Ser de esquerda não é “voto de pobreza”

Muito antes pelo contrário: é contra a pobreza. É por uma distribuição mais justa de renda – portanto, da riqueza.

Acho hilário – para não dizer tosco – criticar uma pessoa declaradamente de esquerda por ela ter um celular bom, fazer viagens bacanas ou mesmo por assistir determinados esportes.

(Sim, teve gente idiota no Twitter falando de uma suposta “incoerência” que seria uma pessoa ser de esquerda e assistir ao Super Bowl. Mostrando que sequer sabem como funcionam as principais ligas esportivas dos Estados Unidos: ainda que por um propósito bem capitalista – faturar mais – elas possuem mecanismos que evitam um desequilíbrio muito grande na disputa, tornando-as bem mais atraentes do que campeonatos monótonos como o de futebol na Espanha.)

Sem contar que, se uma pessoa que vive com relativo conforto não pode ser de esquerda, pela mesma lógica quem está sempre mal de grana não poderia ser de direita. Mas infelizmente gente do segundo tipo é o que não falta.

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Pastor Everaldo e a contradição de muitos liberais brasileiros

Fazia anos que eu não via um candidato a presidente defender abertamente as privatizações – caso de Everaldo Dias Pereira, o Pastor Everaldo, que concorre à presidência pelo PSC. Ontem, na entrevista ao Jornal Nacional, disse que privatizará a Petrobras caso seja eleito. Além de outras empresas estatais que ele considere como “foco de corrupção”.

Após o governo de Fernando Henrique Cardoso, que privatizou várias estatais e terminou com índices de reprovação que superavam os de aprovação, “privatização” virou uma espécie de “palavrão” no dicionário político brasileiro. Na campanha eleitoral de 2006 tivemos dois exemplos disso. O primeiro, foi na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul: a candidata Yeda Crusius (PSDB) tinha como vice o empresário Paulo Afonso Feijó (então PFL, depois DEM), que defendia abertamente as privatizações; a coordenação de campanha procurou forçá-lo a não falar o “palavrão”, temerosa de perder votos; no fim Yeda foi eleita, mas ao assumir o governo já tinha Feijó quase como um “opositor”. O outro foi na disputa pela presidência: o candidato tucano Geraldo Alckmin chegou a vestir uma jaqueta com logotipos de várias estatais, para tentar convencer os trabalhadores delas de que não tinha a pretensão de vender as empresas; não adiantou, e Alckmin conseguiu a façanha de perder obtendo menos votos no segundo turno do que recebera no primeiro.

Everaldo, por sua vez, não esconde o que pensa. Talvez pela baixíssima probabilidade de ser eleito, o que dá a qualquer candidato na mesma situação a tranquilidade de que não precisará cumprir sua promessa: lembro que anos atrás o PCO defendia em seus programas eleitorais o salário mínimo de R$ 1.500, algo que acharia sensacional mas sei que é politicamente inviável ainda nos dias de hoje. Mas a diferença é que Everaldo não é o PCO (esquerda), mas sim, representante da direita mais conservadora. Fosse eleito, não teria dificuldade alguma de aprovar suas propostas: independente de quem vença a disputa presidencial, me parece quase certo que, infelizmente, o Congresso que surgirá das urnas em outubro será bem mais conservador que o atual.

Pois as propostas de Everaldo não se resumem à retomada das privatizações. Na realidade, elas refletem bem uma das maiores contradições de parte considerável dos ditos “liberais” brasileiros, que tanto discursam a favor da “liberdade”: defendem o “Estado mínimo” na economia, mas em compensação pregam a intervenção estatal em assuntos de ordem realmente privada. Sim: como seria de se esperar de um candidato conservador e que prega a “defesa da família” (fica a dica para qualquer um que esteja concorrendo e queira abrir mão do meu voto: fale em “defesa da família”), Everaldo é contra o casamento homossexual, a legalização do aborto e das drogas. Até aí, nenhuma novidade.

Mas o fato é que temos uma candidatura de um típico liberal brasileiro, com um discurso que prioriza a “liberdade” a despeito da igualdade – como se fosse possível real liberdade em uma sociedade desigual – e ao mesmo tempo contrário à liberdade de homossexuais se casarem, de mulheres interromperem uma gravidez indesejada e de pessoas adultas decidirem se drogar com uma substância que não seja álcool, nicotina ou ritalina. Se há algo positivo nisso (ele não esconde o que realmente defende), por outro lado também mostra que a direita mais conservadora está perdendo a vergonha de ser “autêntica” (além de Everaldo há também o candidato do PRTB, Levy Fidélix, que quer “endireitar” o Brasil), justamente por perceber que isso não significa mais votações baixíssimas – o que é muito preocupante.


“Mas eu sou contra o aborto, o casamento homossexual e as drogas”, alguém poderá dizer. Tudo bem: isso se chama liberdade de opinião. Mas, pense um pouquinho: nem todas as pessoas são obrigadas a pensar como você.

A mulher grávida que aborta não “assassina” um bebê: ela interrompe uma gravidez, o que leva à morte o feto que carrega em seu útero. Cientificamente falando, é isso mesmo: aquele pequeno organismo não é um bebê (ou seja, um pequeno ser humano, que vive por conta própria mesmo que precisando de cuidados), é como se fosse qualquer outro órgão do corpo da mulher, tal como o apêndice (que quando inflama sempre é removido cirurgicamente). Claro que, no caso de uma mulher grávida e que deseja ser mãe, é diferente: metaforicamente, ela já se sente mãe de um bebê, mesmo que cientificamente ainda não seja. Mas para a mulher que tem uma gravidez indesejada (pelos mais variados motivos), aquele feto é um tormento e poderá continuar a sê-lo mesmo depois de bebê.

Você é heterossexual e por motivos óbvios não pretende casar com alguém do mesmo sexo? Eu também.

Toma uma cervejinha todas as semanas? Pois, assim como eu, você está usando drogas… A diferença é que a nossa não é proibida. (E, inclusive, é causa de incontáveis acidentes de trânsito, que todos os anos matam milhares de pessoas em nosso país.)

Repare que garantir tais direitos (aborto, casamento homossexual e liberação de drogas como a maconha) em nada nos prejudica. Só prestar atenção no que acontece com os já garantidos: drogas como álcool e tabaco são legalizadas e ninguém é obrigado a beber ou fumar, inúmeros casais héteros optam por não formalizarem a união mesmo que tenham direito a tal… Ou seja: o aborto legalizado não impedirá mulher alguma de ser mãe, o casamento homossexual não obrigará ninguém a deixar de ser hétero, assim como ter o direito de fumar maconha é exatamente isso, direito, não obrigação.

Ou seja, se você é mulher e contra o aborto, é só não interromper uma gravidez mesmo que seja indesejada; se é contra o casamento homossexual, não case com alguém do mesmo sexo; se é contra as drogas, antes de tudo seja coerente e nunca mais ponha na boca um cigarro ou um gole de cerveja. Mas para isso não é preciso obrigar todas as pessoas a fazerem o mesmo.

Grenalização e generalização

Um dito popular do futebol gaúcho é “Gre-Nal arruma ou desarruma a casa”. Impressionante como, de fato, ele acaba fazendo sentido, devido ao enorme e desproporcional peso que tem tal partida para os dois principais clubes do Rio Grande do Sul.

Poderia citar como exemplo o Grêmio em 2014: o “divisor de águas” do time na temporada foi o Gre-Nal decisivo do Campeonato Gaúcho, perdido por 4 a 1 porque o Internacional “tirou o pé”, poupando o Tricolor de uma goleada histórica. Antes o Grêmio vinha relativamente bem, com boas atuações na Libertadores; depois, nada mais deu certo e o time foi eliminado nas oitavas-de-final do certame continental. Mas nada demonstra de forma mais clara a exagerada importância dada ao clássico do que o acontecido em 2009: após derrota por 2 a 1 e eliminação no Gauchão daquele ano, a direção gremista demitiu Celso Roth – que pode não ser o técnico dos sonhos de ninguém, mas é preciso ressaltar que o Grêmio não só estava invicto na Libertadores como também fazia a melhor campanha da fase de grupos. Todo um discurso de priorizar a competição continental foi por água abaixo devido a um jogo válido pelo menos importante certame daquele momento, só porque era Gre-Nal. O resto da história, todo gremista lembra: 40 dias de espera por Paulo Autuori e eliminação na semifinal contra o Cruzeiro, primeiro adversário realmente forte enfrentado – não digo que Roth levaria o Grêmio à final, mas ao menos daria mais trabalho ao time mineiro (com uma boa retranca o Tricolor não teria levado 3 a 1 no Mineirão).

Mas, para além do clássico propriamente dito, há a exagerada rivalidade que ultrapassa os limites daquela chamada “sadia” (que foi o motor do crescimento da dupla Gre-Nal, ultrapassando o âmbito regional). Muitas vezes, se dá tamanha importância ao rival que isso acaba por mascarar defeitos ou virtudes. Em 2003, por exemplo, o Grêmio fez um Campeonato Brasileiro horrível e passou um turno inteiro na zona do rebaixamento, enquanto o Internacional chegou a liderar o certame e quase se classificou para a Libertadores pela primeira vez em 11 anos. Só que na última rodada fomos nós gremistas que festejamos e ainda tocamos flauta: o Grêmio escapou da queda enquanto o Inter levou 5 a 0 do São Caetano quando um empate bastava para ir à Libertadores. Aquela rodada tão “anos 90” me deu a errônea impressão de que 2003 era um “ponto fora da reta”: não percebia que outra linha já estava sendo traçada, como os anos seguintes demonstrariam de maneira tão dolorosa.

Costuma-se dizer que o Rio Grande do Sul é terra de extremos, sem meio-termo. É um fenômeno apelidado de “grenalização”, em óbvia referência à rivalidade que faz parecer que tudo gira em torno de Grêmio e Internacional no tocante ao futebol, como se não houvesse mais nenhum clube no Estado (não por acaso torcidas como a do Brasil de Pelotas costumam levar aos estádios faixas onde se lê “anti-grenal”). Mas o clima de “8 ou 80” não se resume ao futebol. A política, que já teve guerras civis entre chimangos e maragatos no final do Século XIX e no início do XX, hoje se divide aparentemente entre o PT e o “anti-PT”, sendo que o último nem sempre é o mesmo partido: na maioria das vezes o(a) candidato(a) que encarnava o “anti-petismo” era do PMDB, mas já foi do PSDB (como acontece a nível nacional) e atualmente é do PP (que a nível nacional, ironicamente, apoia o governo do PT). Inúmeras questões no Rio Grande do Sul, para além da disputa partidária, geram debates acirrados entre “dois lados”, como se apenas duas opções fossem possíveis.

Quem dera tal prática ser “privilégio gaúcho”. Mas a grenalização está muito presente no debate de ideias em toda parte. Por exemplo, agora estamos em campanha eleitoral no Brasil, e para muitas pessoas isso se resume a uma insana disputa “entre o bem e o mal”, na qual literalmente “vale tudo”. Por anos os setores mais raivosos da direita apelaram para a baixaria contra os candidatos da esquerda (“Lula bêbado”, “Dilma terrorista” etc.) de modo a pintá-los como “a encarnação do mal”; atualmente é utilizado o “terrorismo econômico” devido à possibilidade de Dilma Rousseff ser reeleita no primeiro turno. Mas agora vemos, infelizmente, parte da esquerda também aderindo a esse modelo de disputa “entre o bem e o mal”: nada mais decepcionante (para dizer o mínimo) do que militantes petistas apelarem para a velha “moral de cuecas” conservadora para atacar Aécio Neves, aplicando exatamente os mesmos métodos tão criticados quando usados pelo “lado de lá”; entre setores da esquerda críticos ao governo Dilma (e razões à esquerda para criticar o governo não faltam) o clima de “Gre-Nal” também é forte, com um impressionante e assustador sectarismo. Sem contar a direita mais delirante, que considera até o PSDB “esquerdista”.

Vamos para a política internacional, e é a mesma coisa. Na questão da Palestina, então, a discussão chega às raias do absurdo. Sou favorável à causa palestina e condeno os ataques israelenses, mas por conta disso os mais cegos defensores de Israel dirão que eu defendo o Hamas e sou “antissemita”, como se criticar o Estado de Israel fosse o mesmo que pregar ódio aos judeus e defender o Hamas (aliás, como se todos os palestinos fossem apoiadores de tal organização). Ao mesmo tempo, em caixas de comentários por aí já vi críticos a Israel emitindo opiniões pavorosas, essas sim pregando ódio aos judeus (com direito a um mentecapto inclusive insinuar que o Holocausto não teria acontecido, o que ofende a inteligência de qualquer pessoa com o mínimo conhecimento de História); sem contar que inúmeros judeus condenam os ataques contra o povo palestino, e que muitos jovens israelenses se recusam a prestar serviço militar pelo mesmo motivo. Ou seja, uma questão que é muito mais complexa do que parece acaba reduzida a este estúpido “8 ou 80” – o que, vamos combinar, jamais trará a paz.

O maniqueísmo, a divisão de tudo em “dois lados” (sendo o nosso obviamente correspondente ao “bem”), só serve para perpetuar a ignorância e o ódio. Além de mascarar nossos próprios defeitos – e as virtudes dos outros. A grenalização generaliza, nos leva a esquecer a pluralidade e a acreditar numa falsa dualidade, além de, consequentemente, empobrecer a discussão de ideias. Afinal, é mais fácil acusar o adversário de ser isto, isso e aquilo (afinal, ele é “mau”) do que realmente debater.

Oito ou oitenta

Vivemos tempos de extremos. Não há espaço para o meio-termo. Talvez a temperatura por aqui seja apenas um reflexo disso: este verão é um dos mais rigorosos de todos os tempos, nos submetendo a um calor desolador cuja única escapatória parece ser, literalmente, a fuga em direção ao extremo sul do continente. Novamente, os extremos.

É tempo de extremos também no “debate” político nacional. Com aspas, pois o que menos há, hoje em dia, é debate. É um cenário de polarização, de “oito ou oitenta”, com pouco espaço para outras nuances e, principalmente, troca de ideias.

Bem fácil notar isso nas atitudes das militâncias de PT e PSDB: quem não é apoiador cego do governo, na visão petista, vira “tucano”, mesmo que seja mais de esquerda que o próprio PT. E para tucanos e outros de direita, quem é de esquerda é “PT”, mesmo que seja o cara ao qual recém nos referimos, que não apoia cegamente o governo (ou não apoia de jeito nenhum). Sem contar o insano “anticomunismo” de alguns, que acreditam piamente que o Brasil está prestes a sofrer um “golpe comunista”.

Não por acaso, o vídeo abaixo é quase perfeito, pois tirando as camisas “comunistas” do PT (visto que o partido está muito longe disso), dá uma amostra do que virou o “debate” político no Brasil polarizado: aquelas discussões sem sentido sobre futebol. Se substituírem o horário eleitoral gratuito por gritos de “torcidas organizadas”, não fará diferença alguma em termos de discussão de ideias.

Feliz 2014?

Peço desculpas aos que estão naquele clima de euforia pelo ano novo, mas eu não embarco junto. Ainda mais que, definitivamente, não tenho mais saco para festas de final de ano. Muito embora se possa dizer que 2013 é daqueles anos que, da mesma forma que 1968, não terminam com o 31 de dezembro.

A maior parte das pessoas deve pensar em 2014 e lembrar da Copa do Mundo. “Imagina na Copa”, eis o bordão preferido de muitos – e que, convenhamos, faz bastante sentido. Será uma época em que teremos muito futebol, mas também o estado de exceção. Foram-se os tempos em que o início de um ano de Copa me empolgava.

O ano que se inicia também terá eleição presidencial. Lembram do nojo que foi 2010? Foi uma campanha marcada mais por “denuncismo” e ataques do que por discussão de propostas. E em 2014 tende a ser pior: o PT completará 12 anos no governo – o que não quer dizer 12 anos sem a direita lá, dadas as alianças pela “governabilidade” (Renan Calheiros e Marco Feliciano estão aí para provar); a oposição de direita (PSDB/DEM/PPS), que não tem projeto, fará de tudo em termos de baixaria (que será igualmente respondida), pois é o que lhe resta. Então, nos preparemos para os panfletos apócrifos, discussões vazias… Nada surpreendente, dada a atual “padronização” das campanhas eleitorais – como mostra o vídeo abaixo, uma genial sátira que reflete muito bem o que se viu nas eleições municipais de 2012.

“Tem também eleições para outros cargos”, alguém lembrará. Sim, também elegeremos governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Então lembro de várias análises que li e que me preocupam: a bancada evangélica no Congresso, que tem pavor do Estado laico, deve crescer na próxima eleição.

Fica a dúvida: torcer para 2014 passar correndo? Pedir para ficar em 2013?

Bom, acho que só resta mesmo tentar fazer alguma coisa para salvar o ano que se inicia, e quem sabe as piores previsões não se confirmem. Dessa forma, será possível que tenhamos, realmente, um feliz 2014.

Vencemos a corrupção… Será?

A direita, de forma geral, está em êxtase. Em pleno feriado da Proclamação da República, o Supremo Tribunal Federal determinou a prisão dos condenados na Ação Penal 470, o popular “julgamento do mensalão”.

Dentre os presos se encontra o ex-ministro José Dirceu: condenado judicialmente em 2012, na prática pode-se dizer que sua condenação se deu em 2005, pela imprensa. Pois alguém consegue imaginar a indignação que tomaria conta do país caso Dirceu fosse absolvido? A condenação e a posterior prisão do ex-ministro foram celebradas como uma vitória sobre a corrupção.

Porém, faltou algo fundamental: provas. José Dirceu foi condenado com base em uma teoria jurídica chamada “domínio do fato”, que teria sido formulada por um autor alemão, mas que sequer é aplicada na Alemanha. Com isso, subverteu-se o princípio fundamental de que a dúvida favorece ao réu. Ou seja, de que ninguém tem de ser obrigado a provar sua inocência; ao contrário, o ônus da prova cabe a quem acusa. Com isso, é verdade, corre-se o risco de que um “crime perfeito” (ou seja, aquele em que os autores conseguem apagar todos os vestígios) acabe impune, mas também se reduz a possibilidade de condenações injustas e que se dão em nome de outros interesses alheios à legalidade.

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“Esquerdopata”, “petralha”, “corruPTo”, “esquerdalha”, já deve estar querendo escrever o típico comentarista “anti-corrupção”. Só espero que o mesmo não esqueça de também dirigir suas raivosas manifestações a Ives Gandra Martins, conservador e notório adversário do PT, mas também jurista, e que como tal defende a aplicação da lei, não daquilo que é ditado pela tal de “opinião pública” (da qual a “mídia imparcial” se julga representante).

Ah, e que também não esqueça de se mobilizar para que outros escândalos de corrupção (como, por exemplo, o mensalão tucano) sejam julgados de forma semelhante.

Democracia

Esquina das Avenidas Borges de Medeiros e Salgado Filho, hoje à noite, em Porto Alegre. A tropa de choque da Brigada Militar está bem longe, já no ponto onde o vídeo é gravado a situação é tranquila, não há tumulto… Até começarem a cair as bombas.

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Por outro lado, relatos tanto no Facebook como de quem esteve na manifestação dão conta de algo preocupante: aumentou muito o número de infiltrados, que se aproveitam dos protestos para fazer arruaça e praticar roubos (aí sobra gás lacrimogêneo para todo mundo, tenha ou não feito algo). Ao mesmo tempo, a mídia de direita que antes chamava os manifestantes de “baderneiros” (justamente quando a maioria esmagadora era pacífica) agora diz que apenas uma minoria pratica atos de vandalismo…

É urgente parar os protestos

Pretendia ter ido à manifestação desta quinta em Porto Alegre, já que não estive nas duas últimas. Quinta passada tinha reunião com meu orientador; na última segunda tinha aula e cheguei a me dirigir em direção à Cidade Baixa depois em busca do ato, mas não o encontrei, pois o grosso dos manifestantes ainda estava na Ipiranga – boa parte deles, tomando porrada.

Durante o dia, circularam muitos boatos – e justamente pela falta de confirmação, os considerei como tais. Um deles dizia que os ônibus sairiam de circulação cedo, por volta das 5 da tarde. Segundo a EPTC eles cumpririam sua tabela normal de horários, mas por via das dúvidas, as pessoas foram liberadas mais cedo do trabalho, devido ao temor de que não conseguissem chegar em casa. O resultado foi a antecipação do “horário de pico” para as 4 da tarde; e foi ainda mais caótico, pois não era um congestionamento normal: as pessoas queriam estar longe do Centro o mais rápido possível, por isso, foram todos ao mesmo tempo. As paradas de ônibus estavam abarrotadas.

Quando saí do trabalho, não sabia se ia para a frente da Prefeitura ou vinha para casa – e a ideia de trocar o “vem pra rua” pelo “vem pra casa” se fortaleceu após eu mergulhar meu pé em uma poca d’água: ao menos teria de trocar a meia e o tênis. O meu irmão tinha dito que estaria no ato e decidi ligar para ele: quando ele disse que iria para casa, tomei o caminho do lar. A pé, pois se pegasse ônibus demoraria ainda mais tempo.

No caminho, foi ainda mais visível o clima de apreensão. Uma loja de conveniência em um posto de gasolina afixava tapumes para proteger seus vidros – o mesmo fazia um hotel ao lado.

Cheguei em casa com o pé encharcado e decidi entrar para o banho: era a senha para permanecer em casa. Porém, não foi só isso. Duas análises que li (aqui e aqui) me fizeram ficar bastante preocupado com o rumo que a coisa está tomando. Vamos relembrar.

Os protestos se iniciaram por uma causa que toca a todos nós: o direito ao transporte. E a cobertura da velha mídia era a de sempre: procurando mostrar os manifestantes como “baderneiros”. Ao ponto da Folha e do Estadão defenderem a repressão aos protestos em São Paulo, semana passada.

Foi o que aconteceu na noite do dia 13. Só que eles sentiram “na pele”, ou melhor, através de uma repórter da Folha. Também perceberam que a adesão aos atos só aumentava, por mais que eles criminalizassem. Então claramente mudaram de lado: passaram a defender os “manifestantes pacíficos” (sendo que muitos dos que apanharam da polícia dia 13 protestavam sem violência).

Veio o dia 17 de junho, a última segunda-feira. As imagens eram – e são – belíssimas: a rua ocupada por milhares de pessoas, lembrando que o espaço público pertence a todos nós, não só ao trânsito de automóveis. Porém, novamente vimos atos de vandalismo – em Porto Alegre a coisa foi muito feia, com muitas depredações e um ônibus incendiado.

Notei algo muito estranho também. No dia seguinte, gente que eu nunca via falar de política (ou quando falava, só saia bosta) manifestava sua opinião no Facebook, dizia querer “um Brasil melhor”, que era hora de “acabar com a corrupção” e etc. Uma semana antes só falava que vivíamos num “país de merda”, e de repente publicava foto com a bandeira do Brasil, se dizendo patriota. Protestar “virou moda”.

E então, eis que me deparo com uma petição online pedindo o impeachment de Dilma Rousseff. Minha cabeça fez algo como um “clic”: um movimento claramente de esquerda e que começou de forma espontânea (a partir das redes sociais), estava sendo tomado pela pior direita. Percebia isso principalmente quando lia comentários acerca de “não pode ter bandeiras partidárias” no ato de quinta, que conforme a organização (?), seria “gigante”. Afinal de contas, em atos que contestam o aumento das passagens e pedem passe livre, as bandeiras que aparecem são as dos partidos de esquerda, justamente por esta causa ser de esquerda.

Meus temores foram confirmados acompanhando as notícias do que acontecia pelo país. Em várias cidades (e principalmente em São Paulo), havia relatos de agressões dos “apartidários” contra quem carregava bandeiras de partidos. Em Brasília, tentaram incendiar o Palácio do Itamaraty. Os protestos foram totalmente desviados do foco original (ou seja, a luta contra o aumento e pelo passe livre), e se voltaram contra os partidos, contra a política (a ponto do Movimento Passe Livre, que chamou as primeiras manifestações em São Paulo, decidir se retirar do ato denunciando a infiltração reacionária). Resumindo, virou uma luta violenta da extrema-direita contra a democracia: em um regime democrático ninguém é obrigado a se filiar a partido algum, mas eles também não podem ser proibidos de existir.

O mais sensato, a essa altura, é cancelar todas as próximas manifestações, visto que a situação está se tornando muito perigosa. O Alexandre Haubrich disse tudo:

Menos empolgação e mais reflexão, por favor. O legado já foi construído, agora chegamos num ponto limite onde as coisas só podem piorar.

A “homérica” direita brasileira

Nada a ver com o grande poeta épico grego, autor dos clássicos “Ilíada” e “Odisseia”. O Homero ao qual me refiro neste caso é Homer Simpson, genial sátira do “estadunidense médio”: preguiçoso e idiota, Homer passa boa parte de seu tempo livre sentado defronte à televisão, na qual acredita sempre.

Porém, será que Homer é representativo apenas dos estadunidenses? Creio que não. Pois há muitos brasileiros que também são verdadeiros “Homers Simpsons”. Em especial, aqueles mais reacionários, que repassam qualquer coisa que contenha expressões do tipo “acorda Brasil”.

É uma mais sem pé nem cabeça que a outra. Relembremos algumas:

  • Me mandaram por e-mail uma vez uma “denúncia” sobre supostas alunas de um curso dedicado a beneficiárias do Bolsa Família “que não quiseram trabalhar com carteira assinada para não perderem o benefício”. Sem nem pensarem que Bolsa Família é apenas assistência (os mesmos reaças não chamam de “bolsa-esmola”?), e que se elas deixaram seus empregos por conta disso, é sinal de que trabalhavam por um salário de fome;
  • Na campanha eleitoral, me disseram que Dilma Rousseff, “aquela terrorista”, participara do sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, em 1969, e que por conta disso ela não poderia entrar nos EUA caso fosse eleita – e um ano depois, lá estava ela em Washington… Claro, pois ela não participara do sequestro: quem não conseguiu visto de entrada foram Franklin Martins e Fernando Gabeira – que inclusive não pôde assistir à sessão de estreia do filme “O que é isso, companheiro?” (inspirado em seu livro homônimo) nos EUA;
  • Certa vez o G17 (página que satiriza o G1, portal de notícias da Globo) publicou uma “notícia” sobre a construção de uma estátua gigante de Lula em Brasília, que seria visível em toda a cidade. O pessoal leu a “notícia” e o leiaute do G17, semelhante ao do G1, fez com que acreditassem que era verdade… Quando o bom senso recomenda não só prestar bastante atenção no que se lê antes de repassar, como também desconfiar até mesmo dos portais de notícia “sérios”;
  • Outra “denúncia” recebida foi sobre a “vagabundagem” do MST, que ao invés de produzir em um assentamento às margens do Rio Solimões, estaria roubando ovos de tartarugas que fazem ninhos no local para depois revendê-los (quando lhes convêm, os reaças se preocupam com o meio ambiente). Pelo visto, nas horas livres os “ladrões” pegavam a prancha e iam surfar no Solimões;
  • Tem também aqueles absurdos sobre o “Bolsa Bandido” e o “Bolsa Crack”, que semana passada já tratei de detonar.

Agora, a polêmica que se dá é acerca da decisão do governo de trazer médicos estrangeiros para atenderem a população em regiões mais afastadas dos grandes centros, para onde os médicos brasileiros não querem ir. O objetivo é de contratar cubanos, espanhóis e portugueses, mas a gritaria é contra os cubanos, claro: mesmo que a medicina de Cuba seja muito elogiada, se diz que os médicos cubanos “não seriam qualificados”*. Mas como o absurdo não tem limites, começou a circular pelo Facebook uma imagem que afirma serem os médicos cubanos “guerrilheiros” disfarçados, que atenderão ao propósito do governo de dar um “golpe comunista” em 2014… (Luís Carlos Prestes deu um duplo twist esticado no túmulo depois dessa.)

Um argumento dos críticos é incontestável: é preciso fazer com que os médicos não queiram ficar apenas nos principais centros. Porém, isso não é problema que se resolva de uma hora para a outra, e no interior as pessoas precisam de médicos agora, não podem esperar. Então, que venham os estrangeiros.

A propósito, talvez seja bom incluir psiquiatras dentre os médicos que vêm para cá, pois do jeito que anda nossa direita os que estão por aqui não são suficientes…

Cordeiro em pele de lobo

“É um lobo em pele de cordeiro”, diz o ditado popular. Ele se refere a pessoas falsas, que fingem ser amigas mas que quando menos esperamos, nos fazem mal. Daí a analogia: o cordeiro é visto como um animal “pacato” e “simpático” (logo, simboliza o “bem”), e o lobo como “feroz” e “traiçoeiro” (ou seja, o “mal”).

Porém, algo interessante é repensar as significações associadas aos dois animais. Afinal, as características de ambos não fazem deles “bons” ou “maus” naturalmente. Cada espécie tem um papel a cumprir na natureza: certamente todos nós matamos baratas quando elas aparecem em nossas casas, mas se elas fossem extintas, isso afetaria inúmeras espécies que se alimentam delas.

O cordeiro simboliza o “bem” porque uma de suas características é ser “pacato”. Quando se fala que uma pessoa é “pacata”, pensamos em geral em alguém que não incomoda. Logo, também não contesta nada, se limita apenas a se comportar bem e “seguir o rebanho” – ou seja, um legítimo “cordeirinho”.

Já o lobo é sempre “mau”, geralmente sendo o vilão em histórias infantis. Por ser um caçador, representa exatamente o oposto do “pacato” carneiro: é um animal que incomoda. Representa uma ameaça – característica também associada às pessoas contestadoras, que não aceitam o status quo.

Como é o cordeiro que representa o “bem”, por razões óbvias a tendência é que sejamos educados para nos tornarmos “cordeirinhos” e não “lobos”. A família conservadora é a principal responsável por isso, mas a escola (que é escolhida pelos pais) também tem um papel muito importante, visto que ela não ensina a pensar, mas sim a legitimar a ordem estabelecida: repare que o conteúdo que é passado pelos professores não tem de ser aprendido, e sim decorado (ou seja, tem de ser “daquele jeito”, sem margem para outras interpretações, sob risco de uma nota baixa na prova); o que se aprende mesmo é a passar bastante tempo sentado e calado, por obrigação e não por vontade própria. Obviamente, é difícil achar alguma criança que goste de ir à escola; quando a adolescência chega, muitas vezes a aversão cresce, se voltando tanto contra a escola como também contra os pais: a impressão que é de que não teremos mais um pacato “cordeirinho”, mas sim um feroz e ameaçador “lobo”.

Mas, se engana quem pensa que a “rebeldia juvenil” necessariamente resultará em um adulto contestador: trata-se do tão falado “rebelde sem causa”, que acha tudo “uma merda” e até se diz de esquerda, mas não propõe nem defende nada de diferente para substituir o que considera estar errado (até por muitas vezes não ter maior conhecimento do mundo). Tanto que os pais conservadores sempre falam que a rebeldia dos filhos “é fase”, e que depois eles “amadurecerão”. E de fato, é isso que muitas vezes ocorre, com os filhos passando a reproduzir o mesmo discurso dos pais – e não raro, com uma virulência maior.

Mas, é claro, o “amadurecido” jamais admite seu conservadorismo. Pelo contrário: se diz “contestador”, posa de “politicamente incorreto”, enfim, parece um feroz e ameaçador “lobo”. Mas não ameaça porra nenhuma. Pelo contrário: apenas reage ao que considera uma ameaça ao status quo, que no passado ele dizia combater mas ao qual acabou se adaptando. Este “lobo” é igual ao “cão que ladra” daquele ditado popular: “não morde”. Tem pele de lobo, mas trata-se apenas de um disfarce: por baixo, se esconde mais um pacato cordeirinho.