Um sopro de pensamento crítico

Não costumo assistir ao “Fantástico”. Considero tal programa um verdadeiro convite à depressão.

Domingo passado, imaginava que o assunto principal seria o décimo aniversário dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Nem precisaria assistir para comprovar que estava certo: era mais óbvio do que chover para baixo.

Mas via Facebook, descobri que foi pior do que esperava: o “Fantástico” praticamente ignorou as enchentes em Santa Catarina, que podem não ter matado 3 mil pessoas como os atentados nos EUA, mas afetaram muitos milhares de pessoas. Exato: o programa deu mais importância a um acontecimento de dez anos atrás em outro país, do que a algo que acontecia na atualidade aqui no Brasil.

E eis que durante o almoço de hoje, tive uma grande (e positiva) surpresa.

Ouvia o “Sala de Domingo”, programa esportivo dominical da Rádio Gaúcha, quando o apresentador Nando Gross avisou que antes do jogo de hoje à tarde no Beira-Rio haveria arrecadação de donativos para os flagelados de Santa Catarina. Até aí tudo normal.

Só que então, Nando Gross comentou sobre o “Fantástico” do domingo passado, criticando o fato de se ter dedicado tanto espaço ao 11 de setembro de 2001, e tão pouco tempo ao que acontecia em Santa Catarina: segundo ele, foram apenas doze segundos. Exato: doze segundos, não minutos.

Cheguei a me beliscar para me certificar que não era sonho: um jornalista da RBS – que retransmite o sinal da Rede Globo para Rio Grande do Sul e Santa Catarina – criticando ao vivo o principal programa “global” de domingo à noite. O beliscão doeu uma barbaridade, então percebi que era real.

Bom, agora é esperar que a RBS, que se diz ardorosa defensora da liberdade de imprensa, mantenha na internet o áudio do “Sala de Domingo” de hoje, para que eu não passe por mentiroso. O trecho em que Nando Gross faz a crítica está aos 30 minutos de programa.

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SOS São Lourenço do Sul

Do RS Urgente, mensagem de Daniel Hammes:

Minha terra natal, São Lourenço do Sul, foi atingida por uma enchente que destruiu boa parte da cidade. Muitos amigos e familiares ficaram sem nada. Na segunda irei para lá numa caminhonete. Vou levar tudo que conseguir arrecadar. Abaixo alguns itens que estão sendo solicitados pela Defesa Civil:

– ÁGUA MINERAL
– COMIDA
– COLCHÕES/ ROUPAS DE CAMA
– ROUPAS (adulto e infantil)
– PRODUTOS DE HIGIENE E DE LIMPEZA
– FRALDAS INFANTIS E GERIÁTRICAS

Moro na Avenida Ijuí 133, ap 04 (Bairro Petrópolis). Meus telefones: 3209-0117 e 8478-2936. Quem tiver qualquer destes itens será muito bem recebido num momento de profundo sofrimento e dor desta comunidade. As sedes da OAB em Porto Alegre também recebem donativos:

Quem preferir fazer doação em dinheiro:

CAIXA (CEF) AG: 0512 C/C : 006.269-3 – PM – ENCHENTE São Lourenço do Sul

Prefeitura Municipal de São Lourenço – Ag. Banrisul 0870 / CC: 0402917907

Por que não ser solidário sempre?

A mobilização que se viu para ajudar as vítimas das chuvas no Rio de Janeiro me fez pensar sobre o quanto os desastres naturais acabam por despertar a solidariedade nas pessoas.

No dia-a-dia, costuma-se ser extremamente individualista. Quando se vê um mendigo pedindo esmola, geralmente não se justifica o fato de não dá-la porque isso não soluciona o problema (e de fato não soluciona, mas ao mesmo tempo, ficaríamos mais pobres por dar umas moedas ao cara?), mas sim, porque “se esse vagabundo quer dinheiro, que vá trabalhar!”. (Mas o imbecil que diz isso daria um emprego ao coitado?)

Então vem um desastre natural. Chuvarada, vendaval, terremoto. E muitas vezes vemos aquele furioso individualista, separando roupas e alimentos para doar às vítimas da tragédia.

A catástrofe fez o cara mudar, repensar suas atitudes? Não. É apenas uma “solidariedade de ocasião”. Pois reparem que geralmente as tragédias geram mobilizações quando suas vítimas não se resumem às classes mais baixas. Tanto nas chuvas do Rio quanto nas de Santa Catarina (2008), a classe média também foi afetada. E, como lembra a letra da música “Classe Média”, de Max Gonzaga, “toda tragédia só me importa quando bate em minha porta”. Ainda mais quando é no Sul ou no Sudeste.

Sendo assim, a mídia corporativa teve de noticiar. E sabem como é: se a televisão fala em solidariedade, em como “doar é bonito”, o médio-classista individualista tem de aderir, não pode ficar fora dessa.

Isso que quer dizer que condeno a solidariedade às vítimas da tragédia? Claro que não! Que bom que, ao menos nestas ocasiões, as pessoas se ajudam umas às outras. Mas não custaria nada sermos solidários sempre (até porque, ao mesmo tempo que ajudaríamos, também seríamos ajudados). Não só com quem perdeu sua casa, como também com quem não tem casa.

Por que não “flexibilizar” as leis ambientais

A tragédia das chuvas assola novamente o Rio de Janeiro, assim como no ano passado, em duas oportunidades (janeiro e abril).

O meteorologista do INPE Giovanni Dolif, em entrevista ao portal iG, lembra que já se registrou maiores volumes de chuva em curtos períodos (desta vez choveu cerca de 250 milímetros em Teresópolis), mas sem resultar em tantas mortes. O motivo?

Dolif lembrou que em Caraguatatuba, em 1968, chegou a chover cerca de 500 milímetros de uma só vez, mas que o número de mortos foi menor. “O estrago material, com queda de barreiras e deslizamentos, deve ter sido maior. Mas o número de mortos foi menor, afinal, a cidade tinha uma população menor naquela época,” diz. “A tendência desses desastres naturais é sempre piorar, por causa da maior ocupação, mais construções, etc.”

Percebe-se algo em comum entre vários desastres ambientais recentes no Brasil: construções em locais inadequados, desrespeito às leis ambientais… As mesmas que, em nome do “progresso”, certos políticos querem “flexibilizar”.

E vamos combinar que nem é necessário que as leis ambientais sejam mais rigorosas. Basta que as existentes sejam cumpridas.

Vamos cometer os mesmos erros de São Paulo?

Dezembro de 2009 está sendo terrível para os paulistanos em termos de chuva. As enxurradas que atingem a maior cidade da América do Sul já provocaram muitos prejuízos – inclusive em termos de vidas humanas.

As mudanças climáticas podem até mesmo serem responsáveis pelo excesso de chuvas – sem esquecermos o já conhecido El Niño, que tradicionalmente provoca aumento das precipitações, o que explica o horrível mês de novembro no Rio Grande do Sul, com muita chuva e consequentemente muito abafado (some-se isso ao estresse gerado pela monstrografia, e o resultado era a minha enorme vontade de ir morar em São Joaquim para fugir daquele calor desgraçado).

Porém, é preciso lembrar um problema sério: São Paulo é uma cidade muito impermeável. A água das chuvas não é absorvida pelo solo, tapado de asfalto e concreto. Resultado: ela escorre para os locais mais baixos, dentre os quais os rios Pinheiros e Tietê, cujos níveis aumentam rapidamente e invadem as pistas das marginais, congestionando praticamente toda a capital paulista e causando outros transtornos.

É o mesmo fator que explica os alagamentos em Porto Alegre (que ainda não está tão impermeabilizada como São Paulo, mas caminha a passos largos para isso). Boa parte da população acredita que asfalto é “progresso”. Resultado: muitas ruas são asfaltadas desnecessariamente (ou seria “eleitoralmente”?).

Lembro de quando o meu pai morava em um edifício na Rua Laurindo, bairro Santana. O prédio fica em uma baixada (inclusive, no local passava o arroio Dilúvio até meados da década de 1940, antes das obras de retificação), que sempre alaga quando chove, tornando impossível sair de casa em tais ocasiões. A situação piorou quando a Avenida Jerônimo de Ornelas (de movimento razoável, mas nada comparável às principais ruas da cidade), a uma quadra, foi asfaltada: não era mais preciso chover tanto para ocorrer inundação, e nas enxurradas a água já invadia o prédio (por sorte o apartamento não era térreo).

E agora, o próximo alvo do “progresso” é a Rua Gonçalo de Carvalho. Considerada a rua mais bonita do mundo, escapou do asfaltamento – e também da derrubada de metade das árvores – graças à mobilização de seus moradores e amigos em 2005, que resultou em seu tombamento como Patrimônio Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental de Porto Alegre, decretado pelo prefeito José Fogaça em 5 de junho de 2006.

O decreto municipal inclui o calçamento da rua, de paralelepípedos. Logo, asfaltar a Gonçalo é, em primeiro lugar, ilegal. Mas é também de uma burrice sem tamanho, pois além de resultar em mais água da chuva escorrendo para locais baixos, prejudicará consideravelmente as tipuanas que dão toda a beleza à rua: as raízes das árvores, com a menor quantidade de água absorvida pelo solo, irão crescer “para cima”, em busca do líquido necessário à sobrevivência, o que estragará as calçadas.

Ou seja: mais uma vez, o “progresso” volta-se contra a Gonçalo! E não esperem que isso saia na mídia: ela já provou que apoia tudo o que seja ruim para a natureza mas que dê lucro.

Não se preocupem, “vai piorar”…

Maio de 2009 foi o mês mais “improdutivo” desde o “nascimento” do Cão Uivador. Teve 19 posts, menos que maio de 2007 (que teve 21, mas com a ressalva de que o blog começou no dia 14). Novembro de 2007 teve  20 atualizações (até maio de 2009, era o mês com menos posts).

Se a estiagem no Rio Grande do Sul tinha (ou ainda tem?) como causadora o fenômeno “La Niña” – o mesmo que deixou o Norte e o Nordeste do Brasil debaixo d’água – a “seca de posts” no Cão se deve ao último ano de faculdade. À medida que dezembro se aproximar, a tendência é que o blog seja menos atualizado.

Mas esses últimos dias de maio também foram de poucas atualizações porque eu estava envolvido não só com o projeto de monografia (que será escrita no 2º semestre), mas também com um artigo para uma revista acadêmica. O prazo para o envio terminava ontem, e revisei o máximo possível. Menos mal que, mesmo que o artigo seja aprovado para publicação, provavelmente me será enviado de volta para corrigir alguns erros que devem ter passado e na hora não percebi.

Enfim: não abandonarei o blog, de jeito nenhum. Até porque ele poderá me ajudar a “arejar a cabeça” nos momentos de maior estresse ao longo dos próximos meses – e que certamente não serão poucos. Apenas diminuirá a frequência de posts.

Mas, após 11 de dezembro – último dia do 2º semestre na UFRGS, logo o último dia para a defesa do meu TCC (e que será o escolhido por mim, caso eu possa escolher…) – a chance de uma “enchente” no Cão, para compensar a “seca”, aumenta.

O que falta no Norte e no Nordeste foi jogado fora em Santa Catarina

Enquanto aqui no Rio Grande do Sul a previsão do tempo é animadora, no Norte e no Nordeste do país ela ainda não é. E são iguais nos dois casos: chuva. Só que aqui precisamos dela, enquanto lá ela provoca estragos e mortes.

Faz alguns dias, li notícias de que donativos enviados a Santa Catarina por causa da enchente de novembro passado foram enterrados. Sim, enterrados!

Não precisavam mais? Ou achavam que não precisavam mais? Pois se sobrou donativos, já poderiam ter sido mandados para os Estados agora atingidos pela cheia.

Além disso, vale a pena ler o artigo do Azenha, perguntando por onde anda a solidariedade com o Nordeste. Lembro que a enchente em Santa Catarina motivou campanha nacional de doação, virou capa da IstoÉ e levou o Jornal Nacional ao Estado. Não percebi nenhum esboço de ação semelhante agora. Pois parece que há mais preocupação com a “nova gripe”, que só atingiu o Sul e o Sudeste até agora – e no momento que escrevo, sei de apenas oito casos, nenhum fatal!

Os pró-pena de morte, o que acham?

Ouvi na Rádio Gaúcha a notícia que apenados do Presídio Central de Porto Alegre – um dos piores do Brasil – decidiram fazer jejum na próxima quinta-feira. O motivo? Os alimentos que eles comeriam, serão enviados aos flagelados de Santa Catarina.

E pensar que tentam nos convencer de que os presos são pessoas “más por natureza”…

Hora da solidariedade

O vídeo abaixo é do momento em que um avião da TAM sobrevoava Itajaí, antes de pousar no aeroporto de Navegantes, na última segunda-feira (24 de novembro). Mostra bem as dimensões do desastre que assola Santa Catarina:

Quinta-feira à noite, enchi dois sacolões com roupas que estavam literalmente deixadas de lado no meu roupeiro para a minha mãe levar para o serviço dela, onde fizeram uma campanha por doações para os flagelados. Li no blog do Hélio Paz que a família dele fez doação de roupas e calçados em grande volume.

Há várias possibilidades de se ajudar: seja doando roupas, alimentos (de preferência prontos para consumo, visto que muitas pessoas nem têm água potável para cozinhar), ou mesmo depositando dinheiro, mesmo que pouco, nas contas abertas pela Defesa Civil/SC. É um pequeno gesto de solidariedade, mas se todo mundo colaborar, será de grande valia.

Importante aviso: há notícias de e-mails com números falsos de contas para depósito de doações, que não são da Defesa Civil/SC – o dinheiro depositado nelas acabará no bolso de espertalhões que querem lucrar com a tragédia. As contas oficiais encontram-se neste endereço.

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Mas, antes de culpar apenas a natureza pela calamidade em Santa Catarina, dê uma lida na postagem do Guilherme Floriani, engenheiro florestal que reside em Lages. A tragédia é na verdade uma resposta da natureza contra as barbaridades feitas pelo bicho homem.

A volta do artilheiro com “congestão nasal” do gol

O Grêmio recontratou o centroavante Marcel. Aquele que não marcou gol contra o Botafogo (“existem coisas que só acontecem com o Botafogo, exceto levar o milésimo gol do Romário e um gol do Marcel”), que provocou uma enchente em setembro do ano passado, que fez chover com sol no Gre-Nau de outubro do ano passado…

Considerando o quadro de estiagem que boa parte do Rio Grande do Sul enfrenta, é bom que o Marcel comece logo a marcar seus gols.

(charge do Kayser)