Assalto na Avenida Independência

Fui assaltado ontem em uma parada de ônibus na Avenida Independência, pouco depois das 20h. Após me encostar por baixo da roupa a ponta de uma suposta faca (talvez fosse até mesmo uma ponta de caneta, mas eu não quis tirar a dúvida), o ladrão pediu o celular (não pude mentir que não tinha pois pegara para ver a hora pouco antes); depois pediu o dinheiro mas não quis levar a carteira, como eu não estava com pouca grana o cara foi “gente boa” e me deixou 10 reais “para a passagem”. Prejuízos apenas materiais, portanto.

Fazia mais de 10 anos que não era assaltado, e obviamente me deu muita raiva de ter sido roubado por um homem que, talvez, nem estivesse realmente armado. Mas ao mesmo tempo, o acontecimento de ontem pode nos deixar lições, que vão além do clichê “tomar mais cuidado e não esperar ônibus num lugar com pouco movimento e mal iluminado”.

Como a de que carro passando na rua não é segurança (aliás, coisa que eu já sabia há muito tempo). A Independência é uma das principais vias que saem do Centro de Porto Alegre, e às 20h ainda tem considerável fluxo de veículos. Porém, falta o que realmente pode intimidar a ação de ladrões: pessoas nas calçadas. Após o horário comercial, a movimentação de pedestres na Independência cai muito, tornando-a bastante atraente a criminosos.

Por que cai o movimento? Podemos citar diversos fatores (dentre eles o fato da Independência ser uma via predominantemente residencial, com raros bares ou restaurantes que funcionem à noite). Mas o principal, sem dúvida alguma, é a cultura do medo tão arraigada em nossa sociedade.

Não entendeu? Então ligue a televisão, de preferência naqueles programas asquerosos do estilo mostra-a-cara-do-vagabundo. O que eles fazem não é jornalismo, é terrorismo. Se os levarmos a sério (e infelizmente, muita gente leva), vamos ficar trancados dentro de casa a maior parte da vida, apenas dando mais audiência a eles. Afinal, se é fato que há violência, ao mesmo tempo reparo que na esmagadora maioria das vezes que saí à rua não me aconteceu absolutamente nada.

Porém, tais “noticiários” em geral nos passam a ideia de que a rua é um lugar inóspito, extremamente perigoso. E acreditamos que devemos sair do trabalho, da aula etc., e ir direto para casa, sem escalas. Quanto menos tempo na rua, melhor!

O resultado é esse que senti na pele ontem e muita gente já conhece. As ruas deixam de ser espaços de sociabilidade, já que as pessoas preferem se encontrar no shopping. Tornam-se apenas pontos de passagem (que é feita predominantemente de carro, e não a pé), e por isso mesmo, mais perigosas. E pior ainda: pessoas assustadas aceitam qualquer medida que supostamente acabe com a causa de seu temor. Pode ser um Estado policial, ou mesmo a barbárie de um linchamento.

————

Estamos, portanto, trilhando o caminho inverso ao de Bogotá (como mostra a ótima matéria feita por Renata Falzoni em 2010 com o ex-prefeito da capital colombiana, Enrique Peñalosa). Na década de 1990, a cidade era talvez a mais violenta do mundo, e seu trânsito era caótico. Peñalosa assumiu a prefeitura em 1998 e resolveu os dois problemas promovendo uma mudança de mentalidade: ao invés de alargar ruas e erguer viadutos, optou por melhorar o transporte coletivo e pela construção de ciclovias e vias para pedestres, estimulando a retomada das ruas pela população (o que ajuda a inibir a criminalidade, que despencou em Bogotá). Além disso, proibiu o estacionamento nas ruas com um argumento que, de tão óbvio, chega a dar raiva por não ser levado a sério no Brasil: o estacionamento não é um direito constitucional em nenhum país, e o fato das pessoas não terem onde estacionar seus automóveis particulares (ou seja, propriedades privadas) não é problema público.

Anúncios

Como melhorar uma cidade

Não é preciso buscar inspiração em cidades europeias. Basta seguir o exemplo de Bogotá, como mostra a ótima matéria de Renata Falzoni com o ex-prefeito da capital colombiana, Enrique Peñalosa. Lá, a prefeitura melhorou o trânsito enchendo a cidade de ciclovias e corredores de ônibus. E a criminalidade… Baixou um monte!

Já aqui em Porto Alegre, ontem foi mais um dia de caos, só para variar… Um acidente num ponto localizado trancou a cidade inteira. Que aliás, nem tem mais hora para congestionar: a expressão “horário de pico” atualmente só serve para designar o momento em que há 100% de chances de ficar preso no engarrafamento. Pois durante todo o dia há possibilidade de se pegar uma tranqueira em algum ponto de Porto Alegre.

A solução? Já tem alguns “iluminados” defendendo que táxis com passageiros circulem por corredores de ônibus… Aí mais gente vai sair sozinha em seu carro, achando que “vai estar melhor”, e o trânsito ficará mais caótico. O que atinge também os ônibus (além dos táxis, mesmo com a permissão para andarem nos corredores), nas ruas onde não há a faixa exclusiva para eles. E mesmo onde há, visto que terão de dividir o espaço com os táxis.

O que não se fala sobre Bogotá

Quando aconteceu uma manifestação contra as FARC em Bogotá, nossa mídia noticiou, é claro. Mas a passeata de quinta-feira passada, contra o governo de Álvaro Uribe, não mereceu nenhuma notinha nos jornais daqui. Entre os participantes estava até mesmo o prefeito da cidade, Samuel Moreno, do partido oposicionista Pólo Democrático Alternativo.

Bogotá também não é citada pela nossa mídia como uma cidade em que o poder público passou a valorizar mais as pessoas do que os carros, como mostra a postagem do blog Apocalipse Motorizado. Entendível: as empresas automobilísticas enchem os cofres das corporações de mídia graças aos anúncios em jornais e emissoras de rádio e televisão.

Na capital da Colômbia as ruas deixaram de ser simplesmente espaço de fluxo de veículos, e voltaram a ser ponto de encontro, como acontecia antigamente em Porto Alegre na Rua da Praia. Foram construídos muitos quilômetros de ciclovias pela cidade. Em muitas ruas o trânsito de carros foi proibido, e o movimento de pessoas – a pé ou de bicicleta – mantém-se alto. O que contribuiu para diminuir a violência: não foi o terrorismo de Estado praticado por Uribe que fez caírem os índices de criminalidade em Bogotá, mas sim a retomada das ruas pela população.

E conforme já falei em 20 de novembro de 2007, se muito carro na rua fosse segurança, o entorno da Redenção seria a área mais segura de Porto Alegre, já que os carros passam aos montes nas avenidas Osvaldo Aranha e João Pessoa – e o que acontece é o contrário, é preciso muita coragem para se arriscar a caminhar sozinho por ali durante a noite.

Leia mais sobre Bogotá no Apocalipse Motorizado, e assista ao documentário produzido sobre a cidade – o vídeo está em inglês, mas a tradução de alguns trechos está na postagem do Apocalipse.

Confira também uma entrevista (com legendas em português) com o ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa, que começou a implementar as mudanças na cidade. Em um trecho ele lembra: temos cidades desde aproximadamente 5 mil anos atrás, e carros há cerca de 80 anos, o que quer dizer que durante a maior parte do tempo as ruas das cidades eram feitas para as pessoas, e não para os carros como acontece atualmente.

Quem sabe não exigirmos do prefeito que elegeremos em outubro que comprometa-se a fazer de Porto Alegre uma cidade menos motorizada e mais humana?