Os “esclarecidos” do Brasil

Conheço muitos que votaram em José Serra e não são xenófobos. Mas é fato que os “esclarecidos” que pregam o ódio ao Norte e ao Nordeste digitaram o “45” no domingo.

Tenho certeza de que dentre os reacinhas que destilam ódio contra nortistas e nordestinos no Twitter há gaúchos que reclamam de preconceito contra o Rio Grande do Sul. Hipocrisia é dose!

Estes demonstram que não são “esclarecidos” como se acham. Não apenas por suas mentalidades tacanhas, fascistas. Mas também por sequer saberem Matemática: Dilma teria sido eleita mesmo que não se considerassem os votos do Norte e do Nordeste.

Por conta da onda de xenofobia, a seção Pernambuco da OAB entrou com uma representação criminal na Justiça de São Paulo contra a estudante de Direito Mayara Petruso, por racismo e incitação a homicídio. Que sirva de exemplo.

Sobre vínculos entre Brasil e Bulgária

A vitória de Dilma foi comemorada não só por seus eleitores no Brasil, como também na Bulgária, pátria natal de seu pai. Petar Russév nasceu em Gabrovo, cidade situada no centro do país de Hristo Stoichkov, e no Brasil passou a assinar Pedro Rousseff.

A referência ao goleador da Copa do Mundo de 1994 não é apenas em homenagem ao craque que me fez descobrir a Bulgária (assim como Gheorghe Hagi serviu para que eu soubesse da existência da Romênia). É que vou falar de futebol, depois de tanto tempo praticamente só escrevendo sobre política… Melhor: de história do futebol.

No dia 25 de abril de 1961, Stejan Petroff foi ao estádio assistir ao jogo de seu time, o CDNA (atual CSKA de Sófia), campeão búlgaro. Torcedor fanático, preferiu ir ao futebol enquanto sua filha nascia no hospital… E por conta disso, viu seu time levar uma goleada de 5 a 1, fora o baile. Saiu do estádio tão encantado com a atuação do adversário, que decidiu fazer uma homenagem.

O adversário se chamava Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, que realizava vitoriosa excursão à Europa. E Stejan Petroff decidiu dar à filha que nascia enquanto o Tricolor jogava na capital búlgara o nome de Gremina.

Um ano depois, o Grêmio fez nova excursão à Europa e jogou novamente na Bulgária, quando a delegação teve a oportunidade de conhecer Gremina Petroff, que foi nomeada “Afilhada do Grêmio”.

Atualmente, é médica pediatra, e assina Gremina Beliov – casou-se e perdeu o sobrenome de solteira. Os contatos mais recentes com ela datam de 2003, época do centenário do Grêmio.

Seria interessante o marketing do Tricolor aproveitar a maior exposição do Brasil na imprensa búlgara para divulgar mais essa história (e por consequência, o Grêmio) por lá.

Dilma lá

No início desta noite de 31 de outubro de 2010, o Brasil vive um momento histórico, ao eleger pela primeira vez uma mulher para a Presidência da República.

Mais do que uma vitória das mulheres brasileiras, é também uma acachapante e merecidíssima derrota da direita reacionária (a “grande mídia” incluída). De nada adiantaram as manipulações, os boatos, as correntes, os trolls, a “polêmica” sobre o aborto…

Perderam! Bem feito!!!

Enfim, é hora de comemorar a vitória de Dilma – que significa a derrota reacionária. Mas depois, é preciso que não deixemos de ter um olhar crítico sobre o governo Dilma.

E vamos curtir, mais uma vez, o samba que podemos considerar a trilha sonora desta vitória:

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Atualização (31/10/2010, 21:37): Quando falo em derrota da direita reacionária, claro que me refiro apenas ao processo eleitoral, pois é preciso ficar de olho em suas movimentações. Quando o “jornalista” Arnaldo Jabor compara 2010 com 1963 (todos sabem – ou deveriam saber – o que aconteceu em 1964), se isso não é pregação golpista, sei lá o que é.

Estamos nos acréscimos

Acabou “o jogo”, ou seja, a votação (pelo menos aqui em Porto Alegre). Agora é esperar o resultado final.

Felizmente, parece que ele não será como o daquele inesquecível confronto entre Grêmio e Palmeiras pela Libertadores de 1995, que eu lembrei há pouco mais de duas semanas. Na comparação, podemos dizer que a campanha de Dilma “marcou o gol”, e ainda contou com a ajuda de Serra, que marcou um “golaço contra”: aquela bola – melhor, bolinha de papel – foi “no ângulo”!

Não há argumentos pró-Serra

O texto abaixo foi escrito por meu amigo Fábio Castilhos Figueredo, professor de Língua Portuguesa, e que há um ano ministra aulas no Timor-Leste (mas em breve estará de volta ao Brasil). Leiam:

“Por que não votar na Dilma.” Ou “Votar na Dilma, por que não?”

Todas as pessoas que me conhecem sabem que sou libriano. E como tal, adoro fazer ponderações de toda ordem (mais bunda, menos bunda; beleza, inteligência; esquerda, direita). Sou aquele tipo de libriano que adora ser gentil e perguntar a todas as pessoas “E tu? Prefere o quê?” só para não ter comigo a responsabilidade de escolher o cardápio do dia. No entanto, depois de algumas ponderações, sei perfeitamente escolher, desde que tenha tido a oportunidade de observar todos os pontos.

Como também devem saber, estou vivendo um ano fora do Brasil. Justamente ano de eleição. Apesar de não ter transferido meu título para cá, para não ter toda a burocracia de refazer o processo novamente ao chegar no Brasil, tenho acompanhado os debates e as propagandas políticas da melhor forma possível. Acompanhei algumas propagandas do Tiririca e seus atuais confrontos com a Justiça Eleitoral; fiquei sabendo das vitórias de cada estado; concordei com as derrotas, tanto eleitorais como judiciárias, de muitos medalhões. Por estar mais próximo de pessoas de outros recantos do Brasil, acompanhei a eleição em quase todo o território, do Ceará ao Rio de Janeiro, de Minas Gerais a Bahia. No entanto, não tenho uma televisão para isso.

No Brasil eu gostava de acompanhar o horário eleitoral. Não era, nem sou, um fanático, mas gostava de poder saber porque poderia votar neste ou naquele candidato. Com essa distância das urnas (entenderam a metáfora?), recebi muitas manifestações pela internet, meio de comunicação maravilhoso, pois não tem filtro, é público e nem um pouco criterioso. Como na internet todos podem mandar o que quiserem para quem quiserem, recebi toda a sorte de correntes, piadas, charges, manifestos políticos.

O que me chama a atenção é que os lendo, senti uma grande falta do que se dizer. Sou professor, eu trabalho com a Língua Portuguesa, ela é meu meio de sustento; sua escrita é meu objeto de estudo; sua argumentação é meu mestrado. Como professor, posso afirmar que li muitas comparações entre os governos Lula e FHC, li ponderações sobre os feitos de um e de outro; admito que FHC foi essencial para o Brasil durante 8 anos de mandato; reconheço que os 8 anos de governo Lula foram os mais crescentes da nação. Não há como negar que a população brasileira teve seus momentos de glória durante a presidência de FHC, mas conseguiu ser mais emergente no governo Lula. Não vamos dar todos os méritos para o Lula, pois sabemos de suas falhas, de seus exageros e de seus “eu não sabia de nada”; contudo, não é possível canonizar um FHC que pouco investiu em educação, saúde e segurança, apesar de tê-lo feito em economia, somente.

Os candidatos que ao povo se apresentam para o pleito devem de fato continuar o trabalho de um ou de outro. O problema, para mim, é como farão isso. Recebi muitas propostas para o governo Dilma. Com algumas concordo, com outras discordo.

Sobre o candidato Serra, nada recebi de proposta. Sempre que abro minha caixa de e-mail recebo diversos pedidos para não votar na Dilma, mas em nenhum deles me dizem seriamente porquê. Não devo votar na Dilma porque ela é mulher; porque ela é dentuça; porque o amigo dela fala errado; porque foi guerrilheira; porque supostamente não vai poder viajar senão será presa logo após a aterrissagem do avião; porque ela é o diabo, vai provocar o armagedom e obrigar as pessoas a fazer abortos. Se descarregar minha caixa de mails, há uma infinidade de piadas (muitas sem graça) para que apenas não vote na Dilma. Mas vou votar em quem? No Serra? Por quê?

A argumentação em Língua Portuguesa se sustenta em vários alicerces. Podemos usar desde o discurso de autoridade até uma argumentação baseada na escolha das palavras. Como linguísta, prefiro observar a linguagem nela mesma. Se um discurso é bem feito, é porque houve uma série de escolhas, de escritas, de construções que o fizeram ser bem feito. Confesso que não recebi nenhuma proposta ou discurso para que imaginasse votar no Serra, nem uma frase, nem uma proposta, nem uma ideia; apenas os clássicos “não vote na Dilma”.

Então me questiono: “Votar na Dilma, por que não?” Desde incentivo à Educação, aos professores e às universidades; desde o combate ao racismo e à violência contra a mulher; desde uma avaliação das diversas bolsas-caridade espalhadas no país, o que aparece como ideia ou descontentamento do brasileiro, meus descontentamentos atuais, estão presentes nas propostas dela. Não como uma coisa extremamente nova, mas como um ajuste ao que vem sendo feito pelo atual governo.

Sei que ninguém é ingênuo na Política. Por vezes, ingênuo é o povo brasileiro, que se deixa levar pelo riso fácil ou pelo discurso religioso. Meus amigos que me conhecem sabem que não sou dado a mails de corrente e de bobagens a toda hora. Se me dou ao trabalho de escrever essas duas páginas de texto, é porque sei que os que lerão poderão perceber que ainda sou o ponderado de sempre. Colocar uma mulher na presidência, por que não?

Prof. Ms. Fábio Castilhos Figueredo

Este é o candidato da TFP…

Olhem a declaração de José Serra:

Se é menina bonita, tem que ganhar 15 [votos]. É muito simples: faz a lista de pretendentes e manda e-mail dizendo que vai ter mais chance quem votar no 45.

Cada vez mais Serra comprova que merecerá o esquecimento como político após essa campanha eleitoral. Depois da baixaria sobre o aborto, das mentiras sobre a “democracia ameaçada” e da bolinha de papel, agora vem com esta sugestão de que mulheres peçam votos oferecendo sexo em troca (sim, se é para dizerem que “vai ter mais chance quem votar no 45”, é chance do quê?). Além de demonstrar seu machismo, o tucano comporta-se como “cafetão” – tanto que a hashtag #serracafetao chegou a ter destaque nos TTs do Twitter.

A propósito, gostaria de saber o que a TFP, brava defensora “da moral e dos bons costumes” e apoiadora do candidato tucano, acha disso…

Por que votar em Serra

É simplesmente genial a campanha #votoserrapq, do blog Brasil e Desenvolvimento. O vídeo, carregado de ironia, demonstra o pensamento de muitos dos eleitores de Serra, que obviamente eles não assumem (até porque muitas vezes o defendem sem terem noção disso). É como o Classe Média Way of Life, que muitos seguem à risca sem jamais terem lido o sensacional blog.

Afinal, a ironia serve justamente para isso: fazer as pessoas pensarem, e perceberem o que afinal elas andam fazendo e/ou defendendo.

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Agora, (mais) um bom motivo para não votar Serra: o PL 84/99, ou AI-5 digital, cujo autor é tucano, o senador Eduardo Azeredo.

O Brasil não precisa disso

Depois da bolinha de papel, agora há um rolo de fita adesiva. O vídeo que um jornalista da Folha de São Paulo gravou com seu celular, exibido pela Globo e analisado por um perito (cuja especialidade é áudio), deixa bem claro: José Serra foi agredido duas vezes. (Sim, seja bolinha de papel, fita adesiva ou simples palavrões, agressão é agressão e isso deve ser repudiado.)

Não mudo minhas afirmações de ontem: a atitude dos militantes petistas de protestarem contra Serra foi extremamente burra, por ser óbvio que isso resultaria em confusão, já que o tucano estava acompanhado de muitos apoiadores. Assim como continuo a considerar a própria campanha de Serra como responsável pelo clima de intolerância no atual processo eleitoral. Foram eles que começaram toda a baixaria com as correntes, as fichas falsas de Dilma, os trolls (muitas vezes, pagos para tumultuar os debates na blogosfera de esquerda) etc.

Resta torcer para que, sendo derrotado, o PSDB reveja sua maneira de fazer campanha. Pois o Brasil não precisa de ódio na política, como aconteceu em tempos tão sombrios (e nem tão distantes) de sua História.