Não me surpreende nem um pouco

Ontem, foi denunciado que a página da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo tratava o golpe de 1964 como “revolução democrática”. Fui ver, estavam lá as palavras que nada têm a ver com o que aconteceu no Brasil em 1964. Para não acharem que estou inventando, vale a pena lembrar que isso virou notícia na Folha de São Paulo, que de “comunista” não tem nada.

A informação, que constava na cronologia da SSP, foi retirada da página. Mas com a desculpa do governo paulista de que “o texto relacionado ao ano de 1964 não reflete o pensamento da Secretaria de Segurança Pública”. Vou fazer de conta que acredito, depois de tudo o que temos visto recentemente por lá…

São Paulo é hoje o principal reduto do PSDB. O partido está no governo estadual desde 1995. Jovens de 16 anos que votarão pela primeira vez na próxima eleição, jamais viveram sob governo de outro partido no Estado.

Alguém pode achar que por conta disso, comparo os governos do PSDB em São Paulo à ditadura militar, mas está redondamente enganado. Tempo de governo não é pré-requisito para uma ditadura – embora todo regime autoritário que se preze busque se perpetuar. A intensidade da repressão me parece um “ditadômetro” melhor. A Argentina é um bom exemplo: lá o último regime militar durou apenas sete anos e meio (1976-1983); menos, portanto, do que o governo de Carlos Menem, presidente que ganhou duas eleições e ficou dez anos no poder (1989-1999). A diferença é que os governos militares (sim, foram vários ditadores em sete anos e meio) causaram a morte e/ou o desaparecimento de 30 mil pessoas.

Ou seja, é mais às atitudes dos governos, do que à sua duração, que devemos ser críticos. E no caso de São Paulo, é notório que o governo estadual trata a questão social como “caso de polícia”. Mais do que isso: é “caso de batalhão de choque”.

Nada muito diferente, portanto, da ditadura militar, que foi iniciada com a “revolução” até ontem exaltada na página da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Por isso não fiquei nem um pouco surpreso.

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É para isto que Dilma foi eleita?

Segunda-feira, aconteceu a festa de 90 anos do jornal Folha de São Paulo. A comemoração contou com a presença da presidenta Dilma Rousseff, que em discurso chegou a elogiar o jornal!

Sim, parece piada. Ainda mais depois de tudo o que já se viu nas páginas da Folha: “ditabranda”, ficha falsa, campanha pró-Serra disfarçada de “imparcialidade”, censura… Dilma perdeu uma excelente oportunidade de ficar em Brasília.

Por que motivos Dilma foi bajular o jornal? Esperança de que ele não lhe faça oposição, como fez ao governo Lula? Pfff…

Dilma Rousseff, que tem domicílio eleitoral em Porto Alegre, deveria aprender com o exemplo do Rio Grande do Sul. Em 2007, durante homenagem aos 50 anos da RBS na Câmara de Deputados, vários parlamentares bajularam a empresa, dentre eles Maria do Rosário (PT), Manuela D’Ávila (PCdoB) e Luciana Genro (PSOL) – que no ano seguinte foram candidatas à prefeitura de Porto Alegre.

Adiantou alguma coisa? Não! O então prefeito José Fogaça (PMDB), ex-funcionário da RBS, foi reeleito mesmo sem ter feito nada que prestasse. Não bastasse isso, Luciana Genro – que em 2003 teve a dignidade de se recusar a prestar um minuto de silêncio pela morte de Roberto Marinho – não conseguiu se reeleger, mesmo tendo recebido cerca de 129 mil votos (foi a deputada não eleita mais votada do Brasil), pois o PSOL não alcançou o quociente eleitoral no Rio Grande do Sul. E Luciana ainda tornou-se inelegível no Estado, já que seu pai Tarso Genro é o governador.

Racismo e xenofobia 2

O Guga Türck escreveu um ótimo post no Alma da Geral sobre o texto do Chico Lang publicado na Gazeta Esportiva.

O artigo do Lang é um insulto não a quem mora no Rio Grande do Sul, mas sim, a quem tem o mínimo de inteligência. É um texto racista (comprovadamente) e xenófobo.

É racista, porque fala sobre a violência como “coisa de índio” – como se o homem branco nunca tivesse feito nenhuma guerra, só os indígenas. As duas guerras mundiais, o Holocausto… Foram os índios que fizeram tudo isso? Foram eles que provocaram as mais sangrentas guerras que nossa América Latina viveu?

E é xenófobo porque a palavra “xenofobia” significa “fobia à diferença”. Logo, ela pode ocorrer entre grupos de dentro do mesmo país – exemplo disso, dentro do Brasil, é o preconceito existente contra o Norte e o Nordeste.

O texto desse Chico Lang trata o futebol riograndense como “de espírito belicoso” (seria inferior, por isso partiria para a violência). Antes mesmo da bola rolar, fala que Corinthians e Cruzeiro serão tratados com violência aqui em Porto Alegre, na próxima semana, e que deveriam “trazer um pelotão de seguranças”. (Se trouxerem, mandem a conta para o Lang pagar, pois o que ele escreveu pode muito bem vir a servir de incitação para os poucos que não gostam de futebol, e sim de violência. E que não são exclusividade de um ou outro Estado.)

Não satisfeito, o cara ainda inventa de falar que na ditadura militar “a maioria dos generais era do Sul”. De fato, eram. Mas é preciso ser muito, digamos, inocente, para achar que os militares não tiveram apoio de muita gente fora do Rio Grande do Sul, e que os riograndenses foram todos, sem exceção, favoráveis ao golpe. Sem apoio, alguém acha que eles ficariam no poder?

E não esqueçamos da “grande mídia” (da qual faz parte o Chico Lang): a daqui apoiou a quartelada de 1964, é claro, mas isso não foi nada diferente do que fez a do centro do país. Inclusive há um jornal, considerado o maior do Brasil, que teria emprestado carros aos órgãos de repressão do regime militar e ainda disse que não houve ditadura no Brasil, mas sim uma “ditabranda”.

“É possível contar um monte de mentiras, dizendo só a verdade.”

A frase acima foi dita em um famoso comercial da Folha de São Paulo, em 1987. Mas o jornal fez exatamente isso ao dizer que a ditadura militar brasileira foi uma “ditabranda” pelo simples fato de que aqui no Brasil morreu menos gente do que na Argentina e no Chile.

Pois o jornal contou apenas meias-verdades. E o pior, com o endosso de um historiador, Marco Antonio Villa, que publicou artigo defendendo o uso do termo “ditabranda” na edição do último dia 5. O Valter comentou o artigo em ótimo post no blog dele, clique aqui para ler.

Abaixo, um vídeo baseado no artigo de Villa:

“Ditabranda”: ato foi um sucesso

No sábado pela manhã, foi realizado a partir da iniciativa do Movimento dos Sem-Mídia (MSM) um ato em protesto contra o editorial do jornal Folha de São Paulo do último dia 17 de fevereiro, que chamou a ditadura militar brasileira de “ditabranda”. A manifestação também foi em desagravo aos professores Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato, chamados de “cínicos e mentirosos” pelo jornal.

Pelo menos 345 pessoas (de acordo com a lista de presenças do MSM) se reuniram em frente à sede da Folha, no Centro de São Paulo. O próprio jornal cobriu o ato, mas estimou em 300 o número de participantes. Pior foi o número divulgado pela Polícia Militar de São Paulo: 65 (pelo visto eles nem sabem da existência da lista de presenças). Como muitos não assinaram a lista (visto que apenas duas pessoas coletaram assinaturas), provavelmente o número de manifestante superou os 400.

Pode parecer pouco, mas foi um sinal para a “grande” mídia: ela não pode achar que vai dizer o que quiser, posar de “imparcial” e ficar por isso mesmo. Se as empresas de mídia largarem de mão essa balela da “imparcialidade” e assumirem seu lado, merecerão todo o meu aplauso, mesmo que eu discorde de suas opiniões: serão honestos com o leitor.

Quanto a fotos e vídeos, se pode encontrá-los nos blogs Cidadania.com (do Eduardo Guimarães, presidente do MSM) e Dialógico (onde também se encontra diversos links sobre o ato).

Fica aqui registrado o parabéns ao Eduardo Guimarães e ao MSM pelo sucesso do ato!