A falácia dos “dois lados”

Foi instalada, na última quarta-feira, a Comissão da Verdade, que terá por objetivo esclarecer violações dos direitos humanos cometidas pelo Estado brasileiro entre 1946 e 1988. O foco, porém, deverá ser o período de 1964 a 1985, correspondente à ditadura militar.

A reação não tardou. Os clubes militares divulgaram nota na qual deixam claro o desejo de que a Comissão investigue “os dois lados” – ou seja, tanto os agentes do Estado como os opositores. Como se tivéssemos realmente “dois lados”, iguais em força e capacidade de coerção.

Acontece que a luta armada contra a ditadura militar nunca teve força suficiente para de fato ameaçar o regime. A própria Guerrilha do Araguaia, que resistiu por três anos (1972-1975) à feroz ação do Exército, era formada por menos de cem militantes. Ou seja, nem sequer podemos falar de “dois lados em disputa”: havia mesmo era um Estado autoritário que reprimia violentamente os poucos focos de resistência armada.

Mas, mesmo que consideremos a ditadura como “dois lados em disputa”, ainda assim não faz sentido querer que se julgue os militantes da esquerda armada. Pois eles já foram punidos pela própria ditadura (perseguição, prisão, tortura, morte). Tanto que quando da luta pela anistia, ela acabou servindo de desculpa para que também os agentes da repressão fossem incluídos no “pacote”, de modo a que ficassem impunes, como estão até hoje.

Querer que se investigue e se puna os “dois lados” no tocante à ditadura militar equivale a defender que em Nurenberg não só os nazistas fossem julgados: a Resistência Francesa, por exemplo, também deveria ser levada ao tribunal. Absurdo, né?

E quanto ao rótulo de “terroristas” que a direita põe nos militantes da esquerda, é bem típico de regimes autoritários para deslegitimar os opositores. Independentemente de sua vertente ideológica: em 1989, quando o povo se levantou contra a ditadura de Nicolae Ceauşescu na Romênia, o déspota acusou “terroristas” de serem os responsáveis pelos distúrbios. (E então, amigo reaça, vais virar “comunista” e defender Ceauşescu?)

A Novembrada e a questão dos símbolos

Placa alusiva aos 30 anos da Novembrada no Senadinho, tradicional ponto de encontro no Centro de Florianópolis

João Baptista Figueiredo foi o último general a ocupar a presidência do Brasil. Ao assumir o poder, em 15 de março de 1979, jurou que faria do país uma democracia, e mais adiante disse que iria “prender e arrebentar” quem fosse contra a abertura. Bela maneira de democratizar um país…

Mas o “prendo e arrebento” nem foi a frase mais famosa de Figueiredo. Teve uma que foi simbólica do que pensavam os conservadores brasileiros, aqueles que deram todo o apoio ao golpe em 1964:

Prefiro cheiro de cavalo do que cheiro de povo.

No dia 30 de novembro de 1979, porém, o general que preferia o cheiro de cavalo ao do povo teve não apenas de sentir o cheiro, como ouvir a voz do povo. Foi em Florianópolis, onde Figueiredo chegara para participar de solenidades oficiais, dentre elas, a inauguração de uma placa em homenagem ao Marechal Floriano Peixoto, que deu o nome à cidade.

Só a visita de Figueiredo já seria suficiente para motivar manifestações, já que havia muito descontentamento por todo o país devido à alta do custo de vida, o que empobrecia ainda mais o povo. Mas a homenagem a Floriano era a “cereja no bolo”: o “Marechal de Ferro” governara o Brasil de 1891 a 1894 de forma ditatorial (igual aos generais do regime de 1964) e ilegal, visto que a Constituição promulgada poucos meses antes dele assumir a presidência previa que caso o titular – na época, o Marechal Deodoro da Fonseca – deixasse o cargo antes de completar a metade do mandato (que se estenderia até 15 de novembro de 1894), o vice governaria apenas interinamente, devendo convocar eleição para definir um novo presidente que completaria o mandato.

Floriano Peixoto não só ignorou a Constituição, como governou de forma despótica, reprimindo severamente as revoltas que estouraram na época – da Armada, no Rio de Janeiro; e Federalista, no Rio Grande do Sul. Os participantes de ambas se uniram e ocuparam Desterro, capital de Santa Catarina. Após a retomada da cidade pelas tropas governistas, com direito a prisões e fuzilamentos de muitos catarinenses, o governador Hercílio Luz – o mesmo que empresta seu nome à famosa ponte – decidiu mudar a denominação da capital para Florianópolis, ou seja, “cidade de Floriano”. O que não era exatamente a vontade do povo, visto que o governo do Marechal Floriano era bastante impopular na Ilha de Santa Catarina. A mudança de nome foi vista mais como uma humilhação do que como uma homenagem justa, embora a denominação anterior também não agradasse muito à população por ser ligada à ideia de “exílio”, tanto que antes da mudança já havia propostas de outros nomes para a cidade.

A combinação explosiva resultou em uma manifestação popular que contou com aproximadamente 4 mil pessoas, promovida por estudantes da UFSC e duramente reprimida pela polícia. Após ser recepcionado pelo governador Jorge Bornhausen no Palácio Cruz e Sousa, Figueiredo dirigiu-se ao Senadinho, tradicional ponto de encontro no Centro de Florianópolis, sendo hostilizado no trajeto e batendo boca com manifestantes. Mas além do ditador de então, a placa em homenagem ao ditador de 1894 – ou seja, Floriano Peixoto – também foi alvo da ira popular, sendo arrancada do pedestal e pisoteada pelos manifestantes. Sete estudantes foram presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional, motivando novas manifestações nas semanas seguintes, agora em favor da libertação dos estudantes.

A série de protestos em Florianópolis que ficou conhecida como “Novembrada” demonstra a importância que têm os símbolos em nossas vidas – afinal, embora a placa em homenagem a Floriano Peixoto não fosse a única motivação das manifestações, pode-se dizer que foi das mais importantes, por simbolizar o que era considerado uma humilhação ao povo da cidade. Prova que “valor simbólico” não é sinônimo de “sem valor”.

E onde eu queria chegar com tudo isso? A duas questões bastante debatidas em Porto Alegre nos últimos quatro meses: a mudança de nome da entrada da cidade (a proposta do PSOL rejeitada pela Câmara previa que a Avenida Castelo Branco passaria a se chamar Avenida da Legalidade) e a retirada dos crucifixos das dependências do Poder Judiciário do Estado do Rio Grande do Sul.

No primeiro caso, trata-se de não mais homenagear ditadores em nomes de ruas, praças, bairros… E mesmo cidades, caso de Florianópolis. Na Rússia, nem o palco de uma das mais famosas batalhas da Segunda Guerra Mundial resistiu: após a morte de Josef Stalin e a denúncia dos crimes cometidos durante sua ditadura de 29 anos (1924-1953), a homenagem ao déspota tornou-se inaceitável e o governo soviético decidiu mudar o nome de Stalingrado, que passou a se chamar Volgogrado. A capital catarinense, ao contrário da avenida porto-alegrense, tem o problema de não ter uma boa proposta (vamos combinar que as belezas naturais da Ilha de Santa Catarina não combinam com uma cidade chamada “Desterro”, já que tanta gente quer ir morar lá por livre e espontânea vontade, ideia totalmente oposta a de um exílio), mas a ideia da mudança de nome tem de ser mais debatida pela população local.

Já o segundo é mais polêmico, por envolver religião e seus dogmas. Há quem ache que retirar crucifixos das paredes do TJ é uma ameaça à liberdade religiosa: porém, trata-se de uma verdadeira consagração desta, pois quem é seguidor de outra crença (ou quem não tem nenhuma) não será obrigado a submeter-se simbolicamente ao Cristianismo – o crucifixo na parede significa que sua religião não é tão prestigiada quanto aquela cujo símbolo é ostentado. Se o Estado é laico, isso quer dizer que parede de tribunal não é lugar para qualquer símbolo religioso.

Muita gente acha que a preocupação com questões simbólicas é “falta do que fazer”. Porém, a polêmica dos crucifixos é a maior prova de que não: se fosse “coisa sem importância”, não veríamos cristãos defendendo tão fervorosamente a permanência de seus símbolos nos recintos de um dos poderes do Estado.

Pausa nas férias

Charge do Bier

O Cão ainda não está de volta à “programação normal”, pois este que vos escreve embarca na manhã deste sábado para Rio Grande, devendo retornar na metade da próxima semana – quando, aí sim, voltará a postar com maior frequência.

A pausa se deve a uma questão de cidadania: jamais poderia deixar de lembrar o que aconteceu 48 anos atrás. A “turma do pijama” comemora a “revolução” (nunca vi a direita fazer revolução…) em 31 de março. Só que, além de ter sido um GOLPE, a consolidação da quartelada se deu em 1º de abril. Data que, aliás, combina com o mentiroso argumento de que 1964 “salvou o Brasil de uma ditadura comunista”.

Aliás, já que os opressores andavam com vontade de ter seus dias de orgulho, que tal declarar 1º de abril como “dia do orgulho reacionário”? Na prática, ele já é comemorado, embora nunca na data certa – como se viu na quinta-feira, aliás, ao melhor estilo ditatorial.

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Assim como aconteceu nos dias em que estive em Florianópolis, haverá demora na liberação de comentários.

Por que a Comissão da Verdade é necessária

A “turma do pijama” não desistiu. Após a reprimenda de sua comandante-em-chefe, a presidenta Dilma Rousseff, militares da reserva voltaram a publicar um manifesto, desta vez não em nome dos clubes, mantendo as críticas ao governo. Até aí tudo bem, não fosse por um detalhe: cometeram um grave ato de insubordinação ao afirmarem não reconhecerem a autoridade do ministro da Defesa, Celso Amorim.

Isto é apenas mais um motivo que demonstra o quão necessária é a Comissão da Verdade no Brasil: para acabar com esta sensação de impunidade que se tem desde 1979, quando da promulgação da Lei da Anistia. Pois se oficialmente os militares deixaram o poder em 1985, o fizeram depois de terem “se protegido” com uma lei que impede punições por violações aos direitos humanos cometidas durante a ditadura militar. Tanto que é com base nesta mesma lei que hoje os reservistas berram contra qualquer intenção de se apurar responsabilidades para os crimes da ditadura.

Mesmo que a Comissão não tenha poderes para punir ninguém (afinal, para isso existe o Poder Judiciário), é fundamental que ao menos se possa “dar nome aos bois”, ou seja, afirmar publicamente que A ou B foram torturadores, violadores dos direitos humanos. E é contra isso que a “turma do pijama” se levanta: mesmo que não possam ser punidos judicialmente, a possibilidade de uma punição moral já os incomoda.

E para os tucanos que compraram o discurso da “turma do pijama” e ficam excitados com a insubordinação dos militares da reserva contra Dilma, uma dica: assistam ao vídeo abaixo, um curta-metragem sobre Rubens Paiva, desaparecido desde 1971. Tá lá o depoimento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: vão chamá-lo de “revanchista”? (Gostei muito também do que disse Plínio de Arruda Sampaio, que questiona o “espírito de corpo” dos militares, visto que não são as Forças Armadas o “alvo” da Comissão da Verdade, e sim, alguns militares que cometeram crimes contra o país que eles juraram defender.)

É hora de fazer valer a Constituição

Anteontem, o Sul 21 publicou um editorial que me deixou meio “sem palavras”. Pois a ideia do texto é exatamente a mesma que a minha: o comportamento dos clubes militares não é compatível com os valores que, em tese, são vigentes no Brasil desde a promulgação da atual Constituição Federal, em 1988.

O objetivo da nota dos clubes militares que gerou a polêmica parece ser claro: intimidar o governo no momento em que é iminente a nomeação dos membros da Comissão da Verdade, que investigará denúncias de violação dos direitos humanos entre 1946 e 1988, com foco no período da ditadura militar (1964-1985). (E olha que a Comissão ficou bem “meia-boca”, sem contar que em nove anos de governo petista ainda não houve grandes avanços em relação ao passado ditatorial do país: os arquivos da repressão continuam fechados, e não há disposição governamental em revisar a Lei da Anistia de 1979.)

Constitucionalmente, o(a) Presidente da República é comandante-em-chefe das Forças Armadas. Ou seja, Dilma Rousseff não deve satisfação nenhuma a militares de quaisquer patentes, tanto da ativa quanto da reserva. Pelo contrário, eles é que são subordinados a ela.

Como lembra o editorial do Sul 21, os militares têm todo o direito a opinar sobre os rumos do país, como qualquer cidadão brasileiro. Porém, devem fazê-lo individualmente, e não em nome de coletivos militares. A posição das Forças Armadas jamais pode ser outra que não a submissão à legalidade, à Constituição, como convém em um regime verdadeiramente democrático. E não cabe aos militares a interpretação das leis como bem entenderem: foi isso que fizeram os golpistas de 1964 – grupo que, vale lembrar, era também composto por civis.

Portanto, é de se esperar que Dilma não se deixe intimidar e faça valer a Constituição. Do contrário, o Brasil continuará refém de alguns militares que se acham no direito de ditar os rumos do país.

Não me surpreende nem um pouco

Ontem, foi denunciado que a página da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo tratava o golpe de 1964 como “revolução democrática”. Fui ver, estavam lá as palavras que nada têm a ver com o que aconteceu no Brasil em 1964. Para não acharem que estou inventando, vale a pena lembrar que isso virou notícia na Folha de São Paulo, que de “comunista” não tem nada.

A informação, que constava na cronologia da SSP, foi retirada da página. Mas com a desculpa do governo paulista de que “o texto relacionado ao ano de 1964 não reflete o pensamento da Secretaria de Segurança Pública”. Vou fazer de conta que acredito, depois de tudo o que temos visto recentemente por lá…

São Paulo é hoje o principal reduto do PSDB. O partido está no governo estadual desde 1995. Jovens de 16 anos que votarão pela primeira vez na próxima eleição, jamais viveram sob governo de outro partido no Estado.

Alguém pode achar que por conta disso, comparo os governos do PSDB em São Paulo à ditadura militar, mas está redondamente enganado. Tempo de governo não é pré-requisito para uma ditadura – embora todo regime autoritário que se preze busque se perpetuar. A intensidade da repressão me parece um “ditadômetro” melhor. A Argentina é um bom exemplo: lá o último regime militar durou apenas sete anos e meio (1976-1983); menos, portanto, do que o governo de Carlos Menem, presidente que ganhou duas eleições e ficou dez anos no poder (1989-1999). A diferença é que os governos militares (sim, foram vários ditadores em sete anos e meio) causaram a morte e/ou o desaparecimento de 30 mil pessoas.

Ou seja, é mais às atitudes dos governos, do que à sua duração, que devemos ser críticos. E no caso de São Paulo, é notório que o governo estadual trata a questão social como “caso de polícia”. Mais do que isso: é “caso de batalhão de choque”.

Nada muito diferente, portanto, da ditadura militar, que foi iniciada com a “revolução” até ontem exaltada na página da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Por isso não fiquei nem um pouco surpreso.

Ah, se fosse na Argentina…

Via Facebook, acessei uma entrevista publicada na Veja em dezembro de 1998 (época em que a revista ainda não tinha alcançado o nível de degradação jornalística que vemos hoje). Um ex-tenente do Exército no período da ditadura diz, sem rodeios, ter torturado “umas trinta pessoas” e não se arrepender disso.

Na Wikipédia, leio que ele faleceu em 2009 (até busquei por mais informações sobre isso e não achei). Ou seja, sem pagar por crimes que confessou ter cometido! E ainda tem gente que, com a maior cara-de-pau, nega não só que tenha havido tortura no Brasil, como também a própria existência da ditadura militar. Mesmo que, 13 anos atrás, um dos agentes da repressão tenha dito que tudo aquilo realmente aconteceu (e que quem nega isso é um idiota).

Aí alguém diz que o Brasil não é um país sério, e um monte de gente, do nada, vira “patriota” e sai xingando o coitado que falou uma grande verdade. E lembram que o povo brasileiro é acolhedor, cordial…

Pura balela. Fossem os brasileiros realmente cordiais, não se aceitaria que a falta de cordialidade, como a dos torturadores com suas vítimas, pudesse ficar impune como ficou.

Dizem que a impunidade serve para “não reabrir velhas feridas”, mas a verdade é que elas jamais cicatrizaram. Ainda mais para quem enfrentou sessões de tortura e anos depois precisa passar por seu algoz na rua e fingir que nada aconteceu.

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Tivesse isso acontecido na Argentina, alguém duvida que o cara estaria no mínimo sofrendo processo judicial por um crime de lesa-humanidade?

Ditadura é um regime político

ditadura sf 1. Forma de governo em que todos os poderes se enfeixam nas mãos dum indivíduo, grupo, partido ou classe. 2. Tirania.

O trecho acima é a definição do minidicionário Aurélio para “ditadura”. Em outro dicionário é provável que encontremos palavras diferentes, mas provavelmente ele não nos dirá que se trata de um regime plural, aberto.

Diante desta definição, como negar que houve uma ditadura no Chile de 1973 a 1990, época em que o país era governado com mão de ferro pelo general Augusto Pinochet? Simples: reescrevendo a história nos livros didáticos chilenos. (O que, dada a admiração dos atuais governantes do país pelo ditador, não me surpreende.)

A direita brasileira deve estar babando: certamente, o sonho dos piores reacionários de nosso país é tornar ilegal alguém dizer que o Brasil de 1964 a 1985 era uma ditadura militar.

Agora, a certeza (“pergunta” seria perda de tempo): se o governo da Rússia tomar uma atitude semelhante à do Chile, e determinar a retirada da expressão “ditadura” dos livros escolares nos trechos que tratam sobre o stalinismo (se é que já não fez isso), os mesmos reaças condenarão o absurdo, vomitando seus mofados discursos anticomunistas como se ainda estivéssemos na Guerra Fria. (E depois a esquerda que é “atrasada”…)

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Alguém poderá argumentar que não há diferença entre usar o termo “ditadura militar” e “regime militar” nos livros escolares. Porém, como a notícia citada informa, a ideia é fazer os estudantes chilenos usarem “regime” ao invés de “ditadura”. Assim, se um aluno escrever “ditadura militar” em uma prova, perderá pontos por sua resposta?

E além disso, “ditadura” não é sinônimo de “regime”: ela é apenas um tipo de regime político. “Democracia” é outro (e que, aliás, é bem melhor).

Em 2012, EU VOU VOTAR!

Li a frase acima em um e-mail que recebi em 2001, quando o governo federal, então chefiado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), anunciou a necessidade de se poupar o máximo de energia para evitar um grande “apagão” no Brasil. O texto comentava sobre as inúmeras mudanças de hábitos que teríamos de adotar (com direito a jogos de futebol no meio da tarde, mesmo em dias úteis), e terminava com uma frase que denotava esperança:

Mas, no ano que vem, EU VOU VOTAR!

Pois acho que é hora de circular algo semelhante, mas relativo à eleição municipal marcada para 7 de outubro de 2012. Mais precisamente, no tocante a Porto Alegre.

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Começando pelo lixo, que é um problema sério, e não é de hoje. Ano passado, a coleta simplesmente parou na época do Natal. Não bastasse isso, na madrugada de 25 de dezembro desabou uma senhora chuvarada sobre Porto Alegre, espalhando ainda mais o lixo resultante das ceias. Imaginem o emporcalhamento das ruas…

E eis que no último fim-de-semana, tivemos problema semelhante: o lixo nos bairros em que não há contêineres (que são uma ótima ideia, pena que a maioria das pessoas simplesmente não saiba que eles são só para lixo orgânico e seguem depositando material reciclável neles, graças à falta de informação) não foi recolhido por vários dias, ficando acumulado e causando mau cheiro, que costuma ser intensificado pelo calor.

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E quem nos representa? Em tese, os vereadores. Porém, não me sinto representado por quem votou em Mauro Zacher (PDT) para presidente da Câmara. Apenas Fernanda Melchionna e Pedro Ruas, ambos do PSOL, votaram contra.

O ridículo “argumento” do PT para votar a favor “em bloco” foi que “havia um acordo entre os partidos” – mesmo que isso significasse ignorar uma moção de repúdio a Zacher aprovada por unanimidade pela própria Executiva do PT de Porto Alegre, na qual foram explicitadas as razões pelas quais o partido deveria votar contra.

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E quarta à tarde, tivemos a votação da proposta da bancada do PSOL para mudar o nome da avenida pela qual se entra em Porto Alegre: segue lá o ditador Castelo Branco ao invés da Campanha da Legalidade. De positivo, só o fato de saber quais são os vereadores que preferem manter a homenagem a um ditador em nome da “comodidade” (leia-se conservadorismo) – isso sem contar os omissos. Inclusive de partidos que, se fossem coerentes com sua história, votariam em peso a favor da mudança – caso do PDT (fundado pelo líder da Legalidade), que teve só um voto favorável.

  • A favor da mudança:
    • Luciano Marcantônio (PDT)
    • Toni Proença (PPL)
    • Airto Ferronato (PSB)
    • Pedro Ruas (PSOL)
    • Fernanda Melchionna (PSOL)
    • Adeli Sell (PT)
    • Aldacir Oliboni (PT)
    • Engenheiro Comassetto (PT)
    • Maria Celeste (PT)
    • Mauro Pinheiro (PT)
    • Sofia Cavedon (PT)
    • DJ Cassiá (PTB)
  • Contra a mudança:
    • Reginaldo Pujol (DEM)
    • Dr. Raul Torelly (PMDB)
    • Haroldo de Souza (PMDB)
    • Professor Garcia (PMDB)
    • Sebastião Melo (PMDB)
    • Beto Moesch (PP)
    • João Antônio Dib (PP)
    • João Carlos Nedel (PP)
    • Paulinho Rubem Berta (PPS)
    • Waldir Canal (PRB)
    • Nelcir Tessaro (PSD)
    • Tarciso Flecha Negra (PSD)
    • Luiz Braz (PSDB)
    • Mario Manfro (PSDB)
    • Elói Guimarães (PTB)
    • Nilo Santos (PTB)
  • Abstenções:
    • Mário Fraga (PDT)
    • Idenir Cecchim (PMDB)
    • Elias Vidal (PPS)
    • Alceu Brasinha (PTB)
  • Ausentes:
    • Dr. Thiago Duarte (PDT)
    • Mauro Zacher (PDT)
    • Bernardino Vendruscolo (PSD)
    • Carlos Todeschini (PT)

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Com tudo isso (fora outros inúmeros absurdos), não resta outra alternativa a não ser lembrar, tanto aos administradores da cidade quanto aos ditos “representantes” que não me representam (salvo raras exceções):

Em 7 de outubro de 2012, EU VOU VOTAR!

E além disso, farei questão de lembrar este texto no dia 6 de outubro, véspera da eleição.

Mentiras sobre a Avenida da Legalidade

No quarto parágrafo do texto de quarta-feira, comentei sobre a comodidade de se manter o atual nome da “porta de entrada” de Porto Alegre, em nome da “facilidade de se localizar”. Afinal, já são 40 anos de homenagem ao ditador Castelo Branco, a população já se acostumou.

Era de se esperar que vozes contrárias à renomeação da avenida se levantassem. Porém, estão enganando a população com o uso de mentiras (por ingenuidade ou por descaramento).

Uma destas mentiras é a de que a mudança de nome da via – de Avenida Presidente (é ditador, pô!) Castelo Branco para Avenida da Legalidade – atrapalhará a vida dos porto-alegrenses. Pois eu digo que não atrapalhará em absolutamente nada: a avenida cujo nome homenageia Castelo Branco não tem residências nem estabelecimentos comerciais. Os prédios mais próximos da via têm entrada por outras ruas. Ou seja, não será preciso atualizar endereço nenhum. Mudarão apenas algumas placas, e serão poucas mesmo, pois como a referida avenida é uma via expressa, praticamente não tem esquinas.

Um outro argumento mentiroso é o de que “a esquerda quer reescrever a História conforme lhe convém”. É bem típico de quem não entende absolutamente nada de História, pois ela é constantemente reescrita. Se a Física, uma ciência exata, não é imutável (Albert Einstein que o diga), por que a História teria de ser rígida? Inclusive, a cada trabalho historiográfico – acadêmico ou não – a História é reescrita, ganha uma nova versão.

No caso da avenida, não se trata de uma nova versão da História, e sim, de trocar uma homenagem: ao invés de um ditador, um movimento em defesa da democracia. (E não me venham com o papo furado de que “os militares nos salvaram de uma ditadura comunista”: muito fácil se dizer defensor da democracia depois de acabar com ela…)

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Lembram da famosa Batalha de Stalingrado, na Segunda Guerra Mundial? Sua denominação se deve à cidade onde os combates aconteceram. Porém, há muitos anos ela não se chama mais Stalingrado, e sim, Volgogrado. A cidade mudou de nome justamente para não mais homenagear um ditador: Josef Stalin.

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E o Guga Türck tem uma outra proposta, ainda mais ousada. E que iria deixar ainda mais em pé os cabelos dos direitosos, já que mudaria o nome da rua dos poderes do Rio Grande do Sul…