Todos somos pequenos ditadores

“Ninguém é dono da verdade”. Eis uma frase muito dita em trocas de ideias, mas que detesto. Acho-a autoritária: reparem que ela geralmente é usada por uma pessoa que discorda de nós, como que querendo dizer que nosso ponto de vista vale menos que o dela. Diante de uma opinião contrária, é mais fácil tentar desqualificá-la atacando o autor do que responder com argumentos.

“Mas então tu achas que há pessoas donas da verdade?”, alguém pode perguntar. A resposta é: sim e não. O “sim” refere-se a nós mesmos: todos temos nossas “verdades”, e quando expressamos opiniões, é porque as consideramos verdadeiras. Já o “não” é justamente porque nossas “verdades” são nossas, e não de todos.

Um exemplo bem simples: eu não gosto de baladas. Já fui várias vezes e até me diverti, mas não é exatamente “a minha praia” (aliás, nem gosto tanto assim de praia, embora ache muito melhor do que estar no Forno Alegre). Tenho como uma verdade que “baladas são chatas”. Mesmo que a maioria das pessoas discorde.

O exemplo citado refere-se a um gosto pessoal. Mas há verdades que acabam afetando mais pessoas, e neste caso é natural que haja disputas. Como no tocante à política, por exemplo. É impossível agradar a todos, então sempre deve prevalecer a vontade da maioria – mas obviamente respeitando os direitos fundamentais de todos.

Porém, o que não faltam são pessoas que desprezam os direitos fundamentais de todos. Inclusive, o de gostar (ou não) de baladas. Acreditam que seus gostos, suas preferências, são as únicas opções corretas, e que as demais devem ser condenadas e reprimidas. Legítimos ditadores em pequena escala.

Engana-se quem pensa que em uma ditadura simplesmente somos oprimidos por um tirano que toma o poder à força e depois passa a decidir sobre a vida e a morte de todos os cidadãos. Em 1944, o poeta italiano Trilussa (nome artístico de Carlos Alberto Salustri) publicou em seu Libro muto (Livro mudo) o genial poema “Números”, no qual satirizava Benito Mussolini e o fascismo:

Eu valho muito pouco, sou sincero,
Dizia o Um ao Zero,
No entanto, quanto vales tu? Na prática
És tão vazio e inconcludente
Quanto na matemática.
Ao passo que eu, se me coloco à frente
De cinco zeros bem iguais
A ti, sabes acaso quanto fico?
Cem mil, meu caro, nem um tico
A menos nem um tico a mais.
Questão de números. Aliás é aquilo
Que sucede com todo ditador
Que cresce em importância e em valor
Quanto mais são os zeros a segui-lo.

O ditador não é um monstro ou alguém dotado de poderes mágicos. Ele é alguém como nós, com no máximo algumas diferenças, do tipo ser bom em oratória, um apurado senso de oportunismo, e principalmente, um bom “palanque” para que possa ser ouvido pelo máximo possível de pessoas. Já os Zeros, são aqueles que, seduzidos pelo discurso do Um, começam a segui-lo e, consequentemente, a aumentar seu valor.

As aspas do “palanque” se devem ao fato de que não me referia ao palanque propriamente dito, ou seja, aquela estrutura montada, de madeira. Aparecer regularmente na televisão como figura de destaque, por exemplo, é um dos melhores “palanques” que alguém pode ter a seu favor. Porém, não é preciso aparecer na televisão para alguém ter a oportunidade de exercer, em certa escala, seu poder ditatorial.

As páginas de redes sociais (e o Facebook é um dos melhores exemplos) têm aspectos bastante positivos, mas o principal deles é, sem dúvida, permitir que qualquer um se expresse e tenha alguma repercussão – sem necessariamente passar pelo “filtro” da mídia tradicional. Dessa forma, informações incorretas são rapidamente corrigidas e mesmo desmentidas.

Porém, como já foi dito, a diferença entre o Um e o Zero do poema de Trilussa é muito pequena. A oratória e o oportunismo são importantes, mas o principal trunfo do ditador é o “palanque”. E o Facebook fez com que inúmeros Zeros se transformassem em Uns, mesmo que em menor escala – até porque, se não há muitos Zeros, o valor do Um não aumenta tanto. Muito embora vários Uns sejam Zeros ao mesmo tempo, por concordarem entre si e assim não se criticarem em nenhum momento.

O que aconteceu mesmo é a constatação de que todos somos pequenos ditadores, pouco importando o número de “seguidores”: quem nunca se meteu a “cagar regras” via Facebook? Seja em postagens, seja em comentários a algumas delas, todos já tivemos nossos momentos autoritários, tentativas de outorgar nossos gostos pessoais a outras pessoas. (Sim, isso também é uma autocrítica que faço.)

E voltamos a meu exemplo lá de cima: não gosto de baladas. O que faço? Simplesmente não as frequento. Mas há pessoas que, por conta disso, dizem que “baladas são coisas horríveis”, acham que “não deveriam existir”, até usam alguns argumentos que fazem muito sentido (como o da poluição sonora) e rotulam da pior maneira possível quem as aprecia. Também há o lado contrário: os que gostam e atacam quem não gosta. E ainda poderíamos citar mais vários exemplos, de coisas bem mais importantes que gostar (ou não) de baladas, que em nada nos afetam mas ainda assim despertam o pequeno ditador que temos dentro de nós: não contente em ditar normas a apenas uma pessoa, quer impô-las a todos. Contra isso, devemos lutar sempre.

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Encontro de stalinistas

Em maio de 1978, o ditador romeno Nicolae Ceauşescu visitou a Coreia do Norte. Seu par norte-coreano, Kim Il-sung (o “presidente eterno”, sucedido em 1994 por Kim Jong-il e agora, por Kim Jong-un), recebeu-o de maneira apoteótica, como manda a cartilha stalinista.

Não era a primeira vez que Ceauşescu ia à Coreia do Norte. A visita anterior ocorrera em 1971, e fora “inspiradora”: o ditador ficara impressionado com a “mobilização ideológica”, a megalomania e o culto à personalidade de Kim Il-sung, e decidira aplicar algo semelhante na Romênia.

Não por acaso, as celebrações do dia 23 de agosto, em lembrança à libertação da Romênia do domínio nazista (1944), não eram muito diferentes da recepção que Ceauşescu recebera em Pyongyang. Performances que, imagino, devam ter sido ensaiadas várias centenas de vezes, além de muita bajulação ao ditador.

A megalomania também foi característica dos dois ditadores. Em 1º de maio de 1989, Kim Il-sung inaugurou em Pyongyang o que é na atualidade o maior estádio do mundo, o Rungrado May Day, com capacidade para 150 mil espectadores. Além de receber jogos da seleção da Coreia do Norte, também é palco de grandes celebrações de endeusamento dos líderes políticos do país.

Já na Romênia, enquanto o povo tinha de racionar tudo (até a calefação durante o inverno) para que o país pagasse sua dívida externa, Ceauşescu decidiu construir um novo centro para a capital Bucareste (arrasando assim vários prédios históricos), com destaque para o maior palácio do mundo, projetado para abrigar todo o poder político e também servir de residência para o ditador e sua esposa.

Em dezembro de 1989, a obra ainda não estava concluída. Mas o exasperado povo romeno, cansado de tanta opulência por parte de seus líderes políticos, depôs a ditadura. E há exatos 22 anos, enquanto eu brincava com o “Pense Bem” que tinha ganho de Natal (naquela época eu gostava de Natal), Nicolae e Elena Ceauşescu foram fuzilados após um julgamento sumário que os condenou à morte. O palácio, cuja construção era muito onerosa para os cofres públicos romenos mas sairia ainda mais caro para ser derrubado, hoje abriga, incompleto, o parlamento da Romênia.

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Vinte anos atrás, e dois após o fuzilamento do casal Ceauşescu, eu continuava a gostar de Natal. Por novamente estar me divertindo com os presentes, perdi um momento histórico naquele 25 de dezembro de 1991: a renúncia de Mikhail Gorbachev à presidência da União Soviética, fato que resultou na dissolução do país. Foi apenas a antecipação do fim, pois este já estava marcado para dali a seis dias.

Pouco após a renúncia de Gorbachev, a bandeira vermelha da URSS que tremulava no mastro do Kremlin foi arriada. Em seu lugar, foi hasteado o pavilhão branco, azul e vermelho da Rússia.

Em 2012, EU VOU VOTAR!

Li a frase acima em um e-mail que recebi em 2001, quando o governo federal, então chefiado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), anunciou a necessidade de se poupar o máximo de energia para evitar um grande “apagão” no Brasil. O texto comentava sobre as inúmeras mudanças de hábitos que teríamos de adotar (com direito a jogos de futebol no meio da tarde, mesmo em dias úteis), e terminava com uma frase que denotava esperança:

Mas, no ano que vem, EU VOU VOTAR!

Pois acho que é hora de circular algo semelhante, mas relativo à eleição municipal marcada para 7 de outubro de 2012. Mais precisamente, no tocante a Porto Alegre.

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Começando pelo lixo, que é um problema sério, e não é de hoje. Ano passado, a coleta simplesmente parou na época do Natal. Não bastasse isso, na madrugada de 25 de dezembro desabou uma senhora chuvarada sobre Porto Alegre, espalhando ainda mais o lixo resultante das ceias. Imaginem o emporcalhamento das ruas…

E eis que no último fim-de-semana, tivemos problema semelhante: o lixo nos bairros em que não há contêineres (que são uma ótima ideia, pena que a maioria das pessoas simplesmente não saiba que eles são só para lixo orgânico e seguem depositando material reciclável neles, graças à falta de informação) não foi recolhido por vários dias, ficando acumulado e causando mau cheiro, que costuma ser intensificado pelo calor.

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E quem nos representa? Em tese, os vereadores. Porém, não me sinto representado por quem votou em Mauro Zacher (PDT) para presidente da Câmara. Apenas Fernanda Melchionna e Pedro Ruas, ambos do PSOL, votaram contra.

O ridículo “argumento” do PT para votar a favor “em bloco” foi que “havia um acordo entre os partidos” – mesmo que isso significasse ignorar uma moção de repúdio a Zacher aprovada por unanimidade pela própria Executiva do PT de Porto Alegre, na qual foram explicitadas as razões pelas quais o partido deveria votar contra.

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E quarta à tarde, tivemos a votação da proposta da bancada do PSOL para mudar o nome da avenida pela qual se entra em Porto Alegre: segue lá o ditador Castelo Branco ao invés da Campanha da Legalidade. De positivo, só o fato de saber quais são os vereadores que preferem manter a homenagem a um ditador em nome da “comodidade” (leia-se conservadorismo) – isso sem contar os omissos. Inclusive de partidos que, se fossem coerentes com sua história, votariam em peso a favor da mudança – caso do PDT (fundado pelo líder da Legalidade), que teve só um voto favorável.

  • A favor da mudança:
    • Luciano Marcantônio (PDT)
    • Toni Proença (PPL)
    • Airto Ferronato (PSB)
    • Pedro Ruas (PSOL)
    • Fernanda Melchionna (PSOL)
    • Adeli Sell (PT)
    • Aldacir Oliboni (PT)
    • Engenheiro Comassetto (PT)
    • Maria Celeste (PT)
    • Mauro Pinheiro (PT)
    • Sofia Cavedon (PT)
    • DJ Cassiá (PTB)
  • Contra a mudança:
    • Reginaldo Pujol (DEM)
    • Dr. Raul Torelly (PMDB)
    • Haroldo de Souza (PMDB)
    • Professor Garcia (PMDB)
    • Sebastião Melo (PMDB)
    • Beto Moesch (PP)
    • João Antônio Dib (PP)
    • João Carlos Nedel (PP)
    • Paulinho Rubem Berta (PPS)
    • Waldir Canal (PRB)
    • Nelcir Tessaro (PSD)
    • Tarciso Flecha Negra (PSD)
    • Luiz Braz (PSDB)
    • Mario Manfro (PSDB)
    • Elói Guimarães (PTB)
    • Nilo Santos (PTB)
  • Abstenções:
    • Mário Fraga (PDT)
    • Idenir Cecchim (PMDB)
    • Elias Vidal (PPS)
    • Alceu Brasinha (PTB)
  • Ausentes:
    • Dr. Thiago Duarte (PDT)
    • Mauro Zacher (PDT)
    • Bernardino Vendruscolo (PSD)
    • Carlos Todeschini (PT)

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Com tudo isso (fora outros inúmeros absurdos), não resta outra alternativa a não ser lembrar, tanto aos administradores da cidade quanto aos ditos “representantes” que não me representam (salvo raras exceções):

Em 7 de outubro de 2012, EU VOU VOTAR!

E além disso, farei questão de lembrar este texto no dia 6 de outubro, véspera da eleição.