Sejamos “malas” (de preferência, “sem alça”)

Hoje pela manhã, li o excelente artigo de Victor Necchi, “Eu tenho turma”, publicado no RS Urgente. A origem do texto é a coluna de David Coimbra na Zero Hora de sexta, de título “contrário” – ou seja, “Eu não tenho turma”. (No site do jornal a leitura só é permitida aos assinantes, achei o nauseabundo texto aqui.)

Não é de turma de amigos que David Coimbra fala. Ele dispara contra todos os grupos que lutam por alguma coisa, desde os de esquerda até mesmo aos reacionários. Para ele, “é tudo mala”. Na certa, o mundo ideal para o colunista do jornal é um no qual não haja discordâncias, debates: todos devem pensar igual.

Ora, eu discordo totalmente do que defendem os evangélicos ou os reaças “à Bolsonaro”, mas pior seria se, por conta disso, eles fossem proibidos de falar. Como eu disse no texto de segunda-feira, se ofendem alguém, é preciso que haja a possibilidade de punição por isso (afinal, eles são responsáveis pelo que dizem), mas sempre depois de falarem, nunca antes (o que configuraria a verdadeira censura). Se todos pensassem que nem eu, nunca haveria a possibilidade de eu mudar de ideia em relação a qualquer assunto. Convenhamos, um mundo sem os “chatos” que discordam seria muito… Chato.

David Coimbra diz que pode até mesmo ser um tremendo mala, mas que não tenta cooptar os outros para sua “malice”. Então, pergunto: por que raios de motivos ele escreve? Pois toda vez que nos comunicamos, queremos que as pessoas saibam o que temos a dizer. E geralmente o objetivo é convencer quem pensa diferente a mudar de ideia (leia-se “pensar de forma semelhante a nós”). Ela pode ser convencida – ou não. E o texto do colunista da ZH não me convenceu.

Ou melhor, realmente me convenceu. Mas de forma contrária ao que ele defende. Ele quer um mundo “bovino”, em que as pessoas ajam como se estivessem numa manada, só se preocupem em se enquadrar no sistema que ele defende. Eu não quero. Se isso é ser “mala”, então eu sou “mala sem alça”, com orgulho.

E somos “malas” todos os que criticamos o status quo, justamente por que não deixamos os conformistas em paz. Eles acham um saco que alguém os questione. Então, que continuemos assim, sendo “malas”. E de preferência, “sem alça”, para que incomodemos ainda mais.

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No texto, David Coimbra também diz não ter ideologia. Nada pode ser mais ideológico: com essa, ele optou pela defesa do que está aí.

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Sobre as amizades

É mais fácil pensar de forma contrária, preto no branco, os de lá, os de cá. Mas, dessa forma, a vida vai ficando mais pobre. Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro e do lado de cá os santos. Isso sem contar a impossibilidade de apreciar tudo o que o outro tem de melhor – do ombro amigo à conversa inflamada em uma mesa de bar.

O parágrafo acima é de um ótimo texto que li (e recomendo a leitura) no Blog do Sakamoto. Que me fez pensar bastante em como muitas vezes eu agi – e também como certas pessoas agem.

Certa vez, na volta da faculdade eu conversava no ônibus com uma colega, mas ela era mais que isso: era uma pessoa que eu realmente considerava amiga. Não lembro exatamente o assunto do qual falávamos originalmente, mas sim que quando comentei que tinha amigos de direita, ela achou contraditório, e disse que não conseguia fazer amizades com pessoas assim.

Não nos tornamos amigos de uma pessoa totalmente “por acaso”, embora possa parecer (caso de colegas de colégio, de faculdade, de trabalho etc.). Tanto que geralmente se perde o contato com a maior parte, por exemplo, dos colegas de colégio quando vamos estudar em outra escola ou entramos na faculdade. E o mesmo se dá com os próprios colegas da faculdade, quando nos formamos… Do Jardim de Infância, então, nem se fala: nunca mais tive contato algum com meus coleguinhas do Esquilo Travesso (nem mesmo com a menina que em 1988 me presenteou com um ursinho no meu aniversário).

Mas, ao mesmo tempo que as amizades não surgem “por acaso”, isso não quer dizer que sejam “escolhidas” (óbvio que falo de amizades verdadeiras, não aquelas em que há intere$$e$ na jogada). Afinal, nunca escolhemos com quem iremos nos deparar na vida. Não temos poder algum de decisão sobre a formação de uma turma de colégio, de faculdade, de trabalho, enfim, de uma lista de “candidatos a amigos” (que são tanto colegas como pessoas que encontramos em outros ambientes, mesmo os virtuais).

As amizades nascem de afinidades que temos com certas pessoas, mas não basta só isso. Para que elas se mantenham, é preciso que haja convivência – não necessariamente diária. Tanto que as pessoas com as quais mantenho amizade são aquelas com as quais de certa forma convivo, mesmo que em contatos esporádicos e até não presenciais: basta saber como elas estão, o que têm feito etc. Ou seja, há uma espécie de “caminho em comum” entre nós. É a chamada “memória coletiva”, que é importante fator de coesão em um grupo: desde os mais simples como as relações de amizade, até à “comunidade imaginada”, que é como Benedict Anderson define “nação”.

E, quanto mais longo é este “caminho em comum”, mais fortes costumam ser os laços, e o próprio tempo acaba se tornando uma importante afinidade. Assim, a amizade se mantém mesmo que haja muitas discordâncias entre os amigos – o que é natural, pois além de serem pessoas necessariamente diferentes entre si, com o passar do tempo todos mudamos nossas maneiras de pensar, de ver o mundo, fazendo com que certas afinidades deixem de existir. Podem surgir sérias divergências, mas há as lembranças dos momentos felizes, divertidos, e mesmo os tristes que foram sofridos em comum, que ajudam a impedir o fim de uma amizade de “longa data” por conta de uma discordância.

Foi o que contribuiu para evitar que eu brigasse em definitivo com um amigo por conta de divergências políticas (que não tínhamos quando nos conhecemos, há mais de dez anos) – pelo contrário, acabou inclusive fortalecendo nossa amizade, mesmo que com importantes discordâncias. Em compensação, a colega que achava contraditório eu ter amigos de direita… Brigou comigo há mais de dois anos por conta de um desentendimento entre ela e outro colega em uma apresentação de seminário na faculdade: tentei “mediar” o conflito para que ao menos o grupo de trabalho não se desfizesse, mas pelo visto ela achou que eu estava “a favor do cara”, e não só trocou de grupo, como também passou a me ignorar, “jogando no lixo” quatro anos de convivência. De nada adiantou eu tentar evitar que isso acontecesse: ela preferiu a divisão entre “os de lá e os de cá” da qual fala o parágrafo do Sakamoto, e como tudo tem limite, também não a procurei mais depois de ser tratado de forma grosseira.

Com isso, infelizmente não pude saber a opinião dela, que na época era eleitora do PSOL (suponho que continue a ser), sobre a amizade entre Plínio de Arruda Sampaio e José Serra.