Meus jogos no Olímpico Monumental: 1995

No dia da despedida do Olímpico Monumental, abro a série de textos em que relembrarei as 258 vezes em que estive no estádio. Ao invés de um número fixo a cada postagem, optei por algo diferente: ano a ano. Assim, algumas vezes falarei de poucos jogos, e em outras o texto será “interminável”.

Como podem perceber, minha primeira ida ao estádio foi tardia: só em 1995. Tinha 13 para 14 anos. Meu pai é colorado, mas subverti a lógica de torcer para o mesmo time do pai e acabei seguindo minha mãe, gremista (mas caso um dia eu venha a ter filhos, espero subverter minha própria lógica e ser pai apenas de gremistas).

Tive chances de ir antes. Como na decisão da Copa do Brasil de 1993, entre Grêmio e Cruzeiro (com Ronaldo no banco). Estava tudo certo… E então, desabou uma chuvarada em Porto Alegre naquele 30 de maio. Como não tinha comprado ingresso (o faria na hora que chegasse ao estádio, naquela época era possível), acabei não indo. E esperei mais dois anos.

Até que chegou o glorioso ano de 1995. Foi quando o Grêmio ganhou a Libertadores pela segunda vez. Mas me faltava algo: ir ao estádio. E então, finalmente, eu fui.

1. Grêmio 2 x 3 Botafogo (Campeonato Brasileiro, 16 de setembro)

Minha estreia foi em um sábado à tarde. O adversário era o Botafogo, que contava com ninguém menos que Túlio Maravilha no ataque (já fora goleador do Campeonato Brasileiro de 1989 pelo Goiás, e em 1994 repetira a dose pelo Fogão).

No começo do Brasileirão o Grêmio estava “relaxado”, descansando da maratona da Libertadores (que terminara poucas semanas antes). Assim, a derrota para o time que viria a ser o campeão nacional daquele ano não chegou a ser tão surpreendente – o Tricolor “engrenaria” no campeonato mais adiante, embora já sem chances de chegar ao título, visto que a prioridade era o Mundial contra o Ajax no final de novembro.

Porém, não era só o Botafogo que tinha um goleador (Túlio marcou duas vezes naquela tarde). O Grêmio tinha Jardel, que marcou o segundo gol gremista (o primeiro foi de Paulo Nunes), diminuindo a desvantagem para 3 a 2.

2. Grêmio 1 x 0 Sport (Campeonato Brasileiro, 29 de outubro)

Esse jogo não teria me deixado maiores lembranças, não fosse um costume da minha mãe (que foi ao estádio comigo) do qual fui “vítima” aquela tarde: sair um pouco mais cedo para conseguir pegar táxi com mais facilidade. Graças a isso, não vi o gol, que saiu nos acréscimos…

Aprendi uma lição: nada de sair mais cedo quando ainda não há nada decidido.

3. Grêmio 2 x 1 São Paulo (Campeonato Brasileiro, 11 de novembro)

Pela primeira vez, consegui sair do estádio comemorando uma vitória, visto que contra o Sport perdi o gol. E foi um baita jogo: após o São Paulo abrir o placar na etapa inicial, o Grêmio virou no segundo tempo, gols de Dinho e Jardel.

Um fato curioso: o goleiro são-paulino era Rogério Ceni, que ainda era o reserva de Zetti. Tanto o primeiro como o último Grêmio x São Paulo que assisti no Olímpico tinham Rogério no gol adversário.

E após o jogo, ainda dei sorte: após chegar em casa, minha mãe pediu para ir ao supermercado comprar sei lá o quê. Quando cheguei à esquina da Cristóvão Colombo com a Ramiro Barcelos, encontrei justamente meu amigo Leonardo Sato, que é são-paulino. E assim não precisei esperar para flautear só quando chegasse na aula de segunda-feira.

4. Grêmio 1 x 0 Criciúma (Campeonato Brasileiro, 18 de novembro)

Esse jogo foi especial. Não valeu título nem nada. É que pela primeira vez, eu via o Olímpico lotar, com a minha presença. Não havia lugar para mais ninguém.

Simples: era a despedida do Grêmio, que disputava sua última partida antes de viajar ao Japão. Assim, o torcedor decidiu comparecer em massa a um jogo que nada valia (pois não havia mais chance de se classificar às finais do Brasileirão). Demonstração de apoio ao time que dez dias depois, iria brigar por seu segundo título mundial. Pena que não achei vídeo desse Grêmio x Criciúma…

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Estatísticas de 1995:

  • Jogos: 4
  • Vitórias: 3
  • Empates: 0
  • Derrotas: 1
  • Gols marcados: 6
  • Gols sofridos: 4
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Bons e velhos tempos

Via Alma da Geral, tomei conhecimento do ótimo texto escrito por um palmeirense que veio ao último Grêmio x Palmeiras, no Olímpico Monumental, domingo passado. Além de falar sobre o jogo em si, o autor dedica seis parágrafos ao estádio gremista, em tom de homenagem ao palco de inesquecíveis partidas entre Grêmio e Palmeiras na década de 1990, principalmente nos anos de 1995 e 1996.

Foi quando reparei que infelizmente não pude conhecer o antigo Palestra Itália, demolido para dar lugar a uma nova “arena” (que ao menos ficará no mesmo lugar do estádio anterior, enquanto o Grêmio vai se mudar para longe de onde é o Olímpico).

Depois, também reparei que o grande antagonismo entre Grêmio e Palmeiras na década de 1990 se devia ao que eles tinham em comum: grandes times, que eram inegavelmente os melhores do Brasil. Eram os clubes que dominavam o cenário nacional (apesar de, ironicamente, não terem se enfrentado em nenhuma final). Para se ter uma ideia, de 1991 a 1999 não houve semifinal de Copa do Brasil sem Grêmio nem Palmeiras. E no mesmo período, quatro finais de Campeonato Brasileiro (1993, 1994, 1996 e 1997) também tiveram a presença de um dos dois clubes.

Mas os jogos mais marcantes foram, sem dúvida, pela Libertadores de 1995. Mais especificamente, pelas quartas-de-final (os dois clubes se enfrentaram também na fase de grupos).

A primeira partida foi na noite de 26 de julho, no Olímpico. Em um jogo marcado pela briga entre Dinho e Valber (que acabou se tornando generalizada), goleada histórica de 5 a 0 para o Grêmio, que dava a entender que a fatura estava liquidada. Eu já pensava na festa pela conquista da Libertadores…

Então veio aquele 2 de agosto. O Grêmio podia perder por quatro gols de diferença para se classificar. E ainda por cima fez um gol no começo do jogo, ampliando a vantagem. Parecia que o Palmeiras estava morto, mas reagiu de forma impressionante, e chegou aos 5 a 1. Insuficientes para a ir à semifinal, mas merecedores dos aplausos da torcida que lotou o Palestra Itália e quase presenciou o que seria considerado milagre. Além de nossa incredulidade: como quase conseguimos perder a classificação?

No fim, o sufoco serviu de lição: nunca, em hipótese nenhuma, se deve cantar vitória antes da hora. E assim o Grêmio ganhou a Libertadores.

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Hoje em dia Grêmio e Palmeiras têm mais uma característica em comum: vivem um jejum que parece não ter fim. Ambos não ganham nada de importante há anos: o Grêmio desde a Copa do Brasil de 2001 e o Palmeiras, ironicamente, desde a Libertadores de 1999. As conquistas se resumiram a títulos estaduais e da Série B (vencida pelo Palmeiras em 2003 e pelo Grêmio em 2005). E nesta reta final de 2011 ambos os times se arrastam em campo, contando os dias para o fim de uma temporada pífia.

Resta torcer para que o último ano do Olímpico Monumental pelo menos nos ofereça um mata-mata entre Grêmio e Palmeiras, como nos bons e velhos tempos (a última vez que os dois clubes se enfrentaram em mata-mata foi no Campeonato Brasileiro de 1996). De preferência, na decisão da Copa do Brasil, corrigindo assim a injustiça de ambos nunca terem se enfrentado em uma final. Só é uma pena que não haja mais o antigo Palestra Itália.

Em defesa de agosto

Navegando por Twitter e (principalmente) Facebook, vejo que tem muita gente feliz porque agosto está acabando. Parece que, realmente, trata-se de um “mês do desgosto”. E por isso, detestado.

Como bom “do contra” que sou, nunca tive nada contra agosto (que jamais acharei pior que os meses de verão – exceto março, que gosto por ser o início do outono no calendário, no dia 20). Já houve anos em que o oitavo mês foi realmente “do desgosto” para mim, mas nunca esqueço de um agosto em particular, muito glorioso. Foi em 1995.

Naquele agosto, o Grêmio disputava as partidas decisivas da Libertadores. A primeira foi um dos jogos mais sofridos que me lembro: no dia 2, o Tricolor podia perder por quatro gols de diferença para o Palmeiras, que se classificaria para a semifinal. E se classificou assim mesmo: perdendo por 5 a 1.

No dia 10, em plena tarde, o Grêmio disputou contra o Emelec o primeiro jogo da semifinal: empate em 0 a 0, debaixo de um solaço em Guayaquil. Seis dias depois, no Estádio Olímpico, vitória de 2 a 0 e vaga na final assegurada.

A decisão foi contra o Nacional de Medellín. O primeiro jogo foi disputado no Olímpico, na noite de 23 de agosto: 3 a 1 para o Grêmio, que assim foi para a Colômbia podendo perder por um gol de diferença.

O jogo decisivo foi disputado em 30 de agosto. A torcida do Nacional lotou o estádio Atanásio Girardot e fez uma bela recepção a seu time. Que abriu o placar, com Aristizábal, aos 12 minutos do 1º tempo, transformando a decisão num drama: o Grêmio não poderia levar outro gol, sob pena da decisão se dar nos pênaltis. E era muito cedo… O Tricolor teria de buscar o empate ou resistir 80 minutos.

Mas o Grêmio não precisou segurar até o fim. Aos 40 do 2º tempo, Alexandre invadiu a área do Nacional e foi derrubado. Pênalti, convertido por Dinho: 1 a 1, e a Libertadores era nossa, de novo!

Na tarde do dia seguinte, a melhor “aula” dos meus anos (1989-1996) de Marechal Floriano: os professores não tiveram outra alternativa senão liberar os alunos para verem o Grêmio passar pela Farrapos no caminhão dos bombeiros… Nem os colorados reclamaram!

Abaixo a Batalha dos Aflitos!

A derrota do Grêmio, acreditem, não chegou a me irritar demais – serviu foi de desculpa para exagerar na cerveja após o jogo. Eu não tinha lá muita esperança de que passaríamos pelo Universidad Católica (no máximo, pensava que a classificação significaria simplesmente adiar a eliminação). Não achava que fôssemos perder em casa, é verdade. Mas, assim como o Guga, também não fiquei surpreso.

Agora, irritação das grandes me veio quando soube da entrevista pós-jogo de Paulo Odone, que falou da Batalha dos Aflitos como “exemplo” para o Grêmio reverter a situação em Santiago do Chile. (Reverter a situação no Chile? Um time que tem medo de chutar a gol e não terá o ataque titular, vai marcar no mínimo dois gols na casa do adversário? Vou ali falar com o Papai Noel para saber a opinião dele, esperem aí.)

Chega de falar dessa Batalha dos Aflitos! Foi bacana naquela época? Foi sim, por muitos motivos: o Grêmio tinha um time horrível, estava com quatro jogadores a menos, na casa do adversário e com um pênalti contra, eu já me preparava psicologicamente para mais um ano na segunda divisão… Mas acabou ganhando o jogo, quando tudo indicava que perderia.

Só que isso foi em novembro de 2005. E já estamos praticamente em maio de 2011. Ou seja, se passaram cinco anos e meio daquilo. E o que ganhamos desde então? NADA! O Gauchão (conquistado pelo Grêmio em 2006, 2007 e 2010) não pode mais servir de parâmetro para um clube que já conquistou o MUNDO.

Se o Gauchão – competição na qual temos a oportunidade de enfrentarmos nosso tradicional adversário – não pode servir de parâmetro, o que dizer da Série B? Como eu já disse em texto postado aqui em novembro passado (em ocasião do quinto aniversário da Batalha dos Aflitos), aquela partida contra o Náutico só se tornou memorável devido à assombrosa incompetência do Grêmio: primeiro, por não ter conseguido se manter na Série A em 2004; em segundo lugar, por ter deixado de vencer um jogo que já estava ganho contra a Portuguesa em São Paulo – com aqueles dois pontinhos a mais o Tricolor já teria assegurado a classificação uma semana antes da bola rolar nos Aflitos. E vale lembrar que a campanha na Série B de 2005 não foi nenhuma maravilha, com direito a uma humilhante derrota de 4 a 0 para a Anapolina, que considero como um dos dez maiores vexames da história gremista.

Comemorar a Batalha dos Aflitos, e usá-la como exemplo, até considero aceitável nos primeiros anos após aquilo, quando, além dela ser mais recente, o time do Grêmio era bem mais fraco que o de 2011. Agora, por favor, basta disso! Em seus grandes títulos o Tricolor contava com jogadores que não tinham apenas garra (o que considero obrigação de qualquer atleta profissional), como também muita qualidade. Ou será que foi esquecido que o “cangaceiro gremista” Dinho também sabia desarmar muito bem sem precisar fazer a falta? Renato Portaluppi é nosso ídolo-mor não por ter dado trocentos pontapés nas canelas adversárias, mas sim por seu futebol de alta qualidade, simbolizado por aqueles dois golaços contra o Hamburgo. Lembram daquela sensacional sequência de passes que resultou no terceiro gol do Grêmio (marcado por Marcelinho Paraíba) na decisão da Copa do Brasil de 2001? (Que, aliás, foi nossa última conquista de verdade.)

A impressão que tenho, é de que ficou proibido querer que o Grêmio pratique um futebol de qualidade: o importante é (só) ter garra, dar pontapé (mas concordo que às vezes é realmente necessário cometer algumas faltas) e ganhar jogando mal… Como foi na maldita Batalha dos Aflitos. Opa, nem tanto: sem o talento de Anderson, não teríamos vencido aquele jogo (no máximo teríamos empatado em 0 a 0 e nos classificado em 2º lugar). Esse desprezo pela qualidade técnica e valorização do pontapé, que não se via no Grêmio e em sua torcida nos anos 90, me faz lembrar o que aconteceu com o futebol do Uruguai, cuja seleção passou 40 anos sem conseguir chegar às quartas-de-final de uma Copa do Mundo (isso quando as disputava):

No futebol uruguaio, a violência foi filha da decadência. Antes, a garra charrua era o nome da valentia, e não dos pontapés. No Mundial de 50, sem ir mais longe, na célebre final do Maracanã, o Brasil cometeu o dobro de faltas que o Uruguai. (Eduardo Galeano. Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 206.)

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E, caro leitor, há mais dois textos sobre esse mesmo assunto, que também valem muito a pena serem lidos: o do Igor Natusch no Carta na Manga, e o do Bruno Coelho no Grêmio 1903 e no Tribuna Gremista.

Meia década

É… Lá se vão cinco anos daquela tarde quente. Maluca. Inesquecível.

26 de novembro de 2005. Milhões de gremistas estavam angustiados diante da televisão. Pênalti contra, sete jogadores contra onze do Náutico, que jogava em casa. Levar o gol significava “morte”, não levá-lo apenas adiaria o inevitável. Afinal, como já foi dito, eram sete gremistas contra onze que ainda por cima tinha mais de 20 mil torcedores a seu favor.

Porém, os sete que enfrentavam onze mais 20 e poucos mil torcedores não vestiam uma camisa qualquer. Era a camisa do GRÊMIO. Não iriam perder o jogo. Não poderiam perder daquele jeito.

E não perderam. Não empataram. GANHARAM.

GANHAMOS, todos nós gremistas, uma lição de vida: a prova de que, realmente, nada é impossível.

Um jogo inesquecível que merece, sim, ser lembrado para sempre.

Porém, é preciso fazer uma ressalva. A Batalha dos Aflitos é uma lição de vida para nós torcedores, porque achávamos que estava tudo perdido. Mas não pode, de forma alguma, ser uma lição de futebol. Tanto que “assino embaixo” dos textos escritos pelo Bruno no Grêmio 1903 e pelo Natusch no Carta na Manga (esse, é do ano passado).

Afinal, o Grêmio só precisou disputar aquele jogo por ter sido incompetente um ano antes, ao não conseguir se manter na Série A. Ou seja, mesmo que tenha sido uma lição de vida, certamente todo gremista preferiria jamais tê-lo disputado. E a dramaticidade se deveu a uma série de fatores:

  • O Grêmio deixou de garantir a vaga antecipadamente por conta de dois jogos contra a Portuguesa: em São Paulo, a partida estava ganha, e acabou 1 a 1; no Olímpico, o 2 a 2 teve sabor de vitória, depois de derrota parcial por 2 a 0 no primeiro tempo. Se tivesse vencido apenas um deles, teria ido aos Aflitos já garantido na Série A;
  • Escalona foi corretamente expulso (sim, foi mão na bola e não bola na mão);
  • O árbitro Djalma Beltrami não “roubou” ao dar aquele pênalti inexistente de Nunes (ali foi bola no braço, e não braço na bola), ele “compensou” um erro cometido minutos antes, quando não marcou a penalidade cometida por Galatto sobre o atacante alvi-rubro Miltinho;
  • Com todos os jogadores partindo para cima do árbitro após a marcação do pênalti (como se ele fosse voltar atrás), tivemos sorte dele ter expulsado apenas Patrício, Nunes e Domingos – além de Escalona, que já levara o vermelho: mais um, o jogo acabaria e o Grêmio certamente perderia no STJD;
  • Se dependesse da vontade de muitos dirigentes e torcedores gremistas naquela hora (inclusive a minha), não teria acontecido nada daquilo que nos emociona só de lembrar, pois o Grêmio teria abandonado o jogo para impedir que o pênalti fosse cobrado, o que resultaria em derrota por WO e possivelmente uma punição por parte da CBF, que levaria o Tricolor para a Série C. Temos de agradecer (e muito!) a Renato Moreira, que alertou o presidente Paulo Odone sobre isso.

Sem contar que aquele jogo deixou mal-acostumados muitos gremistas – principalmente os mais novos, que não viram os grandes times do passado – que chegam ao ponto de achar que basta ter garra para conquistar títulos. Ora, se desde 2005 o que o Grêmio ganhou foram apenas três estaduais (2006, 2007 e 2010), é sinal de que não basta garra, é preciso qualidade técnica: pois foi isso que faltou na Libertadores de 2007 (aquele time foi sem dúvida um dos mais raçudos que já vi, mas fraco) e também no Campeonato Brasileiro de 2008.

Mesmo que o Grêmio tenha tradição de jogadores raçudos, não podemos esquecer que a qualidade técnica também teve muita importância nas grandes conquistas do Tricolor. Foram lances de puro talento de Renato Portaluppi que nos levaram ao título mundial de 1983; Dinho, o “cangaceiro gremista” de 1995-1997, sabia desarmar adversários sem fazer falta; se Jardel não sabia jogar com o pé mas fazia muitos gols, isso se devia à grande qualidade dos cruzamentos de Arce, Roger e Paulo Nunes, fundamentais para levantarmos a Libertadores de 1995; na atualidade, como negar a importância de Douglas na reação do Grêmio neste Brasileirão?

E podemos até voltar à Batalha dos Aflitos. Ganhamos o jogo “na raça”, mas também graças ao talento de Anderson – que chamamos de “Andershow” justamente por conta disso.

Chega de “separatismo”

O Grêmio jogou bem no 1º tempo, mas não no 2º; aí pesou a grande qualidade do Santos, que fez 3 a 1 e garantiu a vaga na final da Copa do Brasil.

Mas não é sobre isso que quero falar (nem nos comentários, OK?). Antes do jogo, como tem acontecido desde algum tempo, foi executado o Hino Nacional Brasileiro. E de repente, o que se escuta? Alguns torcedores do Grêmio cantando o Hino Riograndense! Em resposta, os santistas começaram a cantar mais alto o do Brasil – e eu, que sou gremista, achei ótimo.

Querem cantar o Hino Riograndense? Tudo bem, mas tem hora para isso. E obviamente não é quando se toca o Hino Nacional.

Além disso, eu não quero que a torcida do Grêmio, da qual me orgulho de fazer parte, passe a ter fama de “separatista” (já é dose o rótulo de “baba-ovos de argentinos” devido à Geral, mesmo que já haja muitas torcidas de estilo semelhante em vários Estados). Pois a esmagadora maioria dela não é. Aliás, acho que até mesmo os que dizem ser o fazem por “rebeldia” ou para chamarem a atenção. Pois duvido que desconheçam o fato de que o Tricolor tem torcedores em todas as partes do Brasil – sendo que um grande número destes sequer nasceu no Rio Grande do Sul.

E é também preciso fingir desconhecer a própria história do Grêmio. Na primeira metade do século XX o Tricolor teve uma bandeira muito semelhante à do Brasil – mas de cores diferentes devido a uma lei que proibia “imitações” da bandeira nacional; hoje em dia, há bandeiras nas cores verde e amarela, mas com o círculo central substituído pelo distintivo gremista. E muitos de nossos jogadores mais importantes não eram nem gaúchos, nem “platinos” (já que muita gente acha o Grêmio mais “platino” do que brasileiro). Querem uma amostra?

  • André Catimba (baiano) – fez o gol que deu o título gaúcho ao Grêmio em 1977, depois de um jejum de nove anos;
  • Baltazar (goiano) – autor do golaço que deu ao Grêmio o primeiro título brasileiro, em 1981;
  • Mazaropi (mineiro) – antecessor de Danrlei no “cargo” de “muralha gremista”;
  • Tita (carioca) – marcou o gol do Grêmio no primeiro jogo da final da Libertadores de 1983, empate em 1 a 1 contra o Peñarol em Montevidéu;
  • Caio (carioca) – abriu o placar no jogo decisivo da Libertadores de 1983;
  • César (carioca) – fez o gol do título da Libertadores de 1983;
  • Cuca (paranaense) – autor do gol do título da Copa do Brasil de 1989;
  • Edinho (carioca) – capitão na conquista da Copa do Brasil de 1989;
  • Nildo (paraense) – goleador do Grêmio na Copa do Brasil de 1994, e autor do gol do título;
  • Adílson (paranaense) – capitão da conquista da Libertadores de 1995, e técnico na fuga do rebaixamento em 2003 (pena que no ano seguinte tudo desandou…);
  • Dinho (sergipano) – volante símbolo da “raça” do Grêmio de 1995-1997 (mas que sabia jogar bola), até hoje lembrado em faixas levadas pela Geral ao Olímpico como “Cangaceiro Tricolor”;
  • Luís Carlos Goiano – volante mais técnico que Dinho, cobrava faltas com perfeição;
  • Paulo Nunes (goiano) – fundamental nas conquistas da América em 1995 (a maioria dos gols de Jardel começava nos pés do “diabo loiro”), do Campeonato Brasileiro de 1996 (do qual foi um dos artilheiros) e da Copa do Brasil de 1997;
  • Jardel (cearense) – artilheiro da Libertadores de 1995, fez gol de tudo que é jeito (até tomando bolada na cara!);
  • Aílton (carioca) – fez o gol do título brasileiro de 1996;
  • Zinho (carioca) – capitão do Grêmio de 2000 a 2002 e autor de um dos gols na decisão da Copa do Brasil de 2001 contra o Corinthians;
  • Luís Mário (paraense) – nosso “Papa-Léguas”, ressuscitou o Grêmio marcando dois gols na primeira partida da final da Copa do Brasil de 2001, que assim buscou o empate em 2 a 2;
  • Marcelinho Paraíba – nosso grande craque na conquista da Copa do Brasil de 2001, pena que tenha ficado tão pouco tempo no Grêmio;
  • Ânderson Lima (paulista) – último grande lateral-direito do Grêmio (2000-2003), e cobrava faltas como poucos;
  • Victor (paulista) – atual “muralha tricolor” e capitão, melhor goleiro depois da saída de Danrlei e maior ídolo atual;
  • Jonas (paulista) – perde os gols fáceis mas faz os difíceis (e golaços, como o marcado contra o Santos semana passada);
  • Borges (baiano) – artilheiro gremista de 2010, e melhor centroavante dos últimos anos.

Assim, acho que o país no qual, além de nós, nasceu a maioria esmagadora de nossos ídolos – não esqueçamos dos brasileiros nascidos no Rio Grande do Sul e por isso chamados “gaúchos” (a propósito, se somos “gaúchos”, isso se deve ao fato de sermos brasileiros) – merece mais respeito de nossa parte.

A força do Grêmio é brasileira

Esses dias, li no Grêmio Pegador uma interessante opinião acerca do comportamento de parte da torcida do Grêmio durante a execução do Hino Nacional, antes do jogo contra o Avaí no Olímpico, no último dia 14.

Algumas coisas são mais difíceis de entender no comportamento dos gremistas mais jovens. Além das injustas famas de nazistas, elitistas, racistas e marginais que já temos, parece que agora queremos também a fama de separatistas. Qual a razão de cantar o Hino Riograndense durante a execução do Hino Nacional? Mais absurdo ainda isso fica quando durante a execução do ‘nosso Hino’, a torcida canta qualquer outra coisa. Por quê? Não consegui entender ainda. A faixa onde se lê a inscrição ‘República Riograndense’ também é algo que vem me preocupando. Qualquer gaúcho tem o direito de querer ser o que quiser, até mesmo de querer ser independente do Brasil, mas a colocação daquela faixa ali naquele lugar, dentro da casa do Grêmio, com as cores do Grêmio, deixa muito clara a imagem de que esse não é apenas um pensamento dos torcedores, mas também do clube. E eu sei que o Grêmio não pensa assim.

Isso é algo que também vem me preocupando. E vai muito além da questão política e mesmo constitucional (o Artigo 1º da Constituição Federal de 1988 veta qualquer possibilidade de secessão ao estabelecer a República Federativa do Brasil como “formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal”). Falta é mais conhecimento para o pessoal, até mesmo da própria história do Grêmio (e do time atual mesmo: quantos titulares nasceram no Rio Grande do Sul?).

Engana-se quem pensa que somos “muito diferentes do Brasil”. Basta uma rápida examinada no mapa: como poderia um país tão grande ter, em toda a parte, as mesmas características? Ou alguém acha que, por exemplo, catarinenses e amapaenses são exatamente iguais?

Aliás, mesmo dentro do Rio Grande do Sul, são todos tão “iguais” assim? A famosa divisão entre sul e norte, por acaso é ficção? Acredito que não, visto que não raro aparece alguém propondo a realização de plebiscito para transformar o sul do Rio Grande em um novo Estado.

O que o Brasil tem de melhor é justamente a sua grande diversidade. A possibilidade de interação entre pessoas diferentes, de culturas e lugares tão variados, sem nenhuma fronteira para atrapalhar. Não são muitos os países onde isso é possível. (E pergunto aos que pregam a separação, se gostariam de precisar passar por uma aduana sempre que quisessem ir a Santa Catarina ou ao Nordeste no verão. Pois parece que achariam bom…)

E mesmo com tantas diferenças, temos muitas coisas em comum – que vão além da língua portuguesa e do gosto pelo futebol (que nem é exclusividade brasileira). Dizem que o símbolo maior de nacionalidade no Brasil é a Seleção, mas eu discordo totalmente: em agosto de 1998, passei uma semana no Uruguai (era a primeira vez que viajava para o exterior) e na volta, estava sedento por feijão, prato que não comi nem vi no país vizinho – e tive então verdadeira consciência de minha brasilidade. Afinal, há alguma comida mais brasileira do que feijão? E uma boa feijoada então?

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Quanto ao que falei sobre o Grêmio e sua força: lembremos aquele timaço de 1995, campeão da Libertadores. Dos onze titulares, apenas quatro eram do Rio Grande do Sul: Danrlei, Roger, Arílson e Carlos Miguel.

Além dos paraguaios Arce e Rivarola, havia cinco brasileiros de fora do Rio Grande do Sul em campo: Adílson (paranaense), Dinho (sergipano), Luís Carlos Goiano (preciso dizer de onde ele é?), Paulo Nunes (goiano) e Jardel (cearense). Como só se pode escalar três estrangeiros, dos sete que são de “outros países”, quais os três que os “separatistas” escolheriam?

Lembranças de um dia 30 de agosto

Há 12 anos, o Grêmio conquistava a América pela segunda vez, ao empatar em 1 a 1 com o Nacional de Medellín, no estádio Atanásio Girardot, em Medellín, Colômbia. Aristizábal marcou o primeiro gol da inesquecível noite de 30 de agosto de 1995 para o Nacional, dando esperança ao time colombiano. Mas aos 40 do segundo tempo, Dinho, de pênalti, empatou para o Tricolor.

A narração do vídeo é do Galvão Bueno – é um compacto da transmissão do jogo pela Globo. Assim, fica de alerta: para não ouvir ele, é preciso desligar o som.

Para maiores lembranças, o texto que escrevi há dois anos atrás, na comemoração do 10º aniversário daquela conquista.

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Relatos de 10 anos atrás

30 de agosto de 1995, uma quarta-feira, ficará para sempre na minha memória. Foi, sem dúvida, um dos dias mais felizes da minha vida.

Depois de uns dias de calor intenso, superior a 30 graus – bem típico do nosso maluco inverno – a temperatura estava mais baixa. Eu tinha aulas à tarde, na volta do colégio para casa cheguei a colocar um moletom. Foi um dos poucos momentos do dia em que não aparecia a minha camisa tricolor.

Era impossível conter o nervosismo, já que dentro de algumas horas o Grêmio estaria em campo em Medellín, na Colômbia, para enfrentar o Nacional e lutar pelo seu segundo título da Libertadores. Se fazia de tudo para tentar levar uma “vida normal” naquele dia decisivo.

Eu, por exemplo, saí para jantar por volta das 19 horas. Meu avô (que era colorado) estava em Porto Alegre, então fui jantar com ele, meu pai (também colorado), meu irmão (colorado fanático) e minha mãe (que é gremista e me fez torcedor do Grêmio). Fomos à galeteria Mamma Mia, na Rua Gaspar Martins.

Saí de lá com a minha mãe e o meu irmão, mas antes de irmos para casa, resolvemos fazer uma visita rápida a nossos ex-vizinhos da Rua Pelotas. O primeiro que encontramos era colorado, que disse ser “Inter… Nacional”. Depois encontramos os gremistas, nervosos, ansiosos pelo início da partida. Ainda faltava cerca de meia hora para o jogo começar.

Logo que chegamos em casa, meu irmão foi dormir, tinha aula no dia seguinte. Além disso, eu não queria saber de secador por perto durante o jogo.

E a partida começou. A primeira chance foi do Grêmio: numa falha grotesca do zagueiro Marulanda, do Nacional (o mesmo que marcou um gol contra na vitória tricolor de 3 a 1 no Olímpico, no primeiro jogo da final), Jardel pegou a bola e ficou cara a cara com Higuita. “Vai fazer, vai fazer!”, pensei e torci. Mas não fez: ruim com a bola no pé, Jardel mandou a bola na arquibancada…

Aos 12 minutos de jogo, gol do Nacional, 1 a 0, explosão de alegria no estádio em Medellín, pânico para os gremistas lá presentes e para os milhões que, como eu, acompanhavam o jogo pela TV. O 1 a 0 ainda servia para o Grêmio, mas se o Nacional fizesse 2 a 0, a decisão iria para os pênaltis. Seria necessária muita raça dali em diante, para agüentar a pressão colombiana.

No final do primeiro tempo, o Grêmio teve uma boa chance com Paulo Nunes, mas Higuita defendeu. O intervalo não me trouxe tranqüilidade, minha mãe me fez tomar um copo de água com açúcar para me acalmar. Ainda restavam 45 minutos de jogo, era tempo demais.

O segundo tempo começou semelhante ao primeiro: apenas o Nacional no ataque, o Grêmio se segurando lá atrás, do jeito que dava. À medida que o tempo passava, o nervosismo, ao invés de diminuir, aumentava: se o Grêmio levasse outro gol, teria menos tempo para fazer o seu…

Até que aos 40 minutos do segundo tempo, Nildo fez lançamento para Alexandre, que penetrou na área e foi derrubado. O árbitro chileno Salvador Imperatore não pensou duas vezes e apontou: pênalti!

Dinho pegou a bola para cobrar a penalidade. Eu sentia alívio e nervosismo ao mesmo tempo. Se Dinho convertesse, a taça era nossa. Agora, se ele errasse… Eu nem queria pensar nessa possibilidade.

Dinho bateu a bola à direita de Higuita, e o colombiano, já caído para a esquerda, não tinha o que fazer. Gol!

Mas a partida ainda não havia acabado. Ainda deu tempo de Goiano cometer uma falta violenta, um carrinho num colombiano, e ser expulso, depois de quase acontecer uma briga. Mas àquela altura, não era problema. Já passávamos dos 45 do segundo tempo.

E veio o alívio, e ainda mais, a alegria, com o apito final. Grêmio, de novo, Campeão da Libertadores! Pulei, apesar de morar no segundo andar do prédio: quem conseguia dormir com tanto foguete estourando?

No dia seguinte, acordei com dor de barriga. Alguma coisa que comi no Mamma Mia deve ter feito mal… Mas eu nem me sentia mal! Assim que levantei, liguei o rádio, a toda hora tocavam a música do Bi da América, e repetiam a narração do gol do Dinho.

Depois do almoço, coloquei a camisa do Grêmio, e fui para a aula. Mas ao chegar ao colégio, surpresa: todo mundo estava saindo. “Liberaram a gente para ver o Grêmio passar na Farrapos!”, diziam. Uma decisão que agradou a todos: os colorados estavam felizes por não terem aula.

Quase não cabia gente na Avenida Farrapos naquela tarde de 31 de agosto de 1995. As paradas do corredor de ônibus estavam tomadas. Parecia que a cidade toda (ou pouco mais da metade dela, para ser imparcial) estava ali.

Foi uma festa inesquecível. Nem parece que já fazem 10 anos. E vendo o Grêmio atual, confesso: que saudade!

O alívio só após o apito final

A vaga do Grêmio nas semifinais da Libertadores de 1995 estava praticamente assegurada. Afinal, era impossível (ou melhor, parecia impossível) o Palmeiras conseguir reverter a grande vantagem tricolor construída uma semana antes, numa histórica vitória de 5 a 0 no Olímpico. Quando a bola rolou na noite de 2 de agosto de 1995 no Parque Antártica, nenhum gremista imaginava que os próximos 90 minutos seriam dos mais angustiantes da história do Grêmio. E os palmeirenses que foram ao estádio mesmo numa situação amplamente desfavorável a seu time, tiveram o privilégio de assistir a um jogo sensacional, no qual o Palmeiras quase conseguiu o que seria considerado um milagre.

Os dois times estavam desfalcados por suspensões devido à briga generalizada da semana anterior. O Palmeiras não tinha Rivaldo e Válber, e o Grêmio perdera Dinho e também Danrlei, que fora suspenso com base em imagens da televisão, já que o árbitro não vira a agressão de Danrlei a Válber na briga. Murilo seria o goleiro naquela noite.

Havia sido criado um clima de guerra para aquela partida, conseqüência da pancadaria de Porto Alegre, e também em decorrência da grande desvantagem do Palmeiras, que na prática entrava em campo perdendo por 5 a 0. O Grêmio poderia perder por até 4 gols de diferença para se classificar às semifinais.

Logo, o Grêmio começou jogando com extrema tranqüilidade, que aumentou já aos 8 minutos de partida, quando Jardel fez o primeiro gol da noite. “Já era!”, pensei. O Palmeiras poderia empatar, até virar o jogo. Mas precisaria fazer 6 a 1 para levar a decisão aos pênaltis, e 7 a 1 para se classificar. O Grêmio, com o gol de Jardel, poderia levar 5 que se classificaria. Os gremistas otimistas, como eu, pensaram até mesmo em uma nova goleada, pois o Palmeiras teria de partir para cima de qualquer jeito, e se abriria na defesa, permitindo os contra-ataques tricolores.

Mas não foi o que aconteceu. O Palmeiras partiu para cima, abriu espaços, mas o Grêmio não conseguiu fazer mais nenhum gol. Quem fez gols foi o Palmeiras.

O empate alvi-verde chegou aos 29 minutos do primeiro tempo, com Cafu. Aos 39, Amaral virou para 2 a 1. Eu continuei tranqüilo no intervalo.

Aos 13 minutos do segundo tempo, Paulo Isidoro fez 3 a 1 para o Palmeiras. Pensei: “o Grêmio tá jogando mal, deixando o Palmeiras fazer gols, mas não vai perder a vaga, agora vai acordar”. Que nada! Aos 24 minutos, pênalti para o Palmeiras, convertido por Mancuso: 4 a 1. A partir daí, comecei a me preocupar. Afinal, o Palmeiras precisava de mais 2 gols para levar a decisão aos pênaltis, e tinha bastante tempo. Depois de ter feito um gol aos 13 e outro aos 24 do segundo tempo, ou seja, em um intervalo de 11 minutos, os cerca de 20 minutos restantes eram uma eternidade para os gremistas.

Minha preocupação se transformou em pânico aos 39 minutos, quando Cafu fez 5 a 1 para o Palmeiras. O time alvi-verde precisava de apenas mais um gol para levar a decisão aos pênaltis.

Restavam poucos minutos. Mas para os gremistas, passaram como se fossem uma, duas, três partidas inteiras. Foram os poucos minutos mais longos da história do Grêmio.

Quando o juiz soprou o apito final, tive uma das maiores sensações de alívio da minha vida. Parecia incrível que uma classificação tão fácil tivesse se tornado tão dramática. Por pouco o Grêmio não entregara o ouro para o Palmeiras. “Desse jeito, o Grêmio não ganha a Libertadores de jeito nenhum!”, pensei irritado com a atuação do time.

Mas fui conhecendo melhor a história do Grêmio e descobri: nunca o Grêmio teve moleza! O torcedor gremista se acostumou com isso. Não a “sofrer” (pois isso é coisa de colorado, que só uma vez na vida comemora título importante), mas sim, a se “angustiar”. Todas as grandes conquistas do Grêmio tiveram alguma dramaticidade. Afinal, se fosse fácil, não teria graça!

Hoje posso dizer que o título da Libertadores de 1995 veio graças a essa angústia contra o Palmeiras. Depois de quase perder a vaga na semifinal, o Grêmio percebeu que não podia calçar salto alto. Por isso, foi campeão.

A noite em que tive a certeza do título da Libertadores de 1995

Em 26 de julho de 1995, o Grêmio alcançou uma de suas vitórias mais incríveis. Antes da bola rolar, uma goleada de 5 a 0 jamais passou pela cabeça de dirigentes, comissão técnica, jogadores e torcedores. Ainda mais sobre o Palmeiras, que na época tinha um timaço. Em seu estrelado elenco, contava com nomes como Cafu, Roberto Carlos e Rivaldo. O Grêmio queria fazer 2 a 0 no Olímpico para depois garantir a classificação em São Paulo.

Antes do Grêmio marcar os gols, a partida foi disputadíssima, e com muitos lances ríspidos. A violência empregada por ambas as equipes tornava evidente que a qualquer momento ia dar briga. Afinal, o Palmeiras ainda não havia esquecido a eliminação da Copa do Brasil pelo mesmo Grêmio em pleno Parque Antártica, três meses antes, num jogo que também teve confusão, além de muita dramaticidade.

O primeiro alvi-verde expulso foi Rivaldo: após uma entrada dura de Rivarola, o craque palmeirense deu-lhe um pisão e levou o vermelho. Alguns minutos depois, o gremista Dinho e o palmeirense Válber trocaram socos e também foram expulsos. Parecia o fim da confusão, mas na verdade apenas estava começando…

A televisão logo tirou o foco do jogo e passou a filmar a parte do gramado atrás da goleira à direita do vídeo: os dois jogadores partiram um em direção ao outro, ninguém conseguia segurá-los. A primeira porrada foi de Dinho, que se jogou de voadora para cima de Válber, fazendo a torcida gremista vibrar como se fosse gol. Danrlei deu um soco em Válber pelas costas, o que lhe rendeu a suspensão para a partida de volta em São Paulo – além dos que haviam sido expulsos. Logo, todo mundo estava atrás da goleira, trocando sopapos. Após o jogo, Dinho e Válber foram prestar esclarecimentos numa delegacia de polícia.

Após 14 minutos de paralisação, o jogo recomeçou. E o Grêmio desandou a marcar gols. O primeiro foi de Arce, que soltou uma bomba da intermediária, após a defesa palmeirense rebater um escanteio. O segundo gol foi de Arílson: a bola chutada por ele desviou no volante argentino Mancuso e encobriu o goleiro palmeirense Sérgio. O primeiro tempo terminou 2 a 0 para o Grêmio. Já estava ótimo, tudo conforme os planos tricolores.

Mas o Grêmio não quis parar por aí. No início do segundo tempo, Jardel fez algo raro: um gol com o pé, já que em geral ele marcava gols apenas com a cabeça, pois era ruim com a bola no pé. O quarto gol gremista foi novamente de Jardel, e foi típico dele: de cabeça. E no quinto gol, Jardel deu duas cabeçadas: a primeira foi defendida por Sérgio, mas o artilheiro tricolor aproveitou o rebote do goleiro e cabeceou novamente a bola. 5 a 0!

Assisti a essa partida longe de Porto Alegre: estava passando as férias de inverno na casa da minha tia Zita, em São João do Polêsine. No intervalo, fui até um bar, onde meu tio João assistia o jogo. Na hora ele comentou: “quando a briga começou, comecei a torcer que o Dinho acabasse com aquele cara!”.

Com os 5 a 0, os gremistas já pensavam no adversário da semifinal da Libertadores. Eu já tinha certeza não só da classificação, mas também de que o título seria do Grêmio. A partida de volta contra o Palmeiras seria mera formalidade.

Uma semana depois, aprendi que “o jogo só termina depois que o juiz apita”.

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Dez anos depois (eu disse dez anos), o Dinho encontrou o Válber numa boate de Porto Alegre, e quase houve briga novamente. Aquela noite de 26 de julho de 1995, ao menos para os dois, jamais vai acabar.