A fome no mundo em 2009

Um dos textos mais lidos do Cão Uivador é o que escrevi em 13 de setembro de 2007, comentando o “mapa da fome” feito pela FAO, que tinha dados de 1970 a 2003.

E agora descobri um mapa mais atualizado (2009) sobre este triste flagelo da humanidade, que também merece alguns comentários. Os países são divididos em cinco categorias: a primeira engloba os que têm menos de 5% da população subnutrida; a segunda, vai de 5 a 9%; a terceira, de 10 a 19%; a quarta vai de 20 a 34%, e a quinta corresponde aos países onde 35% ou mais da população sofre de subnutrição.

A situação da África, por exemplo. Mudou muito pouco desde 2003. Naquela ocasião, apenas cinco países africanos estavam na categoria 1: Líbia, Argélia, Tunísia, Egito e África do Sul (único que não se localiza na “África árabe”, setentrional). Agora, mais dois países se juntaram ao seleto grupo: Marrocos (África setentrional) e Gabão (central) – ou seja, a maioria ainda é de países do norte do continente, árabes e muçulmanos (os “malvados” segundo a visão de mundo tosca de muitos).

E por falar em muçulmanos, é digna de nota a situação do Irã, atual “perigo mundial”: segundo o mapa, a subnutrição era um problema para menos de 5% da população iraniana. Ou seja, o país está na mesma categoria que a maior parte da Europa.

Sim, “maior parte”, e não “toda” a Europa. A fome é uma realidade um pouco mais dolorosa para Eslováquia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Albânia, Bulgária e Moldávia. Países da Europa Oriental, poderá lembrar algum fã da “civilização” e do liberalismo, que ainda dirá que a fome “é fruto do comunismo” – mas convém lembrar que, exceto a Albânia (país mais pobre da Europa), eles não sofriam de tais problemas antes da queda dos regimes “socialistas”; e também que destes oito países, dois integram a União Europeia (Eslováquia desde 2004 e Bulgária desde 2007), que diziam ser “o paraíso”. Dentre os oito, há até mesmo integrantes da categoria 3 (10-19%), caso de Sérvia, Montenegro e Moldávia.

Já na América Latina, nada mudou muito. Cuba continua com menos de 5% de sua população subnutrida, assim como Argentina, Chile, Uruguai, Costa Rica e México (os dois últimos, novidades em relação a 2003).

O Brasil está um pouco abaixo, de 5% a 9% de subnutrição. Em 2003, o país se enquadrava entre 5 e 15% (ou seja, o critério para categorização era um pouco diferente), e provavelmente o percentual de pessoas subnutridas tenha baixado devido aos programas sociais do governo federal.

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Interessantíssima Copa

Terminada a primeira fase da Copa do Mundo, percebi alguns fatos interessantes com base na lista das 16 seleções classificadas para as oitavas-de-final.

Como a decepção da África. Afinal, com a Copa sendo realizada pela primeira vez no continente, esperava mais das seleções africanas. Mas quase que nenhuma delas passa: a única a se classificar foi Gana, e foi por pouco, visto que a Sérvia quase buscou o empate em 2 a 2 contra a Austrália, resultado que eliminaria os ganeses e levaria os sérvios às oitavas-de-final. Sem contar a África do Sul, que mesmo tendo um time muito fraco, jogava em casa e foi eliminada: nunca um anfitrião de Copa havia parado na primeira fase. Até mesmo os Estados Unidos, em 1994, chegaram às oitavas.

Aliás, que evolução tiveram os Estados Unidos! Já falei de 1994. Em 2002, eles foram “zebra”, indo até as quartas. Já em 2010, ficaram com justiça em 1º lugar num grupo que tinha a Inglaterra como favorita. E acredito que chegam pelo menos até as quartas.

Se a África decepcionou, a Ásia tem um ótimo desempenho, com duas seleções (Coreia do Sul e Japão) nas oitavas-de-final, repetindo o feito de 2002 (quando ambas as seleções jogavam em casa – e a Coreia foi até as semifinais). A propósito, a classificação japonesa foi merecidíssima: pensar que em meu primeiro prognóstico para a Copa, feito logo que saíram os grupos, apontei que no grupo E a única certeza seria a eliminação do Japão…

Também vai muito bem a América Latina. O México mais uma vez vai às oitavas – mas para, provável e infelizmente, já cair fora. Tudo porque terá pela frente a Argentina, que vem jogando o melhor futebol da Copa. Os demais sul-americanos também estão nas oitavas, com o continente tendo seu melhor desempenho desde quando passou a ter direito a cinco representantes (na verdade são “quatro e meio”, já que uma das vagas é disputada em repescagem contra outra confederação): todas as seleções da América do Sul passaram da primeira fase. Nas quartas, teremos no máximo quatro, já que Brasil e Chile se enfrentam nas oitavas, mas é certo que um sul-americano já está lá.

Em compensação, a Europa tem um de seus piores desempenhos, com apenas seis seleções nas oitavas-de-final (para se ter uma ideia, em 2006 tal número correspondia aos europeus nas quartas-de-final; em 1994, sete europeus estavam entre os oito melhores). E eles já vão “se matar”, restando apenas três para as quartas. Assim, já é certo que não teremos uma “Eurocopa” nas semifinais, como aconteceu em 2006.

E não nos surpreendamos se, pela primeira vez na história das Copas, não tivermos nenhuma seleção europeia entre as quatro melhores, e também se as semifinais forem uma “Copa América”.

A fome no mundo

Achei no Pensamentos do Mal um “mapa da fome”, com dados de 2003, retirado da página da FAO.

No link que o Diego indicou (e que eu também indico infelizmente não funciona mais), era possível ver várias versões do mapa, com dados de diferentes épocas (1970-2003). E algumas coisinhas me chamaram a atenção.

A primeira delas, foi o fato de países como Suécia (no mapa de 1970) e Japão (1975) aparecerem entre os países onde um índice de 5% a 15% da população era subnutrida. É surpreendente, visto que são países cujo nível de vida é considerado elevado.

De 1975 para cá, menos de 5% da população da Líbia passa fome – e Muammar al-Gaddafi está no poder desde 1969. Com a população não morrendo de fome, fica difícil quererem derrubar ele, visto que a Líbia é uma das exceções da África – pelos dados de 2003, os únicos países africanos com menos de 5% de subnutrição de sua população eram Líbia, Argélia, Tunísia, Egito e África do Sul. Destes cinco países, o único não-muçulmano é a África do Sul.

Outra coisa interessante se vê no Leste Europeu. Em 1970, o único país da região onde havia mais de 5% da população passando fome era a Albânia, nação européia mais pobre – inclusive o mapa indicava, em 1970, que entre 15% e 25% dos albaneses eram subnutridos. Nos anos seguintes a situação da Albânia melhorou, e de 1975 em diante o percentual da população subnutrida ficou entre 5% e 15%. Mas a Albânia ganhou a companhia de outros países após a queda do socialismo na Europa Oriental. No mapa de 2003, figuram entre os países com mais de 5% da população subnutrida: Albânia, Croácia, Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia-Montenegro¹, Macedônia, Bulgária, Moldávia (ex-república soviética) e Eslováquia.

A Rússia também teve mais de 5% da população passando fome. Não coincidentemente, isto aconteceu depois do fim da União Soviética, no período de 1995 a 1998.

E tem Cuba. A ilha teve um percentual de 15% a 25% da população subnutrida de 1993 a 1996, justamente quando viveu seu pior momento na economia, após a desintegração da URSS. Em 2003, menos de 5% dos cubanos passavam fome. Algo raro na América Latina: além de Cuba, só Chile, Argentina e Uruguai viviam situação idêntica na mesma época.

Ah, e o único país latino-americano que nunca teve mais de 5% de sua população subnutrida de 1970 a 2003 é a Argentina.

Quanto ao Brasil, a situação já esteve pior, mas boa não está. Em 1970 e 1975, entre 15% e 25% dos brasileiros passavam fome. A situação melhorou em 1980 (5% a 15%), piorou em 1985 (voltando aos patamares de 1970 e 1975), mas desde 1990 o índice não sofre maiores alterações, ficando entre 5% e 15%.

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¹ A separação entre Sérvia e Montenegro aconteceu em maio de 2006.