O mito do “país abençoado por Deus”

Ora, a essência de uma nação consiste em que todos os indivíduos tenham muitas coisas em comum, e também que todos tenham esquecido muitas coisas.¹

Os países, em geral, têm mitos que ajudam a forjar suas identidades. Não por acaso, são vistos como “dogmas nacionais”: as populações de tais países vêem tais mitos como valores muito importantes para si. Contestar alguns deles pode ser uma ofensa muito grande.

No Brasil, temos dois grandes mitos. O maior de todos é quanto ao futebol. É fato: experimenta dizer a “heresia” de que não temos o melhor futebol do mundo, ou pior ainda, que o verdadeiro “país do futebol” não é o Brasil (já li um artigo que defende a tese de que a Alemanha é tão “país do futebol” quanto o Brasil, tamanha é a paixão dos alemães pelo esporte). É, meu amigo, serás simplesmente massacrado por midiotas que repetem feito papagaios tudo o que certo locutor esportivo costuma dizer (no Twitter mandavam ele “calar a boca” só para fazerem farra). Se disseres que a Argentina é melhor que o Brasil ou que ela é o “país do futebol”, então…

Considerando que o futebol, gostem ou não, é o terreno onde melhor se expressa a “identidade nacional” brasileira, é compreensível tais reações. Porém, algo difícil de compreender é que se continue com o mito de que o Brasil é um “país abençoado por Deus”. Tem até música sobre isso:

Moro num país tropical, abençoado por Deus
E bonito por natureza, mas que beleza²

Tenho certeza de que moradores de rua em várias partes do Brasil andaram com vontade de ter uma conversinha com Jorge Ben Jor, autor da letra, perguntando onde fica o tal país tropical, já que o frio polar chegou até a Amazônia. Tudo bem que lá a queda da temperatura foi rápida, mas em Porto Alegre o frio é praticamente contínuo há duas semanas, com breves intervalos de calor (pouco mais de 20°C).

Agora, quanto ao “abençoado por Deus”, serve apenas para que se diga que o Brasil tem muitos problemas mas, em compensação, “não tem terremoto, tornado, furacão etc.”, males que afetam países mais desenvolvidos como Estados Unidos e Japão.

Nada mais ilusório do que isso. Pois se não temos terremotos arrasadores como os países citados, não raras vezes a terra treme em nosso país. Em dezembro de 2007, uma criança morreu quando a casa em que morava desabou devido a um tremor em Minas Gerais. Tudo bem que foi um terremoto fraco (se não me engano nem chegou a 5 graus na escala Richter), e que a casa provavelmente caiu por ser frágil, mas será que não é hora de parar com a história de que “aqui não tem terremoto”?

Outra ilusão é quanto aos furacões, como nos mostrou de forma trágica o Catarina em março de 2004. Há quem o credite às mudanças climáticas, já que foi o primeiro furacão documentado no Atlântico Sul. Se já houve outro no passado, só uma ampla pesquisa poderá nos dizer (afinal, se já aconteceu em outra oportunidade, é possível terem dito que foi um “temporalzão”, com base no mito de que “aqui não tem furacão”). E em março deste ano, uma nova tempestade tropical – que recebeu o nome de Anita – se formou próximo às costas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (tal qual o Catarina). Logo, é bom que as cidades litorâneas estejam preparadas para a ocorrência de furacões, ao invés de se continuar com a crença no mito. Até porque eles não provocam só vento, como também muita chuva – que já causou várias tragédias no Brasil, como as recentes enxurradas em Alagoas e Pernambuco.

E quanto aos tornados, nada mais furado do que acreditar que eles não acontecem por aqui. O centro-sul da América do Sul (ou seja, Paraguai, Uruguai, norte da Argentina e sul do Brasil) é a segunda região mais propícia à ocorrência de tornados no planeta. Ou seja, o que aconteceu em Canela na última quarta-feira não foi “fato isolado”, e seria bom que se tivesse no Brasil um sistema de alerta como nos Estados Unidos.

Mas para tudo isso se torne realidade, será preciso convencer a população do país de que não somos “abençoados por Deus” e que aqui tem tornado, furacão e até alguns terremotos, sem contar as enchentes e mesmo as secas, para que não haja absurdas reclamações de que “isso é caro e desnecessário” (e os “elefantes brancos” para a Copa e a Olimpíada, são o quê?): perguntem a quem perdeu pessoas queridas em tais eventos se não acham que as vidas valem muito mais. Sem contar que, mesmo se não houvesse nada disso, ainda assim o Brasil não seria “abençoado por Deus”, já que a fé em Deus (que eu não tenho) não é exclusividade brasileira: os argentinos teístas certamente acham que a Argentina é “abençoada por Deus”, e que seu “país temperado” é “bonito por natureza”.

Agora, se ainda quiserem continuar com a crença nesse mito… Quando vierem para Porto Alegre em fevereiro, não esqueçam do casacão, do gorro e do cachecol, afinal, aqui faz muito frio o ano inteiro – ainda mais durante a noite.

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¹ Original, em francês: “Or l’essence d’une nation est que tous les individus aient beaucoup de choses en commun, et aussi que tous aient oublié des choses”. Ver: RENAN, Ernest. Qu’est-ce qu’une nation? In: Oeuvres completes, 1, p. 892 apud ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 32.

² “País tropical”, letra de Jorge Ben Jor.

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Bicada de tucano é dolorida

Segunda-feira, aconteceu em São Paulo uma manifestação em frente à prefeitura da cidade, em protesto contra os alagamentos que persistem há três meses em partes da capital paulista.

Sim, três meses. Não falo dos transbordamentos do Rio Tietê, que sobe com as enxurradas e depois volta a seu nível normal. Há bairros da periferia paulistana que estão alagados desde novembro! Ou seja, antes das chuvas virarem pauta da “grande mídia” – que começou a falar do assunto apenas quando os carros passaram a ficarem presos em (ainda mais) congestionamentos gigantescos.

E o pior de tudo, é que os alagamentos na periferia não acontecem “por acaso”: para evitar que o Rio Tietê transborde e congestione as Marginais, fecham-se comportas de barragens, o que resulta em inundações nos bairros periféricos de São Paulo. Ou seja, além de não adiantar muito (já que o rio segue transbordando quando acontecem chuvaradas), trata-se de um evidente desprezo das autoridades pela população pobre.

Os manifestantes decidiram cobrar providências de seus (des)governantes, nada mais do que isso, em um protesto pacífico. Qual foi a resposta das “otoridades”? Porrada e spray de pimenta.

Qualquer semelhança com o Rio Grande do Sul, não é mera coincidência: afinal, tratam-se de dois Estados (des)governados pelo PSDB. E a prefeitura de São Paulo é do DEM, partido aliado dos tucanos.

Moral da história: dia 3 de outubro, cuidado para não votar errado.