A rima triste

Charge do Bier

Segunda-feira, 14 de março, foi o Dia da Poesia. Com todas as atenções voltadas para a luta do Japão contra a elevada radioatividade em suas usinas nucleares danificadas pela tsunami da sexta passada, ficava meio difícil lembrar de poesia.

Mas hoje, lembrei das aulas de Literatura no colégio, quando estudávamos o Parnasianismo (eu acho), aquela história de “rima rica”, métrica etc. Foi quando reparei numa rima triste: Hiroshima e Fukushima.

Em 6 de agosto de 1945, Hiroshima foi criminosamente destruída por uma bomba atômica dos Estados Unidos, sendo a primeira cidade a sofrer um ataque desta natureza – três dias depois, Nagasaki tornou-se a segunda e, felizmente, última. Já a usina nuclear de Fukushima não é a primeira a ter um acidente (apesar da gravidade da situação, ainda não é comparável ao que aconteceu em Chernobyl em 1986), mas demonstra que o Japão, único país que já sofreu ataques nucleares, não aprendeu muito com aquele terrível agosto de 1945.

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Em tempo: não sou um ferrenho adversário da energia nuclear, que permitiu alguns avanços na área da Medicina. Mas seu uso para gerar eletricidade, principalmente em países de considerável atividade sísmica como o Japão, deveria ser revisto.

O Brasil, então, não precisa de forma alguma ter usinas nucleares. Primeiro, por ser um país privilegiado em possibilidades de “energias limpas”, como a eólica e a solar: temos mais de 7 mil quilômetros de litoral, com bastante vento; e a maior parte do território brasileiro situa-se na zona tropical, que é a região do planeta onde a insolação é maior.

E em segundo lugar, pela tradição brasileira da enrolação, do “migué”. Como prova Fukushima, com a energia nuclear não se brinca. Em caso de acidente, “dar um jeitinho” não é a solução.

Mais usinas nucleares?

Passando os olhos pela Zero Hora de ontem, notei a pequena matéria na página 22, que falava sobre a “necessidade” do Brasil construir quatro usinas nucleares até 2030, com potencial de mil megawatts cada. Inclusive, o Rio Grande do Sul é um dos Estados onde poderia ser construída uma das usinas.

É inacreditável. Ainda mais na mesma semana em que lemos notícias sobre a preocupação dos russos com os incêndios florestais que assolam seu país – o fogo atinge regiões que foram afetadas pelo desastre da usina nuclear de Chernobyl, em 1986, que contaminou o solo em partes da Ucrânia (onde se localiza a usina), da Bielorrúsia e da Rússia, que na época eram repúblicas da União Soviética. Há o temor que partículas radioativas sejam liberadas para o ar devido à queima do solo.

Todas as áreas afetadas pela radiação hoje são inabitáveis (embora algumas poucas pessoas idosas ainda lá morem por não desejarem morrer longe de onde sempre viveram), e continuarão assim por séculos, sendo necessária autorização para ingressar nelas. Pripyat, cidade mais próxima da usina, tornou-se uma “cidade-fantasma”, que até pode ser visitada, mas com muito cuidado, pois se há locais “seguros”, andando-se poucos metros a radiação pode atingir níveis perigosos.

É difícil compreender como que, depois do desastre de Chernobyl, ainda se pense em construir novas usinas nucleares, quando o ideal seria fechar as que já existem, já que são conhecidos os perigos da radiação (que tem inclusive um “exemplo” brasileiro: a contaminação de várias áreas em Goiânia por césio-137, em 1987). Por que não se investir nas “energias limpas”, como a eólica e a solar? Ainda mais no Brasil, que é um país privilegiado neste caso: o litoral brasileiro (mais de 7 mil quilômetros) tem bastante vento; e a maioria do território nacional encontra-se na zona tropical, que é a região do planeta onde a insolação é maior.

Mas, claro, certamente os nossos “progressistas” devem desejar muito a construção de uma usina nuclear no Rio Grande do Sul – e o mesmo vale para outros Estados. Afinal, será a chance de ser notícia no mundo todo, caso aquela coisa exploda como Chernobyl.

Atômica hipocrisia

Vários países ocidentais se posicionam contrariamente à possibilidade do Irã desenvolver armas nucleares. Aliás, não é de hoje que manifestam preocupação com o programa nuclear iraniano, embora o país sempre tenha dito que tem propósitos pacíficos, de apenas gerar energia.

O que eu acho? Concordo totalmente: o Irã não deve ter armas nucleares. Vou além: nenhum país deve tê-las. Pois, ironicamente, os que mais criticam o Irã são os que têm capacidade de destruir a Terra centenas de vezes, dada a potência de seu arsenal nuclear.

Inclusive, um destes países (Estados Unidos) já usou bombas atômicas contra alvos civis, matando centenas de milhares de pessoas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945 – quando a rendição do Japão, que poria fim à Segunda Guerra Mundial, era questão de tempo.