O Sol de Maio brilha mais forte

Em maio de 1810, teve início no Vice-Reinado do Rio da Prata o processo de emancipação política de seu território em relação à Espanha, numa série de acontecimentos que ficou conhecida como Revolução de Maio. Seguindo a “regra” das colônias espanholas na América, a independência resultou na fragmentação do território: o antigo Vice-Reinado correspondia em sua maior parte à atual Argentina, mas também o integravam partes de Brasil, Chile e Peru, além da totalidade dos atuais Bolívia, Paraguai e Uruguai.

A Revolução de Maio é lembrada nas bandeiras nacionais de Argentina e Uruguai, que contêm o chamado “Sol de Maio”, emblema inspirado no deus do sol inca, Inti. Também faz referência à Revolução um dos pontos turísticos mais visitados de Buenos Aires, a Praça de Maio – que é também o centro da vida política argentina, visto que nela se encontra a Casa Rosada, sede do governo.

Durante o Século XX a Argentina passou por vários golpes de Estado. O último deles se deu em 24 de março de 1976, depondo a presidenta Isabelita Perón e instalando no governo uma junta militar chefiada pelo general Jorge Rafael Videla, que a partir do dia 29 se tornaria presidente de facto até 1981. Seria apenas um golpe e uma ditadura a mais no país e na América do Sul, não fosse um detalhe: aquele 24 de março de 1976 dava início a um regime que se autodenominou “Processo de Reorganização Nacional”, mas que na prática consistiu no mais sangrento período da história argentina. Em apenas sete anos (1976-1983), cerca de 30 mil pessoas foram mortas ou desaparecidas em nome do “combate ao comunismo”, das maneiras mais horripilantes possíveis: desde a tortura pura e simples, até os atrozes “voos da morte”, nos quais os prisioneiros eram jogados de aviões ao mar (muitas vezes ainda com vida).

A falta de informações sobre o paradeiro de filhos e netos levou muitas de suas mães e avós a se unirem com o intuito de exigir notícias acerca deles. Desejavam uma audiência com Videla, mas não bastava falar com o ditador: era preciso chamar a atenção de alguma maneira. Em 30 de abril de 1977, decidiram reunir-se na Praça de Maio, defronte à Casa Rosada; a polícia ordenou que “circulassem”, então passaram a andar em círculos ao redor da Pirâmide de Maio, no centro da praça, todas as quintas-feiras. Para se reconhecerem, cobriam os cabelos com um pano branco, que acabou se tornando um símbolo das Mães e das Avós da Praça de Maio.

O regime não demorou a reagir, e ainda em 1977 as primeiras mães foram sequestradas e nunca mais se teve notícias delas. Porém, isso não intimidou as demais; e em 1978, sua luta tornou-se conhecida internacionalmente graças à grande presença de jornalistas estrangeiros para a cobertura da Copa do Mundo, aos quais denunciaram as violações de direitos humanos que aconteciam na Argentina. Até hoje, as manifestações das quintas-feiras acontecem na Praça de Maio, para que os argentinos jamais esqueçam aqueles infames anos. E também porque para muitas mães e avós a ditadura ainda não acabou, pois ainda não sabem o paradeiro de seus filhos, e muitos dos filhos de desaparecidos não conhecem suas verdadeiras identidades por terem sido roubados de seus pais biológicos e entregues a orfanatos ou adotados por famílias de agentes da repressão.

Porém, na Argentina a atrocidade não ficou totalmente impune, ao contrário do que acontece no Brasil. Por aqui os torturadores seguem livres, e todos os nossos ditadores morreram sem jamais terem chegado perto do banco dos réus. Já do outro lado da fronteira, até mesmo os ditadores foram parar atrás das grades.

Foi lá, na cadeia, que morreu Jorge Rafael Videla, condenado à prisão perpétua. Deixou a vida em maio, o mês que empresta seu nome ao movimento revolucionário que em 1810 marcou o início do processo de independência política da Argentina. Revolução homenageada em uma praça na qual não consigo pensar sem que me venha à cabeça a imagem daquelas bravas mulheres que não desistem do que a maioria já teria desistido há muito tempo: a Praça de Maio é, cada vez mais, também das Mães e das Avós.

E o Sol de Maio brilha na bandeira argentina, lembrando 1810. Mas agora brilhará mais forte para homenagear um outro maio, o de 2013, no qual findou a existência do homem que jogou a Argentina nas trevas.

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O dia da mentira

Apesar da “comemoração” acontecer no dia 31 de março, a data certa é 1º de abril. Afinal de contas, trata-se da celebração de uma mentira: a de que em 1964 o Brasil foi salvo de uma “ditadura comunista” por meio de uma “revolução”.

Isso mesmo: uma revolução de direita. Alguém já tinha visto uma maluquice dessas?

Só que tem mais. O objetivo declarado dessa “revolução” conservadora era o de “defender a democracia”. Afinal, nada mais “ditatorial” do que o presidente não ser da direita: basta pensar um pouquinho no povo, que já começa a gritaria de que o governo é “comunista”, “autoritário” etc. Democrático é derrubar pelas armas um presidente eleito por um povo que “não sabe votar”, segundo esses tais “revolucionários” da direita.

A “defesa da democracia” se daria colocando um general no governo até 31 de janeiro de 1966, quando se encerraria o mandato do “ditador” João Goulart (sim, “ditador”, pois fora eleito por um povo que “não sabe votar”): em outubro de 1965, certamente o povo já teria “aprendido a votar” e assim um candidato de direita (provavelmente Carlos Lacerda, entusiasmado apoiador da “revolução”) venceria.

Mas, em 1965 o povo ainda não tinha “aprendido” (tanto que a eleição acabaria acontecendo só em 1989). Tinha de “levar mais porrada”, e se só bater não adiantasse, torturas, mortes e desaparecimentos faziam parte do script. Algo tão “democrático”, que até Carlos Lacerda acabou mudando de lado ao perceber que aquela “revolução” iniciada em 31 de março de 1964 e consolidada no dia seguinte duraria bem mais do que prometera da boca para fora.

Aliás, aquele golpe que se utilizou de uma fantasia para acabar com a democracia (já que por meio dela a direita não conseguia retomar a presidência) venceu na data que combina com ele: 1º de abril, o “dia da mentira”, também conhecido como “dia dos bobos”. Pois Lacerda não foi o único a ser enganado. Muita gente acreditou no papo de que se tratava de uma “revolução” que impediria a implantação de uma “ditadura comunista” e assim salvaria a democracia brasileira.

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Mas uma coisa também precisa ser dita: quem organizou aquilo não era nada “bobo”. Já disse uma vez que pessoas de esquerda tendem a ser mais inteligentes, por serem contestadoras; mas ao mesmo tempo, se os líderes conservadores de 1964 fossem “burros”, não teriam vencido.

Aliás, é preciso ser bem inteligente para engambelar as pessoas por quase 50 anos – sim, ainda há quem acredite que em 1964 fomos “salvos”…

“Mudar não mudando”

Essa expressão foi proferida em 1997 pelo presidente do Internacional na época, Pedro Paulo Záchia. O Inter era treinado por Celso Roth, vinha mal no Campeonato Gaúcho, e como se não bastasse, o Grêmio era o então campeão brasileiro e fortíssimo candidato ao título da Libertadores daquele ano. A pressão por mudanças na comissão técnica colorada era enorme, mas Záchia decidiu manter Roth e anunciou que o Inter iria “mudar não mudando”. Deu certo: o time ganhou o Gauchão e fez sua melhor campanha da década em Campeonatos Brasileiros, acabando em terceiro lugar; como se não bastasse, o centroavante Christian desandou a marcar gols, fazendo 23 só no Brasileirão.

Pois foi algo semelhante que fez a Igreja Católica, ao eleger papa o argentino Jorge Mario Bergoglio. É o primeiro latino-americano que chega a tal posto, e ainda por cima escolheu o nome de Francisco, santo católico associado aos pobres.

“Não mudar, mudando”, é assim que podemos resumir o que aconteceu. Afinal, o novo papa é conservador (se manifestou fortemente contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o aborto), e pesam contra ele acusções de colaboração com a última ditadura argentina, uma das mais sanguinárias que o continente já viu – familiares de desaparecidos, por sua vez, dizem que Bergoglio não colaborou mas fez “poderia ter feito mais” pelos perseguidos políticos na Argentina; e o Vaticano, obviamente, nega tudo.

Só que tem mais. Hoje em dia a América do Sul é uma das regiões do mundo onde o conservadorismo é muito contestado (como provam os vários governos de centro-esquerda e esquerda no subcontinente), ou a Igreja Católica perde terreno (caso do Brasil). Assim, eleger um papa sul-americano pode indicar uma tentativa de reverter o quadro na região. E não simplesmente no aspecto religioso.

Paranoia? Então lembremos de como foi “aberta” a chamada Cortina de Ferro que dividia a Europa na Guerra Fria. Inúmeros fatores causaram o colapso dos regimes socialistas do Leste Europeu: corrupção, burocratização excessiva, autoritarismo etc. Mas tais países eram estáveis politicamente na década de 1970 não devido ao monopólio do poder pelo Partido Comunista, e sim porque a população se adaptara ao status quo, sendo poucas as contestações ao regime – antes da década de 1980, a última fora a Primavera de Praga na Tchecoslováquia, em 1968.

Então a Igreja entrou no jogo em outubro de 1978: quebrando uma tradição que já durava mais de 400 anos, o papa eleito pelo conclave não foi um italiano, e sim um polonês, Karol Józef Wojtyła, que adotou o nome de João Paulo II.

Boa parte dos países do Leste Europeu não têm no catolicismo sua religião majoritária. Mas a Polônia há muito tempo tem uma das mais elevadas proporções de católicos da Europa.

Pois bem: e onde o status quo começou a ser questionado com mais força na Europa Oriental? Foi exatamente na Polônia, onde em 1980 foi fundado o primeiro sindicado desvinculado do PC em um país do Leste Europeu (o Solidariedade), que organizou greves em protesto contra o governo. Após decretar lei marcial no final de 1981 e colocar o Solidariedade na ilegalidade, o regime acabou sendo forçado a negociar, e em 1989 convocou eleições semi-livres (nas quais o Solidariedade conquistou praticamente todas as cadeiras do Senado); no final de 1990, o líder do sindicato, Lech Wałęsa, foi eleito presidente. Tanto Wałęsa quanto Wojciech Jaruzelski (último governante da Polônia socialista) e Mikhail Gorbachev (último presidente soviético) afirmam que o papa foi fundamental no desmoronamento da Cortina de Ferro, por ter “inspirado” os poloneses a se levantarem.

Agora, a escolha da Igreja foi por um papa argentino. Que era visto pelos Estados Unidos como um “poderoso” opositor ao governo Kirchner. Coincidência?

Talvez seja mera coincidência que, poucos dias após Bergoglio ter sido eleito, o ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla tenha convocado um golpe contra a presidenta Cristina Fernández de Kirchner. Condenado à prisão perpétua, Videla parece “fora da casinha”. Mas é bom ficar atento com gente “séria” que poderá se meter a defender tais absurdos.

Em Portugal, a Revolução dos Cravos manda lembranças

Aconteceu ontem, em Lisboa. Durante debate quinzenal no Parlamento, o primeiro-ministro português Pedro Passos Coelho foi interrompido pelo público de uma forma diferente: ao invés de vaias, o que se ouviu foi a canção “Grândola, Vila Morena”, composta por Zeca Afonso.

A ação promovida pelo grupo “Que se Lixe a Troika” foi extremamente simbólica, pois “Grândola, Vila Morena” não é uma música qualquer. Nos primeiros minutos do dia 25 de abril de 1974, a canção foi executada na Rádio Renascença, de Lisboa. Era a segunda senha escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (formado por militares descontentes com o regime ditatorial e com a Guerra Colonial) para dar início à Revolução dos Cravos.

A primeira senha, executada horas antes, fora “E depois do adeus”, que era a “ordem” para as tropas ficarem a postos – sendo uma música “politicamente neutra”, não despertou maiores suspeitas de militares favoráveis ao governo. Já “Grândola, Vila Morena” refere-se à solidariedade entre as pessoas, e foi proibida pela ditadura por “fazer alusão ao comunismo”. Assim, sua execução no rádio era o sinal de que “o caminho estava livre” para a derrubada do regime.

Era o fim de uma ditadura iniciada em 1926 e que a partir de 1933 passara a ser chamada oficialmente de Estado Novo*, mas também ficou conhecida como “salazarismo” devido a Antônio de Oliveira Salazar, ditador de Portugal por 36 anos (1932-1968). O povo, cansado de quase 50 anos de autoritarismo, celebrou nas ruas distribuindo cravos aos soldados, daí a denominação “Revolução dos Cravos”.

O fato de “Grândola, Vila Morena” ser cantada em pleno Parlamento, interrompendo o primeiro-ministro, mostra o tamanho do descontentamento popular em Portugal, que assim como a Espanha e a Grécia, vive uma grave crise econômica. A troika formada por Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia impõe rigorosos planos de austeridade como condições para “ajudar” tais países. Porém, as “ajudas” fazem com que a crise econômica torne-se também social, com o aumento do desemprego e da pobreza. Afinal, como mostra o documentário grego “Dividocracia”, a troika não quer salvar o povo, e sim, bancos e empresas falidas…

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* A semelhança com o Brasil de 1937 a 1945 não é mera coincidência: Getúlio Vargas se inspirou em Salazar para denominar sua ditadura como “Estado Novo”.

“No” e a “transição incompleta” do Chile

Assisti semana passada ao filme chileno “No”, de Pablo Larráin, que concorre ao Oscar de melhor filme de língua não-inglesa. Baseado em fatos reais, “No” relembra a campanha do “não” no plebiscito de 1988 no Chile, quando o povo rejeitou a permanência do ditador Augusto Pinochet no governo por mais oito anos. Larráin usou câmeras semelhantes às utilizadas na década de 1980, para que o filme lembrasse as transmissões da televisão chilena na época.

Em 1980, uma nova constituição para o Chile fora aprovada em um referendo marcado por denúncias de fraude. Esta previa um “período de transição” de oito anos a partir de sua entrada em vigor, em 11 de março de 1981, no qual o país seria governado por Pinochet. Ao final deste período, os militares deveriam indicar uma pessoa para ocupar a presidência pelos oito anos seguintes (ou seja, até 1997): o escolhido foi o próprio Pinochet.

Um plebiscito foi convocado para o dia 5 de outubro de 1988, em que o povo deveria apoiar ou rejeitar a permanência do ditador no poder: caso a opção “não” vencesse, Pinochet teria seu “mandato” prorrogado até 11 de março de 1990, quando entregaria o governo a um presidente eleito diretamente. Haveria 15 minutos diários de propaganda eleitoral na televisão para ambas as opções, mas não era uma situação de igualdade: enquanto a campanha do “não” se resumiria aos 15 minutos, o “sim” era favorecido pela mídia, controlada pelo governo.

A princípio, acreditava-se que o plebiscito era “jogo de cartas marcadas”. Afinal, era promovido por um regime ditatorial, que não pouparia esforços para se perpetuar. O fato de atrair as atenções do mundo, se por um lado ajudava a diminuir a desconfiança quanto à lisura do processo, por outro também despertava o temor de que, caso o “sim” vencesse, a própria oposição acabasse legitimando Pinochet, por ter ido votar. Assim, havia uma forte tendência a se boicotar o plebiscito.

Porém, a possibilidade de que Pinochet permanecesse no poder por mais oito anos era um motivador a que se fosse votar. É aqui que “entra em jogo” René Saavedra (Gael García Bernal), um talentoso publicitário: filho de um exilado político, ele é convidado a ajudar a campanha do “não”, de modo a que a oposição (agrupada na Concertación de Partidos por el No) participe do plebiscito com chances de vencê-lo. Continuar lendo

O outro 11 de setembro

Há 11 anos o dia 11 de setembro virou, para muita gente, um símbolo de barbárie. Não foi sem justificativa: cerca de 3 mil pessoas perderam suas vidas nos atentados terroristas que aconteceram naquela terça-feira de 2001 nos Estados Unidos. Uma das consequências daquele trágico dia foi a “guerra ao terror” travada pelos EUA no Afeganistão e no Iraque, que já matou quase um milhão de pessoas.

Porém, é sempre importante lembrar o outro 11 de setembro, que já era um símbolo de barbárie desde 1973. Há 39 anos, também uma terça-feira, um golpe militar que contou com o apoio dos Estados Unidos derrubou o presidente do Chile, Salvador Allende. O general Augusto Pinochet, que fora nomeado comandante do Exército pelo próprio Allende, traiu seu comandante-em-chefe e liderou a criminosa ação militar que resultou no bombardeio do Palácio de la Moneda, sede da presidência chilena. Allende ensaiou uma resistência, mas ao perceber que não teria como derrotar os golpistas, fez um último pronunciamento pelo rádio. Depois, cometeu suicídio ou foi assassinado – ainda não há uma certeza sobre sua morte.

Pinochet assumiu o poder à força, para governar ditatorialmente até 1990 e comandar uma repressão que foi das mais sangrentas que viu a América Latina. Milhares de pessoas foram assassinadas.

Assim como lembramos e lamentamos as vidas perdidas naquela terça-feira de 2001, é preciso também fazer o mesmo em relação às vítimas do 11 de setembro de 1973.

A democracia não é uma tradição russa

Na sexta-feira, a justiça russa condenou as três integrantes da banda punk Pussy Riot a dois anos de prisão por “vandalismo motivado por ódio religioso”. Maria Alyokhina, Nadezhda Tolokonnikova e Yekaterina Samutsevich foram ao tribunal por terem protestado contra o então primeiro-ministro (e agora presidente) Vladimir Putin no altar da catedral Cristo Salvador, maior igreja ortodoxa de Moscou e de toda a Rússia, em fevereiro. Mais do que um protesto contra Putin, foi também contra o patriarca da igreja, que usava sua posição para pedir votos ao atual presidente na última eleição (marcada por denúncias de fraude, recorrentes nos processos eleitorais russos).

Foi um julgamento que esteve bem longe de ser justo. Enquanto todas as testemunhas de acusação foram interrogadas, o mesmo foi feito com apenas três das treze de defesa. O advogado Nicolay Polozov, que defendeu as integrantes da Pussy Riot, foi taxativo: “Mesmo nos tempos soviéticos, nos tempos de Stalin, os julgamentos eram mais honestos do que esse”. Uma das integrantes do grupo, Yekaterina Samutsevich, disse mais: “Estou considerando isso como o início de uma campanha autoritária e repressiva do governo que procura dificultar a atividade política e criar um sentimento de medo entre os ativistas políticos”.

Surpresa diante disso? Sinceramente, só é possível caso não se conheça nada da história russa. Pois trata-se de um país onde “democracia” é apenas uma palavra no dicionário. E não me refiro simplesmente à época da autocracia czarista, nem aos 74 anos de regime soviético (onde podemos destacar em matéria de crueldade a longa ditadura de Josef Stalin). Pois mesmo na era pós-soviética, que diziam ser a da “democratização” da Rússia, não faltaram lembranças da forma como sempre funcionou a política russa: baseada no autoritarismo. Inclusive foi desta forma que se implantou o neoliberalismo por lá, sob o comando do presidente Boris Yeltsin.

Após o fim da União Soviética em dezembro de 1991, o nível de vida dos russos, que já vinha despencado nos últimos anos da URSS, caiu ainda mais drasticamente, aumentando a insatisfação popular. E além disso, Yeltsin tinha no parlamento um forte adversário à consolidação de seu poder: eleito ainda sob o regime soviético e dominado pelos comunistas, o legislativo russo impedia o prosseguimento do programa de reformas neoliberais (com direito à venda das antigas estatais soviéticas “a preço de banana”). A saída de Yeltsin foi violar a Constituição vigente com a dissolução do parlamento em 21 de setembro de 1993, de modo a acabar com a oposição.

A revolta que se seguiu ao golpe produziu os piores conflitos de rua em Moscou desde a Revolução de 1917 e resultou em mais de cem mortos. O exército tomou o partido do presidente e em 4 de outubro bombardeou o prédio do parlamento, defronte ao qual o próprio Boris Yeltsin liderara a resistência ao fracassado golpe da “linha dura” comunista contra Mikhail Gorbachev em agosto de 1991.

Detalhe importante: o mesmo Ocidente que hoje em dia denuncia (embora não sem razão) o crescente autoritarismo na Rússia de Putin, não fez o mesmo em 1993. Muito antes pelo contrário: o golpe de Yeltsin foi apoiado pelos principais líderes ocidentais, que chegaram a dizer que o presidente russo agia pela democracia. Aí reparo no fato de que Yeltsin, ao contrário de Putin, era um aliado do Ocidente, e percebo não ser mera coincidência a semelhança de discursos “democratas” entre os golpistas (incluídos os apoiadores estrangeiros) de 1993 na Rússia e de 1964 no Brasil.

Tragédia no Egito: mais que futebol

Ontem se escreveu uma página triste na história do futebol, com a briga generalizada após um jogo do Campeonato Egípcio, que deixou mais de 70 mortos. A torcida do Al Masry, de Port Said, invadiu o gramado após a vitória de 3 a 1 sobre o Al Ahly, do Cairo, e agrediu jogadores, comissão técnica e torcida do adversário. Três jogadores do Al Ahly (Mohamed Aboutrika, Mohamed Barakat e Emad Moteab), chocados com os acontecimentos, decidiram se aposentar.

Porém, pelo que já li em algumas páginas de notícias, a origem da tragédia parece estar do lado de fora dos estádios. Uma das torcidas organizadas do Al Ahly, a UA07, foi ativa participante das manifestações que derrubaram a ditadura de Hosni Mubarak, no começo do ano passado. Não faltam acusações de que partidários do ex-ditador e a própria junta militar que governa o país desde a queda de Mubarak teriam provocado o episódio, inclusive com o fechamento dos portões do estádio no lado da torcida do Al Ahly. E nos diversos vídeos que podemos assistir, é perceptível que a polícia nada fez para impedir a violência: simplesmente deixou os torcedores do Al Masry invadirem o gramado.

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A nomenclatura utilizada no futebol deixa muito claro que ele é uma “metáfora da guerra” (ainda mais que é praticado no campo, assim como as guerras em “campos de batalha”). Inclusive, serviu muito como “válvula de escape” da violência, quando da parlamentarização da política na Inglaterra. Assim, muitas vezes os ressentimentos de origem política, social e étnica acabam “transbordando” para o estádio.

A intensa rivalidade entre Real Madrid e Barcelona, por exemplo, é muito mais que futebolística. Os confrontos entre os dois clubes simbolizam, para muitos, um embate entre o centralismo de Madri e os anseios nacionalistas da Catalunha (cujas cores o Barça sempre utiliza em sua braçadeira de capitão). A rixa acirrou-se durante a ditadura de Francisco Franco (1939-1975), período em que qualquer manifestação de apreço a uma nação que não a Espanha “una” (que só existia nos delírios de fascistas como Franco) era severamente reprimida. Os jogos do Barcelona, principalmente contra o Real Madrid (por ser este o principal clube da capital), eram as raras oportunidades de se demonstrar que a “homogeneidade” espanhola era pura fantasia.

Origem semelhante teve a tensão em uma partida aqui no Brasil, há quase 40 anos. Em 17 de junho de 1972, 110 mil pessoas foram ao Beira-Rio vaiar a Seleção Brasileira, que enfrentava uma “Seleção Gaúcha” (na verdade, um combinado de jogadores da dupla Gre-Nal). Não havia nada de separatismo em jogo, muito pelo contrário: a origem era o ressentimento dos gaúchos pelo Rio Grande do Sul estar cada vez mais marginalizado na política e na economia do Brasil (mesmo que o ditador da época fosse o general bageense Emílio Garrastazu Médici). Fato simbolizado pela não-convocação do lateral-esquerdo Everaldo, titular da conquista da Copa de 1970, para a Seleção Brasileira que disputaria a Taça Independência (popularmente conhecida como “Minicopa”), torneio comemorativo aos 150 anos de independência política do Brasil: apesar do gremista não atravessar uma boa fase em 1972, foi inaceitável para os gaúchos que “o seu único representante” na Seleção perdesse não só a titularidade, como também fosse preterido na reserva por Rodrigues Neto, do Flamengo (que anos depois, ironicamente, seria contratado pelo Inter). Como as manifestações de contestação ao status quo da época eram reprimidas (inclusive as de caráter regional), restava apenas o futebol: vaiar a Seleção, utilizada pela ditadura militar para aumentar sua popularidade (ainda mais após a Copa de 1970), era como vaiar o Brasil “forte e unido” da propaganda oficial.

Se o futebol é uma “metáfora da guerra”, ele também pode ser prelúdio dela, com a violência não sendo meramente simbólica. Em junho de 1969, as tensões entre Honduras e El Salvador se refletiram no confronto entre as seleções dos dois países por uma vaga na Copa do Mundo de 1970. O governo de Honduras havia decidido expulsar os camponeses salvadorenhos que viviam no país (principalmente na região da fronteira com El Salvador), gerando uma onda de xenofobia mútua entre hondurenhos e salvadorenhos, extremamente interessante para os governos de ambos os países por assim desviar o foco de seus problemas internos. No meio disso tudo, as partidas de futebol: a primeira, disputada em Tegucigalpa (Honduras), terminou com vitória hondurenha por 1 a 0; na segunda, em San Salvador (El Salvador), os salvadorenhos venceram por 3 a 0, forçando assim a realização de um terceiro jogo, realizado na Cidade do México e vencido novamente por El Salvador, 3 a 2. A violência nas partidas foi o pretexto que faltava para os dois países romperem relações diplomáticas; semanas depois, tropas salvadorenhas invadiram Honduras, dando início à chamada “Guerra do Futebol”, que durou apenas quatro dias (14 a 18 de julho de 1969, por isso sendo também chamada de “Guerra das Cem Horas”) e deixou quase 2 mil mortos.

na antiga Iugoslávia, a guerra não teve o futebol como pretexto, mas ele nos deu uma “prévia”. Os ressentimentos entre sérvios e croatas vinham desde a Segunda Guerra Mundial: os primeiros acusavam os segundos de terem colaborado com o nazismo, mesmo que Josip Broz Tito, líder da resistência aos nazistas, fosse croata. Durante os 35 anos em que Tito esteve no poder, as tensões foram aliviadas, devido à liderança de um “símbolo de união nacional”. Porém, com a morte de Tito em 1980, foi implantado um sistema de revezamento do poder entre as repúblicas que formavam a Iugoslávia; tal sistema não agradava aos nacionalistas sérvios, que por serem a população mais numerosa consideravam injusta a divisão igualitária do poder; ao mesmo tempo, a crise econômica pela qual o país passava levava muitos sérvios a emigrarem para a Croácia, mais desenvolvida, aumentando o sentimento anti-sérvio entre os croatas. O ódio mútuo resultou em um violento conflito entre as torcidas do Dínamo de Zagreb e o Estrela Vermelha de Belgrado, durante partida entre os dois clubes realizada na capital croata em 13 de maio de 1990. No ano seguinte, Croácia e Eslovênia (as duas repúblicas mais desenvolvidas) declararam-se independentes e teve início a sangrenta desintegração da Iugoslávia: a guerra se deu principalmente entre sérvios e croatas, com atrocidades de ambos os lados em conflito.

Não me surpreende nem um pouco

Ontem, foi denunciado que a página da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo tratava o golpe de 1964 como “revolução democrática”. Fui ver, estavam lá as palavras que nada têm a ver com o que aconteceu no Brasil em 1964. Para não acharem que estou inventando, vale a pena lembrar que isso virou notícia na Folha de São Paulo, que de “comunista” não tem nada.

A informação, que constava na cronologia da SSP, foi retirada da página. Mas com a desculpa do governo paulista de que “o texto relacionado ao ano de 1964 não reflete o pensamento da Secretaria de Segurança Pública”. Vou fazer de conta que acredito, depois de tudo o que temos visto recentemente por lá…

São Paulo é hoje o principal reduto do PSDB. O partido está no governo estadual desde 1995. Jovens de 16 anos que votarão pela primeira vez na próxima eleição, jamais viveram sob governo de outro partido no Estado.

Alguém pode achar que por conta disso, comparo os governos do PSDB em São Paulo à ditadura militar, mas está redondamente enganado. Tempo de governo não é pré-requisito para uma ditadura – embora todo regime autoritário que se preze busque se perpetuar. A intensidade da repressão me parece um “ditadômetro” melhor. A Argentina é um bom exemplo: lá o último regime militar durou apenas sete anos e meio (1976-1983); menos, portanto, do que o governo de Carlos Menem, presidente que ganhou duas eleições e ficou dez anos no poder (1989-1999). A diferença é que os governos militares (sim, foram vários ditadores em sete anos e meio) causaram a morte e/ou o desaparecimento de 30 mil pessoas.

Ou seja, é mais às atitudes dos governos, do que à sua duração, que devemos ser críticos. E no caso de São Paulo, é notório que o governo estadual trata a questão social como “caso de polícia”. Mais do que isso: é “caso de batalhão de choque”.

Nada muito diferente, portanto, da ditadura militar, que foi iniciada com a “revolução” até ontem exaltada na página da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Por isso não fiquei nem um pouco surpreso.

Documentário sobre o Pinheirinho

Eu ia escrever um texto a partir do documentário (que tem pouco mais de 15 minutos de duração e mostra os intere$$e$ envolvidos na reintegração de posse da área do Pinheirinho), mas achei melhor não fazê-lo com a cabeça quente pela revolta que isso tudo me causa. Assim, fica para amanhã a reflexão (até porque é quase meia-noite mesmo).

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Abaixo, um outro vídeo, que mostra um homem sendo agredido gratuitamente pela PM durante a operação no domingo. Pura e simples covardia.