“Amor”, uma mercadoria

Em fevereiro, escrevi uma postagem sobre algumas vantagens da “solitude” – que é estar só por livre e espontânea vontade, diferentemente da “solidão”, que denota sofrimento por tal situação. “Complementei” aquele texto quatro meses depois, lembrando (ou seria melhor “comemorando”?) que eu poderia assistir Inglaterra x Estados Unidos no dia 12 de junho, pela Copa do Mundo, sem ter de desviar minha atenção do futebol depois do apito final. O jogo foi uma bosta, mas deixemos isso pra lá – ao menos teve aquele frangaço do Green.

Mas sei que muita gente sofreu naquele dia – e não foi por não ter visto o jogo. Pois conforme eu comentei no texto de fevereiro, existe uma espécie de “ditadura da companhia”, que faz “pegar mal” estar só em certos lugares e/ou situações. E mais: é ela que leva muitas pessoas a acreditarem que os solteiros estão invariavelmente “em busca de um amor” – e que, quanto mais tempo passam solteiros, mais “incompetentes” são no quesito “vida amorosa”.

Com tanta gente achando que a solteirice é sinal de “incompetência no amor”, obviamente ela é abominada pela maioria. Daí o desespero para “encontrar o amor” (ou seja, mais um reforço para aquela ideia do parágrafo anterior), o mais rápido possível, sem se ter muito tempo para conhecer a pessoa, saber do que gosta, o que pensa. Pois “demorar demais” significa conviver mais com o rótulo de “incompetente”. E com a atual correria do dia-a-dia, que faz sobrar menos tempo para se conhecer novas pessoas, a pressa parece cada vez mais não ser uma opção, e sim uma necessidade. (Aí vemos tantos relacionamentos efêmeros, o famoso “prazo de validade”, e ninguém entende o motivo disso.)

E, claro, é preciso “demonstrar o amor” gastando dinheiro com um presente em 12 de junho… Ou seja, uma lógica mercadológica, da qual poucos casais escapam, e que não se resume apenas ao “presentinho”. O próprio “amor” (entre aspas, claro) se tornou praticamente um “item de consumo”, que em uma sociedade consumista serve para ser ostentado, mostrado aos outros.

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Uma boa dica de resposta aos malas que vêm com o papo de “quando vais desencalhar?” é a que foi deixada pelo leitor Eduardo, em comentário àquele texto de fevereiro: “sozinho, sim; mas não tô em liquidação”. (Em certas situações, mais do que uma resposta, tal frase será um ato de subversão!)

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