Tragédia no Egito: mais que futebol

Ontem se escreveu uma página triste na história do futebol, com a briga generalizada após um jogo do Campeonato Egípcio, que deixou mais de 70 mortos. A torcida do Al Masry, de Port Said, invadiu o gramado após a vitória de 3 a 1 sobre o Al Ahly, do Cairo, e agrediu jogadores, comissão técnica e torcida do adversário. Três jogadores do Al Ahly (Mohamed Aboutrika, Mohamed Barakat e Emad Moteab), chocados com os acontecimentos, decidiram se aposentar.

Porém, pelo que já li em algumas páginas de notícias, a origem da tragédia parece estar do lado de fora dos estádios. Uma das torcidas organizadas do Al Ahly, a UA07, foi ativa participante das manifestações que derrubaram a ditadura de Hosni Mubarak, no começo do ano passado. Não faltam acusações de que partidários do ex-ditador e a própria junta militar que governa o país desde a queda de Mubarak teriam provocado o episódio, inclusive com o fechamento dos portões do estádio no lado da torcida do Al Ahly. E nos diversos vídeos que podemos assistir, é perceptível que a polícia nada fez para impedir a violência: simplesmente deixou os torcedores do Al Masry invadirem o gramado.

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A nomenclatura utilizada no futebol deixa muito claro que ele é uma “metáfora da guerra” (ainda mais que é praticado no campo, assim como as guerras em “campos de batalha”). Inclusive, serviu muito como “válvula de escape” da violência, quando da parlamentarização da política na Inglaterra. Assim, muitas vezes os ressentimentos de origem política, social e étnica acabam “transbordando” para o estádio.

A intensa rivalidade entre Real Madrid e Barcelona, por exemplo, é muito mais que futebolística. Os confrontos entre os dois clubes simbolizam, para muitos, um embate entre o centralismo de Madri e os anseios nacionalistas da Catalunha (cujas cores o Barça sempre utiliza em sua braçadeira de capitão). A rixa acirrou-se durante a ditadura de Francisco Franco (1939-1975), período em que qualquer manifestação de apreço a uma nação que não a Espanha “una” (que só existia nos delírios de fascistas como Franco) era severamente reprimida. Os jogos do Barcelona, principalmente contra o Real Madrid (por ser este o principal clube da capital), eram as raras oportunidades de se demonstrar que a “homogeneidade” espanhola era pura fantasia.

Origem semelhante teve a tensão em uma partida aqui no Brasil, há quase 40 anos. Em 17 de junho de 1972, 110 mil pessoas foram ao Beira-Rio vaiar a Seleção Brasileira, que enfrentava uma “Seleção Gaúcha” (na verdade, um combinado de jogadores da dupla Gre-Nal). Não havia nada de separatismo em jogo, muito pelo contrário: a origem era o ressentimento dos gaúchos pelo Rio Grande do Sul estar cada vez mais marginalizado na política e na economia do Brasil (mesmo que o ditador da época fosse o general bageense Emílio Garrastazu Médici). Fato simbolizado pela não-convocação do lateral-esquerdo Everaldo, titular da conquista da Copa de 1970, para a Seleção Brasileira que disputaria a Taça Independência (popularmente conhecida como “Minicopa”), torneio comemorativo aos 150 anos de independência política do Brasil: apesar do gremista não atravessar uma boa fase em 1972, foi inaceitável para os gaúchos que “o seu único representante” na Seleção perdesse não só a titularidade, como também fosse preterido na reserva por Rodrigues Neto, do Flamengo (que anos depois, ironicamente, seria contratado pelo Inter). Como as manifestações de contestação ao status quo da época eram reprimidas (inclusive as de caráter regional), restava apenas o futebol: vaiar a Seleção, utilizada pela ditadura militar para aumentar sua popularidade (ainda mais após a Copa de 1970), era como vaiar o Brasil “forte e unido” da propaganda oficial.

Se o futebol é uma “metáfora da guerra”, ele também pode ser prelúdio dela, com a violência não sendo meramente simbólica. Em junho de 1969, as tensões entre Honduras e El Salvador se refletiram no confronto entre as seleções dos dois países por uma vaga na Copa do Mundo de 1970. O governo de Honduras havia decidido expulsar os camponeses salvadorenhos que viviam no país (principalmente na região da fronteira com El Salvador), gerando uma onda de xenofobia mútua entre hondurenhos e salvadorenhos, extremamente interessante para os governos de ambos os países por assim desviar o foco de seus problemas internos. No meio disso tudo, as partidas de futebol: a primeira, disputada em Tegucigalpa (Honduras), terminou com vitória hondurenha por 1 a 0; na segunda, em San Salvador (El Salvador), os salvadorenhos venceram por 3 a 0, forçando assim a realização de um terceiro jogo, realizado na Cidade do México e vencido novamente por El Salvador, 3 a 2. A violência nas partidas foi o pretexto que faltava para os dois países romperem relações diplomáticas; semanas depois, tropas salvadorenhas invadiram Honduras, dando início à chamada “Guerra do Futebol”, que durou apenas quatro dias (14 a 18 de julho de 1969, por isso sendo também chamada de “Guerra das Cem Horas”) e deixou quase 2 mil mortos.

na antiga Iugoslávia, a guerra não teve o futebol como pretexto, mas ele nos deu uma “prévia”. Os ressentimentos entre sérvios e croatas vinham desde a Segunda Guerra Mundial: os primeiros acusavam os segundos de terem colaborado com o nazismo, mesmo que Josip Broz Tito, líder da resistência aos nazistas, fosse croata. Durante os 35 anos em que Tito esteve no poder, as tensões foram aliviadas, devido à liderança de um “símbolo de união nacional”. Porém, com a morte de Tito em 1980, foi implantado um sistema de revezamento do poder entre as repúblicas que formavam a Iugoslávia; tal sistema não agradava aos nacionalistas sérvios, que por serem a população mais numerosa consideravam injusta a divisão igualitária do poder; ao mesmo tempo, a crise econômica pela qual o país passava levava muitos sérvios a emigrarem para a Croácia, mais desenvolvida, aumentando o sentimento anti-sérvio entre os croatas. O ódio mútuo resultou em um violento conflito entre as torcidas do Dínamo de Zagreb e o Estrela Vermelha de Belgrado, durante partida entre os dois clubes realizada na capital croata em 13 de maio de 1990. No ano seguinte, Croácia e Eslovênia (as duas repúblicas mais desenvolvidas) declararam-se independentes e teve início a sangrenta desintegração da Iugoslávia: a guerra se deu principalmente entre sérvios e croatas, com atrocidades de ambos os lados em conflito.

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Filme para o domingo

Enquanto muita gente chega a brigar por conta das eleições (e o pior é que os desentendimentos se dão até entre pessoas de esquerda, por divergências de ordem partidária), o aniversário de um fato histórico corre o risco de passar despercebido. Há 20 anos, no dia 3 de outubro de 1990, a Alemanha voltou a ser um só país.

O processo que levou à reunificação alemã foi extremamente rápido: as mudanças se deram em menos de um ano, motivadas pelos protestos populares na Alemanha Oriental, como também pela própria política da União Soviética, de não mais intervir nos países do Leste Europeu, estimulando-os a adotarem reformas semelhantes às que Mikhail Gorbachev aplicava na URSS (glasnost e perestroika). Em 18 de outubro de 1989, o linha-dura Erich Honecker renunciou à liderança do governante Partido Comunista, e em 9 de novembro, foi liberado o trânsito entre as duas Alemanhas, tornando a fronteira interalemã mera formalidade. Quatro meses após a abertura do muro foram realizadas as primeiras eleições multipartidárias – ou seja, em que não era apenas o Partido Comunista que participava – na República Democrática Alemã (nome oficial da Alemanha Oriental) e, em 3 de outubro de 1990, legalmente aconteceu a reunificação (que no futebol, conforme já falei, demorou um pouco mais), com a RDA passando a integrar a República Federal da Alemanha (nome oficial da antiga Alemanha Ocidental e do atual país unificado).

O filme “Adeus, Lênin!” (2003), de Wolfgang Becker, é sensacional justamente por mostrar a velocidade com que se deram as mudanças na Alemanha – e, podemos dizer também, em todo o Leste Europeu – entre 1989 e 1990.

Christiane (Katrin Sass) é uma dedicada militante socialista desde que seu marido fugiu para a Alemanha Ocidental em 1978. Em 7 de outubro de 1989, ao ver seu filho Alexander (Daniel Brühl) ser preso pela polícia durante violenta repressão a uma passeata pró-democracia, tem um ataque cardíaco e entra em coma por oito meses.

Enquanto isso, acontecem as mudanças na Alemanha. Erich Honecker renuncia, a fronteira entre os dois Estados alemães é aberta, e os produtos orientais começam a sumir das prateleiras das lojas para serem substituídos por importados (tanto do oeste como de outros países ocidentais). Os costumes dos alemães orientais passam a ser considerados “velhos”, que precisam ser urgentemente abandonados.

Até em sua casa as mudanças são drásticas: a filha Ariane (Maria Simon) troca os antigos móveis por outros mais “modernos” (leia-se “ocidentais”), e larga os estudos para trabalhar como vendedora em um drive-thru do Burger King, onde conhece o novo namorado, o ocidental Rainer (Alexander Beyer), que leva para morar junto no apartamento. Já Alex, durante suas visitas à mãe no hospital, apaixona-se (e é correspondido) pela bela enfermeira soviética Lara (Chulpan Khamatova), que conheceu naquela passeata de outubro de 1989, quando ela o ajudou durante um engasgo com uma maçã.

Quando Christiane acorda, em junho de 1990, o médico alerta que ela não pode sofrer fortes emoções, devido ao risco de sofrer outro enfarto, e logo Alex percebe que ela não resistirá ao saber das mudanças que aconteceram no país. Decide não só levá-la para casa (temendo que ela saiba de tudo caso fique no hospital), como também fazer com que ela pense que absolutamente nada mudou.

Porém, mesmo dentro de casa é difícil Christiane não ter nenhuma percepção de que as coisas não são mais as mesmas. Quando ela quer pepinos de Spreewood (iguaria muito apreciada na Alemanha Oriental), Alex só encontra importados da Holanda – que na prática são a mesma coisa (afinal, são pepinos, apenas com outra marca) – e assim os armazena em frascos com rótulos antigos, para que a mãe tenha a ilusão de estar comendo pepinos “socialistas”. Quando ela quer assistir televisão, obviamente as transmissões já não são mais as mesmas, e a solução é “transmitir” (via utilização de um videocassete escondido) programas antigos. Aliás, interessante papel tem a televisão: por conta da ilusão que muitos têm de que ela “mostra a verdade” (afinal, são as imagens do que acontece, logo, “só pode ser verdade”), Alex se utiliza de noticiários fictícios, produzidos em parceria com seu amigo ocidental Denis (Florian Lukas) – que sonha em ser diretor de cinema – para que acontecimentos totalmente imprevistos, como um banner da Coca-Cola em um prédio vizinho ou carros ocidentais estacionados em Berlim “Oriental” (não esqueçamos que não há mais muro), tenham uma explicação que mantenha em sua mãe a crença na continuidade do sistema socialista (e até de seu fortalecimento, com o consequente “colapso do capitalismo” na Alemanha Ocidental), mesmo com tudo indicando o contrário. Porém, com o passar do filme acabamos descobrindo também que não é só Christiane que vive uma ilusão.

Ao mesmo tempo que nos faz rir das inusitadas situações, “Adeus, Lênin!” também nos leva a boas reflexões. Como sobre a velocidade das mudanças. Pois independentemente das convicções políticas de cada um, elas se deram muito rápido. Naquela época, apenas os mais velhos tinham lembranças em primeira mão* de como era uma Alemanha unificada; no leste, a maioria esmagadora da população não tinha ideia de como era o dia-a-dia de uma sociedade capitalista, já que por mais de 40 anos haviam vivido sob o “socialismo” de modelo soviético. Obviamente isso foi um impacto muito grande sobre os habitantes da parte oriental da Alemanha, que não por acaso tiveram bastante dificuldades para se adaptarem aos novos tempos: além de não terem mais a garantia de sobrevivência que o regime “socialista” dava, a solidariedade entre as pessoas (que se dava até como forma de resistência ao autoritarismo) foi minada pela excessiva competitividade estimulada pelo capitalismo.

Outra coisa interessante em “Adeus, Lênin!”, tem a ver com a ideia de “nação”, ligada à de “nascimento”. Não por acaso, trata-se a “pátria” como se fosse uma “mãe” ou um “pai”. Afinal, tratam-se de nossas principais referências de origem, de pertencimento. Tanto que a palavra “pátria” lembra, de certa forma, “pai”. Em inglês, se diz motherland (numa tradução literal, “terra-mãe”) e em alemão, vaterland (“terra-pai” literalmente). No caso do filme, isso fica muito claro quando Alex afirma que a Alemanha Oriental é um país que, na memória dele, sempre estará conectado com a mãe. Afinal, além dela ter sido uma apaixonada socialista, também foi ela que o pôs no mundo e o criou – assim como a RDA foi o país onde ele nasceu e cresceu. Um país que no final de 1989 “entrou em coma”, assim como sua mãe – que, ao acordar, fez com que, ao menos para Alex, a Alemanha dividida continuasse a existir, parecendo com o que era antes, mas que não era mais a mesma coisa: no caso, tratava-se de uma divisão entre a ilusão e a realidade.

E ao mesmo tempo que quer mudanças, Alex percebe que também não quer perder as suas origens – no caso, a mãe e o país, como fica claro quando ele diz que aquela Alemanha Oriental fictícia que criara para que sua mãe não se chocasse com as mudanças era a RDA que gostaria de ter tido na realidade. O que é explicado pelas palavras do filósofo esloveno Slavoj Zizek:

Quando as pessoas protestavam em regimes comunistas do Leste Europeu, a grande maioria delas não estava pedindo por capitalismo. Eles queriam a liberdade de viver suas vidas fora do controle estatal, de ir e vir e falar o que desejassem; eles queriam uma vida de simplicidade e sinceridade, liberta da indocrinação ideológica primitiva e da cínica hipocrisia dominante.

Como muitos analistas observaram, os ideais que levaram os manifestantes às ruas eram, de alguma forma, uma extensão daqueles da própria ideologia socialista – as pessoas aspiravam por algo que pode ser melhor aproximado através do termo “socialismo com um rosto humano”. Talvez essa atitude mereça uma segunda chance.

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* Segundo Eric Hobsbawm em Era dos Extremos, passamos a armazenar “lembranças em primeira mão” de como é a vida “real” por volta dos 15 anos de idade: no capítulo em que fala justamente das mudanças no Leste Europeu e do fim da União Soviética, Hobsbawm diz que em 1990 todo húngaro acima dos 60 anos (ou seja, nascidos até 1930) de idade tinha lembranças de como era a Hungria antes do “socialismo” (teria no mínimo 15 anos em 1945); já na URSS, nenhum cidadão com menos de 88 anos (ou seja, nascido depois de 1902) tinha alguma ideia da Rússia pré-Revolução de 1917. Para o caso alemão, podemos aplicar os mesmos números da Hungria, visto que o país foi dividido, na prática, em 1945, com o final da Segunda Guerra Mundial – embora as repúblicas do oeste e do leste só tenham sido fundadas em 1949.

Craque iugonostálgico

Em entrevista ao programa de Ana Maria Braga na Globo, o meia Dejan Petkovic, do Flamengo, deu uma resposta inesperada à apresentadora. A “cansada” (lembram?) tentou induzir o craque sérvio a dizer que a Iugoslávia socialista era um país em que se passavam muitas dificuldades, mas Petkovic a contrariou. (Não reparem no mapa, em que trocaram Croácia e Bósnia-Herzegovina…)

“Iugonostalgia” é o termo utilizado para definir as pessoas que sentem saudades da época em que Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Macedônia e Kosovo formavam apenas um país, a Iugoslávia. Mais específicamente, da época de Tito (1945-1980).

O termo “Iugoslávia”, que significa “união dos eslavos do sul”, passou a denominar em 1929 o reino surgido em 1918 a partir da união entre diversos povos eslavos dos Bálcãs, e que se chamava “Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos” (embora também o integrassem diversas outras etnias, como montenegrinos, macedônios, bósnios e albaneses).

Em 1945, sob a liderança do croata Josip Broz Tito, a Iugoslávia se libertou do domínio nazista que lhe fora imposto na Segunda Guerra Mundial, e transformou-se em uma república socialista federativa. Era um socialismo diferente do que se viu em outros países do Leste Europeu: não foi imposto pelos tanques soviéticos, e sim, construído pelos próprios iugoslavos a partir da liderança de Tito.

Desta forma, o socialismo iugoslavo adquiriu características próprias, como o sistema de autogestão nas fábricas e propriedades agrícolas (que não eram pertencentes ao Estado, e sim aos próprios trabalhadores), a democracia direta (em que a representação não se dava por deputados, e sim por grupos de delegados), a descentralização política (as repúblicas e províncias tinham ampla autonomia) e a independência em relação à União Soviética, após o rompimento entre Tito e Stalin em 1948. Mesmo após a melhora das relações entre Belgrado e Moscou, os iugoslavos mantiveram sua política externa independente e não-alinhada nem à URSS, nem aos Estados Unidos.

A Iugoslávia de Tito desenvolveu-se muito até a década de 1970, proporcionando o aumento tanto da qualidade como da expectativa de vida. Porém, a situação mudou totalmente nos anos seguintes. Em 1980, Tito morreu, e conforme previa a Constituição promulgada em 1974, implantou-se um sistema de revezamento do poder entre as repúblicas. Ao mesmo tempo, o país começou a passar por uma crise econômica, que não atingiu igualmente a todas as repúblicas: Eslovênia e Croácia eram mais desenvolvidas e viviam uma situação melhor, o que atraiu trabalhadores de outras partes da Iugoslávia.

Os anos sob a liderança de Tito tinham criado um sentimento de união entre as diversas etnias que formavam a Iugoslávia. Porém, a perda de uma figura que simbolizava a união nacional, somada à crise econômica, fez ressurgirem velhos rancores que haviam sido temporariamente esquecidos (como entre sérvios e croatas – os primeiros consideravam os segundos colaboradores dos nazistas, mesmo que Tito fosse croata), dando origem a movimentos nacionalistas, principalmente na Sérvia, república mais populosa.

Os nacionalistas sérvios, liderados por Slobodan Milosevic (que assumiu a presidência sérvia em 1989), consideravam injusto o sistema de igual divisão do poder: para eles, a Sérvia, mais populosa, deveria ter maior influência sobre os rumos da Iugoslávia, o que obviamente não agradou às demais repúblicas. No decorrer dos anos 80, a etnia (sérvia, croata, eslovena etc.) passou a ter maior valor como referência de pertencimento do que a “nacionalidade” iugoslava.

As rivalidades cada vez mais acirradas se verificavam em diversos aspectos da vida social. No futebol (já que falamos do Petkovic…), o ultranacionalismo entrou em campo no dia 13 de maio de 1990, quando torcedores do Dinamo Zagreb e do Estrela Vermelha de Belgrado travaram uma violenta briga no estádio da capital croata, com muitos feridos. A polícia, controlada pelos sérvios, reprimia com violência os torcedores do Dínamo, e em resposta o craque do time de Zagreb, Zvonimir Boban, aplicou uma voadora em um policial, feito que o transformou em um heroi nacional para os croatas.

Em 1991, Eslovênia e Croácia proclamaram a independência, e começou assim a violenta desintegração da Iugoslávia, com um conflito militar principalmente entre sérvios e croatas, em que ambos os lados cometeram atrocidades. No ano seguinte foi a vez da Bósnia-Herzegovina declarar sua independência, porém, como o país tinha uma população muito diversificada (muçulmanos, sérvios e croatas), o que se seguiu foi uma sangrenta guerra civil que durou três anos e meio, ceifou muitos milhares de vidas e produziu os piores massacres na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Milosevic assumiu em 1997 a presidência da Iugoslávia (já não mais socialista e restrita apenas às repúblicas de Sérvia e Montenegro), cargo que ocupou até ser deposto por uma revolta popular em outubro de 2000. Reprimiu violentamente manifestações nacionalistas em Kosovo, província da Sérvia em que a maioria da população era de etnia albanesa, motivando ataques aéreos da OTAN em 1999, o que elevou a tensão entre Ocidente e Rússia – eslava como a Iugoslávia. Tropas da ONU ocuparam Kosovo, que em 2008 proclamou sua independência, não reconhecida pela Sérvia (que considera a região como berço de sua consciência nacional) e por muitos países, dentre eles o Brasil.

Em 2003, a Iugoslávia mudou de nome, e passou a chamar-se “Sérvia e Montenegro”, união que se manteve até 2006, quando em um referendo os montenegrinos optaram pela independência de sua república, aceita sem problemas pela Sérvia. Da antiga Iugoslávia de Tito, restou apenas um parque temático – a “Iugolândia” – e as lembranças de um tempo em que se tinha assistência médica gratuita, emprego garantido e boa aposentadoria, sem contar uma maior liberdade para se viajar (para se ir da Eslovênia à Macedônia, por exemplo, não era preciso cruzar fronteiras internacionais por serem pertencentes ao mesmo país) e, principalmente, a paz decorrente da tolerância mútua entre diversos povos que acabou desaparecendo na década de 1980.

A fome no mundo

Achei no Pensamentos do Mal um “mapa da fome”, com dados de 2003, retirado da página da FAO.

No link que o Diego indicou (e que eu também indico infelizmente não funciona mais), era possível ver várias versões do mapa, com dados de diferentes épocas (1970-2003). E algumas coisinhas me chamaram a atenção.

A primeira delas, foi o fato de países como Suécia (no mapa de 1970) e Japão (1975) aparecerem entre os países onde um índice de 5% a 15% da população era subnutrida. É surpreendente, visto que são países cujo nível de vida é considerado elevado.

De 1975 para cá, menos de 5% da população da Líbia passa fome – e Muammar al-Gaddafi está no poder desde 1969. Com a população não morrendo de fome, fica difícil quererem derrubar ele, visto que a Líbia é uma das exceções da África – pelos dados de 2003, os únicos países africanos com menos de 5% de subnutrição de sua população eram Líbia, Argélia, Tunísia, Egito e África do Sul. Destes cinco países, o único não-muçulmano é a África do Sul.

Outra coisa interessante se vê no Leste Europeu. Em 1970, o único país da região onde havia mais de 5% da população passando fome era a Albânia, nação européia mais pobre – inclusive o mapa indicava, em 1970, que entre 15% e 25% dos albaneses eram subnutridos. Nos anos seguintes a situação da Albânia melhorou, e de 1975 em diante o percentual da população subnutrida ficou entre 5% e 15%. Mas a Albânia ganhou a companhia de outros países após a queda do socialismo na Europa Oriental. No mapa de 2003, figuram entre os países com mais de 5% da população subnutrida: Albânia, Croácia, Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia-Montenegro¹, Macedônia, Bulgária, Moldávia (ex-república soviética) e Eslováquia.

A Rússia também teve mais de 5% da população passando fome. Não coincidentemente, isto aconteceu depois do fim da União Soviética, no período de 1995 a 1998.

E tem Cuba. A ilha teve um percentual de 15% a 25% da população subnutrida de 1993 a 1996, justamente quando viveu seu pior momento na economia, após a desintegração da URSS. Em 2003, menos de 5% dos cubanos passavam fome. Algo raro na América Latina: além de Cuba, só Chile, Argentina e Uruguai viviam situação idêntica na mesma época.

Ah, e o único país latino-americano que nunca teve mais de 5% de sua população subnutrida de 1970 a 2003 é a Argentina.

Quanto ao Brasil, a situação já esteve pior, mas boa não está. Em 1970 e 1975, entre 15% e 25% dos brasileiros passavam fome. A situação melhorou em 1980 (5% a 15%), piorou em 1985 (voltando aos patamares de 1970 e 1975), mas desde 1990 o índice não sofre maiores alterações, ficando entre 5% e 15%.

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¹ A separação entre Sérvia e Montenegro aconteceu em maio de 2006.