Um ano depois

Ontem, se completou um ano do atropelamento da Massa Crítica de Porto Alegre. O responsável pela barbárie daquele 25 de fevereiro de 2011 responde em liberdade por 17 tentativas de homicídio.

Depois de um ano e de muitas manifestações de solidariedade à Massa Crítica de Porto Alegre, nossa cidade sedia o primeiro Fórum Mundial da Bicicleta, “para discutir o futuro das cidades e o papel da bicicleta nos âmbitos social, econômico, ambiental, esportivo e cultural”, conforme informa a página oficial do evento. Ou seja, apesar dos pesares o atropelamento acabou tendo esta consequência positiva, de fomentar o debate sobre a bicicleta como meio de transporte, e não apenas como lazer.

Porém, nem tudo são flores. Enquanto Porto Alegre deveria se voltar para a discussão de um sistema de mobilidade urbana que deixe de privilegiar os automóveis particulares (modelo que se prova ultrapassado a cada final de tarde em que se locomover pela cidade requer paciência extrema), há um projeto do vereador Alceu Brasinha (PTB) na Câmara Municipal que aumenta o limite de velocidade para 70km/h na cidade – atualmente o máximo permitido é de 60km/h, sendo exceção a Avenida da Legalidade, via expressa na qual se pode transitar a 80km/h.

Alguém acredita que aumentar o limite de velocidade vai melhorar o trânsito? Até porque, com o limite de 60km/h, em horários de pico dificilmente se anda a mais de 20km/h. O que quer dizer que o problema não é a velocidade máxima permitida e sim, a quantidade de carros.

Sem contar o principal: 60km/h já é uma velocidade elevada. Um vento de 60km/h é suficiente para causar alguns transtornos como falta de luz, queda de galhos de árvores etc. Caminhar contra ele, então, requer alguma força.

Agora, imagine o choque de um carro a 60km/h. Melhor só imaginar, jamais querer experimentar.

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Motoristas se manifestam em Porto Alegre

Na última sexta-feira de cada mês, ciclistas se reunem na chamada Massa Crítica, que percorre várias ruas de Porto Alegre. É assim não só aqui, como em várias cidades do mundo.

Só que não apenas na última sexta-feira de cada mês, mas sim diariamente, motoristas têm se manifestado em Porto Alegre. É a “Anti-Massa Crítica”, que chama a atenção para a verdade sobre quem são realmente os donos das ruas. As manifestações, iniciadas há anos, estão cada vez maiores. Enquanto os ciclistas celebram a participação de centenas, os motoristas são centenas de milhares!

Confira um pouco do grande ato acontecido em 12 de maio de 2010, no cruzamento das avenidas Plínio Brasil Milano e Carlos Gomes, Zona Norte da cidade:

E eu já estou decidido a aderir, afinal, é preciso fazer o que todo mundo faz. Larguei mão da ideia de ter uma bicicleta, vou é comprar um carro a 300 prestações!

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Óbvio que os tais “protestos motorizados” (e a minha decisão) nada mais são do que uma ironia quanto aos congestionamentos que são cada vez piores em Porto Alegre. É essa a ideia do genial Vá de Auto: assim como o (infelizmente parado) Classe Média Way of Life, critica um tipo de pensamento através da sátira.

Como maquiar um problema sério

Hoje à noite, o estádio de outro clube na cidade do Grêmio sediará a decisão da Taça Libertadores da América. Não vou falar do jogo em si, nem sequer perderei meu tempo assistindo à partida (vou ler Bourdieu que eu ganho mais).

O que me chamou a atenção foi a medida adotada pela prefeitura para diminuir o caos no trânsito de Porto Alegre: antecipar o fim do expediente do funcionalismo público para as quatro da tarde – ideia que foi seguida por órgãos estaduais e federais na cidade. Assim, se reduz o número de carros nas ruas nas horas mais próximas ao jogo.

Ótima ideia, né? Assim, os jornalistas de outros países que estão em Porto Alegre para cobrir o jogo não ficam com uma impressão tão ruim da cidade… Não perceberão que ela está quase parando, devido a tantos carros nas ruas.

E a prefeitura tem participação nisso, sim, mesmo que também haja um problema de mentalidade (individualismo): muitas pessoas compram carros porque “dá status”, mas também para fugir do transporte coletivo, que já foi melhor por aqui. Mesmo que tenham de ficar horas paradas no trânsito ao volante de seus carros, preferem-no do que passar o mesmo tempo dentro de um ônibus lotado e sem ar condicionado. Bicicleta, então, para eles é “atraso”, mesmo que estejam se tornando cada vez mais populares em países da Europa (que para eles é “civilizada”).

Se o transporte coletivo fosse melhor (e nem falo só de ônibus: Porto Alegre já tinha de ter um metrô mais extenso, assim como linhas de barco aproveitando o Guaíba) e houvesse ciclovias de verdade, seria mais fácil convencer as pessoas a deixarem seus carros em casa ou a nem os comprarem. Tudo bem que se mais gente deixasse de usar o automóvel sem esperar tais melhoras, isso significaria mais cidadãos (e eleitores – que é o que importa para boa parte dos políticos) a reclamarem do caos nas ruas. Mas isso não exime a prefeitura de sua responsabilidade, de forma alguma.

Como melhorar uma cidade

Não é preciso buscar inspiração em cidades europeias. Basta seguir o exemplo de Bogotá, como mostra a ótima matéria de Renata Falzoni com o ex-prefeito da capital colombiana, Enrique Peñalosa. Lá, a prefeitura melhorou o trânsito enchendo a cidade de ciclovias e corredores de ônibus. E a criminalidade… Baixou um monte!

Já aqui em Porto Alegre, ontem foi mais um dia de caos, só para variar… Um acidente num ponto localizado trancou a cidade inteira. Que aliás, nem tem mais hora para congestionar: a expressão “horário de pico” atualmente só serve para designar o momento em que há 100% de chances de ficar preso no engarrafamento. Pois durante todo o dia há possibilidade de se pegar uma tranqueira em algum ponto de Porto Alegre.

A solução? Já tem alguns “iluminados” defendendo que táxis com passageiros circulem por corredores de ônibus… Aí mais gente vai sair sozinha em seu carro, achando que “vai estar melhor”, e o trânsito ficará mais caótico. O que atinge também os ônibus (além dos táxis, mesmo com a permissão para andarem nos corredores), nas ruas onde não há a faixa exclusiva para eles. E mesmo onde há, visto que terão de dividir o espaço com os táxis.