma diferente: ao invés de vaias, o que se ouviu foi a canção “Grândola, Vila Morena”, composta por Zeca Afonso.

A ação promovida pelo grupo “Que se Lixe a Troika” foi extremamente simbólica, pois “Grândola, Vila Morena” não é uma música qualquer. Nos primeiros minutos do dia 25 de abril de 1974, a canção foi executada na Rádio Renascença, de Lisboa. Era a segunda senha escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (formado por militares descontentes com o regime ditatorial e com a Guerra Colonial) para dar início à Revolução dos Cravos.

A primeira senha, executada horas antes, fora “E depois do adeus”, que era a “ordem” para as tropas ficarem a postos – sendo uma música “politicamente neutra”, não despertou maiores suspeitas de militares favoráveis ao governo. Já “Grândola, Vila Morena” refere-se à solidariedade entre as pessoas, e foi proibida pela ditadura por “fazer alusão ao comunismo”. Assim, sua execução no rádio era o sinal de que “o caminho estava livre” para a derrubada do regime.

Era o fim de uma ditadura iniciada em 1926 e que a partir de 1933 passara a ser chamada oficialmente de Estado Novo*, mas também ficou conhecida como “salazarismo” devido a Antônio de Oliveira Salazar, ditador de Portugal por 36 anos (1932-1968). O povo, cansado de quase 50 anos de autoritarismo, celebrou nas ruas distribuindo cravos aos soldados, daí a denominação “Revolução dos Cravos”.

O fato de “Grândola, Vila Morena” ser cantada em pleno Parlamento, interrompendo o primeiro-ministro, mostra o tamanho do descontentamento popular em Portugal, que assim como a Espanha e a Grécia, vive uma grave crise econômica. A troika formada por Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia impõe rigorosos planos de austeridade como condições para “ajudar” tais países. Porém, as “ajudas” fazem com que a crise econômica torne-se também social, com o aumento do desemprego e da pobreza. Afinal, como mostra o documentário grego “Dividocracia”, a troika não quer salvar o povo, e sim, bancos e empresas falidas…

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* A semelhança com o Brasil de 1937 a 1945 não é mera coincidência: Getúlio Vargas se inspirou em Salazar para denominar sua ditadura como “Estado Novo”.

Nobel da “Paz”

Charge do Kayser, retratando as comemorações em países como Espanha, Portugal, Grécia, Irlanda…

O Prêmio Nobel da Paz foi instituído por iniciativa de Alfred Nobel, químico sueco conhecido por ser o inventor da dinamite. Ao falecer em 10 de dezembro de 1896, deixou um testamento em que defendia a criação de uma fundação, que seria responsável por premiar anualmente as pessoas que mais tivessem contribuído para a humanidade em cinco áreas: Química, Física, Medicina, Literatura e Paz. Os vencedores dos quatro primeiros prêmios são definidos por especialistas suecos, já o da Paz é atribuído por uma comissão definida pelo parlamento da Noruega. (O prêmio de Economia foi criado em 1969, mas não é oficialmente um Nobel, tendo o nome oficial de “Prêmio de Ciências Econômicas em memória de Alfred Nobel”.)

O Nobel da Paz já foi atribuído a figuras realmente importantes para a paz mundial, como Martin Luther King. Mas nem sempre foi assim. Como se viu em 1973: Henry Kissinger ganhou o prêmio no mesmo ano em que o Chile sofreu um sangrento golpe militar (e que deu início à ainda mais sangrenta ditadura de Augusto Pinochet) porque, nas palavras de Kissinger, os EUA não podiam “deixar um país se tornar comunista devido à irresponsabilidade de seu próprio povo”. A “irresponsabilidade” da qual Kissinger falava era a democrática decisão dos chilenos de elegerem o socialista Salvador Allende à presidência, em 1970.

Já em 2009, chegou a ser bizarro: o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ganhou o prêmio “pelos esforços diplomáticos internacionais e cooperação entre povos”. Só que, ao mesmo tempo em que o Nobel da Paz “se esforçava diplomaticamente”, as tropas dos EUA (das quais ele é o comandante-em-chefe) continuavam a matar no Afeganistão e no Iraque.

Agora, chegou a vez da União Europeia ganhar o prêmio. Surpresa? Nenhuma. Serve apenas como piada, como alguém já disse no Facebook: a UE ganhou o Prêmio Nobel da Paz, mas perdeu o de Economia…

Tragédia no Egito: mais que futebol

Ontem se escreveu uma página triste na história do futebol, com a briga generalizada após um jogo do Campeonato Egípcio, que deixou mais de 70 mortos. A torcida do Al Masry, de Port Said, invadiu o gramado após a vitória de 3 a 1 sobre o Al Ahly, do Cairo, e agrediu jogadores, comissão técnica e torcida do adversário. Três jogadores do Al Ahly (Mohamed Aboutrika, Mohamed Barakat e Emad Moteab), chocados com os acontecimentos, decidiram se aposentar.

Porém, pelo que já li em algumas páginas de notícias, a origem da tragédia parece estar do lado de fora dos estádios. Uma das torcidas organizadas do Al Ahly, a UA07, foi ativa participante das manifestações que derrubaram a ditadura de Hosni Mubarak, no começo do ano passado. Não faltam acusações de que partidários do ex-ditador e a própria junta militar que governa o país desde a queda de Mubarak teriam provocado o episódio, inclusive com o fechamento dos portões do estádio no lado da torcida do Al Ahly. E nos diversos vídeos que podemos assistir, é perceptível que a polícia nada fez para impedir a violência: simplesmente deixou os torcedores do Al Masry invadirem o gramado.

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A nomenclatura utilizada no futebol deixa muito claro que ele é uma “metáfora da guerra” (ainda mais que é praticado no campo, assim como as guerras em “campos de batalha”). Inclusive, serviu muito como “válvula de escape” da violência, quando da parlamentarização da política na Inglaterra. Assim, muitas vezes os ressentimentos de origem política, social e étnica acabam “transbordando” para o estádio.

A intensa rivalidade entre Real Madrid e Barcelona, por exemplo, é muito mais que futebolística. Os confrontos entre os dois clubes simbolizam, para muitos, um embate entre o centralismo de Madri e os anseios nacionalistas da Catalunha (cujas cores o Barça sempre utiliza em sua braçadeira de capitão). A rixa acirrou-se durante a ditadura de Francisco Franco (1939-1975), período em que qualquer manifestação de apreço a uma nação que não a Espanha “una” (que só existia nos delírios de fascistas como Franco) era severamente reprimida. Os jogos do Barcelona, principalmente contra o Real Madrid (por ser este o principal clube da capital), eram as raras oportunidades de se demonstrar que a “homogeneidade” espanhola era pura fantasia.

Origem semelhante teve a tensão em uma partida aqui no Brasil, há quase 40 anos. Em 17 de junho de 1972, 110 mil pessoas foram ao Beira-Rio vaiar a Seleção Brasileira, que enfrentava uma “Seleção Gaúcha” (na verdade, um combinado de jogadores da dupla Gre-Nal). Não havia nada de separatismo em jogo, muito pelo contrário: a origem era o ressentimento dos gaúchos pelo Rio Grande do Sul estar cada vez mais marginalizado na política e na economia do Brasil (mesmo que o ditador da época fosse o general bageense Emílio Garrastazu Médici). Fato simbolizado pela não-convocação do lateral-esquerdo Everaldo, titular da conquista da Copa de 1970, para a Seleção Brasileira que disputaria a Taça Independência (popularmente conhecida como “Minicopa”), torneio comemorativo aos 150 anos de independência política do Brasil: apesar do gremista não atravessar uma boa fase em 1972, foi inaceitável para os gaúchos que “o seu único representante” na Seleção perdesse não só a titularidade, como também fosse preterido na reserva por Rodrigues Neto, do Flamengo (que anos depois, ironicamente, seria contratado pelo Inter). Como as manifestações de contestação ao status quo da época eram reprimidas (inclusive as de caráter regional), restava apenas o futebol: vaiar a Seleção, utilizada pela ditadura militar para aumentar sua popularidade (ainda mais após a Copa de 1970), era como vaiar o Brasil “forte e unido” da propaganda oficial.

Se o futebol é uma “metáfora da guerra”, ele também pode ser prelúdio dela, com a violência não sendo meramente simbólica. Em junho de 1969, as tensões entre Honduras e El Salvador se refletiram no confronto entre as seleções dos dois países por uma vaga na Copa do Mundo de 1970. O governo de Honduras havia decidido expulsar os camponeses salvadorenhos que viviam no país (principalmente na região da fronteira com El Salvador), gerando uma onda de xenofobia mútua entre hondurenhos e salvadorenhos, extremamente interessante para os governos de ambos os países por assim desviar o foco de seus problemas internos. No meio disso tudo, as partidas de futebol: a primeira, disputada em Tegucigalpa (Honduras), terminou com vitória hondurenha por 1 a 0; na segunda, em San Salvador (El Salvador), os salvadorenhos venceram por 3 a 0, forçando assim a realização de um terceiro jogo, realizado na Cidade do México e vencido novamente por El Salvador, 3 a 2. A violência nas partidas foi o pretexto que faltava para os dois países romperem relações diplomáticas; semanas depois, tropas salvadorenhas invadiram Honduras, dando início à chamada “Guerra do Futebol”, que durou apenas quatro dias (14 a 18 de julho de 1969, por isso sendo também chamada de “Guerra das Cem Horas”) e deixou quase 2 mil mortos.

na antiga Iugoslávia, a guerra não teve o futebol como pretexto, mas ele nos deu uma “prévia”. Os ressentimentos entre sérvios e croatas vinham desde a Segunda Guerra Mundial: os primeiros acusavam os segundos de terem colaborado com o nazismo, mesmo que Josip Broz Tito, líder da resistência aos nazistas, fosse croata. Durante os 35 anos em que Tito esteve no poder, as tensões foram aliviadas, devido à liderança de um “símbolo de união nacional”. Porém, com a morte de Tito em 1980, foi implantado um sistema de revezamento do poder entre as repúblicas que formavam a Iugoslávia; tal sistema não agradava aos nacionalistas sérvios, que por serem a população mais numerosa consideravam injusta a divisão igualitária do poder; ao mesmo tempo, a crise econômica pela qual o país passava levava muitos sérvios a emigrarem para a Croácia, mais desenvolvida, aumentando o sentimento anti-sérvio entre os croatas. O ódio mútuo resultou em um violento conflito entre as torcidas do Dínamo de Zagreb e o Estrela Vermelha de Belgrado, durante partida entre os dois clubes realizada na capital croata em 13 de maio de 1990. No ano seguinte, Croácia e Eslovênia (as duas repúblicas mais desenvolvidas) declararam-se independentes e teve início a sangrenta desintegração da Iugoslávia: a guerra se deu principalmente entre sérvios e croatas, com atrocidades de ambos os lados em conflito.

Eduardo Galeano na Praça Catalunya: “Um outro mundo está na barriga deste, infame”

Sempre vale a pena ler ou ouvir as palavras do escritor uruguaio Eduardo Galeano. E este depoimento que ele deu no mês passado em visita ao acampamento dos indignados na Praça Catalunya, em Barcelona, é sensacional.