Pastor Everaldo e a contradição de muitos liberais brasileiros

Fazia anos que eu não via um candidato a presidente defender abertamente as privatizações – caso de Everaldo Dias Pereira, o Pastor Everaldo, que concorre à presidência pelo PSC. Ontem, na entrevista ao Jornal Nacional, disse que privatizará a Petrobras caso seja eleito. Além de outras empresas estatais que ele considere como “foco de corrupção”.

Após o governo de Fernando Henrique Cardoso, que privatizou várias estatais e terminou com índices de reprovação que superavam os de aprovação, “privatização” virou uma espécie de “palavrão” no dicionário político brasileiro. Na campanha eleitoral de 2006 tivemos dois exemplos disso. O primeiro, foi na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul: a candidata Yeda Crusius (PSDB) tinha como vice o empresário Paulo Afonso Feijó (então PFL, depois DEM), que defendia abertamente as privatizações; a coordenação de campanha procurou forçá-lo a não falar o “palavrão”, temerosa de perder votos; no fim Yeda foi eleita, mas ao assumir o governo já tinha Feijó quase como um “opositor”. O outro foi na disputa pela presidência: o candidato tucano Geraldo Alckmin chegou a vestir uma jaqueta com logotipos de várias estatais, para tentar convencer os trabalhadores delas de que não tinha a pretensão de vender as empresas; não adiantou, e Alckmin conseguiu a façanha de perder obtendo menos votos no segundo turno do que recebera no primeiro.

Everaldo, por sua vez, não esconde o que pensa. Talvez pela baixíssima probabilidade de ser eleito, o que dá a qualquer candidato na mesma situação a tranquilidade de que não precisará cumprir sua promessa: lembro que anos atrás o PCO defendia em seus programas eleitorais o salário mínimo de R$ 1.500, algo que acharia sensacional mas sei que é politicamente inviável ainda nos dias de hoje. Mas a diferença é que Everaldo não é o PCO (esquerda), mas sim, representante da direita mais conservadora. Fosse eleito, não teria dificuldade alguma de aprovar suas propostas: independente de quem vença a disputa presidencial, me parece quase certo que, infelizmente, o Congresso que surgirá das urnas em outubro será bem mais conservador que o atual.

Pois as propostas de Everaldo não se resumem à retomada das privatizações. Na realidade, elas refletem bem uma das maiores contradições de parte considerável dos ditos “liberais” brasileiros, que tanto discursam a favor da “liberdade”: defendem o “Estado mínimo” na economia, mas em compensação pregam a intervenção estatal em assuntos de ordem realmente privada. Sim: como seria de se esperar de um candidato conservador e que prega a “defesa da família” (fica a dica para qualquer um que esteja concorrendo e queira abrir mão do meu voto: fale em “defesa da família”), Everaldo é contra o casamento homossexual, a legalização do aborto e das drogas. Até aí, nenhuma novidade.

Mas o fato é que temos uma candidatura de um típico liberal brasileiro, com um discurso que prioriza a “liberdade” a despeito da igualdade – como se fosse possível real liberdade em uma sociedade desigual – e ao mesmo tempo contrário à liberdade de homossexuais se casarem, de mulheres interromperem uma gravidez indesejada e de pessoas adultas decidirem se drogar com uma substância que não seja álcool, nicotina ou ritalina. Se há algo positivo nisso (ele não esconde o que realmente defende), por outro lado também mostra que a direita mais conservadora está perdendo a vergonha de ser “autêntica” (além de Everaldo há também o candidato do PRTB, Levy Fidélix, que quer “endireitar” o Brasil), justamente por perceber que isso não significa mais votações baixíssimas – o que é muito preocupante.


“Mas eu sou contra o aborto, o casamento homossexual e as drogas”, alguém poderá dizer. Tudo bem: isso se chama liberdade de opinião. Mas, pense um pouquinho: nem todas as pessoas são obrigadas a pensar como você.

A mulher grávida que aborta não “assassina” um bebê: ela interrompe uma gravidez, o que leva à morte o feto que carrega em seu útero. Cientificamente falando, é isso mesmo: aquele pequeno organismo não é um bebê (ou seja, um pequeno ser humano, que vive por conta própria mesmo que precisando de cuidados), é como se fosse qualquer outro órgão do corpo da mulher, tal como o apêndice (que quando inflama sempre é removido cirurgicamente). Claro que, no caso de uma mulher grávida e que deseja ser mãe, é diferente: metaforicamente, ela já se sente mãe de um bebê, mesmo que cientificamente ainda não seja. Mas para a mulher que tem uma gravidez indesejada (pelos mais variados motivos), aquele feto é um tormento e poderá continuar a sê-lo mesmo depois de bebê.

Você é heterossexual e por motivos óbvios não pretende casar com alguém do mesmo sexo? Eu também.

Toma uma cervejinha todas as semanas? Pois, assim como eu, você está usando drogas… A diferença é que a nossa não é proibida. (E, inclusive, é causa de incontáveis acidentes de trânsito, que todos os anos matam milhares de pessoas em nosso país.)

Repare que garantir tais direitos (aborto, casamento homossexual e liberação de drogas como a maconha) em nada nos prejudica. Só prestar atenção no que acontece com os já garantidos: drogas como álcool e tabaco são legalizadas e ninguém é obrigado a beber ou fumar, inúmeros casais héteros optam por não formalizarem a união mesmo que tenham direito a tal… Ou seja: o aborto legalizado não impedirá mulher alguma de ser mãe, o casamento homossexual não obrigará ninguém a deixar de ser hétero, assim como ter o direito de fumar maconha é exatamente isso, direito, não obrigação.

Ou seja, se você é mulher e contra o aborto, é só não interromper uma gravidez mesmo que seja indesejada; se é contra o casamento homossexual, não case com alguém do mesmo sexo; se é contra as drogas, antes de tudo seja coerente e nunca mais ponha na boca um cigarro ou um gole de cerveja. Mas para isso não é preciso obrigar todas as pessoas a fazerem o mesmo.

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Nobel da Paz: total desmoralização

O presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, reagiu assim à proposta da ONG holandesa Drugs Peace Institute de indicá-lo ao Prêmio Nobel da Paz em 2013:

Estão loucos. Que prêmio da paz, nem prêmio de nada. Se me derem um prêmio desses seria uma honra para os humildes do Uruguai conseguirem um dinheiro a mais para fazer casinhas… no Uruguai temos muitas mulheres sozinhas com quatro, cinco filhos porque os homens as abandonaram e lutamos para que possam ter um teto digno… Bom, para isso teria sentido. Mas a paz se leva interiormente. E o prêmio eu já tenho. O prêmio está nas ruas do meu país. No abraço dos meus companheiros, nas casas humildes, nos bares, nas pessoas comuns. No meu país eu caminho pela rua e vou comer em qualquer bar sem essa parafernália de gente de Estado.

Apesar de Mujica rejeitar a possibilidade, vê-lo indicado – e mesmo premiado – faz sentido. Obviamente ainda há muito pelo que avançar no Uruguai, mas o que já aconteceu serve de exemplo aos países vizinhos e em especial ao Brasil, onde o conservadorismo é muito forte. A ONG holandesa propôs “Pepe” ao Nobel da Paz por sua iniciativa de passar ao Estado o controle da maconha para lutar contra o tráfico de drogas (numa lógica oposta àquela defendida pelos Estados Unidos, ou seja, a “guerra” que apenas gera mais violência e vitima inúmeras pessoas na América Latina), mas o Uruguai de Mujica também é o primeiro país na região a legalizar o aborto até a 12ª semana de gestação, o que salva a vida de muitas mulheres – situação diferente da verificada no Brasil. Sem contar inúmeras declarações do presidente uruguaio: considerado “o mais pobre do mundo” por seu estilo de vida simples, Mujica diz que “pobre é quem precisa de muito para viver”; recentemente, recomendou aos jovens que dedicassem mais tempo ao amor do que ao consumo.

Resumindo: Mujica mereceria, e muito, o prêmio. Porém, é o Nobel da Paz que não está mais à altura de “Pepe”. Instituído por iniciativa do químico sueco Alfred Nobel (inventor da dinamite) e entregue desde 1901, já laureou pessoas realmente importantes para a paz mundial, como Martin Luther King e Nelson Mandela. Porém, há também muitos outros interesses por trás das decisões.

Em 11 de setembro de 1973, o Chile sofreu um sangrento golpe militar porque nas palavras de Henry Kissinger, os Estados Unidos não podiam “deixar um país se tornar comunista devido à irresponsabilidade de seu próprio povo”. A “irresponsabilidade” da qual falava Kissinger, então secretário de Estado dos EUA, era a eleição do socialista Salvador Allende à presidência do Chile, em 1970. No final daquele ano de 1973, adivinhem quem ganhou o Prêmio Nobel da Paz? Ele mesmo, Henry Kissinger… A escolha se deveu a acordo com o objetivo de pôr fim à Guerra do Vietnã, razão pelo qual o vietnamita Le Duc Tho também foi laureado – mas este, dignamente, recusou o prêmio.

Ano passado, o prêmio foi atribuído à União Europeia. Foi piada pronta: a UE ganhou o Nobel da Paz, mas perdeu o de Economia…

Mas nada pode ser pior do que a escolha de 2009, como se percebe cada vez mais. Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, foi premiado “pelos esforços diplomáticos internacionais e cooperação entre povos”. Um Nobel da Paz que faz a guerra: enquanto Obama “se esforçava diplomaticamente”, as guerras no Afeganistão e no Iraque prosseguiam.

E agora, Barack Obama prepara mais uma “diplomática” ação pela “paz mundial”. O alvo da vez é a Síria, em guerra civil desde 2011, devido à acusação de que as forças do ditador Bashar al-Assad teriam usado armas químicas. Há vários relatos de que realmente teriam acontecido ataques com o uso de gases venenosos, mas não se sabe de qual lado partiu. No entanto, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, diz ter provas de que o governo sírio usou armas químicas contra os adversários, situação que faz lembrar as “provas contundentes” de que o Iraque tinha armas químicas e biológicas em 2003: foi o que justificou a invasão mesmo após várias inspeções da ONU não encontrarem nada – e de fato, não havia nada; talvez apenas as notas fiscais emitidas pelos próprios Estados Unidos quando Saddam Hussein comprou tais armas para utilizá-las contra o Irã, na década de 1980.

E provavelmente Kerry saiba da posse de armas químicas pela Síria desde aquele jantar em 2009, época em que Assad era aliado

E se o café fosse proibido?

Ou, “por que a política proibicionista está fadada ao fracasso”. Esta frase resume o que diz no vídeo abaixo Ethan Nadelmann, fundador da Drug Policy Alliance (entidade que se opõe à chamada “guerra contra as drogas” patrocinada pelos Estados Unidos).

Aliás, a História tem um bom exemplo de fato semelhante. Em 1º de janeiro de 1920, entrou em vigor uma emenda à constituição dos EUA que proibia produção, transporte e venda de bebidas alcóolicas no país. Era a famosa “Lei Seca”, que tinha grande apoio popular em seus primeiros tempos: dizia-se que o álcool era a causa de boa parte dos males que afligiam a sociedade estadunidense. Ou seja, era aquele velho e sedutor discurso de “proteger a família”, ou “defender a moral e os bons costumes”.

Porém, o “remédio” mostrou ser pior que a “doença”. A Lei Seca não fez quem bebia deixar o álcool: o comércio ilegal de bebidas alcóolicas (igual ao tráfico de drogas) faturou muito. O crime organizado cresceu como nunca nos EUA: foi o auge dos grupos mafiosos, sendo que o mais famoso deles foi o de Chicago, liderado por um tal de Alphonse Gabriel Capone, mais conhecido como Al Capone.

A popularidade da Lei Seca se esvaiu com o aumento do crime organizado, e consequentemente ela acabou revogada em 1933. Afinal, o governo percebeu que a proibição do álcool não só beneficiava as máfias, como também significava menor geração de empregos (e arrecadação de impostos) quando os EUA tentavam sair da crise econômica iniciada em 1929.