Preciso voltar a ser escritor

Lá se vão mais de três meses desde o último post aqui no Cão. Neste meio-tempo tivemos uma Copa do Mundo que curti muito (apesar de mais um fracasso de nossa América Latina) e a criação de uma newsletter na qual pretendia dar “notícias minhas” em substituição ao Facebook, o qual ainda quero abandonar em 2019 – sim, pleno agosto e já tenho “resoluções de ano novo”.

Um dos propósitos da newsletter também era o de retomar o hábito de escrever, e já posso dizer que fracassei nisso. Pretendia mandá-las sempre aos domingos, mas já na segunda atrasei; ainda houve mais uma, e depois não escrevi mais.

Mas este breve texto que escrevo aqui não deixa de ser positivo neste aspecto. Pois é um “reconhecimento público” – ainda que vá ser lido por meia-dúzia de pessoas – de um fato: preciso voltar a escrever com regularidade, como fazia até 2014. Sinto que minha vida necessita de um propósito que vá além da entediante rotina de acordar, tomar café, ir trabalhar, chegar em casa, tomar banho, comer alguma coisa e ligar a televisão e/ou ficar rolando a tela do celular ou do computador logado em uma rede social.

Preciso voltar a ser escritor. E provavelmente não haja melhor lugar para isso do que aqui no Cão, minha “casinha” das palavras.

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Eu curto (e escrevo) “textão”

Uma impressão que tenho no Facebook é que muita gente por lá não gosta de “textão”. Toda hora vejo queixas: “que saco essa gente publicando textão”, e blá blá blá.

Na boa: se você não gosta, é só não ler. Quando o texto é longo, nem aparece na íntegra: para ler tudo é preciso clicar em “ler mais” – logo, é só não clicar. E isso quando ele é publicado diretamente no Facebook: se é link, nem mesmo é possível ler o começo sem dar um clique. Aliás, eu tenho dado preferência a publicar meus “textões” no blog e postar o link no FB: azar dos preguiçosos que não clicam, ficarão sem ler.

Só digo uma coisa: se você é do tipo de pessoa que reclama de “textão”, jamais tenha a cara-de-pau de vir com papinho do tipo “o povo brasileiro não tem cultura, não lê”. Primeiro porque cultura não é só o que gostamos (e acho muito mais correto falar em “culturas”, assim, no plural). Segundo, pois se você não lê “textão”, que moral tem para falar mal de quem não gosta de ler?


“Ah, mas eu falo de texto na internet, gosto de ler livros”. Bom, então fique menos tempo no Facebook e mais tempo lendo o seu livro.

E em tempo: quem reclama de “textão” nada mais faz do que desmotivar (mesmo que não decisivamente) quem gosta de escrever. Muita gente escreve mal, é verdade, mas quantos possíveis escritores do futuro estão ficando sem a menor vontade de produzir textos por conta dos reclamões (ou seriam preguiçosos?) do Facebook?

Afinal, quem escreve quer ser lido: eu costumava atualizar meu antigo blog com frequência (dificilmente deixava muito tempo “parado”) pois tinha bastante gente que lia, comentava etc. Mas com o passar do tempo os acessos foram diminuindo, as pessoas pararam de comentar no blog… Resultado: por um bom tempo perdi a vontade de escrever. Depois retomei o Cão Uivador, até mesmo comprando domínio próprio, mas percebendo que a tendência de diminuição de acessos era irreversível, nem renovei o domínio e preferi fechar o blog após atualizá-lo apenas cinco vezes em cinco meses; resolvi criar e manter um outro com meu próprio nome apenas por teimosia, pois nunca simpatizei com a ideia de ter apenas o Facebook como espaço para expressar minhas ideias.

Gritaria por escrito

Estão em toda parte. Sejam curtos (por exemplo, comentários em portais ou no Facebook) ou longos, há muitos textos na internet que são uma verdadeira “gritaria”. Não é preciso se esforçar para achá-los.

Em geral, quando debatemos temos a estúpida pretensão de “vencer”, ao invés de simplesmente trocar ideias – que é justamente a função do debate. Argumentar não é algo simples, e muitas vezes precisamos de tempo para buscar informações que melhor fundamentem nossa opinião. Só que, no calor do momento, muitas vezes optamos pela resposta “de bate pronto”, sem pensar. E, quando nos irritamos, tendemos a gritar.

Obviamente podemos nos irritar também em um debate “escrito”, pela internet. E “gritamos”. Não da forma tradicional, mas sim, escrevendo sem pensar (e sem revisar), ou de forma a chamar o máximo de atenção possível.

HÁ QUEM SIMPLESMENTE ESCREVA TUDO EM LETRAS MAIÚSCULAS – O QUE, NA LINGUAGEM ESCRITA, É SINÔNIMO DE “GRITAR”. TEXTOS ESCRITOS EM MAIÚSCULAS SÃO MAIS CHAMATIVOS, EMBORA SEJAM PIORES DE LER – A ESCRITA NORMAL, COM PREDOMÍNIO DE MINÚSCULAS, PARECE SER MAIS “HARMÔNICA”, AGRADÁVEL AOS OLHOS.

Algumas pessoas já perceberam que escrever tudo em maiúscula cansa os olhos. Então, preferem usá-las APENAS EM ALGUMAS PALAVRAS, realçando o que consideram mais importante.

Mas há quem vá além e, não bastassem as maiúsculas, TAMBÉM GRIFAM O TRECHO. Pois não basta realçar: é preciso fazê-lo DUAS VEZES.

Calma, que ainda pode piorar. Pois também se encontra, aos borbotões, textos que além das MAIÚSCULAS GRIFADAS, são também multicoloridos. Ah, e também com MAIÚSCULAS GRIFADAS.

Então chegamos ao ponto de termos parágrafos inteiros grifados, azuis ou vermelhos, E AINDA POR CIMA COM AS MAIÚSCULAS. O que é típico de textos que expressam opiniões raivosas, do tipo “protesto é baderna” ou “Brasil vai virar comunista”.

Sorte que em comentários de Facebook não é possível mudar a cor da letra nem grifá-la. POIS IMAGINEM UM COMENTÁRIO TODO COLORIDO E GRIFADO!!!!11!!!

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Agora, falando sério, umas dicas para o que você escrever ser agradável para quem lê (ou, pelo menos, aos meus olhos):

  • Para realçar um trecho, basta grifá-lo, sem escrever tudo em maiúsculas;
  • Usar cores diferentes para chamar a atenção de um parágrafo “mais importante”, no fundo só me ajuda a ver o conjunto do texto como algo sem credibilidade (fiz isso mais acima só pela galhofa);
  • Exclamar demais passa a impressão de que o autor é uma pessoa extremamente irritada, com a qual qualquer debate vira bate-boca, e por isso a exclamação deve ser usada com moderação;
  • Terminar uma frase com vários pontos de exclamação um ao lado do outro é sinal de muita raiva, ainda mais se a pessoa acaba soltando o “shift” e o “!” vira “1”, numa clara demonstração de irritação que leva o autor a publicar aquilo sem sequer revisar.

A redação da UFRGS

Este janeiro de 2014 marca o 10º aniversário de minha aprovação no vestibular para História na UFRGS. Ver aquele monte de estudantes na frente de colégios me faz sentir um misto de alívio e saudosismo: o primeiro por ter superado tal etapa (por mais que muitas vezes durante a faculdade pensemos que no vestibular “éramos felizes e não sabíamos”, trata-se de um autêntico “rito de passagem”, com suas incertezas e angústias), e o segundo por conta da vontade de recomeçar, ingressar em uma nova fase, assim como aconteceu 10 anos atrás.

Dentre os fatores que geram ansiedade no vestibulando, um deles é, sem dúvidas, a redação. Pois, quando estudamos, nos preparamos para responder às provas objetivas por meio de exercícios que não nos dizem exatamente o que cairá no vestibular, mas já “dão uma pista”. Já com a redação, acontece algo diferente: escrevemos várias, sobre diversos temas, com o objetivo de estarmos preparados; e isso de fato nos ajuda a aumentar nossa capacidade argumentativa – o que é realmente avaliado em uma dissertação. Porém, só sabemos sobre o que teremos de escrever na hora que abrimos a prova.

Claro que podemos ter algumas “pistas”, em alguns casos. Meu primeiro vestibular foi o da PUCRS: no dia 4 de janeiro de 2000, enfrentei um longo congestionamento (mas cheguei a tempo!) para fazer a prova de língua portuguesa; ao final, lá estava a “questão de redação” (como era chamada). A universidade propunha três temas, todos ligados a assuntos que tinham sido noticiados na imprensa; um deles dizia respeito às celebrações dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, que seriam completados meses mais tarde. Não tenho o esboço do texto (não recordo se a folha de rascunho precisava ser entregue com a prova ou se perdi), e por isso não lembro qual tema escolhi, mas uma certeza tenho: achei mais difícil escrever a redação da PUCRS que a da UFRGS, cujo vestibular começaria dentro de alguns dias.

A principal diferença consistia no tipo de tema. Enquanto a PUCRS costumava propôr assuntos noticiados na imprensa, a UFRGS optava por temas mais “subjetivos”, como ética, amor, esperança etc. Algo que, aliás, ainda acontece: o tema de 2014 foi o livro considerado “clássico” pelo candidato. Assim, por um lado ela é mais “imprevisível” (afinal, não é possível dar “palpites” quanto ao tema com base em “assuntos do momento”), mas por outro, escrever sobre coisas “subjetivas” aos 17 anos de idade me parece mais fácil do que, por exemplo, dissertar sobre o povo brasileiro. E como no vestibular da UFRGS o rascunho da redação é escrito no caderno de prova (que o candidato leva para casa no dia seguinte), é possível reler, anos depois, o que escrevemos naquele dia.

Quantas vezes não lemos textos escritos por nós mesmos há muitos anos e praticamente “não nos reconhecemos” neles? Pois bem: foi exatamente isso, estranhamento, que senti ao reler os rascunhos das redações escritas em três vestibulares prestados na UFRGS (2000, 2003 e 2004). Por motivos óbvios, elas não são os melhor textos de nossas vidas; mas, ainda assim, são verdadeiros “documentos históricos” acerca do que pensamos na época em que escrevemos. Por meio dela, podemos ter noção de nossa mentalidade de 10, 15 anos atrás.

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Sobre querer escrever poesia

O Cão surgiu como poema. Mas sempre se caracterizou pela prosa.

Não quer dizer que eu nunca mais tenha feito nada de poesia. O problema é que raramente transfiro pensamentos aleatórios para o papel (de verdade ou virtual) na hora que me vêm na cabeça. Penso em fazê-lo depois e… Lá se foi.

Outras vezes, até passei as palavras para a folha. Porém, deixei guardadas ali, sem publicar. Passou o tempo, li novamente, achei ruim e descartei sem saber a opinião de mais ninguém. Um erro, sei.

Algumas vezes sento defronte ao computador e decido que vou escrever poesia. E aí mesmo é que fica uma porcaria (isso quando sai alguma coisa), sem espontaneidade alguma. Tento fazer com que as palavras “façam sentido”, fiquem encadeadas em uma sequência supostamente lógica, e o pensamento em prosa sufoca o poema.

Bom, agora vou procurar andar sempre com papel e caneta. Melhor não anotar no celular, pois não quero que me roubem as palavras.