O “tempo bom” é relativo

Não existe discurso neutro. Não importa o idioma: tudo o que alguém ou alguma instituição diz reflete sua maneira de ver o mundo, sua ideologia.

Até mesmo uma previsão do tempo. É senso comum considerar um dia ensolarado como de “tempo bom”, pois costumamos valorizar atividades de lazer ao ar livre. Quem está na praia, por exemplo, quer muito sol e nada de chuva. Mas, no campo ou numa cidade que sofre racionamento de água durante estiagens (caso de Bagé), “tempo bom” é algo muito relativo, e muitas vezes corresponde justamente à chuva, não ao sol.

E nem é preciso viver no campo ou numa cidade onde falta água em épocas de seca para relativizar o “tempo bom”. Em Porto Alegre, por exemplo: após tantos dias de calor sufocante, nada melhor do que esta sexta-feira cinzenta e de temperatura amena. Para este que vos escreve, muito sol e 40°C é o pior dos tempos, então “tempo bom” é justamente o que se teve hoje.

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Tinha que ser o Pepe de novo

O governo de José Mujica no Uruguai não é revolucionário. O país ainda apresenta muitos problemas, a pobreza e a falta de moradia não foram deixaram de existir. Medidas como a descriminalização do aborto e o controle da maconha pelo Estado não são socialistas, mas sim, liberais em termos de costumes. O mínimo que se espera de qualquer país que se julgue democrático.

Mas, por outro lado, cada discurso do presidente uruguaio sempre vale a pena ser lido, ouvido, assistido. Como a fala dele na Assembleia Geral da ONU, resumida aqui e que pode ser assistida abaixo.

A chatice das formaturas em palco

O programa “Polêmica” da Rádio Gaúcha, hoje, trata sobre a decisão da UFRGS de “enxugar” as formaturas em palco. Para isso, a ideia é de acabar com os discursos dos formandos ao receber o “canudo” (que não é o diploma!), visto que muitos se estendem demais (alguns chegam ao ponto de agradecerem ao cachorro!). No lugar dos discursos, haveria um vídeo de cada formando, com duração de 30s, com seus agradecimentos.

Muitos estudantes reagiram. Acharam um “absurdo”, e, façam-me-rir, “ameaça à liberdade de expressão”. Porra, VTNC!

Formaturas em palco são chatas. Chatíssimas. Por conta disso, optei por me formar em gabinete. Decidi não tratar a formatura como se fosse um “trote” (ou seja, “como levei antes, agora é minha vez de aplicá-lo”). Aliás, nem festa fiz, não tenho saco para essas coisas – quando se reúne um monte de gente, nunca se consegue conversar direito com todos.

E nem só as da UFRGS são uma chatice. Em janeiro de 2006, quando o meu amigo Marcel – aquele do HeinhÔ Batista e do terno e gravata com 35°C – se formou na PUCRS, a cerimônia era interminável – quase ninguém mais aguentava! Embora não houvesse agradecimentos de cada formando, a turma era enorme, e os discursos idem.

Já na UFRGS, o que poderia ser rápido (as turmas geralmente são menores) torna-se enfadonho por excesso de discursos. Pois vou àquela chatice por causa de um amigo, e sou obrigado a ouvir agradecimentos de pessoas com as quais não tenho nada a ver (se ao menos descessem a lenha no desgoverno do Estado…). Como achar aquilo “emocionante”?

Tudo bem, a solução no caso da UFRGS tem de ser negociada (mesmo que eu seja totalmente favorável à medida da universidade), e mesmo que fosse feita uma consulta eu não poderia mais participar dela por já ter me formado. Mas os que são contra o “enxugamento” das formaturas, por favor, usem um argumento menos tosco do que “ameaça à liberdade de expressão”. Pois quem se forma em palco geralmente faz uma “recepção” aos convidados em um restaurante: se querem tanto discursar, façam isso na “recepção”, onde o público terá muito mais interesse em ouvir.

Em um 11 de setembro

A situação política na Bolívia anda por demais complicada, devido aos violentos protestos promovidos pela oposição contra o governo de Evo Morales.

Muita gente acredita que Evo “tem o exército ao seu lado”, e que por isso é difícil que aconteça um golpe na Bolívia. Acho temerária esta crença. Pois num outro mês de setembro, em 1973, o presidente do Chile, Salvador Allende, acreditava ter o exército ao seu lado. E na terça-feira, dia 11, percebeu que muitos militares, que diziam serem leais ao governo e à constituição, na verdade apenas conspiravam, e falavam aquilo da boca pra fora.

Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Postales e da Rádio Corporación. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos.

A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.

(Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973)