Criança em tempos de eleição

Mais uma vez chega o dia das crianças e, claro, no Facebook boa parte dos meus contatos trocam a foto de perfil para remeter à infância. Fiz o mesmo com a minha, mas com o adendo de um selinho pedindo voto em Tarso e Dilma no segundo turno (ou seja, faça a vontade do bebê gordo da foto, do contrário ele não te deixa apertar as bochechas dele!).

A combinação entre “lembranças da infância” e “campanha eleitoral” obviamente me faz lembrar as eleições dos tempos em que eu era criança – e nas quais, obviamente, eu não votava. Embora isso não significasse exatamente que eu não tivesse alguma opinião.

A primeira eleição da qual tenho lembranças aconteceu em 15 de novembro de 1988: naquela terça-feira, foram eleitos vereadores e prefeitos municipais. Em Porto Alegre, Olívio Dutra venceu e deu início ao ciclo petista na prefeitura, que duraria 16 anos. Mas o que me marcou mais foi a “eleição” feita na minha turma do Jardim de Infância, no Esquilo Travesso: os coleguinhas pensavam diferente da maioria da população, e votaram majoritariamente em Guilherme Socias Vilella, do PDS; já eu era “brizolista” na época, por causa de minha avó (uma espécie de “retribuição” por ela fazer praticamente todas as minhas vontades, aliás, como as avós sempre costumam fazer), e assim dei meu voto a Carlos Araújo, do PDT – que acabou sendo o único que ele recebeu na turminha. Não recordo se Olívio recebeu algum voto, e se ninguém tiver optado pelo “bigode” eu nem estranharei: meu pai lembra que a escolinha era bastante cara para os padrões de nossa família e, pelo que a lógica indica, com predominância de alunos cujos país eram conservadores (tanto que o “eleito” pela turma foi um candidato da direita e da antiga ARENA, partido que apoiava a ditadura).

O ano de 1989 foi de mudanças. Ingressei na 1ª série do 1º grau, em novo colégio: fui para o Marechal Floriano Peixoto, estadual – como diz o meu pai, para aprender o conteúdo ministrado nas aulas e também para crescer sem ficar “apartado” da realidade brasileira (como, por exemplo, os problemas da educação), o que não aconteceria caso tivesse toda minha formação básica em escolas privadas. Na Europa Oriental o “socialismo real” baseado no modelo da União Soviética ruía, e tal dissolução era simbolizada pela abertura do Muro de Berlim, fato histórico que tive o privilégio de assistir pela televisão, embora sem entender qual era a importância de um (aparentemente) simples muro.

Já no Brasil, tinha eleição presidencial pela primeira vez desde 1960 (e foi também a última em um ano ímpar). Era o primeiro processo eleitoral totalmente regido pela Constituição promulgada no ano anterior, e o primeiro turno aconteceria justamente no dia em que o Brasil celebrava 100 anos da República (proclamada em 15 de novembro de 1889).

Na véspera do primeiro turno, novamente “votei” no colégio. Mas as “urnas” da minha turma no Floriano deram um resultado ideologicamente oposto aos de um ano antes, no Esquilo. Leonel Brizola, um dos dois principais nomes da esquerda naquela eleição (o outro era Lula), recebeu o meu voto e o da maioria dos colegas; se não me engano, só a professora votou em Lula e Fernando Collor não foi votado por ninguém. No dia seguinte, a eleição “para valer” consagrou Brizola no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro (ambos Estados dos quais ele foi governador), mas quem foi para o segundo turno (realizado em 17 de dezembro) foram Lula e Collor. O último foi eleito, mas sem nenhum voto dos colegas: as aulas terminaram cerca de uma semana antes do segundo turno e assim não houve nova “votação” na turma.


Em 29 de setembro de 1992, dia em que a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment de Fernando Collor, novamente a minha turma no Floriano foi consultada, e ninguém votou favoravelmente ao presidente. Definitivamente, Collor não era popular lá no colégio…

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A volta da reclamação anti-BBB

Começou o ano, e de novo toda aquela reclamação quanto ao BBB no Facebook (em número muito maior do que os comentários sobre ele, como era de se esperar). Ainda não vi ninguém compartilhar aquela imagem dizendo que a cada vez que alguém assiste ao programa um livro comete suicídio, mas não esqueço do comentário feito por meu amigo Paulo Alcaraz no ano passado: “fiquei com vontade de assistir, para ver se o Cinquenta Tons de Cinza se matava”. A frase continua perfeita, basta trocar o best-seller do ano passado pelo atual…

O que o comentário do Paulo quer dizer é: assim como existem programas ruins (e considero o BBB um deles), também há livros ruins. Em geral, trocar a televisão pela leitura é bom, pois não recebemos “tudo pronto” e com isso usamos mais a imaginação (tanto que jamais duas pessoas imaginarão de forma igual a mesma cena narrada em um livro); mas não é garantia de um entretenimento de qualidade.

Porém, o que chama a atenção, da mesma forma que no ano passado, é ver gente defendendo que devemos ler ao invés de assistir ao BBB, mas que não está lendo nada no momento. O motivo é óbvio: gasta tempo com suas reclamações no Facebook ao invés de abrir um livro – o que poderia render comentários bem mais interessantes.

Ninguém é (ou não deveria ser) obrigado a gostar de qualquer coisa. Se você acha que tem muita bobagem no seu Facebook, faça uma “faxina” nos seus contatos. E não me refiro apenas ao BBB no conceito de “bobagem”, pois ele varia de pessoa para pessoa: há quem não goste de propaganda eleitoral, religião, futebol etc.

Aliás, se tem coisa para a qual ultimamente ando sem saco é debate “grenalizado” sobre futebol, tanto que quando ele toma tal rumo prefiro nem participar mais. É muito pior do que comentários sobre o BBB. Muito pior mesmo.

16 + 16

Em alguma aula no colégio, sobre corpo humano – mais especificamente, sobre a boca – tive noção do que significava o número 32. A professora falou algo sobre dentes de leite, aqueles que ficam “moles” e caem, sendo substituídos por aqueles que nos acompanham pelo resto da vida (desde que os escovemos, é claro). Achei incrível quando ela disse que podemos chegar a ter 32 dentes. “Mas tem lugar para tudo isso?”, imaginei.

(Na minha boca, de fato, não houve: um siso nunca veio, se bem que não me faz nenhuma falta. Os outros “dentes do juízo” nasceram e foram extraídos, sendo que o único inferior veio torto e ainda provou que realmente faltava espaço: começou a “empurrar” os demais, causando dor imensa e me levando a ficar duas horas com a boca aberta enquanto o dentista colorado fazia a cirurgia e, espertamente, aproveitava para me flautear sem precisar ouvir o troco. Experiência traumática, portanto.)

Pensar na falta de espaço para tantos dentes na boca me dava a ideia de que o número 32 significava “muito”. E em alguns casos, realmente é “bastante”: 32 graus, por exemplo, me faz pensar em ligar o ar condicionado (com 25 já começo a olhar para o ventilador e a pensar nele ligado). Não pensava que significava tanto em idade, por saber que em média vivemos bem mais. Só comecei a achar que era um certo sinal de “velhice” quando vi referências a jogadores de futebol com 32 anos de idade como sendo “velhos” – não tinha noção de que o fôlego para jogar bola não dura para sempre.

Porém, o 32 realmente mostra ser “bastante” quando divido-o por 2: o resultado é 16. Ter 32 anos, portanto, é ter duas vezes 16.

O dia em que completei 16 anos foi um dos mais aguardados da minha vida. Tive noção do que significava tal idade em alguma campanha eleitoral, em 1988 ou 1989: queria votar, mas meu pai disse que teria de esperar até os 16 anos. Ali, de certa forma, comecei a contagem regressiva para 15 de outubro de 1997.

Demorou uma barbaridade, afinal, o tempo que faltava era mais do que tudo o que tinha vivido. Mas chegou, há exatos 16 anos… A eleição seria apenas no ano seguinte, mas ainda naquele mesmo mês fui fazer o título de eleitor, que exibia com o mesmo orgulho que muita gente exibe a carteira de motorista aos 18 anos de idade.

Agora, passou-se o mesmo tempo que tinha sido decorrido desde o meu nascimento até aquele 15 de outubro de 1997. Ruim? Nem um pouco. Tem gente meio “neurótica” com isso, talvez porque acredita naquela história de que existem “idades certas” para se fazer certas coisas. E assim não curtem o que de melhor a passagem do tempo oferece: a maturidade.

Sobre a eleição de Renan Calheiros à presidência do Senado

Ontem, Renan Calheiros foi eleito para presidir o Senado pelos próximos dois anos, o que gerou uma justa indignação: ele já foi presidente do Senado de 2005 a 2007, tendo renunciado devido a denúncias de corrupção. E algumas coisas me chamaram a atenção.

A primeira delas foi o tom dos comentários da direita (aquela turma para a qual a corrupção surgiu em 2003). Vários deles falavam de “gente que troca o voto por um prato de comida”: resumindo, acham que a culpa “é do povo que não sabe votar”, e que a isso se deve a eleição de várias “figurinhas carimbadas” da política brasileira como Renan Calheiros e José Sarney (que, vale lembrar, não eram tão odiados durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, ao qual apoiavam). Porém, por que eles não questionam o motivo de existir “gente que troca o voto por um prato de comida”? Afinal, quem faz isso obviamente come pouco ou nada – então, o combate à fome já ajudaria a diminuir esse problema. (Só que aí os mesmos que reclamam das pessoas que vendem o voto diriam que é “populismo”.)

Por outro lado, também foi decepcionante a atitude acrítica de muitos petistas (inclusive Paulo Paim), justificando o apoio do partido à eleição de Renan e dizendo que os contrários são “tucanos”. Seus argumentos podem ser resumidos em poucas palavras: “temos de garantir a governabilidade, porque o PT não tem maioria no Congresso”. Sim, é verdade, mas então por que o partido não se mobiliza nas eleições para aumentar sua bancada, de modo a não depender mais de PMDB e afins? Depois de 10 anos no governo, parece que boa parte do PT ingressou numa “zona de conforto”, achando que “em time que está ganhando não se mexe”: o problema de pensar dessa forma é só perceber os erros após uma derrota.

O passado não volta, mas pode servir de inspiração

Vez que outra, sou tomado pela nostalgia. Nada mais normal no ser humano do que, em um dia ruim, desejar muito que o tempo volte apenas para reviver dias mais felizes.

Depois a nostalgia passa, e percebo que é impossível voltar no tempo. Não tem jeito: o passado literalmente passou, e se o presente é ruim, que se faça algo para que o futuro seja melhor.

Porém, isso não quer dizer que o passado deva simplesmente ser jogado em “um canto” da memória (aliás, se eu concordasse com isso deveriam cassar meu diploma de História). Ele precisa ser relembrado, tanto em seus aspectos bons como nos ruins: as coisas boas podem muito bem servir de inspiração na construção do tão sonhado futuro melhor, já as ruins devem ser recordadas para que não cometamos erros semelhantes.

Os parágrafos acima se devem à eleição de hoje no Grêmio, na qual tenho três opções: o presente, o passado errado, e o passado nostálgico.

O presente do qual falo, obviamente, é Paulo Odone. É preciso ser extremamente desonesto para dizer que ele é um dos piores presidentes que o Grêmio teve: quem acha isso, não sabe o completo fracasso que foram as gestões de Flávio Obino, Rafael Bandeira dos Santos, e mesmo a de Cacalo (foi um grande vice de futebol, mas como presidente ganhou apenas um título, a Copa do Brasil de 1997, ainda com o time de 1996). Sem contar José Alberto Guerreiro, que até ganhou a Copa do Brasil de 2001, mas deixou o clube endividado, à beira da falência. Já Odone assumiu no pior momento da história do Grêmio (no início de 2005 o Tricolor estava rebaixado e afundado em dívidas até a testa) e, não se pode negar, conseguiu tirar o clube do inferno, embora não o tenha posto no paraíso, como dizem: boa parte da dívida com o condomínio de credores (uma boa iniciativa de Odone) foi quitada no biênio 2009-2010, ou seja, quando Duda Kroeff era presidente.

Porém, vem sendo muito repetida a afirmação de que só o Odone quis assumir a bronca. Não é verdade: em 2004 houve eleição para presidente do Grêmio e Odone não foi candidato único, teve de enfrentar Adalberto Preis e Antônio Vicente Martins – inclusive, foi a primeira vez em que os sócios foram chamados a elegerem o presidente e eles escolheram Odone.

Outro fato é que o estilo de Odone não me agrada nem um pouco. Não me esqueço de suas entrevistas após derrotas do Grêmio, quando para fugir do assunto ele falava de Arena, imortalidade, Batalha dos Aflitos… Sem contar o fiasco daquela negociação com Ronaldinho.

Assim, se não me agrada o presente, me restam duas opções ligadas ao passado. A primeira, é a de Homero Bellini Júnior, que é do mesmo movimento político de Guerreiro e era vice jurídico do Grêmio em 2001, quando Ronaldinho saiu praticamente de graça do clube. Ou seja, posso até estar sendo injusto com Bellini (que nunca foi presidente, ao contrário de Odone e Koff, que assim podem ter melhor analisados seus defeitos e qualidades), mas ele representa o “passado errado” do qual falo.

Assim, prefiro ficar com o “passado nostálgico”, que obviamente atende pelo nome de Fábio André Koff. Trata-se do presidente mais vitorioso da história do Grêmio (que, vale lembrar, não começou em 2005): com Koff, o Tricolor comemorou títulos, e não vagas. Mesmo que a classificação para a Libertadores de 1983 tenha vindo com um vice-campeonato (no Campeonato Brasileiro de 1982), o Grêmio não se contentou em comemorar a vaga, e tratou de ganhar a América e, depois, o Mundo. Então Koff saiu e voltou em 1993, para reerguer o Grêmio que voltava da Série B: ganhou a Copa do Brasil de 1994, a Libertadores de 1995 (assim foi ao Mundial e perdeu nos pênaltis para o timaço do Ajax), e se despediu da presidência com a conquista do Campeonato Brasileiro de 1996.

Porém, votar em Koff não é mero pensamento mágico, do tipo “voltar a 1995” – até porque, como já disse, o passado não volta. Nem é votar “pelo fim do projeto Arena”, como alguns dizem: na chapa de Koff está Adalberto Preis, presidente da Grêmio Empreendimentos (responsável pela Arena) durante a gestão de Duda Kroeff – vale lembrar que a obra começou em 2010, ou seja, com Kroeff e Preis.

Voto em Koff também porque não suporto mentiras. Muitas li (em panfletos apócrifos) e ouvi: além da tolice de que ele iria “acabar com a Arena”, também vieram com o papo de que ele “abandonou o Grêmio”, quando a verdade é que ele ajudou muito o clube – clique aqui e leia o item 3. (E é bom lembrar que Odone se licenciou da presidência para concorrer a deputado estadual em 2006: por que ninguém se queixa de seu “abandono”?)

E quanto a Fábio Koff “ter ajudado Fernando Carvalho”… Sinceramente, não vejo motivos para ficarmos tão bravos, tão “amargos”. Pelo contrário, é uma flauta a mais que podemos tocar em nossos rivais: sozinhos, eles não ganham nada!

Aliás, era o que acontecia naqueles anos inesquecíveis de Koff à frente do Grêmio: enquanto eles se matavam por uma vaguinha nas finais dos campeonatos que jogavam, nós levantávamos taças. O ano de 1995, por exemplo, foi um dos mais sensacionais que tive: além da turma do colégio, foi muito marcante aquela Libertadores que se somou à de 1983 e a muitas outras taças que o Tricolor ganhou com Fábio Koff na presidência.

Coragem de mudar

O título deste texto foi o lema da vitoriosa campanha de Olívio Dutra à Prefeitura de Porto Alegre na eleição de 1988. Contrariando as pesquisas, que apontavam Antônio Britto (então no PMDB) como favorito, Olívio foi eleito em 15 de novembro, e Britto acabou em 3º lugar, sendo superado por Carlos Araújo (PDT). Foi o marco inaugural dos 16 anos de gestões petistas em Porto Alegre, uma experiência que deu muitos exemplos ao mundo.

Uma das maiores dificuldades que as pessoas têm na vida se chama “mudança”. Manter tudo como está, em todos os aspectos, é mais cômodo do que tentar fazer diferente. Não por acaso, muita gente tem verdadeiro pavor a qualquer tentativa de mudar as coisas – como a própria palavra explica, são os conservadores.

E não é apenas a sociedade que é difícil de ser mudada. Pois muitas vezes nós mesmos adiamos necessárias mudanças em nossas vidas, pelo simples fato de não aceitarmos que isso se deve a uma opção errada que tomamos anteriormente. Afinal, uma mudança de rumos significa admitir tal erro.

Penso nisso justamente por olhar o calendário. Estarmos em março de 2012 significa que se passaram 10 anos daquele março de 2002, quando começou uma grande reviravolta na minha vida: comecei a admitir que tinha errado (e feio!) na escolha de que faculdade cursar: quando eu cursava o último ano do Ensino Médio, em 1999, não tinha a menor ideia de que curso escolher para o vestibular – quando fazia testes vocacionais, indicavam que “minhas áreas” eram tanto Ciências Exatas como Humanas. E como minhas melhores notas no colégio eram em Física… Bom, não preciso dizer mais nada.

Passei muito bem no vestibular, e comecei a frequentar o curso de Física da UFRGS em março de 2000. Levei dois anos até admitir que estava no lugar errado, embora já houvesse indícios disso que só muito depois fui perceber – e bem além de minhas notas serem lastimáveis (quando eu não rodava nas cadeiras, ficava com o medíocre conceito “C”).

Se era difícil tirar uma boa nota em uma cadeira como Equações Diferenciais, onde o professor muitas vezes ocupava uma aula inteira para explicar a resolução de um (!!!) problema cheio de números imaginários e letras gregas, mais ainda era admitir que havia errado na escolha do curso e que não tinha mais jeito de continuar naquela situação: era preciso recomeçar. Ou seja, enquanto os amigos “seguiam em frente”, construindo seus futuros, eu voltava à estaca zero.

Foi uma das decisões mais difíceis que já tive, mas também foi a mais sábia de todas. Em março de 2004, quando alguns amigos já estavam se formando, comecei o curso de História da UFRGS, que concluí no final de 2009. No momento atual, apesar de não exercer a profissão de historiador (leia-se “ganhar a vida” desta maneira), vejo os seis anos de faculdade como importantíssimos em relação à minha maneira de pensar atual, graças ao que aprendi dentro e fora das salas de aula.

Assim, se tem um conselho que eu posso dar a qualquer pessoa, este é: não ter medo de mudanças. Elas podem até não dar certo, mas ao menos não causam aquela sensação de arrependimento por não se ter tentado.

Não me surpreende nem um pouco

Ontem, foi denunciado que a página da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo tratava o golpe de 1964 como “revolução democrática”. Fui ver, estavam lá as palavras que nada têm a ver com o que aconteceu no Brasil em 1964. Para não acharem que estou inventando, vale a pena lembrar que isso virou notícia na Folha de São Paulo, que de “comunista” não tem nada.

A informação, que constava na cronologia da SSP, foi retirada da página. Mas com a desculpa do governo paulista de que “o texto relacionado ao ano de 1964 não reflete o pensamento da Secretaria de Segurança Pública”. Vou fazer de conta que acredito, depois de tudo o que temos visto recentemente por lá…

São Paulo é hoje o principal reduto do PSDB. O partido está no governo estadual desde 1995. Jovens de 16 anos que votarão pela primeira vez na próxima eleição, jamais viveram sob governo de outro partido no Estado.

Alguém pode achar que por conta disso, comparo os governos do PSDB em São Paulo à ditadura militar, mas está redondamente enganado. Tempo de governo não é pré-requisito para uma ditadura – embora todo regime autoritário que se preze busque se perpetuar. A intensidade da repressão me parece um “ditadômetro” melhor. A Argentina é um bom exemplo: lá o último regime militar durou apenas sete anos e meio (1976-1983); menos, portanto, do que o governo de Carlos Menem, presidente que ganhou duas eleições e ficou dez anos no poder (1989-1999). A diferença é que os governos militares (sim, foram vários ditadores em sete anos e meio) causaram a morte e/ou o desaparecimento de 30 mil pessoas.

Ou seja, é mais às atitudes dos governos, do que à sua duração, que devemos ser críticos. E no caso de São Paulo, é notório que o governo estadual trata a questão social como “caso de polícia”. Mais do que isso: é “caso de batalhão de choque”.

Nada muito diferente, portanto, da ditadura militar, que foi iniciada com a “revolução” até ontem exaltada na página da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Por isso não fiquei nem um pouco surpreso.

Pelo fim dos eleitos antes da eleição

Eu já tinha visitado o blog da Terceira Via, mas agora reparei num detalhe que me deixa mais inclinado a votar na chapa, que é a de número 3 nesta eleição para o Conselho Deliberativo do Grêmio. (Além, é claro, do que li sobre as outras duas chapas ao longo da segunda-feira, tanto textos como comentários.)

De acordo com o panfleto disponibilizado no blog, as chapas 1 (Renova Tricolor) e 2 (Dá-lhe Grêmio) têm nove nomes em comum. Confesso que não tive saco para verificar as duas nominatas (afinal, ambas têm 180 integrantes) em busca dos nomes repetidos, mas não vejo motivo algum para duvidar do que diz o folder da chapa 3: em 2007, as nominatas das três chapas tinham “coincidências”.

É bizarro, mas real. Barbada garantir a eleição: basta fazer parte de todas as chapas…

Como mudar isso? É um tanto óbvio que à maioria dos que já fazem parte do CD – e principalmente aos nove que estão tanto na chapa 1 como na 2 – não interessa a mudança nas regras, proibindo a participação em mais de uma chapa por eleição. Isso sem falar na redução da cláusula de barreira, que atualmente é de 30%, permitindo que uma chapa possa ganhar todas as cadeiras recebendo pouco mais de 40% dos votos: basta que as outras duas chapas não alcancem os 30% necessários para elegerem conselheiros.

Não podemos generalizar, fazer uma maquiavélica divisão. Todas as chapas têm seus bons nomes. O problema são os ruins… Nas chapas 1 e 2, nós já conhecemos muitos. Na 3, todos são “marinheiros de primeira viagem”, e com raras exceções, não sabemos quais são os que valem e os que não valem a pena – o que me deixava mais relutante.

Porém, depois reparei no que é lógico: a única maneira de sabermos quais os integrantes da Terceira Via que serão bons conselheiros é dando-lhes uma oportunidade. E se o problema é “experiência” no Conselho, ainda haverá conselheiros “antigos”: os eleitos em 2007 têm mandato até 2013, e para que todos os que irão assumir agora sejam novos, as chapas Renova Tricolor e Dá-lhe Grêmio teriam de fazer, ambas, menos de 30% dos votos, o que não considero muito provável que aconteça.

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Atualização (07/09/2010, 18:19). Em comentário, o André Kruse novamente complementou uma informação passada (mais uma vez, agradeço): um dos nomes que estavam em duas chapas desistiu, e assim há oito pessoas que estão tanto na Renova Tricolor como na Dá-lhe Grêmio.

No Uruguai, a esquerda se uniu…

E venceu!

A vitória foi em segundo turno, é verdade. Aliás, que lá foi criado por iniciativa da direita, dividida em dois partidos (Nacional e Colorado), que sentiu: mais cedo ou mais tarde, seria derrotada pela Frente Ampla, surgida da união entre os diversos partidos de esquerda do Uruguai. Mas que mesmo assim é uma ótima medida: com o eleito tendo maioria absoluta dos votos, tem maior legitimidade para governar.

Os partidos conservadores já tinham sentido o medo de perder para a esquerda na eleição presidencial de 1994, assim, conseguiram aprovar a mudança das regras eleitorais. E assim, no pleito de 1999, Tabaré Vásquez foi o primeiro colocado no primeiro turno, mas no segundo perdeu para Jorge Batlle, que recebeu os votos tanto de seu partido (Colorado) como dos antigos adversários blancos (Partido Nacional).

Já em 2004, Vásquez venceu, e no primeiro turno, ao receber mais de 50% dos votos. Em seu governo, iniciado em 1º de março de 2005, diminuiu a pobreza e melhorou a situação econômica do Uruguai, após o país passar por grave crise econômica em 2002, com a população saindo às ruas e fazendo panelaços, assim como os vizinhos argentinos.

Agora, José “Pepe” Mujica recebe a incumbência de dar continuidade às ações de Vásquez, que deixará a presidência do Uruguai com altíssima popularidade, no dia 1º de março de 2010. Com legitimidade dada por mais de 50% dos votos – considerados brancos e nulos. Vitória da esperança. Vitória do povo, que tem o poder em suas mãos, em seus corações.